===== INDUTIVISMO ===== De [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com o indutivista ingênuo, a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] começa com a [[lexico:o:observacao:start|observação]]. O [[lexico:o:observador:start|observador]] científico deve [[lexico:t:ter:start|ter]] órgãos sensitivos normais e inalterados e deve registrar fielmente o que puder [[lexico:v:ver:start|ver]], ouvir etc. em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao que está observando, e deve fazê-lo sem preconceitos. Afirmações a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] do [[lexico:e:estado:start|Estado]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], ou de alguma [[lexico:p:parte:start|parte]] dele, podem [[lexico:s:ser:start|ser]] justificadas ou estabelecidas como verdadeiras de maneira direta pelo [[lexico:u:uso:start|uso]] dos sentidos do observador não-preconceituoso. As afirmações a que se chega (vou chamá-las de proposições de observação) formam então a base a partir da qual as leis e teorias que constituem o [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]] devem ser derivadas. Eis aqui alguns exemplos de proposições de observações [[lexico:n:nao:start|não]] muito estimulantes: À meia-noite de 1º de janeiro de 1975, Marte apareceu em tal e tal [[lexico:p:posicao:start|posição]] no [[lexico:c:ceu:start|céu]]. Essa vara, parcialmente imersa na água, parece dobrada. O Sr. Smith bateu em sua esposa. O papel de tornassol ficou vermelho ao ser imerso no líquido. A [[lexico:v:verdade:start|verdade]] de tais afirmações deve ser estabelecida com cuidadosa observação. Qualquer observador pode estabelecer ou conferir sua verdade pelo uso direto de seus sentidos. Observadores podem ver [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmos. Afirmações desse [[lexico:t:tipo:start|tipo]] caem na [[lexico:c:classe:start|classe]] das chamadas afirmações singulares. As afirmações singulares, diferentemente de uma segunda classe de afirmações que vamos considerar em seguida, referem-se a uma [[lexico:o:ocorrencia:start|ocorrência]] específica ou a um estado de [[lexico:c:coisas:start|coisas]] num [[lexico:l:lugar:start|lugar]] específico, num [[lexico:t:tempo:start|tempo]] específico. A primeira [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] diz respeito a uma aparição específica de Marte num lugar específico no céu num tempo determinado, a segunda diz respeito a uma observação específica de uma vara específica, e assim por diante. É claro que todas as proposições de observação vão ser afirmações singulares. Elas resultam do uso que um observador faz d e seus sentidos num lugar e tempo específicos. Vejamos alguns exemplos [[lexico:s:simples:start|simples]] que podem ser parte do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] científico: Da [[lexico:a:astronomia:start|astronomia]]: Os planetas se movem em elipses em torno de seu [[lexico:s:sol:start|sol]]. Da [[lexico:f:fisica:start|física]]: Quando um raio de [[lexico:l:luz:start|luz]] passa de um [[lexico:m:meio:start|meio]] para [[lexico:o:outro:start|outro]], muda de direção de tal [[lexico:f:forma:start|forma]] que o seno do ângulo de incidência dividido pelo seno do ângulo de refração é uma [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] constante do par em média. Da [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]]: Animais em [[lexico:g:geral:start|geral]] têm uma [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] inerente de algum tipo de [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] agressiva. Da química: Os ácidos fazem o tornassol ficar vermelho. São informações gerais que afirmam coisas sobres as propriedades ou [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] de algum [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] do [[lexico:u:universo:start|universo]]. Diferentemente das afirmações singulares, elas se referem a todos os eventos de um tipo específico em todos os [[lexico:l:lugares:start|lugares]] e em todos os tempos. Todos os planetas, onde quer que estejam situados, sempre se movem em elipses em torno de seu Sol. Quando a refração ocorre, ela sempre ocorre de acordo com a [[lexico:l:lei:start|lei]] da refração. As leis e teorias que constituem o conhecimento científico fazem todas elas afirmações gerais desse tipo, e tais afirmações são denominadas afirmações [[lexico:u:universais:start|universais]]. A [[lexico:q:questao:start|questão]] seguinte pode [[lexico:a:agora:start|agora]] ser colocada. Se a ciência é baseada na [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], então por que meios é [[lexico:p:possivel:start|possível]] extrair das afirmações singulares, que resultam da observação, as afirmações universais, que constituem o conhecimento científico? Como podem as próprias afirmações gerais, irrestritas, que constituem nossas teorias, serem justificadas na base de [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] limitada, contendo