===== INCLUSÃO ENTRE PARÊNTESIS ===== VIDE epoché A doutrina de Edmundo [[lexico:h:husserl:start|Husserl]], [[lexico:b:bem:start|Bem]] como a de [[lexico:b:bergson:start|Bergson]], marcaram, para lá do [[lexico:k:kantismo:start|kantismo]], um [[lexico:r:regresso:start|regresso]] a [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]. Este regresso apresenta-se, entretanto, muito mais vincado e [[lexico:c:categorico:start|categórico]] na [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] do que no [[lexico:b:bergsonismo:start|bergsonismo]] e também muito mais conforme com a [[lexico:e:essencia:start|essência]] do [[lexico:c:cartesianismo:start|cartesianismo]]. A fenomenologia de Husserl foi um [[lexico:m:metodo:start|método]] antes de se tornar explicitamente numa doutrina. Partindo da [[lexico:c:critica:start|crítica]] das matemáticas, Husserl pretendeu descobrir em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]] um [[lexico:p:processo:start|processo]] que tornasse [[lexico:p:possivel:start|possível]] a aquisição das [[lexico:v:verdades-fundamentais:start|verdades fundamentais]] e a sua [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] apodíctica : com este [[lexico:f:fim:start|fim]], a sua [[lexico:r:regra:start|regra]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] consistiu, desde o [[lexico:p:principio:start|princípio]], em ir às [[lexico:c:coisas:start|coisas]] em si mesmas ( Zu der Sachen selbst) para aprender delas o que elas nos ensinam sobre si próprias, eliminando, por conseguinte, radicalmente, quaisquer preconceitos e teorias de antemão estabelecidas sobre o [[lexico:r:real:start|real]]. Este [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida implica, portanto, dois [[lexico:p:principios:start|princípios]] : um, [[lexico:n:negativo:start|negativo]], que rejeita tudo o que [[lexico:n:nao:start|não]] é apodicticamente justificado, isto é, tudo aquilo que não é justificado de [[lexico:f:forma:start|forma]] que o contrário apareça como absolutamente inconcebível ; o [[lexico:o:outro:start|outro]], [[lexico:p:positivo:start|positivo]], que apela para a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] imediata das coisas, visto que esta intuição, e só ela, pode [[lexico:s:ser:start|ser]] a [[lexico:o:origem:start|origem]] primeira de qualquer [[lexico:c:certeza:start|certeza]]. A [[lexico:i:inclusao-entre-parentesis:start|inclusão entre parêntesis]] e a intuição são, pois, as duas regras fundamentais do [[lexico:m:metodo-fenomenologico:start|método fenomenológico]]. No entanto, o [[lexico:t:termo:start|termo]] « coisas», não deve induzir a [[lexico:e:erro:start|erro]]. Em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da « epoché » ( ou seja, a colocação entre parêntesis de tudo o que, segundo Husserl, não é apodicticamente justificado), as únicas coisas que nos são dadas verdadeiramente são os fenômenos. A [[lexico:e:existencia:start|existência]] ( ou a « [[lexico:c:coisa:start|coisa]] em si» ) não é de forma alguma uma [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] apodíctica — ainda que a coisa em si, ou a existência como [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]], seja um [[lexico:d:dado:start|dado]] como qualquer outro. O domínio da [[lexico:i:intuicao-fenomenologica:start|intuição fenomenológica]] será, portanto, constituído por todos os fenômenos apresentados à [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], isto é, por tudo o que se manifesta de qualquer forma e por qualquer [[lexico:m:motivo:start|motivo]] — com exclusão, por [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], de tudo [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] do domínio não apodíctico do [[lexico:e:em-si:start|em-si]] não manifesto e não manifestável ; e a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] da fenomenologia consistirá em descobrir e em descrever com o maior rigor possível o [[lexico:u:universo:start|universo]] dos fenômenos, esforçando-se, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], por [[lexico:a:apreender:start|apreender]] as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] que os ligam entre si, o que, evidentemente, equivale a ultrapassar a pura [[lexico:d:descricao:start|descrição]] e a interpretar os fenômenos ou a definir-lhes o [[lexico:s:sentido:start|sentido]]. «A [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] fenomenológica, escreve Husserl, faz [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] aquilo que está «implicado» no sentido do cogitatum sem ser intuitivamente dado, ao [[lexico:r:representar:start|representar]] as percepções potenciais que tornarão visível o não-visível» (Méditations cartésiennes, pág. 41). Sendo assim, os vários tipos de fenômenos darão origem a métodos especiais de [[lexico:i:investigacao:start|investigação]], de descrição e de [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]]. Podemos, portanto, dizer que a fenomenologia, na sua [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] de método, se afirma primeiramente como uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]]. Entretanto, isso não significa de nenhuma forma que rejeite a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] propriamente dita ou a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. E tanto assim que a [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] fenomenológica não tardou em tornar-se realmente metafísica. Por outro lado, o método já implicava, por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], uma doutrina. Pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de a « epoché» ser a colocação entre parêntesis de [[lexico:t:todo:start|todo]] o domínio da existência e de não permitir que permaneça diante dos olhos do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] senão o [[lexico:p:puro:start|puro]] fenômeno, a fenomenologia de Husserl toma um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] de [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]], deduzindo o universo às [[lexico:c:cogitationes:start|cogitationes]], ao conteúdo [[lexico:i:imanente:start|imanente]] da consciência, só admitindo como [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] certo a [[lexico:i:intuicao-das-essencias:start|intuição das essências]] ( Wesenschau ). E, de fato, é para um idealismo radical que Husserl se orienta cada vez mais. Se quisermos atingir verdadeiramente o apodíctico, como forma de certeza, a inclusão entre parêntesis, segundo Husserl, deve incidir, não somente sobre as realidades do «[[lexico:m:mundo:start|mundo]]», mas ainda sobre o [[lexico:e:eu:start|eu]] [[lexico:n:natural:start|natural]] e sobre os seus atos. O [[lexico:c:cogito:start|cogito]] cartesiano detém-se indevidamente num eu [[lexico:s:substancial:start|substancial]] que, como tal, [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é do que uma coisa do mundo e nunca o puro fenômeno que o método fenomenológico encara. Diz [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] (SZ, pág. 183), referindo a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] de [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]], que o erro de Descartes foi [[lexico:t:ter:start|ter]] concebido o sum do Cogito da mesma forma que o est da res, supondo sem [[lexico:r:razao:start|razão]] que a [[lexico:i:inteligibilidade:start|inteligibilidade]] era unívoca. Precisa, na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], de uma colocação entre parêntesis mais profunda, que incida sobre a [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] [[lexico:e:empirico:start|empírico]] e seus atos subjetivos, para os reduzir ao [[lexico:e:estado:start|Estado]] de puros fenômenos. Só desta forma poderemos alcançar o domínio da pura consciência [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], na qual apenas subsistem os puros fenômenos [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]], com o [[lexico:e:ego:start|ego]] transcendental que é, em [[lexico:s:suma:start|suma]], a primeira existência apodicticamente certa que a [[lexico:r:regressao:start|regressão]] fenomenológica encontra. É [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], efetivamente, supor que o Ego transcendental seja em si somente um fenômeno, quando não, cairíamos numa regressão ao [[lexico:i:infinito:start|infinito]], que transformaria todo o universo dos fenômenos em pura [[lexico:f:ficcao:start|ficção]], em [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] absoluta. Mas isto ainda não é tudo. A investigação fenomenológica não poderá dar-se como acabada com a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] do Ego transcendental : este Ego é, na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]], porque compreende ou implica uma [[lexico:s:serie:start|série]] de outros Ego transcendentais. Estes constituem, isto é, determinam, os fenômenos da consciência transcendental e natural em toda a sua variedade. Mas devem possuir também, para [[lexico:a:alem:start|além]] da sua [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]], um princípio de [[lexico:u:unidade:start|unidade]], que será o primeiro constituinte — um Ego [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], universalmente constituinte e nunca constituído, que é [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Deus vive a sua própria [[lexico:v:vida:start|vida]] constituindo, no e pelo seu Ego transcendental, todos os Ego transcendentais secundários, com todas as subjetividades que os compõem e que eles, por sua vez, constituem. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}