===== INDISCERNÍVEIS ===== [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] formulou, explicou e defendeu o [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:i:identidade-dos-indiscerniveis|identidade dos indiscerníveis]] em numerosas ocasiões. O princípio em [[lexico:q:questao|questão]] é [[lexico:c:consequencia|consequência]] do [[lexico:p:principio-de-razao-suficiente|princípio de razão suficiente]]. “infiro deste princípio de [[lexico:r:razao-suficiente|razão suficiente]], entre outras consequências, que [[lexico:n:nao|não]] há na [[lexico:n:natureza|natureza]] dois seres reais absolutos que sejam indiscerníveis, mas se os houvesse, [[lexico:d:deus|Deus]] e a Natureza obrariam sem [[lexico:r:razao|razão]], tratando um de [[lexico:m:modo|modo]] diferente do [[lexico:o:outro|outro]]”. Seria [[lexico:a:absurdo|absurdo]] que houvesse dois seres indiscerníveis; dados tais seres, um não importaria mais que o outro e não haveria razão suficiente para escolher um melhor que o outro. As diferenças externas não são suficientes para distinguir ou individualizar um [[lexico:s:ser|ser]]: “é mister que, à [[lexico:p:parte|parte]] a [[lexico:d:diferenca|diferença]] do [[lexico:t:tempo|tempo]] e do [[lexico:l:lugar|lugar]], haja um princípio interno de [[lexico:d:distincao|distinção]], e embora haja várias [[lexico:c:coisas|coisas]] da mesma [[lexico:e:especie|espécie]], é, não obstante, certo que nunca há coisas perfeitamente semelhantes. Assim, embora o tempo e o lugar (quer dizer, a [[lexico:r:relacao|relação]] com o [[lexico:e:exterior|exterior]]) nos sirvam para distinguir as coisas que não distinguimos [[lexico:b:bem|Bem]] [[lexico:p:por-si|por si]] mesmas, as coisas deixam de ser distinguíveis em si; o [[lexico:n:necessario|necessário]], o caraterístico da [[lexico:i:identidade|identidade]] e da [[lexico:d:diversidade|diversidade]] não consiste, portanto, no tempo e no lugar, embora seja certo que a diversidade das coisas vá acompanhada da do tempo ou do lugar, porquanto acarretam consigo impressões diferentes sobre a [[lexico:c:coisa|coisa]].” Em contrapartida, [[lexico:k:kant|Kant]] criticou o princípio leibniziano da identidade dos indiscerníveis, manifestando que Leibniz confundiu as aparências com as coisas em si e, por consequência, com inteligíveis , ou objetos do [[lexico:e:entendimento|entendimento]] [[lexico:p:puro|puro]]. Se as aparências são coisas em si o princípio em questão, declarou Kant, é indiscernível. Mas as aparências são objetos da [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]], a [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] e a diferença numérica são-nos dadas já por intermédio do [[lexico:e:espaco|espaço]] como [[lexico:c:condicao|condição]] das aparências externas. Intuir duas coisas em duas diferentes posições espaciais, é portanto, suficiente para as considerar numericamente diferentes.”A diferença dos [[lexico:l:lugares|lugares]] faz a pluralidade e distinção dos objetos, enquanto aparências, não só [[lexico:p:possivel|possível]], mas também necessária, sem que sejam mister outras condições”. Entre os pensadores contemporâneos, o princípio dos indiscerníveis tem sido examinado sobretudo sob o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] [[lexico:l:logico|lógico]]. Mas vários filósofos e lógicos têm discutido o [[lexico:s:sentido|sentido]] ou os sentidos em que o princípio pode ser ou pode não ser aceite. Alguns autores têm indicado que carece de sentido afirmar ou negar que duas coisas possam [[lexico:t:ter|ter]] todas as suas propriedades em comum a menos que previamente se tenham distinguido. Outros assinalam que se se pode negar o princípio sem que a [[lexico:n:negacao|negação]] seja contraditória consigo mesma, o princípio carece de [[lexico:i:interesse|interesse]]. Outros assinalam que pode imaginar-se um [[lexico:u:universo|universo]] radicalmente simétrico, no qual tudo o que sucede em qualquer lugar pode ser exatamente duplicado num lugar a igual distância do lado oposto do centro da [[lexico:s:simetria|simetria]], em cujo caso haveria objetos numericamente distintos, embora indiscerníveis. Outros arguem que num universo [[lexico:s:semelhante|semelhante]] seria possível a indiscernibilidade de dois objetos numericamente distintos apenas porque se introduz um [[lexico:p:ponto|ponto]] de [[lexico:o:observacao|observação]] em relação ao qual as duas metades do universo estão situadas em dois lugares diferentes. [[lexico:i:individuacao|individuação]] - Chama-se “princípio da individuação” e também “principio da individualização” ao princípio que explica porque algo ‘é um [[lexico:i:individuo|indivíduo]], um [[lexico:e:ente|ente]] [[lexico:s:singular|singular]]. O primeiro autor que se ocupou amplamente deste princípio e dos problemas por ele suscitados, foi [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], em [[lexico:p:particular|particular]] ao tratar das noções de [[lexico:s:substancia|substância]], [[lexico:f:forma|forma]] e [[lexico:m:materia|matéria]]. A questão: “em que consiste o princípio da individuação?”, está ligada à seguinte: “que é que faz que algo seja um indivíduo?”