===== INDEPENDÊNCIA DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA ===== Nosso segundo [[lexico:p:problema|problema]] é o [[lexico:r:referente|referente]] ao [[lexico:g:grau|grau]] de [[lexico:i:independencia-da-historia-da-filosofia|independência da história da filosofia]] acerca da [[lexico:h:historia|história]] das outras disciplinas intelectuais. Mas recusamo-nos a apresentá-la dogmaticamente, [[lexico:c:como-se|como se]] se tratasse de cindir o [[lexico:c:complexo|complexo]] das [[lexico:r:relacoes|relações]] da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], tomada como [[lexico:c:coisa|coisa]] em si com a [[lexico:r:religiao|religião]], a [[lexico:c:ciencia|ciência]] ou a [[lexico:p:politica|política]]. Queremos apresentá-la e resolvê-la historicamente, o que significa [[lexico:n:nao|não]] admitir solução [[lexico:s:simples|simples]] e [[lexico:u:uniforme|uniforme]]. A [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]], se quiser [[lexico:s:ser|ser]] fiel, não pode ser a história abstrata das [[lexico:i:ideias|ideias]] e dos sistemas, separados das intenções de seus autores e da atmosfera [[lexico:m:moral|moral]] e [[lexico:s:social|social]] de onde provieram. É [[lexico:i:impossivel|impossível]] negar que, em diferentes épocas, a filosofia gozou de [[lexico:p:posicao|posição]] muito diferente, naquilo que se poderia chamar de [[lexico:r:regime|regime]] intelectual do [[lexico:t:tempo|tempo]]. No decurso da história, encontramos filósofos que, sobretudo, são sábios; outros, reformadores sociais, como Augusto [[lexico:c:comte|Comte]], ou mestres de moral, como os filósofos estoicos, ou pregadores, como os [[lexico:c:cinicos|cínicos]]. Há, entre eles, mediadores solitários, profissionais do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] especulativo, como [[lexico:d:descartes|Descartes]] ou [[lexico:k:kant|Kant]], ao lado de homens que visam â [[lexico:i:influencia|influência]] prática imediata, como [[lexico:v:voltaire|Voltaire]]. A [[lexico:m:meditacao|meditação]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]] é, às vezes, simples [[lexico:r:reflexao|reflexão]] sobre si; outras vezes, confina com o [[lexico:e:extase|êxtase]]. Não é exclusivamente por influência do [[lexico:t:temperamento|temperamento]] pessoal que eles são diferentes, mas por [[lexico:c:causa|causa]] do que a [[lexico:s:sociedade|sociedade]], em cada [[lexico:e:epoca|época]], exige de um [[lexico:f:filosofo|filósofo]]. O nobre romano, que procura um diretor de [[lexico:c:consciencia|consciência]], os papas do século XIII, que veem no ensino filosófico da Universidade de Paris um [[lexico:m:meio|meio]] de [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] do cristianismo, os [[lexico:e:enciclopedistas|enciclopedistas]], que querem [[lexico:p:por|pôr]] [[lexico:f:fim|fim]] à opressão das forças do passado, pedem à filosofia [[lexico:c:coisas|coisas]] muito diferentes. Ela se faz, alternativamente, missionária, [[lexico:c:critica|crítica]], doutrinal. Dir-se-á que são acidentes. Pouco importa o que a sociedade pretende fazer da filosofia. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] importante é o que ela continua sendo em meio às diferentes intenções dos que a utilizam. Quaisquer que sejam as divergências, não há filosofia senão quando há pensamento [[lexico:r:racional|racional]], isto é, um pensamento capaz de autocrítica e de [[lexico:e:esforco|esforço]] para justificar-se mediante razões. Essa [[lexico:a:aspiracao|aspiração]] a um [[lexico:v:valor|valor]] racional não é, como se poderia [[lexico:p:pensar|pensar]], um traço [[lexico:c:caracteristico|característico]] e permanente para justificar essa história abstrata de doutrinas, essa "história da [[lexico:r:razao-pura|razão pura]]", como diz Kant, [[lexico:q:quem|quem]] dela esboçou a [[lexico:i:ideia|ideia]]? [Crítica da Razão Pura, "Metodologia transcendental", cap. IV.] Suficiente para distinguir a filosofia da [[lexico:c:crenca|crença]] religiosa, [[lexico:e:esse|esse]] traço diferencia-a, também, das ciências positivas, porque a [[lexico:h:historia-das-ciencias|história das ciências]] positivas é completamente inseparável da história das técnicas, de onde surgiram e que elas aperfeiçoam. Não há [[lexico:l:lei-cientifica|lei científica]] que não seja, sob [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, [[lexico:r:regra|regra]] de [[lexico:a:acao|ação]] sobre as coisas; a filosofia é pura [[lexico:e:especulacao|especulação]], mero esforço para [[lexico:c:compreender|compreender]], sem outra [[lexico:p:preocupacao|preocupação]]. Seria aceitável tal solução, se não tivesse por [[lexico:c:consequencia|consequência]] imediata eliminar da história da filosofia todas as doutrinas que levam em conta a crença, a [[lexico:i:intuicao|intuição]], intelectual ou não, o [[lexico:s:sentimento|sentimento]], isto é, as doutrinas principais; implica, pois, uma [[lexico:o:opiniao|opinião]] restrita sobre a filosofia, mais do que uma [[lexico:v:visao|visão]] exata de sua história. [[lexico:i:isolar|isolar]] uma doutrina do [[lexico:m:movimento|movimento]] de