um [[lexico:n:numero:start|número]] limitado de proposições de observação? A resposta indutivista é que, desde que certas condições sejam satisfeitas, é legítimo [[lexico:g:generalizar:start|generalizar]] a partir de uma lista finita de proposições de observação singulares para uma lei [[lexico:u:universal:start|universal]]. Por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], pode ser legítimo generalizar a partir de uma lista finita de proposições de observação referentes ao papel tornassol tornar-se vermelho quando imerso em ácido para a lei universal “ácidos tornam o papel tornassol vermelho”; ou generalizar a partir de uma lista de observações referentes a metais aquecidos para a lei “metais se expandem quando aquecidos”. As condições que devem ser satisfeitas para tais generalizações serem consideradas legítimas pelo indutivista podem ser assim enumeradas: 1. o número de proposições de observação que forma a base de uma [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]] deve ser grande; 2. as observações devem ser repetidas sob uma ampla variedade de condições; 3. nenhuma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] de observação deve conflitar com a lei universal derivada. A [[lexico:c:condicao:start|condição]] (1) é vista como necessária porque é claramente ilegítimo concluir que todos os metais se expandem quando aquecidos baseando-se em apenas uma observação de uma barra de metal em expansão, digamos, da mesma forma que não é legítimo concluir que todos os australianos são bêbados com base na observação de um australiano embriagado. Um grande número de observações independentes será [[lexico:n:necessario:start|necessário]] antes que uma generalização possa ser justificada. O indutivista insiste em que não devemos tirar conclusões apressadas. Uma maneira de aumentar o número de observações nos exemplos mencionados seria aquecer repetidamente uma única barra de metal, ou continuamente observar um [[lexico:h:homem:start|homem]] australiano embriagar-se noite após noite, e talvez manhã após manhã. Obviamente, uma lista de proposições de observação adquirida de tal maneira formaria uma base muito insatisfatória para as respectivas generalizações. É por isso que a condição (2) é necessária. “Todos os metais se expandem quando aquecidos” será uma generalização legítima apenas se as observações de expansão nas quais é baseada estenderem-se sobre uma ampla variedade de condições. Vários tipos de metais devem ser aquecidos, barras de aço longas, barras de aço curtas, barras de prata, barras de cobre etc. devem ser aquecidas à baixa e à alta pressão, altas e baixas temperaturas, e assim por diante. Se, em todas essas ocasiões, todas as amostras aquecidas de metal se expandirem, então, e somente então, é legítimo generalizar, a partir de uma lista resultante de proposições de observação para a lei geral. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, é evidente que, se uma amostra específica de metal não for observada expandir-se quando aquecida, a generalização universal não será justificada. A condição (3) é [[lexico:e:essencial:start|essencial]]. O tipo de [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] que estamos discutindo, que nos leva de uma lista finita de afirmações singulares para a [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] de uma afirmação universal, levando-nos do [[lexico:p:particular:start|particular]] para o [[lexico:t:todo:start|todo]], é denominado raciocínio indutivo, e o [[lexico:p:processo:start|processo]], denominado [[lexico:i:inducao:start|indução]]. Podemos resumir a posição indutivista ingênua dizendo que, de acordo com ela, a ciência é baseada no [[lexico:p:principio:start|princípio]] de indução, que podemos assim descrever. Se um grande número de As foi observado sob uma ampla variedade de condições, e se todos esses As observados possuíam sem [[lexico:e:excecao:start|exceção]] a [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] B, então todos os As têm a propriedade B. De acordo com o indutivista ingênuo, o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] do conhecimento científico é [[lexico:c:construido:start|construído]] pela indução a partir da base segura fornecida pela observação. Conforme cresce o número de dados estabelecidos pela observação e pelo [[lexico:e:experimento:start|experimento]], e conforme os fatos se tornam mais refinados e esotéricos devido a aperfeiçoamentos em nossas capacidades de observação e [[lexico:e:experimentacao:start|experimentação]], cada vez mais leis e teorias de maior generalidade e escopo são construídas por raciocínio indutivo cuidadoso. O crescimento da ciência é [[lexico:c:continuo:start|contínuo]], para a frente e para o alto, conforme o fundo de dados de observação aumenta. [CHALMERS, A. F.. O que é ciência afinal?. Tr. Raul Filker. São Paulo: Brasiliense, 1993] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}