. O princípio da individuação é constituído pela matéria (no sentido aristotélico deste [[lexico:t:termo|termo]]). Embora não seja a única resposta que Aristóteles deu à nossa [[lexico:p:pergunta|pergunta]], foi uma das maus influentes. As razões para a sua adopção são várias. Antes de todas, esta: como a forma é [[lexico:u:universal|universal]], não pode [[lexico:e:explicar|explicar]] porque um indivíduo é um indivíduo. A forma é a mesma numa [[lexico:c:classe|classe]] mesma de indivíduos. Sob o aspecto da forma, João, Pedro e António são o mesmo: todos eles são homens, quer dizer, animais racionais. Só fica a matéria como princípio individuante. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], a matéria de todos os corpos naturais é a [[lexico:t:terra|Terra]], o [[lexico:f:fogo|fogo]], a água, o [[lexico:a:ar|ar]]. A matéria dos astros e o [[lexico:e:eter|éter]]. A dos corpos orgânicos, os tecidos. A dos seres humanos os órgãos. Dir-se-á que então há um princípio de individuação que se aplica apenas a tipos de seres e que, por conseguinte, não é suficientemente individuante. Nas podemos refinar a nossa concepção da “matéria qualificada” em vários sentidos. Tomemos, por exemplo, os homens. O tamanho (ser alto, gordo, etc), a cor (ser branco, amarelo, etc), as disposições corporais ([[lexico:e:estar|estar]] de boa ou má saúde), as caraterísticas psicológicas (ser abúlico, inteligente) são todas as propriedades da matéria humana. Assim, podemos dizer que a concepção aristotélica da matéria, pelo menos ao nível do [[lexico:h:homem|homem]], é igual à concepção das circunstâncias humanas. O que permanece igual em todos os homens, de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a concepção clássica, é ser um [[lexico:a:animal|animal]] [[lexico:r:racional|racional]], [[lexico:o:o-que-e|o que é]] equivalente à [[lexico:p:propriedade|propriedade]] de participar numa [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] ativa, propriedade que se reconhece no [[lexico:f:fato|fato]] de aceitar os [[lexico:p:principios|princípios]] racionais. Mas o modo como tais princípios são reconhecidos é diferente em cada um dos homens. Com o que resolvemos a famosa dificuldade de que a matéria não pode ser o princípio de individuação pelo fato de não ser cognoscível. Mas isto é certo talvez para a “matéria pura”, mas não para a “matéria qualificada”. No entanto, com isso não resolvemos ainda a dificuldade que põe o fato de que com o [[lexico:f:fim|fim]] de qualificar a matéria necessitamos de algum modo da forma, pois a forma é a [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de uma matéria dada. Talvez seja melhor supor que a [[lexico:n:nocao|noção]] de indivíduo é susceptível de possuir diferentes graus. O [[lexico:p:proprio|próprio]] Aristóteles insinua uma solução semelhante, quando parece conceber a [[lexico:a:alma|alma]] do homem como uma forma individual. Em tal caso, o princípio da individuação seria mais material em espécies de seres que possuíssem menos [[lexico:i:individualidade|individualidade]] que outros, e mais [[lexico:f:formal|formal]] no caso inverso. Por exemplo, enquanto a distinção entre a pedra x e a pedra y seria quase imperceptível no que toca à individualidade, a diferença entre João e Pedro seria muito notável. Quanto mais elevada for uma [[lexico:r:realidade|realidade]] na [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] dos entes tanto mais terá a [[lexico:t:tendencia|tendência]] para acolher a forma e não a matéria como princípio de individuação. Assim a controvérsia entre a forma e a matéria como princípios de individuação poderá resolver-se de acordo com as realidades correspondentes. Nos níveis inferiores da realidade, o princípio será a matéria; nos níveis superiores, a forma. E ni nível intermédio (por exemplo, no nível [[lexico:h:humano|humano]]), o predomínio da forma ou da matéria dependerá do [[lexico:g:grau|grau]] e [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] na individuação de um homem [[lexico:d:dado|dado]]. Desde Aristóteles podem compreender-se melhor as diversas posições adoptadas a [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:r:respeito|respeito]] pelos escolásticos. Os seus trabalhos sobre o [[lexico:p:problema|problema]] foram precedidos pelos comentaristas aristotélicos e pelos filósofos árabes; assim, por exemplo, já [[lexico:a:avicena|Avicena]] afirmou que o princípio de individuação é a matéria qualificada pela [[lexico:q:quantidade|quantidade]]. Mas os escolásticos sistematizaram estas questões em certo [[lexico:n:numero|número]] de posições que correspondem aproximadamente às atitudes adoptadas a respeito dos [[lexico:u:universais|universais]]. Estas posições podem reduzir-se a três: 1) por um lado, os filósofos nominalistas extremos sustentavam que, existindo uma [[lexico:i:ideia|ideia]] separada da coisa, ou, se se quiser, não havendo mais realidade que “esta realidade determinada”, o princípio da individuação não é necessário, pois o problema põe-se melhor em relação aos universais, cuja razão se nos escapa, a menos que os consideremos como radicados na [[lexico:m:mente|mente]]. 2) Segundo a [[lexico:t:tese|tese]] tomista, o que constitui a individualidade das [[lexico:s:substancias|substâncias]] criadas sensíveis é a matéria; em contrapartida, as formas separadas ou subsistentes têm o princípio de individuação em si mesmas, quer dizer, podem ser, como as puras inteligências, simultaneamente individualidades e espécies. A matéria a que se refere s. Tomás como individuação não é a matéria pura e [[lexico:s:simples|simples]], mas a matéria que é considerada sob certas dimensões. 3) Duns Escoto assinalava que ainda esta quantidade da matéria não pode constituir uma individuação suficiente, pois a quantidade é um [[lexico:a:acidente|acidente]]. No caso do homem, a [[lexico:a:aptidao|aptidão]] da alma para se unir a determinado [[lexico:c:corpo|corpo]] procederia da sua forma, e não da matéria. Daí a [[lexico:p:proposicao|proposição]] de Duns Escoto: o princípio da individuação não é a pura [[lexico:e:essencia|essência]] nem tão pouco a matéria, nem acidente [[lexico:e:extrinseco|extrínseco]] à essência, nem um dos [[lexico:e:elementos|elementos]] constitutivos desta. É um princípio [[lexico:p:positivo|positivo]], inerente à essência, por outras [[lexico:p:palavras|palavras]], é uma [[lexico:m:modalidade|modalidade]] da substância. Este princípio é a haecceidade, que poderia traduzir-se por estidade, de este, heac. Entre ela e a substância não há distinção [[lexico:r:real|real]], mas unicamente formal. Mas esta distinção formal não é uma pura [[lexico:c:criacao|criação]] do [[lexico:e:espirito|espírito]], como suporia o [[lexico:n:nominalismo|nominalismo]], nem tão pouco algo radicado na Natureza da própria coisa e suas distinções totais. A haeceidade é a particularização ou individualização da ESSÊNCIA e não a própria forma da coisa, pois esta subsiste fora do [[lexico:m:multiplo|múltiplo]]. Em [[lexico:s:suarez|Suárez]] pode encontrar-se uma [[lexico:e:exposicao|exposição]] pormenorizada das opiniões sobre este problema e uma [[lexico:c:critica|crítica]] das mesmas. A exposição de Suárez e as [[lexico:i:ideias|ideias]] por ele mantidas influíram muito mais do que se costuma indicar sobre os filósofos modernos que têm tratado de modo [[lexico:e:explicito|explícito]] o problema do princípio da individuação. Entre estes destaca-se Leibniz. Para ele há três [[lexico:s:sentencas|sentenças]] principais sobre o princípio da individuação: 1) [[lexico:t:todo|todo]] o indivíduo se individualiza por toda a sua [[lexico:e:entidade|entidade]]. 2) O princípio da individuação consiste em negações. 3) o princípio da individuação é a [[lexico:e:existencia|existência]]. Pode afirmar-se que a [[lexico:o:opiniao|opinião]] de Leibniz está próxima da de todos os que (como Suárez) baseiam a individuação do indivíduo na “própria entidade”. Em contrapartida, outros autores inclinaram-se em favor do espaço e do tempo como princípios de individuação. Assim, [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]], o qual, por [[lexico:m:motivos|motivos]] metafísicos derivados da sua doutrina acerca da [[lexico:v:vontade|vontade]], estima que o espaço e o tempo singularizam o que é num princípio [[lexico:i:identico|idêntico]] e pelos quais a [[lexico:u:unidade|unidade]] [[lexico:e:essencial|essencial]] do todo se converte numa [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]]. A maior parte das tendências filosóficas contemporâneas, com a excepção das neo-escolásticas, abandonaram quase totalmente as doutrinas que escolhem a matéria ou a forma como princípios de individuação e tendeu-se para algumas das seguintes soluções: 1) O individual fundamenta-se, por assim dizer, “em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]”; a entidade individual existe como tal irredutivelmente. 2) A noção de indivíduo é uma construção mental à base dos [[lexico:d:dados-dos-sentidos|dados dos sentidos]]. 3) A ideia de coisa como j”coisa individual” é determinada pela [[lexico:l:localizacao|localização]] espacio-temporal.