===== IMORTALIDADE INDIVIDUAL ===== Por mais tentador que seja derivar, por [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:q:questao|questão]] de [[lexico:c:consistencia|consistência]], o [[lexico:m:moderno|moderno]] [[lexico:c:conceito|conceito]] de [[lexico:v:vida|vida]] das perplexidades que a [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] se autoinfligiu, seria um [[lexico:e:erro|erro]] e uma grave injustiça para com a [[lexico:s:seriedade|seriedade]] dos problemas da era [[lexico:m:moderna|moderna]] se os considerarmos meramente do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista do [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] das [[lexico:i:ideias|ideias]]. A derrota do [[lexico:h:homo-faber|homo faber]] pode [[lexico:s:ser|ser]] explicável em termos da [[lexico:t:transformacao|transformação]] inicial da [[lexico:f:fisica|física]] em astrofísica, das ciências naturais em uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] “[[lexico:u:universal|universal]]” O que resta a [[lexico:e:explicar|explicar]] é por que essa derrota terminou com a vitória do [[lexico:a:animal|animal]] laborans; por que, com a ascensão da [[lexico:v:vita-activa|vita activa]], foi precisamente a [[lexico:a:atividade|atividade]] do [[lexico:t:trabalho|trabalho]] que veio a ser promovida à mais alta [[lexico:p:posicao|posição]] entre as capacidades do [[lexico:h:homem|homem]]; ou, em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], por que, na [[lexico:d:diversidade|diversidade]] da [[lexico:c:condicao-humana|condição humana]], com suas várias capacidades humanas, foi precisamente a vida que predominou sobre todas as outras considerações. O [[lexico:m:motivo|motivo]] pelo qual a vida se afirmou como ponto [[lexico:u:ultimo|último]] de [[lexico:r:referencia|referência]] na era moderna e permaneceu como [[lexico:b:bem-supremo|bem supremo]] para a [[lexico:s:sociedade-moderna|sociedade moderna]] foi que a moderna inversão de posições ocorreu dentro da textura de uma [[lexico:s:sociedade|sociedade]] cristã, cuja [[lexico:c:crenca|crença]] fundamental na [[lexico:s:sacralidade|sacralidade]] da vida sobrevivera à secularização e ao declínio [[lexico:g:geral|geral]] da [[lexico:f:fe|fé]] cristã, que nem mesmo chegaram a abalá-la. Em outras palavras, a moderna inversão seguiu, sem questionar, a mais significativa inversão com a qual o cristianismo irrompera no [[lexico:m:mundo|mundo]] antigo, uma inversão politicamente de alcance ainda maior e, pelo menos historicamente, mais duradoura que qualquer crença ou conteúdo dogmático específicos. Pois a “boa-nova” cristã da [[lexico:i:imortalidade|imortalidade]] da vida humana individual invertera a antiga [[lexico:r:relacao|relação]] entre o homem e o mundo, promovendo aquilo que era mais mortal, a vida humana, à posição de imortalidade ocupada até então pelo [[lexico:c:cosmo|cosmo]]. Historicamente, é mais que [[lexico:p:provavel|provável]] que a vitória da fé cristã no mundo antigo tenha se devido em grande [[lexico:p:parte|parte]] a essa inversão, que trouxe [[lexico:e:esperanca|esperança]] para aqueles que sabiam que o seu mundo estava condenado – na [[lexico:v:verdade|verdade]], uma esperança [[lexico:a:alem|além]] de toda esperança, visto que a nova [[lexico:m:mensagem|mensagem]] prometia uma imortalidade pela qual eles jamais haviam ousado esperar. Essa inversão só podia ser desastrosa para a estima e a [[lexico:d:dignidade|dignidade]] da [[lexico:p:politica|política]]. A atividade política, que até então retirara sua maior inspiração da [[lexico:a:aspiracao|aspiração]] à imortalidade mundana, baixou [[lexico:a:agora|agora]] ao nível de uma atividade sujeita à [[lexico:n:necessidade|necessidade]], destinada a remediar, de um lado, as consequências da pecaminosidade do homem, e, de [[lexico:o:outro|outro]], a atender às carências e interesses legítimos da vida terrena. Daí por diante, qualquer aspiração à imortalidade só podia ser equacionada com a vanglória; toda fama que o mundo pudesse outorgar ao homem era ilusória, uma vez que o mundo era ainda mais perecível que o homem, e uma [[lexico:l:luta|luta]] pela imortalidade mundana era sem [[lexico:s:sentido|sentido]], visto que a própria vida era imortal. Foi precisamente a vida individual que passou então a ocupar a posição antes ocupada pela “vida” do [[lexico:c:corpo|corpo]] [[lexico:p:politico|político]], e as palavras de Paulo – de que “a [[lexico:m:morte|morte]] é o prêmio do [[lexico:p:pecado|pecado]]” uma vez que a vida se destina a durar para sempre – ecoa as palavras de Cícero, de que a morte é a recompensa dos [[lexico:p:pecados|pecados]] cometidos por comunidades políticas que haviam sido construídas para durar por toda a [[lexico:e:eternidade|Eternidade]] [Cícero observa: “Civitatibus autem mors ipsa poena est (...) debet enim constituta sic esse civitas ut aeterna sit” (De re publica iii. 23). Quanto à convicção, na Antiguidade, de que um corpo político bem fundado devia ser imortal, conferir também Platão, Leis, 713, em que se recomenda aos fundadores de uma nova pólis que imitem o lado imortal do homem (hoson en hemin athanasias enest).]. É [[lexico:c:como-se|como se]] os antigos cristãos – pelo menos Paulo, que afinal era cidadão romano – houvessem conscientemente vazado o seu conceito de imortalidade no [[lexico:m:modelo|modelo]] romano, substituindo a vida política do corpo político pela vida individual. Tal como o corpo político possui uma imortalidade apenas potencial que pode ser confiscada em decorrência de transgressões políticas, também a vida individual teve confiscada certa vez, na [[lexico:q:queda|Queda]] de Adão, a sua imortalidade garantida, e agora, por [[lexico:m:meio|meio]] de Cristo, adquiria uma vida nova, potencialmente eterna, que, no entanto, podia novamente ser perdida em uma segunda morte, mediante o pecado individual. [ArendtCH:C44]