ideias que a determinou, do sentimento e da [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]] que a dirigem, considerá-la como um [[lexico:t:teorema|teorema]] que exige [[lexico:p:prova|prova]], é substituir por um pensamento morto um pensamento vivo e significativo. Não é [[lexico:p:possivel|possível]] compreender uma [[lexico:n:nocao|noção]] filosófica senão com [[lexico:r:relacao|relação]] ao conjunto de que ela faz [[lexico:p:parte|parte]]. Quantos matizes diferentes, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], há no [[lexico:s:sentido|sentido]] do famoso: "Conhece-te a ti mesmo!" Para [[lexico:s:socrates|Sócrates]], o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de si significa o exame dialético e a comprovação de suas próprias opiniões; para [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]], é um meio de alcançar o conhecimento de [[lexico:d:deus|Deus]] pela [[lexico:i:imagem|imagem]] da [[lexico:t:trindade|trindade]] que encontramos em nós; para Descartes, é como uma [[lexico:a:aprendizagem|aprendizagem]] da [[lexico:c:certeza|certeza]]; para os Upanixades da Índia, é o conhecimento da [[lexico:i:identidade|identidade]] do [[lexico:e:eu|eu]] e do [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:u:universal|universal]]. Como, pois, [[lexico:a:apreender|apreender]] essa noção e dar-lhe um sentido, independentemente dos fins para os quais a utilizamos? Uma das maiores dificuldades que se possa opor á ideia de uma história abstrata dos sistemas é o [[lexico:f:fato|fato]] que se poderia chamar deslocamento do nível das doutrinas. Para dar um exemplo significativo, pensemos nas ardorosas polêmicas, que continuaram por séculos, sobre os limites dos domínios da [[lexico:f:fe|fé]] e da [[lexico:r:razao|razão]]. Poder-se-ia encontrar [[lexico:b:bom|Bom]] [[lexico:n:numero|número]] de doutrinas consideradas, em certo [[lexico:m:momento|momento]], como fé revelada e, em outros, como doutrinas de razão. A secura e a [[lexico:p:pobreza|pobreza]] da filosofia propriamente dita, na alta idade Média, são compensadas pelos tesouros da [[lexico:v:vida|vida]] espiritual que, da filosofia pagã, se transferiram para os escritos teológicos de Santo [[lexico:a:ambrosio|Ambrósio]] e Santo Agostinho. A afirmação da [[lexico:i:imaterialidade|imaterialidade]] da [[lexico:a:alma|alma]], provada racionalmente por Descartes, é, para [[lexico:l:locke|Locke]], uma [[lexico:v:verdade|verdade]] de fé. [[lexico:n:nada|nada]] mais surpreendente do que a [[lexico:t:transposicao|transposição]] que [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] fez sofrer à noção religiosa de vida eterna, interpretando-a mediante noções inspiradas no [[lexico:c:cartesianismo|cartesianismo]]! De tais fatos, facilmente multiplicáveis, resulta que não se caracteriza suficientemente uma filosofia indicando as doutrinas que sustenta; importa, muito mais, [[lexico:v:ver|ver]] em que [[lexico:e:espirito|espírito]] ela as sustém e a que regime mental pertence. Isso significa que a filosofia não poderia [[lexico:v:viver|viver]] separada do resto da vida espiritual, que se manifesta, ademais, nas ciências, na religião, na [[lexico:a:arte|arte]], na vida moral ou social. O filósofo dá-se conta de todos os valores espirituais de seu tempo para aprová-los, criticá-los ou transformá-los. Não existe filosofia onde não existe esforço por ordenar hierarquicamente os valores. Será, pois, preocupação constante do historiador da filosofia permanecer em contato com a história política [[lexico:g:geral|geral]] e a história de todas as disciplinas do espírito, antes do que pretender isolar a filosofia como [[lexico:t:tecnica|técnica]] [[lexico:i:independente|independente]] das outras. Essas relações com outras disciplinas espirituais não são, de [[lexico:m:modo|modo]] nenhum, uniformes e invariáveis, mas apresentam-se de feitio diferente, segundo as épocas e os pensadores. A especulação filosófica pode ser relacionada, ás vezes, com a vida religiosa, outras vezes, com as ciências positivas, com a política e a moral, algumas vezes, com a arte. Há momentos em que predomina o valor de uma das disciplinas, enquanto outras quase se eclipsam. Assim, no transcurso da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] Clássica, assistimos, em geral, a um decréscimo gradual das ciências, acompanhado pelo papel crescente da religião: enquanto, na época de [[lexico:p:platao|Platão]], a [[lexico:e:evolucao|evolução]] das matemáticas envolve um [[lexico:i:interesse|interesse]] muito [[lexico:p:particular|particular]] para o historiador, no tempo de [[lexico:p:plotino|Plotino]], a invasão das religiões orientais de [[lexico:s:salvacao|salvação]] exige maior [[lexico:a:atencao|atenção]]. É o momento em que devemos apresentar o problema, ainda tão difícil de resolver, da influência [[lexico:r:real|real]] do cristianismo sobre a filosofia. A época [[lexico:a:atual|atual]] vê, em torno da filosofia, uma [[lexico:l:luta|luta]] de-influências bastante áspera para que essa meditação sobre o passado não se torne inteiramente inútil. [Bréhier]