===== INFORMATIZAÇÃO ===== Em nossas peregrinações de [[lexico:s:ser:start|ser]], [[lexico:n:nao:start|não]] ser e vir a ser, sentimos, a cada passo, uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre [[lexico:r:realidade:start|realidade]] e realização. Não se trata de [[lexico:f:fato:start|fato]] entre fatos, nem de [[lexico:c:coisa:start|coisa]] entre [[lexico:c:coisas:start|coisas]], seja dada, feita ou pronta, seja deste ou de [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Trata-se da estranheza constitutiva e do desafio [[lexico:p:proprio:start|próprio]] da [[lexico:e:existencia:start|existência]] histórica dos homens. A realidade é sub-reptícia. Sua vigência nunca é direta. Seu impacto é sempre oblíquo. A realidade se dá, como realização, na [[lexico:m:medida:start|medida]] e enquanto se retrai, como [[lexico:s:subtracao:start|subtração]]. Ora, dar-se enquanto se retrai, apresentar-se na [[lexico:a:ausencia:start|ausência]], manter-se vigente na [[lexico:f:falta:start|falta]], é o vigor próprio da realidade. Questionar os desafios da [[lexico:i:informatica:start|informática]] exige [[lexico:p:pensar:start|pensar]] o vigor da realidade realizando-se na **INFORMATIZAÇÃO**. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Século vespertino é um século de acumulação e esvaziamento, onde afazeres, relacionamentos, conquistas, recursos, instituições, grupos, indivíduos, tudo enfim é protegido é favorecido, mas às custas da [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]] de suas realizações. Impera por toda [[lexico:p:parte:start|parte]] um [[lexico:v:vazio:start|vazio]] saturado pelas dependências de [[lexico:t:ter:start|ter]] e não ter. Em compensação, mobilizam-se as forças da [[lexico:g:grandeza:start|grandeza]] humana e crescem o empenho de descer e as tentativas de passar. Num século vespertino o [[lexico:h:homem:start|homem]] é transitivo. Só [[lexico:f:fala:start|fala]] do passado dirigindo-se para o [[lexico:f:futuro:start|futuro]], em sintonia com o que está por vir. A provocação para pensar, que nos traz hoje a avalanche da informática, reside na [[lexico:a:ambivalencia:start|ambivalência]] vespertina, concentra-se na [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] transitiva da **INFORMATIZAÇÃO**. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Numa famosa [[lexico:p:poesia:start|poesia]] dos Ditirambos de Dioniso, de 1888, [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]] opõe às composições da informática as posições do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], nas seguintes [[lexico:p:palavras:start|palavras]]: Die Wüste wachst, “o deserto cresce”, weh dem, der Wüsten birgt, “ai de [[lexico:q:quem:start|quem]] guarda dentro de si desertos!” A [[lexico:e:essencia:start|essência]] do deserto está na desolação, o vigor de um deserto se avalia pela [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de assolar. Desolar é pior do que aniquilar, assolar é mais radical do que destruir. O aniquilamento acaba apenas com o que já existe, enquanto a desolação, conservando o existente, acaba com as possibilidades de [[lexico:c:criar:start|criar]], finda com as condições de libertar-se. A [[lexico:d:destruicao:start|destruição]] elimina [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]], desfaz o que foi, apaga os traços do que será, enquanto, mantendo os seres, o assolamento retira as virtualidades da [[lexico:c:criacao:start|criação]]. Com a informática cresce o deserto de assolamento e desolação. Mas não cresce apenas a desolação e o assolamento. Pois é a própria **INFORMATIZAÇÃO** que nos impõe pensar os desafios da informática e exige de nós assumir a radicalidade de suas transformações. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Cada vez mais circulamos em circuitos integrados de] larga escala. O cilício que hoje nos ameaça, é de silício: O desafio, que hoje nos atinge, provém de uma autocracia, informacional. A informática se torna um rolo compres-, sor. Em seu tropel a [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] rola de alto a baixo. Tudo se processa. Por toda parte opera um micro. Nenhuma [[lexico:f:forca:start|força]] da [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] parece poder resistir à atropelada da computação. As novas gerações de computadores prometem interface para tudo. Aumenta sem cessar o [[lexico:n:numero:start|número]] dos periféricos. Pois o grande periférico visado é o homem que espera o inesperado. Pois neste caso, [[lexico:n:nada:start|nada]] poderá fugir à **INFORMATIZAÇÃO**. