===== IMAGINAÇÃO CRIADORA ===== Primeiramente há uma [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] ilusória, portadora dos erros e das confusões, mas que tem o poder de ligar as representações. Se a imaginação liga, une o que está disperso, caótico, ela dá [[lexico:s:sentido|sentido]] a isso. E se ela cria [[lexico:s:significacoes|significações]], [[lexico:n:nao|não]] pode [[lexico:s:ser|ser]] unicamente negativa. Essa [[lexico:f:funcao|função]] unificadora e coesiva da imaginação não é o [[lexico:p:proprio|próprio]] poder da [[lexico:i:ideia|ideia]]? Não é a [[lexico:r:razao|razão]], criadora da [[lexico:o:ordem|ordem]] e das totalidades, que transgride o [[lexico:d:dado|dado]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] e os limites do [[lexico:e:entendimento|entendimento]], que tem essa [[lexico:p:potencia|potência]] de engendrar para o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] seu [[lexico:m:mundo|mundo]]? A imaginação não seria o [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:n:nome|nome]] da razão? Mas, então, é completamente outra a imaginação de que se trata. Não uma [[lexico:f:faculdade|faculdade]] subjetiva, mas uma [[lexico:c:criacao|criação]] objetiva. A imaginação é delírio totalizador? Sim, se a considerarmos sempre do lado do sujeito, [[lexico:c:como-se|como se]] a [[lexico:r:realidade|realidade]] se desenrolasse fora do [[lexico:e:eu|eu]], do lado do “[[lexico:n:nao-eu|não-eu]]”; como se a cissura acrítica entre o eu e o mundo tivesse ainda um sentido. Mas se a [[lexico:c:critica|Crítica]] de [[lexico:k:kant|Kant]] é levada ao seu [[lexico:l:limite|limite]], como não decifrar o sentido [[lexico:t:transcendental|transcendental]] da potência criadora da imaginação? Como não [[lexico:v:ver|ver]] que o sujeito que imagina e o mundo imaginado não são senão um, [[lexico:n:nada|nada]] é senão o [[lexico:m:movimento|movimento]] de criação e de [[lexico:r:reflexao|reflexão]] na imaginação? [[lexico:t:todo|todo]] existente é, então, indissoluvelmente imaginante e imaginado, e passa a ser necessária, na cúpula das hierarquias do ser, a [[lexico:f:fonte|fonte]] da imaginação que não é mais o sujeito da [[lexico:p:psicologia|psicologia]] clássica, mas o Um — e, finalmente, [[lexico:d:deus|Deus]]. Com [[lexico:s:schelling|Schelling]] o movimento de inversão completa-se: “Tão longe estejam as [[lexico:c:coisas|coisas]] saídas da auto-afirmação divina e sejam e vivam doravante verdadeiramente como coisas enquanto coisas, elas consideradas segundo a [[lexico:v:verdade|verdade]], isto é, segundo suas [[lexico:e:essencias|essências]], nada são senão irradiações, ou para utilizar uma [[lexico:i:imagem|imagem]] de [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], fulgurações da [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] infinita que, ainda que apenas possam ser nela e com ela, ainda sim são nelas próprias” , trad. J. F. Courtine e E. Martineau, Paris, 1980, p. 42. Essas “irradiações” da [[lexico:e:existencia|existência]] levam os tradutores a imaginar na passagem seguinte da [[lexico:m:monadologia|monadologia]] de Leibniz: “Assim, unicamente Deus é a [[lexico:u:unidade|unidade]] primitiva ou a [[lexico:s:substancia|substância]] [[lexico:s:simples|simples]] originária de que todas as [[lexico:m:monadas|mônadas]] criadas ou derivadas são produções e nascem, por assim dizer, por fulgurações contínuas da Divindade, [[lexico:m:momento|momento]] a momento, limitadas pela [[lexico:r:receptividade|receptividade]] da criatura, que é [[lexico:e:essencial|essencial]] que seja limitada” (§ 47). Nós podemos completar com: essas “ful-gurações” estão no [[lexico:c:coracao|coração]] do mundo das Inteligências, segundo Sohravardi, e elas tomam em Mollâ Sadrâ uma importância decisiva. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], se o [[lexico:a:ato|ato]] de ser, o [[lexico:e:existir|existir]] de cada [[lexico:e:essencia|essência]], é o existente [[lexico:c:concreto|concreto]], se o ato de ser comporta graus de [[lexico:i:intensidade|intensidade]] variável, se se visa à intensificação do ato do ser da substância (al-wojud al-jawhari), então todo existente é, ipso facto, uma [[lexico:f:fulguracao|fulguração]] mais ou menos intensa, uma [[lexico:m:monas|monas]] imaginalis. Cf. Henry Corbin, No Islã..., t. IV, p. 101.]. [JambetLO:75-76]