===== IMANÊNCIA ===== (in. Immanence; fr. Immanence; al. Immanenz; it. lmmanenzà). [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:termo|termo]] pode significar: 1) [[lexico:p:presenca|presença]] da [[lexico:f:finalidade|finalidade]] da [[lexico:a:acao|ação]] na ação ou do resultado de uma [[lexico:o:operacao|operação]] qualquer na operação; 2) [[lexico:l:limitacao|limitação]] do [[lexico:u:uso|uso]] de certos [[lexico:p:principios|princípios]] à [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:p:possivel|possível]] e [[lexico:r:recusa|recusa]] em admitir conhecimentos autênticos que superem os limites de [[lexico:s:semelhante|semelhante]] experiência; 3) resolução da [[lexico:r:realidade|realidade]] na [[lexico:c:consciencia|consciência]]. 1) Era com o primeiro [[lexico:s:significado|significado]] que os escolásticos falavam de ação [[lexico:i:imanente|imanente]], que "permanece no [[lexico:a:agente|agente]]", como entender, sentir, querer, porquanto distinta da [[lexico:a:acao-transitiva|ação transitiva]] (transiens), que passa para uma [[lexico:m:materia|matéria]] externa, como serrar, esquentar, etc. (cf. por todos [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], 5. Th., I, q. 14, a. 2; q. 18, a. 3; q. 23, a. 2; q. 27, a. I etc). Essa [[lexico:d:distincao|distinção]] só fazia expressar a distinção feita por [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] entre [[lexico:m:movimento|movimento]] ([[lexico:k:kinesis|kinesis]]) e [[lexico:a:atividade|atividade]] ([[lexico:e:energeia|energeia]]) no IX livro da [[lexico:m:metafisica|Metafísica]] (6, 1048 b 18), considerando como movimento a ação que tem [[lexico:f:fim|fim]] fora de si, e atividade as [[lexico:a:acoes|ações]] que têm fim em si mesmas. Aristóteles empregara a esse propósito o [[lexico:v:verbo|verbo]] enuparkein, que significa inerir como [[lexico:p:parte|parte]] [[lexico:e:essencial|essencial]] ou constitutiva. [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] empregou o [[lexico:a:adjetivo|adjetivo]] no mesmo [[lexico:s:sentido|sentido]], afirmando que "[[lexico:d:deus|Deus]] é [[lexico:c:causa|causa]] imanente, [[lexico:n:nao|não]] transitiva, de todas as [[lexico:c:coisas|coisas]]" querendo com isso dizer que "Deus é causa das coisas que estão nele", e que [[lexico:n:nada|nada]] há fora de Deus (Et., I, 18). A distinção aristotélica foi retomada pelos wolffianos (cf. Baumgarten, Met., § 211). É evidente que, neste sentido, imanência significa [[lexico:p:permanencia|permanência]] do fim, do resultado ou do [[lexico:e:efeito|efeito]] de uma ação no seu agente. 2) O segundo significado desse termo corresponde ao emprego que [[lexico:k:kant|Kant]] faz do adjetivo, chamando de imanentes "os princípios cuja "aplicação se tem em tudo e por tudo dentro dos limites da experiência possível", contrapondo-se, portanto, aos princípios "transcendentes". que ultrapassam esses limites (Crít. R. Pura, [[lexico:d:dialetica|Dialética]], Intr., I; Prol, § 40). Nesse sentido, imanência significa limitação do emprego de certos princípios ao domínio da experiência possível, e [[lexico:r:renuncia|renúncia]] a estendê-los [[lexico:a:alem|além]] dele. 3) O [[lexico:t:terceiro|terceiro]] significado de imanência foi estabelecido pelo [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] [[lexico:p:pos-kantiano|pós-kantiano]]. [[lexico:f:fichte|Fichte]] diz: "No [[lexico:s:sistema|sistema]] crítico, a [[lexico:c:coisa|coisa]] é aquilo que está posto no [[lexico:e:eu|eu]]; no dogmático, aquilo em que o Eu é posto; assim, o [[lexico:c:criticismo|criticismo]] é imanente porque põe tudo no Eu; o [[lexico:d:dogmatismo|dogmatismo]] é [[lexico:t:transcendente|transcendente]] porque vai além do Eu" (Wissenschaftslehre, 1794, I, § 3, D; trad. it., p. 77). Essa [[lexico:t:terminologia|terminologia]], que é seguida por [[lexico:s:schelling|Schelling]], atribui ao adjetivo "imanente" a [[lexico:c:caracteristica|característica]] do idealismo [[lexico:a:absoluto|absoluto]], para o qual nada existe fora do Eu. Contudo, é evidente a [[lexico:a:analogia|analogia]] desse