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Mas o que é isso, informatizar? Para o Pensamento, informatizar não é o [[lexico:v:verbo:start|verbo]] que designa os fatos e feitos da informática. Não nos remete apenas para o funcionamento de ferramentas e aparelhos, não se refere a dispositivos de processamento ou a instalações de computação, com todas as mudanças que acarretam. A **INFORMATIZAÇÃO** não é o resultado da expansão mundial de uma parte, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] resultante fosse o [[lexico:t:todo:start|todo]] de uma parcialidade [[lexico:g:geral:start|geral]]. A **INFORMATIZAÇÃO** não se reduz a transferir determinada [[lexico:i:integracao:start|integração]] de [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e [[lexico:t:tecnica:start|técnica]], de [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] e [[lexico:a:acao:start|ação]] para todas as áreas em que se distribuem os homens histórica e socialmente organizados. Informatizar é o [[lexico:p:processo:start|processo]] metafísico de [[lexico:f:fim:start|fim]] da [[lexico:h:historia:start|História]] do poder ocidental. Na **INFORMATIZAÇÃO** e por ela, o poder de organização da História do Ocidente se torna planetário. A [[lexico:d:dicotomia:start|dicotomia]] de [[lexico:t:teoria:start|teoria]] e prática, de mundo paciente de objetos e mundo [[lexico:a:agente:start|agente]] dos cérebros vai sendo superada numa composição absorvente. Por ela se complementam, numa [[lexico:e:equivalencia:start|equivalência]] de [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] recíproca, o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e o [[lexico:o:objeto:start|objeto]], o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] e a [[lexico:m:materia:start|matéria]], a informação e o conhecimento, o mundo dos cérebros e o mundo das coisas. A [[lexico:l:luta:start|luta]] entre [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]] e [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] se torna, então, uma brincadeira de criança. O [[lexico:p:pessimismo:start|pessimismo]] e o [[lexico:o:otimismo:start|otimismo]] se transformam em [[lexico:c:categorias:start|categorias]] inofensivas para classificar irmãos de uma mesma [[lexico:f:familia:start|família]]. Sendo um verbo de essência, informatizar nos precipita na avalanche de um poder [[lexico:h:historico:start|histórico]] de realização. Por isso não indica primordialmente o processamento automático de conjunturas, mas um processo autocrático de estruturação, que tudo aplana, tudo controla, tudo contrai numa composição onipotente. A [[lexico:t:terra:start|Terra]] e o mundo, a história e a [[lexico:n:natureza:start|natureza]], o [[lexico:s:ser-e-o-nada:start|Ser e o Nada]] se reduzem a componentes de [[lexico:c:compatibilidade:start|compatibilidade]] [[lexico:u:universal:start|universal]]. A **INFORMATIZAÇÃO** é uma voracidade estrutural em que todas as coisas, todas as [[lexico:c:causas:start|causas]] e todos os valores são acolhidos, são defendidos, são promovidos, mas ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] perdem sua [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] e fenecem em criatividade. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Assim, informatizar é um supermodo de organização. Tanto desencadeia as forças produtivas, como contém os modos de produção no poder e não poder de uma [[lexico:o:ordem:start|ordem]] planetária de dominação. Os modos cibernéticos de organização recolhem em si as condições de toda a vigência [[lexico:s:social:start|social]] e de toda a [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] histórica. Ora, é no fluxo de uma [[lexico:s:socializacao:start|socialização]] total, é na avalanche de uma historização que as ordens simbólicas se compõem com as ordens pragmáticas nas superestruturas da [[lexico:a:automacao:start|automação]]. Se pensarmos, portanto, em toda a envergadura o desafio da **INFORMATIZAÇÃO**, não há cegueira que nos impeça [[lexico:v:ver:start|ver]] nela a realização da essência planetarizante da técnica [[lexico:m:moderna:start|moderna]]. No poder dos chips de macro- e micro-bytes, [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] celebra com [[lexico:m:marx:start|Marx]] o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] do [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], quer em sua versão idealista, quer em sua versão materialista. É a composição final de todas as posições e de todas as oposições em sua [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]] de locupletação. É a [[lexico:s:sintese:start|síntese]] escatológica de todas as teses e de todas as antíteses, em sua história de absolutização. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** A **INFORMATIZAÇÃO** não é, pois, [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:e:efeito:start|efeito]] da informática e sua expansão. A informática é que nasceu da **INFORMATIZAÇÃO**. O que está em [[lexico:j:jogo:start|jogo]] é um processo totalitário de realização. Neste nível abre-se todo um outro [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] para se pensar o vigor histórico da **INFORMATIZAÇÃO** em sua essência de poder, tanto para a [[lexico:l:libertacao:start|libertação]] como para a dominação. É o horizonte da realidade em [[lexico:m:movimento:start|movimento]] de realização. Aqui no palco da história, o [[lexico:r:real:start|real]] se faz [[lexico:e:espetaculo:start|espetáculo]] e demonstra o potencial de suas virtualidades de ser e parecer, de não ser e vir a ser. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Mas, neste caso, como informatizar chega a realizar? Decerto, realizar e informatizar não são a mesma [[lexico:p:palavra:start|palavra]]. Mas se não são a mesma palavra, em todas as comunidades linguísticas em [[lexico:u:uso:start|uso]], pertencem à mesma [[lexico:l:lingua:start|língua]] de [[lexico:o:origem:start|origem]] e dizem a mesma coisa, a [[lexico:s:saber:start|saber]]: a [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] do real numa [[lexico:f:forma:start|forma]] controlada de poder. Informatizar é um neologismo derivado de informática para designar toda uma ordem de real, realização e realidade, instaurada pelo processamento micro-eletrônico das informações. Com os recursos denotativos e conotativos da adjetivação, substantivação e verbalização, se colocou em ação nos dois eixos da modernidade, no paradigmático e no sintagmático, um [[lexico:p:principio:start|princípio]] de ordem e uma força de organização, a que nada do mesmo nível poderá resistir: a **INFORMATIZAÇÃO** total da sociedade. Para se avaliar a profundidade das transformações históricas que aqui se operam, deve-se levar em conta duas coisas essenciais na dinâmica de realização da informática. Em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], a forma da informática não remete apenas para o âmbito [[lexico:a:artesanal:start|artesanal]] das artes e ofícios. Remete também para o domínio de qualquer criação, seja na [[lexico:a:arte:start|arte]], na ciência, na indústria, na organização ou na convivência. Em segundo lugar, a forma da informática indica uma [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] plural composta de circuitos e programação. De [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com esta [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] se realiza uma composição de forma capaz de processar não apenas dados, mas conhecimentos, sistemas de [[lexico:r:relacoes:start|relações]]. Tudo é, então, reduzido a formas e somente a formas. Nesta [[lexico:r:reducao:start|redução]] universal a **INFORMATIZAÇÃO** não apenas realiza, como, sobretudo, desafia em todos os níveis a criatividade e o inesperado de qualquer sociedade que se informatiza. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** A cegueira radical não impede ver. Ao contrário, possibilita ver qualquer coisa, por já ter reduzido tudo a formas padronizadas de [[lexico:v:visao:start|visão]]. A cegueira radical só é cega para a essência das coisas. Por isso, a [[lexico:o:objecao:start|objeção]] não vê que nos domínios da informática já não é [[lexico:p:possivel:start|possível]] separar, nem mesmo distinguir, [[lexico:m:meio:start|meio]] e fim, instrumentação e realização, [[lexico:f:forma-e-substancia:start|forma e substância]]. O homem não vive primeiro e só depois existe. O homem não existe primeiro e só depois faz [[lexico:e:esforco:start|esforço]], observa, presta [[lexico:a:atencao:start|atenção]], memoriza, combina, inventa, decide, sente, relaciona-se. É fazendo esforço que ele existe. É observando, prestando atenção, memorizando, é combinando, inventando, é decidindo, é sentindo que ele existe. Cego, portanto, e cego de cegueira radical, é quem, vendo apenas formas processadas, não pode perceber a mesma realização superando as dicotomias pré-cibernéticas nas próprias diferenças cibernéticas. Trata-se do [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de cegueira que o efeito de distorção da **INFORMATIZAÇÃO** espalha por toda parte nas sociedades informatizadas. De tanto processamento automático já não se consegue ver os processos essenciais. Tudo perde [[lexico:s:substancia:start|substância]] e profundidade, tudo se dimensiona em formas com funções politônicas, sejam binárias, sejam terciárias. A funcionalidade se torna um [[lexico:d:destino:start|destino]] histórico de toda a [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]]. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** O Imperialismo Romano se construiu na força de uma palavra de ordem: divide et impera. Com a mesma tática, o conhecimento [[lexico:m:moderno:start|moderno]] foi transferindo a legitimidade do saber de aceitação da realidade, vigente na [[lexico:f:filosofia-grega:start|filosofia grega]] e na [[lexico:t:teologia:start|teologia]] medieval, para a ciência e técnica de transformação do real operante desde o início da idade moderna. O [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] comtiano, ao rejeitar a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] em [[lexico:n:nome:start|nome]] da ciência, nada mais fez do que retomar para a ciência os ideais de que se valera até então a filosofia para justificar-se. A [[lexico:r:retorica:start|retórica]] da ciência não correspondia, pois, a seu [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]] exercício. Os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] com que a ciência se interpretava a si mesma não condiziam com a prática científica. O que a ciência vinha fazendo, era de fato outra coisa do que proclamava a retórica de sua [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] de si mesma, toda louvada na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] filosófica da tradição pré-moderna. Assim, todo um arsenal de conceitos, como teoria, [[lexico:v:verdade:start|verdade]], conhecimento, [[lexico:a:abstracao:start|abstração]], [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], [[lexico:a:axioma:start|axioma]], empiria, [[lexico:m:metodo:start|método]] etc, era sistematicamente utilizado, [[lexico:c:como-se:start|como se]] o [[lexico:i:ideal:start|ideal]] de saber moderno, concretizado na ciência de transformação do real, fosse igual ou realizasse o mesmo ideal de saber, encarnado pela filosofia de aceitação da realidade. Nem se percebia que as categorias, os discursos e percursos praticados pelo processamento moderno sofrem uma distorção de uso, [[lexico:s:sentido:start|sentido]] e [[lexico:o:operacao:start|operação]], assumindo novas funções sintáticas e carregando-se de outros desempenhos semânticos, por efeito da operacionalidade científica. Assim, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], para a ciência, o uso, o sentido e a operação de um [[lexico:t:termo:start|termo]] como teoria, já não são os mesmos que lhe atribuíam [[lexico:p:platao:start|Platão]], [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] ou Rogério [[lexico:b:bacon:start|Bacon]]. Nos vértices dos novos conhecimentos, a prática científica não se conforma nem se coaduna, como pensavam A. [[lexico:c:comte:start|Comte]] e seguidores, com as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] e os [[lexico:p:principios:start|princípios]] do [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]] filosófico de um [[lexico:l:locke:start|Locke]] e seguidores. Com a **INFORMATIZAÇÃO**, o que aparece hoje cada vez mais claro, é que o [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]] e as práticas técnicas nada mais têm de [[lexico:i:imediato:start|imediato]] e espontaneamente real. Ao contrário, estão todos imbuídos de modelos, teorias e processamentos. Acham-se indissoluvelmente ligados a práticas operatórias e só admitem, como [[lexico:f:funcao:start|função]] de verdade, valores operativos. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Estas questões só poderão ser postas e desenvolvidas na e pela realização da informática, de seus efeitos e fatos que se recolhem e concentram na **INFORMATIZAÇÃO**. Pois somente a **INFORMATIZAÇÃO** tem condições de determinar o papel da experiência e o lugar da [[lexico:l:logica:start|lógica]] na produção do conhecimento técnico-científico. Torna-se indispensável analisar o funcionamento autônomo da ciência-técnica dentro dos vórtices da **INFORMATIZAÇÃO**. Ora, de vez que a ciencia-técnica opera sempre [[lexico:r:racional:start|racional]] e materialmente, compreende-se que o [[lexico:p:problema:start|problema]] central remete para a dinâmica [[lexico:c:cibernetica:start|cibernética]] da ciência-técnica. Em sua ação, a ciencia-técnica se mantém em [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] [[lexico:p:progresso:start|progresso]]. Pois é um processo que se auto-organiza, se realimenta e se enriquece a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. Ora, um tal movimento de auto-regulagem não se pode [[lexico:e:explicar:start|explicar]] nem pela [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] dos sujeitos implicados, nem pelo nicho social ou pelo contexto histórico dos [[lexico:c:cientistas:start|cientistas]] e técnicos. Somente um processamento estritamente cibernético, cujo núcleo seja de natureza híbrida, tanto lógica como microeletrônica, será capaz de dar conta de toda essa auto-organização. Dois mecanismos ou procedimentos coordenados, a conjectura e a [[lexico:d:deducao:start|dedução]], vêm implementar a dinâmica integrativa deste processamento da ciência-técnica. Instala-se, então, a seguinte funcionalidade: de um [[lexico:d:dado:start|dado]] conjunto de informações deduzem-se conjecturas operatórias que se integram automaticamente em sistemas de alternativas em transformação. A seguir, a automação se encarrega de eliminar as alternativas que não forem eficazes, o que remete à dedução de novas conjecturas, e o jogo recomeça. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Toda essa integração recorrente de ciência e técnica sugeriu a Karl [[lexico:p:popper:start|Popper]] a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] do [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] mundo. Também na **INFORMATIZAÇÃO** existem três [[lexico:m:mundos:start|mundos]]: um mundo material de coisas com que lidam os processamentos e em que vivem e agem os homens. É o primeiro mundo. A seguir, um mundo [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] de cérebros processadores de informação. É o segundo mundo. E, por fim, um terceiro mundo, distinto dos dois outros e feito de entidades culturais produzidas pelos homens, mas que, depois de produzidas, se tornaram autônomas e seguem seus próprios caminhos. No terceiro mundo encontramos os sistemas simbólicos e todas as obras construídas pela linguagem, sejam de natureza mítica, religiosa, artística, filosófica ou qualquer outra. É neste terceiro mundo que têm lugar os efeitos e artefatos cibernéticos e microeletrônicos da **INFORMATIZAÇÃO**. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** O mundo da **INFORMATIZAÇÃO** é uma nebulosa de sistemas em [[lexico:e:evolucao:start|evolução]]. Dotada de [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] [[lexico:i:independente:start|independente]] das pessoas que a produzem, só se liga aos homens de maneira extrínseca. Como sistema autônomo, possui seus mecanismos próprios de crescimento e impõe uma lógica politônica aos outros sistemas de que se vale para crescer e desenvolver-se. Estes outros sistemas são, de um lado, os cérebros humanos e não as pessoas humanas e, de outro, as coisas materiais. Cérebros humanos são máquinas de criar informações e coisas materiais são energias de ação. O princípio-chave para se [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o vir a ser e a evolução da informática é o princípio da auto-organização. Como os sistemas biológicos, os sistemas microeletrônicos se organizam de tal maneira que se vão complexificando por seus próprios dispositivos- Mas tal autonomia não exclui e sim inclui até a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de ir buscar energias e insumos nos outros