===== IMUTABILIDADE ===== A imutabilidade de um [[lexico:e:ente|ente]] exclui nele toda [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:m:mudanca|mudança]] [[lexico:r:real|real]], [[lexico:n:nao|não]] porém aquela que, em nosso [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:f:falar|falar]], lhe convém de maneira puramente extrínseca, em [[lexico:v:virtude|virtude]] de mudança ocorrida noutro. Assim o [[lexico:f:fato|fato]] de um [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:s:ser|ser]] conhecido não opera nele qualquer mudança. As [[lexico:c:coisas|coisas]] materiais ou ligadas à [[lexico:m:materia|matéria]] manifestam somente uma imutabilidade relativa, pois que [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:v:viver|viver]], crescer e atuar neste [[lexico:m:mundo|mundo]] visível estriba no [[lexico:m:movimento|movimento]], isto é, na mudança. Contudo, a [[lexico:a:acao|ação]] e a [[lexico:a:atividade|atividade]], quanto mais desligadas estiverem da matéria, tanto menos estão sujeitas à mudança. Já no [[lexico:h:homem|homem]] a mudança ou o movimento está em [[lexico:r:relacao|relação]] inversa da elevação de suas [[lexico:a:atividades|atividades]] espirituais, como o mostram as intuições intelectuais, a [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] amorosa de uma [[lexico:o:obra|obra]] de [[lexico:a:arte|arte]] e, principalmente, as vivências místicas. Quer isto dizer que atividade e imutabilidade não são [[lexico:c:conceitos|conceitos]] que mutuamente se excluam. — A imutabilidade [[lexico:f:fisica|física]] de [[lexico:d:deus|Deus]], baseada primordialmente em sua simplicidade e infinidade, não nega a ação, mas sim qualquer mudança em seu ser, qualquer [[lexico:a:aumento|aumento]] ou [[lexico:d:diminuicao|diminuição]] de sua [[lexico:p:perfeicao|perfeição]]; exclui, portanto, toda [[lexico:e:evolucao|evolução]] ou [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de evolução. Por isso o [[lexico:p:panteismo|panteísmo]] em todas as suas formas implica uma interna [[lexico:c:contradicao|contradição]]. A imutabilidade [[lexico:m:moral|moral]] mantém afastada de Deus toda modificação da [[lexico:d:decisao|decisão]] eterna de sua [[lexico:v:vontade|vontade]]. Deus não concebe novos planos, nem modifica os concebidos. Ele conhece, num [[lexico:a:ato|ato]] imutável, tudo o que de variável pode acontecer. Às diferentes intenções cjue no homem se sucedem (p. ex., [[lexico:p:pecado|pecado]] e [[lexico:a:arrependimento|arrependimento]]) corresponde em Deus um só ato [[lexico:e:eterno|eterno]] que, mercê de sua infinidade, equivale em sua simplicidade à [[lexico:a:atitude|atitude]] de ódio e [[lexico:a:amor|amor]] ([[lexico:c:coincidentia-oppositorum|coincidentia oppositorum]], [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]]). Na [[lexico:c:criacao|criação]] [[lexico:t:temporal|temporal]] elo mundo, a novidade e a mudança encontram-se só do lado deste ([[lexico:l:liberdade-de-deus|liberdade de Deus]]). — Rast. Conhecemos da nossa [[lexico:e:experiencia|experiência]] a mutabilidade. As coisas finitas sofrem mutações várias. A mutabilidade das coisas finitas permite-nos [[lexico:c:compreender|compreender]] a imutabilidade, e esta, naquelas, seria a manutenção, a perduração constante e intérmina de seu modo de ser. Tal imutabilidade só se dá relativamente. [[lexico:a:analise|Análise]]: Os racionalistas ante a mutabilidade, procuraram o que não mudava, o imutável. [[lexico:p:platao|Platão]] concebia acima deste mundo a [[lexico:e:esfera|esfera]] imutável das formas. A esfera da mutabilidade é a dos seres que se transformam, sensíveis e perecedouros. O ser é imutável e é o [[lexico:g:grau|grau]] de imutabilidade que dá [[lexico:v:valor|valor]] às coisas. O [[lexico:c:conceito|conceito]] de imutabilidade revela-se na [[lexico:o:oposicao|oposição]] ao de mutabilidade, que nos é [[lexico:d:dado|dado]] pela [[lexico:i:intuicao|intuição]]. Esta imutabilidade procurada atrás de tudo quanto existe é o [[lexico:p:ponto|ponto]] de apoio, que buscam os filósofos da incondicionalidade. O que muda é algo que é fixo, no fundo. É um grande [[lexico:d:desejo|desejo]] vital de conservação de nós mesmos, que leva a [[lexico:r:razao|razão]] (que em [[lexico:n:nada|nada]] nega os nossos instintos) a afirmar a [[lexico:p:permanencia|permanência]]. [[lexico:h:heraclito|Heráclito]] afirmou a mutabilidade de tudo. Mas a [[lexico:r:reacao|reação]] de [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] não se fez esperar e imprimiu a marca de toda a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] ocidental. Só com [[lexico:h:hegel|Hegel]], [[lexico:b:bergson|Bergson]], William [[lexico:j:james|James]], [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] retorna o [[lexico:t:tema|tema]] da mutabilidade para a filosofia. Mas todos afirmaram algo imutável: a [[lexico:l:lei|lei]] suprema da [[lexico:i:ideia|ideia]] em Hegel, a "vontade de [[lexico:p:potencia|potência]]" em Nietzsche, a "matéria" para os materialistas, etc. O que nos revela a [[lexico:r:realidade|realidade]], graças à [[lexico:c:ciencia|ciência]], é que há mutabilidade, mas essa não é igual para todos os fatos. Não podemos compreender a mutabilidade absoluta das coisas finitas, nem uma imutabilidade absoluta. Não podemos fugir às [[lexico:a:antinomias|antinomias]], ao antagonismo dos dois conceitos que se opõem, que permanecem antinômicos. Não concebemos o ser sem o sendo, este sem aquele. Mas compreendendo ambos como conceitos dialeticamente antinômicos, como elaborados pela [[lexico:d:dialetica|dialética]] do nosso [[lexico:e:espirito|espírito]], podemos também entender a sua [[lexico:c:complementaridade|complementaridade]]. Ante qualquer um dos extremos encontramo-nos ante um [[lexico:o:obstaculo|obstáculo]], que é a sua "[[lexico:n:negacao|negação]]". Podemos compreender o ser como imutável enquanto ser, como [[lexico:f:forma|forma]] que é, e que não se aniquila. Mas essa [[lexico:c:compreensao|compreensão]] não exclui a positividade da [[lexico:m:mutacao|mutação]] dos entes finitos. O ser é sempre ser, mesmo quando é ora isto, ora aquilo. Não podemos compreender que algo seja mutável sem concebê-lo como pertencente a algo imutável. É que não podemos romper com o [[lexico:c:concreto|concreto]], esgrimindo conceitos que são apenas abstratos. Ademais a mutabilidade do sendo não contradiz, ontologicamente, a imutabilidade do ser. O ser, como ser, é imutável, e o sendo, como mutável, é ser sempre através das suas mutações ([[lexico:g:geracao|geração]], [[lexico:c:corrupcao|corrupção]], [[lexico:a:alteracao|alteração]], aumento, diminuição, movimento, etc.) que não do ser e dão-se no ser.