significado com o de Spinoza, para [[lexico:q:quem|quem]] a ação de Deus é imanente porque não vai além de Deus. Nesse sentido, a imanência é a inclusão de toda a realidade no Eu (ou Absoluto ou Consciência) e a [[lexico:n:negacao|negação]] de qualquer realidade fora do Eu. No mesmo sentido, Gioberti falava de "[[lexico:p:pensamento|pensamento]] imanente" ([[lexico:p:protologia|protologia]], I, p. 173) e insistia na imanência o idealismo italiano entre as duas guerras. Comum a esses três significados do termo é o [[lexico:c:conceito|conceito]] de imanente como tudo que, fazendo parte da [[lexico:s:substancia|substância]] de uma coisa, não subsiste fora dessa coisa. (do latim "immanere") significa etimologicamente "permanecer em". Enquanto implica um "não-ultrapassar", designa o contrário da [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] e, do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que esta, é tomada em várias acepções. — Na [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]], imanência (1) denota dependência da consciência. Portanto, o [[lexico:o:objeto|objeto]] não é algo [[lexico:i:independente|independente]] que supere o [[lexico:a:ato|ato]] cognitivo e possua um [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:p:proprio|próprio]]; antes, é posto pelo ato cognitivo e permanece nele, de tal [[lexico:s:sorte|sorte]] que seu ser próprio consiste em ser pensado. Defendem esta [[lexico:o:opiniao|opinião]] a [[lexico:f:filosofia-da-imanencia|filosofia da imanência]] e o idealismo epistemológico (o ser coincide com a [[lexico:i:ideia|ideia]], isto é, aqui, com o ser pensado). Comumente o objeto não pode ser tirado da consciência empírica do [[lexico:h:homem|homem]] individual, mas unicamente da omni-compreensiva consciência-em-geral ou da consciência [[lexico:t:transcendental|transcendental]]. Por conseguinte, se o objeto parece ser transcendente perante a primeira, é absolutamente imanente com [[lexico:r:relacao|relação]] à segunda. Em tudo isto há um núcleo de [[lexico:v:verdade|verdade]]; o [[lexico:s:saber|saber]] absoluto [[lexico:d:divino|divino]] (unido à [[lexico:o:onipotencia|onipotência]] põe os objetos finitos, o que não suprime o ser [[lexico:r:real|real]] destes, senão que precisamente lhes confere seu [[lexico:f:fundamento|fundamento]]. Em relação à nossa experiência, imanência (2) significa [[lexico:e:estar|estar]] circunscrito ao âmbito da experiência possível. Por não poder ultrapassar este âmbito, o homem é excluído do [[lexico:s:supra-sensivel|supra-sensível]] ou, pelo menos, do não-experimentável. Assim o ensinam o [[lexico:f:fenomenalismo|fenomenalismo]] empirista de [[lexico:h:hume|Hume]] e a [[lexico:c:critica-da-razao-pura|crítica da razão pura]] de Kant. Como ambos mostram, tal doutrina volatiliza também o experimentável, convertendo-o em [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] produzido por nós. O [[lexico:m:modernismo|modernismo]] ensina igualmente que a [[lexico:r:religiao|religião]] se restringe exclusivamente à [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:v:vivencia|vivência]] subjetiva. Deste modo, a segunda acepção de imanência desemboca quase sempre na primeira. — Diferindo do modernismo, o [[lexico:m:metodo|método]] de imanência de [[lexico:b:blondel|Blondel]] é (embora controvertido) um [[lexico:c:caminho|caminho]] para demonstrar a transcendência da verdade religiosa pela impotência da [[lexico:r:razao|razão]] abandonada a suas próprias forças. No [[lexico:p:plano|plano]] metafísico, imanência (3) significa o ser-em (estar-em) do Absoluto no [[lexico:u:universo|universo]] ou no [[lexico:f:finito|finito]]. O [[lexico:p:panteismo|panteísmo]] opõe esta imanência de Deus à transcendência na [[lexico:m:medida|medida]] em que só admite uma [[lexico:a:alma|alma]] do universo ou um fundamento do universo, do qual os restantes seres são puros momentos evolutivos. Com isso negam-se a autêntica infinidade de Deus, já plenamente desdobrada em si mesma, e a [[lexico:l:liberdade|liberdade]] divina, negação com a qual é incompatível uma ação criadora