sistemas. Graças a interações e inter-relacionamentos entre os sistemas, a **INFORMATIZAÇÃO** aumenta sua complexidade, cresce e evolui. Assim, também no nível do terceiro mundo operam muitas das propriedades e características dos sistemas biológicos. Por isso é que a cibernética e a microeletrônica só podem evoluir e desenvolver-se em conexão com os cérebros humanos, de um lado, e com os sistemas materiais, de outro. O mundo da **INFORMATIZAÇÃO** progride por trocas com os dois outros. E são estas trocas que explicam por que todo desempenho cibernético tem dois polos, um polo [[lexico:l:logico:start|lógico]], que remete para as interações com o mundo subjetivo dos cérebros, e um polo micro-eletrônico que remete para o mundo material das coisas e dos objetos técnicos. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Chegamos, pois, a uma [[lexico:l:leitura:start|leitura]] da ciência-técnica que nada tem a ver com táticas de [[lexico:p:persuasao:start|persuasão]], mas se constrói toda sobre o próprio funcionamento e desempenho da **INFORMATIZAÇÃO**. Esta leitura nos mostra não somente o que significa transformar o real em objeto e o objeto em dispositivo operacional, mas também como é que se dá e efetua um nível destas transformações. Toda a realidade se reduz a três mundos: o mundo subjetivo dos sistemas cerebrais, o mundo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] dos sistemas materiais e o mundo [[lexico:s:simbolico:start|simbólico]] dos sistemas cibernéticos e informatizados. Com esta leitura se pretende excluir qualquer visão antropológica e filosófica da ciência-técnica. Pois, uma [[lexico:a:analise:start|análise]] na [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] do homem, como [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] e sócio, já não falaria da ciência-técnica em si mesma e, sim, do que os homens, como pessoas e sócios, fazem a propósito da ciência-técnica, ou por meio dela, ou com vistas à ciência-técnica. Neste caso falar-se-ia das interações entre os sistemas científico-técnicos e os seres humanos ou das repercussões nos seres humanos dos sistemas científico-técnicos, mas não da ciência e da técnica em si mesmas. O que se diria, então, referir-se-ia não à própria ciência-técnica, mas as representações e imagens mais ou menos antropomórficas que os homens fazem da ciência-técnica. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Ora, do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista dos desafios e impactos da ciência e da [[lexico:t:tecnologia:start|tecnologia]] na dinâmica da [[lexico:c:cultura:start|cultura]], os problemas da [[lexico:i:interacao:start|interação]] e das trocas são os decisivos e, por isso mesmo, se torna indispensável e urgente sua colocação e seu [[lexico:q:questionamento:start|questionamento]]. E são justamente as questões do poder e da dominação com que mais nos acenam os impactos da ciência-técnica nas interações com os sistemas sociais e humanos. A caracterização de alguns destes impactos servirá, a título de conclusão, para deixar entrever a profundidade e o sentido das transformações em [[lexico:c:causa:start|causa]] na **INFORMATIZAÇÃO**. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Um impacto interessa à planetarização da [[lexico:p:politica:start|política]] e do poder organizacional. Hoje tudo é política. A cada passo deparamos com política. De sentinela do [[lexico:d:direito:start|direito]], o poder foi-se totalizando e se fez [[lexico:p:providencia:start|providência]] universal. Tudo é poder, o poder é tudo. Todo e qualquer problema é [[lexico:q:questao:start|questão]] política e de política. Todas as áreas de [[lexico:a:atividade:start|atividade]] estão sendo absorvidas pelo sorvedouro do poder. A política foi se alargando, alargando e terminou por alagar tudo. Por força da técnica e da ciência, todos os níveis da [[lexico:v:vida:start|vida]] e convivência se viram progressivamente absorvidos. Na avalanche da ciência e da técnica, vivemos hoje imperceptivelmente o desafio totalitário da política total. Mas, por outro lado, para tudo se tornar uma questão de poder, a política tem de descobrir flancos e ser questionada em suas pretensões totalitárias. Se tudo for um problema [[lexico:p:politico:start|político]], a política está em crise. Qual é a crise da política total? — Para alçar-se a uma [[lexico:e:extensao:start|extensão]] planetária, a política teve de esvaziar-se ao máximo. E neste vazio a ciência e a tecnologia vão substituindo a antiga arte política pelos poderes da **INFORMATIZAÇÃO**. Por isso, pensar os desafios e impactos da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] histórica [[lexico:a:atual:start|atual]] inclui renunciar, de certo [[lexico:m:modo:start|modo]], às imposições de poder e dominação da ciência e tecnologia escondidas e mascaradas pela extensão universal da política total. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** O segundo impacto se refere ao estiolamento da Linguagem por [[lexico:p:perda:start|perda]] progressiva de criatividade. Para a **INFORMATIZAÇÃO** da ciência e da técnica, a Linguagem se reduz a um [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de processar informações. As possibilidades significativas de uma língua se determinam e se medem, então, pelo jogo de seus usos. [[lexico:p:posse:start|posse]] suficiente esta [[lexico:d:determinacao:start|determinação]], nunca poderia haver no interior de uma [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] [[lexico:l:linguistica:start|linguística]] crises de incompreensão. Ora, a [[lexico:v:vitalidade:start|vitalidade]] de uma comunidade linguística está na [[lexico:r:razao:start|razão]] direta de sua capacidade de sofrer crises de incompreensão. Quando a envergadura do uso já não pode articular o jogo das experiências criadoras, determinada língua entra em crise em suas próprias possibilidades de [[lexico:s:significacao:start|significação]], buscando vencer o perigo e ultrapassar a ameaça de tornar-se insensata. É que uma língua só comunica se e na medida em que sua competência tiver sentido, isto é, enquanto puder articular as experiências inovadoras partilhadas pela comunidade. Responder à [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]], se um [[lexico:d:discurso:start|discurso]] é ou não significativo, equivale a responder à pergunta, qual [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] da experiência comunitária nele se consolida e se exprime? Só depois de satisfeita esta exigência é que se poderá tratar da correta aplicação e da integração dos [[lexico:p:principios-logicos:start|princípios lógicos]], sejam de ordem monotônica ou polifônica. Porque só um discurso significativo é criador, por isso a questão do sentido prevalece sobre a questão da [[lexico:e:eficiencia:start|eficiência]] e [[lexico:v:validade:start|validade]] de sistemas microeletrônicos e circuitos integrados. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** No mundo da **INFORMATIZAÇÃO** estamos vivendo cada vez mais intensamente as ameaças de insensatez dos discursos. O pêndulo da linguagem oscila de [[lexico:e:extremo:start|extremo]] a extremo sem chegar a uma [[lexico:p:posicao:start|posição]] de equilíbrio. Estas oscilações extremas se refletem em nosso discurso. Se formos bastante informatizados para nos entregar de [[lexico:c:corpo-e-alma:start|corpo e alma]] a inversões extremadas, já não nos sobrará outra [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]], senão a de renunciar à criatividade de toda língua [[lexico:n:natural:start|natural]] e de todo discurso originário. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Os informatizados de hoje já dão [[lexico:s:sinal:start|sinal]] de aprisionamento num mundo pobre de linguagem criativa. Um processo de graves consequências políticas. E que com a avalanche da **INFORMATIZAÇÃO** se vive progressivamente num mundo em que a linguagem natural vai perdendo sempre mais [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]], num mundo que, em sua [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] histórica, já não necessita das línguas naturais. Pois tudo que o homem conhece, sente, pensa, sabe ou faz, só se torna realmente significativo, só adquire sentido [[lexico:e:essencial:start|essencial]], se houver [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de conversa e [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]], na medida em que dele se puder [[lexico:f:falar:start|falar]] a partir de sua linguagem. Não há verdade no [[lexico:s:singular:start|singular]], fora de toda e qualquer envergadura de discurso. Toda verdade é plural. A verdade só se dá por existirmos na linguagem do plural, numa correnteza que nos arrasta para uma convivência de diálogo. Enquanto vivermos, pensarmos e agirmos na Terra, só faz sentido o que pudermos falar uns com os outros, o que puder receber um [[lexico:s:significado:start|significado]] na e da linguagem. O esvaziamento das línguas naturais é uma conjuntura que a **INFORMATIZAÇÃO** progressiva, instalada pela ciência e tecnologia em nosso mundo, traz consigo irremediavelmente. Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Um terceiro impacto provém da [[lexico:a:atitude:start|atitude]] negativa diante do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]]. O mundo informatizado da ciência e da técnica não gosta de trabalhar. O trabalho não tem [[lexico:v:valor:start|valor]] [[lexico:p:por-si:start|por si]]. Só vale como meio e instrumento. E se trata de meio precário, de um instrumento [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]]. O trabalho tem sido um [[lexico:m:mal:start|mal]] [[lexico:n:necessario:start|necessário]], que o progresso da ciência e da técnica vai remediar de todos os modos. A automação e robotização se tornam a panaceia do trabalho. Vão rompendo definitivamente com os laços imemoriais com que desde sempre o trabalho entrelaçara homem e terra, realidade e realização. Com a automação promete-se desmascarar o trabalho como uma necessidade histórica da existência. Uma promessa tão antiga como a história. Uma. vida livre do jugo de trabalhar não é um [[lexico:d:desejo:start|desejo]] tecnológico. E uma [[lexico:c:condicao:start|condição]] paradisíaca. Em todos os tempos, uma vida sem trabalho tem pertencido aos privilégios de poucos que sempre dominaram e tripudiaram sobre muitos. A **INFORMATIZAÇÃO** acena com a possibilidade de realizar este [[lexico:s:sonho:start|sonho]] que todas as gerações do passado só puderam sonhar e nunca chegaram a realizar. E não só parecem, são realmente uma [[lexico:e:esperanca:start|esperança]], mas uma esperança de [[lexico:p:pandora:start|Pandora]]. Reduzindo o homem exclusivamente à produção, a **INFORMATIZAÇÃO** unidimensionaliza a sociedade, como se indivíduos e grupos só existissem para produzir e consumir. É uma história de bruxa má: a satisfação do desejo transforma a promessa de bênção em maldição e faz da esperança [[lexico:d:desespero:start|desespero]]. A libertação do trabalho é agenciada pelas possibilidades automatizadas da robotização. É que o mundo da **INFORMATIZAÇÃO** total só sabe mesmo produzir. Não conhece outras [[lexico:a:atividades:start|atividades]] pelas quais valesse a [[lexico:p:pena:start|pena]] lutar e libertar-se das peias do consumo. Estandardizada por necessidade tecnológica, a sociedade informatizada não dispõe de instâncias que pudessem mobilizar outras potências da [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]]. Por uma questão de princípio, todas as funções, todos os dispositivos estão a serviço e comprometidos com uma [[lexico:p:produtividade:start|produtividade]] sem limites. Tudo é produção e consumo. O mundo gira num [[lexico:c:circulo-vicioso:start|círculo vicioso]]: a meta é produzir mais, para consumir mais, para lucrar mais, para produzir mais. Somente sonhadores, amantes, poetas, pensadores e religiosos, é que ainda pretendem realizar-se no [[lexico:e:elemento:start|elemento]] Linguagem e confiam num [[lexico:i:instante:start|instante]] de criação: rara hora et pauca mora! Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** Mas tudo isso, toda esta [[lexico:s:situacao:start|situação]] histórica de **INFORMATIZAÇÃO** da técnica e da ciência, será mesmo viável? Será mesmo possível [[lexico:v:viver:start|viver]] num mundo informatizado em que o trabalho, traço de [[lexico:u:uniao:start|união]] com a terra, fosse totalmente substituído pela automação? Será mesmo possível morar num mundo sem as vivências criadoras da linguagem, onde as línguas naturais fossem exorcizadas pelas monossemias de línguas e metalínguas cibernéticas? Será mesmo possível suportar um mundo sem a terra da criação, onde uma “mesa já não se firma com os pés no chão, mas se apoia na cabeça, e em seu cérebro de madeira engendra caprichos muito mais prodigiosos do que se começasse espontaneamente a dançar”? Aprendendo a pensar II: Os desafios da **INFORMATIZAÇÃO** {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}