===== IMPOSSIBILIDADE DA METAFÍSICA ===== VIDE [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] A [[lexico:a:alma:start|alma]], o [[lexico:u:universo:start|universo]] e [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], estes objetos, essas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] em si, à conquista das quais se encaminha a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], [[lexico:n:nao:start|não]] nos são dadas na [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]; não há nenhuma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] no [[lexico:e:espaco:start|espaço]] e no [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que seja isto que chamamos alma; porque quando nós inspecionamos nossa própria [[lexico:v:vida-psiquica:start|vida psíquica]] para [[lexico:v:ver:start|ver]] se descobrimos a alma, não descobrimos mais do que uma [[lexico:s:serie:start|série]] de vivências, e a cada uma dessas vivências acompanha a [[lexico:r:representacao:start|representação]] de [[lexico:e:estar:start|estar]] referida ao [[lexico:e:eu:start|eu]]; mas o eu mesmo, alma, não o descobrimos em [[lexico:p:parte:start|parte]] nenhuma. Não há, pois, uma [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] sensível da alma, que seria uma das condições fundamentais do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. Em segundo lugar, quando a metafísica [[lexico:f:fala:start|fala]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], do universo, [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de "universo", é também um conceito [[lexico:c:construido:start|construído]], mas que não está [[lexico:d:dado:start|dado]] na experiência sensível. Não há nenhuma percepção de uma coisa que se chame universo; há a percepção desta lâmpada, daquela cadeira, daquela árvore, do [[lexico:c:ceu:start|céu]], das estrelas, da [[lexico:t:terra:start|Terra]]; mas essa [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] chamada universo não é [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de uma percepção sensível. Em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, não é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] esforçar-nos muito para ver que tampouco de Deus temos percepção sensível. Então, como chega a [[lexico:r:razao:start|razão]] a formar estes objetos: alma, universo, Deus? A razão chega a estes objetos porque, como vimos nas lições anteriores, a razão é um poder sintetizador; é o poder de sintetizar impressões, de formar sínteses, unidades sintéticas entre algo e algo. Esse poder [[lexico:s:sintetico:start|sintético]] da razão se manifesta essencialmente, como vimos em lições anteriores, no [[lexico:j:juizo:start|juízo]]. O [[lexico:a:ato:start|ato]] de julgar é o ato pelo qual uma coisa A e outra B ou um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] A e uma [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] B, se unem na [[lexico:f:formula:start|fórmula]] do juízo que diz: A é B . Nossa razão é essencialmente uma [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] de [[lexico:s:sintese:start|síntese]], de [[lexico:u:uniao:start|união]], juízo é, pois, uma [[lexico:f:funcao:start|função]] sintética da razão Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]: essa faculdade de união, de síntese, é perfeitamente legítima quando recai sobre o material dado pela experiência (aquele segundo [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de [[lexico:e:elementos:start|elementos]] que eu contrapunha sob o [[lexico:n:nome:start|nome]] de material ao grupo dos elementos formais). Mas eis que a razão faz funcionar sua [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de síntese incansavelmente. Fá-la-á funcionar não somente sobre os dados sensíveis que a experiência lhe traz, mas continuamente e cada vez mais; e a faz funcionar ultrapassando os limites da experiência; e não se contenta com umas quantas sínteses que chamamos coisas, [[lexico:s:substancias:start|substâncias]], o calor, a eletricidade, o magnetismo, os corpos, mas também quer fazer uma síntese de sínteses; e quando fez uma síntese de sínteses, ainda quer fazer mais sínteses, até chegar a unidades que abranjam absolutamente a totalidade do sintetizável, do unível. Então essas uniões totais, essas sínteses totais, são os objetos tradicionais da metafísica. Aquilo que chamamos alma é a síntese que realiza a razão de todas nossas vivências na [[lexico:u:unidade-da-alma:start|unidade da alma]], da qual cada uma dessas vivências aparece como sendo uma modificação. Do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] no conceito do universo a razão fez a síntese total de tudo quanto pode contrapor-se ao [[lexico:e:eu-pensante:start|eu pensante]], [[lexico:t:todo:start|todo]] objeto a conhecer: fez a síntese de tudo quanto existe. E em Deus fez já a suprema síntese, a síntese em cujo seio está contida radical e germinalmente a última suprema razão não