propriamente dita. A verdadeira imanência do [[lexico:m:mundo|mundo]] em Deus e de Deus no mundo não suprime a transcendência divina, antes a inclui necessariamente; Deus está intimamente presente em sua [[lexico:c:criacao|criação]], precisamente em [[lexico:v:virtude|virtude]] de sua plena infinidade, de sorte que não seria [[lexico:i:infinito|infinito]] se lhe fosse possível estatuir as criaturas sobre si mesmas. De modo diferente servimo-nos do termo imanência (4), quando definimos a [[lexico:v:vida|vida]] como atividade (ação) imanente, em [[lexico:o:oposicao|oposição]] à [[lexico:t:transeunte|transeunte]]. Queremos com isso significar que dita atividade gira em torno de si mesma e permanece no próprio agente. — Lotz. Diz-se de uma atividade que é imanente a um agente quando permanece dentro do agente no sentido de que tem no agente o seu próprio fim. O ser imanente contrapõe-se, portanto, ao ser transcendente - ou transitivo -, e, em [[lexico:g:geral|geral]] a imanência opõe-se à transcendência. Muitos escolásticos, baseando-se na distinção aristotélica entre ações que passam do agente ao objeto (por exemplo: cortar, separar) e ações que revertem sobre o agente (por [[lexico:e:exemplo|exemplo]]: [[lexico:p:pensar|pensar]]) distinguiram entre uma ação imanente e uma transcendente. Este sentido de imanente e imanência foi adotado por Espinosa e outros autores, embora nem sempre dentro dos limites estabelecidos por Aristóteles e pelos escolásticos. Em [[lexico:t:todo|todo]] o caso o conceito de imanência desempenha em Espinosa um papel [[lexico:c:capital|capital]], porquanto Deus é definido no seu sistema do seguinte modo: “Deus é causa imanente, mas não transitiva, de todas as coisas”. Espinosa demonstra assim esta [[lexico:p:proposicao|proposição]]: “tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]], é em Deus e deve ser conseguido por Deus; portanto, Deus é causa das coisas que estão nele e isto é o primeiro. Logo, fora de Deus não pode haver nenhuma substância, quer dizer, nenhuma coisa que fora de Deus exista [[lexico:p:por-si|por si]] mesma, e isto é o segundo. Portanto, Deus é causa imanente, mas não transitiva, de todas as coisas”. O modo como Espinosa faz uso da [[lexico:n:nocao|noção]] de imanência indica que se trata não só de distinguir entre dois modos de ação, mas também de [[lexico:v:ver|ver]] num destes modos o verdadeiramente real, por ser ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] o plenamente [[lexico:r:racional|racional]]. Desde finais do século dezanove e principalmente nos começos do nosso século, têm-se desenvolvido várias correntes filosóficas que receberam o [[lexico:n:nome|nome]] de [[lexico:i:imanentismo|imanentismo]] ou filosofias da imanência. São filosofias que só procuram o mundo real na consciência. Tudo quanto existe deve ser imediatamente [[lexico:d:dado|dado]] ao [[lexico:s:sujeito|sujeito]] no [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], sem nenhum intermediário. (do lat. in e manere, permanecer, manar em). a) [[lexico:c:carater|Caráter]] do que é imanente, o que existe ou se dá sempre num dado objeto, o que dele não se separa, o que nele permanece, reside de modo permanente, im-mana e per-mana. b) Na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:e:escolastica|escolástica]], uma causa é imanente quando seus efeitos estão exclusivamente dentro do agente (como o ver, que não modifica o que vê nem o que é visto) em oposição a transiens, causa transitiva, que é a que transita do agente para o efeito. c) Para Kant o imanente é o que decorre da experiência, como oposto ao não [[lexico:e:experiencial|experiencial]] ou transcendente. d) Alguns empregam no sentido de presença em oposição à [[lexico:a:ausencia|ausência]]. e) Para o panteísmo Deus é imanente ao mundo, enquanto para o [[lexico:t:teismo|teísmo]] Deus é transcendente a ele. Só se poderia admitir sua imanência como presença e atividade, mas ter-se-ia de admitir sua transcendência como [[lexico:e:essencia|essência]]. Algumas concepções místicas afirmam a mútua imanência entre a divindade e o homem.