somente das coisas que existem, do mundo, do universo, mas também de minhas vivências e de minha própria alma. Pois bem; a essas unidades supremas, a essas unidades totalitárias que se chamam a alma, o universo e Deus, [[lexico:k:kant:start|Kant]] dá o nome de [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. É um [[lexico:u:uso:start|uso]] um pouco insólito da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "[[lexico:i:ideia:start|ideia]]". Se se relembram de todas as lições que demos de introdução à [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], não será difícil recordar diferentes usos, muito díspares, da palavra "ideia". Encontramo-la pela primeira vez em [[lexico:p:platao:start|Platão]] e logo a encontramos nos filósofos ingleses e [[lexico:a:agora:start|agora]] tornamos a encontrá-la em Kant; e em cada caso com [[lexico:s:sentido:start|sentido]] diferente. Em Platão a ideia significa a [[lexico:v:visao:start|visão]] da [[lexico:e:essencia:start|essência]] das coisas nesse mundo das [[lexico:e:essencias:start|essências]] que está totalmente separado do mundo das existências sensíveis; em Platão ideia significa as unidades do mundo [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]. Entre os ingleses ideia significou — em [[lexico:l:locke:start|Locke]] — qualquer [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]], Mas em [[lexico:q:quem:start|quem]] mais exatamente tem, entre os ingleses, um emprego terminológico é em [[lexico:h:hume:start|Hume]], no qual ideia se contrapõe a [[lexico:i:impressao:start|impressão]]; impressão é a [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] de algo como atualmente dado; ideia, em troca, é a vivência reproduzida, a vivência que reproduz uma impressão anterior. E agora verificamos que Kant dá à palavra "ideia" um terceiro sentido, que é o destas unidades absolutas, o destas unidades totalitárias que a razão, pulando por cima das condições do conhecimento, constrói [[lexico:a:alem:start|além]] dos limites de toda experiência [[lexico:p:possivel:start|possível]], ultrapassando esses limites. Seria longo [[lexico:e:explicar:start|explicar]] por que está de certo modo justificado o emprego aqui da palavra "ideia". Aqui Kant quis referir-se ao uso que faz Platão dessas ideias. E há uma similitude — embora longínqua _ entre o emprego que Kant faz da palavra "ideia" e aquele que ela faz Platão. Mas o importante aqui, para nós, é que estas sínteses totalitárias (a alma, o mundo ou o universo, Deus) que Kant atribui à razão na sua função incansável de unir, de unificar, estas sínteses totalitárias se fundamentam em algo, não são caprichosas; não é que a razão funcione doidamente no seu afã de sintetizar, e sim que entre as condições do conhecimento possível, e, portanto, da possível [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]], está a [[lexico:c:condicao:start|condição]] de que tudo quanto se nos aparece como objeto a conhecer, todo fenômeno, em [[lexico:s:suma:start|suma]], é, de uma parte, condicionado por [[lexico:o:outro:start|outro]] anterior, e, de outra parte, condicionante daquele que o segue. A [[lexico:c:categoria:start|categoria]] de [[lexico:c:causa-e-efeito:start|causa e efeito]], aplicada aos fenômenos, faz de cada fenômeno uma condição condicionante e ao mesmo tempo condicionada. Por conseguinte, o afã de conhecer, o ato de conhecer, vai sucessivamente passando de um [[lexico:e:efeito:start|efeito]] à sua [[lexico:c:causa:start|causa]]; e esta por sua vez aparece como condicionada por outra causa; e esta por sua vez por outra causa, e, por conseguinte, a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] [[lexico:r:racional:start|racional]] de ir de condição a condicionante e de condicionante a outro condicionante não se esgota jamais. Pois bem: esse afã da razão de passar de uma condição a outra e a outra e a outra, revela que a razão aspira no fundo de si mesma a chegar ao [[lexico:i:incondicionado:start|incondicionado]]. O incondicionado não se dá nunca em nossa experiência; mas a razão quer o incondicionado. Então, em lugar de ir de condição em condição, num [[lexico:p:processo:start|processo]] [[lexico:i:infinito:start|infinito]], numa série infinita, salta sobre a série, toma a totalidade da série, sintetiza-a numa ideia e estatui a alma, o universo e Deus, precisamente como as unidades incondicionadas dessas séries infinitas condicionadas, como o [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] na série relativa de cada uma das vivências e de cada um dos fenômenos físicos. É justamente este [[lexico:s:salto:start|salto]] do condicionado à totalidade incondicionada que a metafísica realiza em cada um dos seus trâmites para chegar aos términos a que ela quer chegar. E vamos ver agora pormenorizadamente, após estas observações gerais, a [[lexico:c:critica:start|crítica]] que desta pretensão da metafísica nos oferece Kant. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}