===== IDEIAS E COISAS ===== É também o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] do [[lexico:c:classicismo:start|classicismo]] que inspira [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] em [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:p:problema:start|problema]] muito grave que a [[lexico:f:filosofia-grega:start|filosofia grega]] propôs e agitou, oferecendo ao [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:h:humano:start|humano]] os tipos de solução exemplares: o problema das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] e as [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] se compõe de coisas, de objetos reais. Mas nós podemos até certo [[lexico:p:ponto:start|ponto]] conhecer estas coisas. Como? Pensando-as, pesquisando aquilo que são, determinando as [[lexico:e:essencias:start|essências]] delas, descobrindo as ideias delas. Depois de [[lexico:t:ter:start|ter]] descoberto a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]], de ter sua [[lexico:e:essencia:start|essência]], de [[lexico:s:saber:start|saber]] aquilo que essa coisa é, dizemos que conhecemos essa coisa. Mas levanta-se então ante o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] o gravíssimo problema seguinte: essas ideias das coisas onde estão? [[lexico:n:nao:start|Não]] se diga que essas ideias estão em mim, porque é [[lexico:b:bem:start|Bem]] evidente que, antes de adquirir [[lexico:e:eu:start|eu]] ou descobrir eu a ideia de tal ou qual coisa, essa coisa era já [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]]; existia já sua essência ou ideia, embora eu não a conhecesse. Das ideias eu me aposso no [[lexico:a:ato:start|ato]] de conhecer. Mas onde estão, se as considero independentemente do ato de conhecer? Só duas soluções são possíveis a este problema. Uma: dizer que as ideias estão nas próprias coisas. Outra: que as ideias estão fora das coisas. Neste segundo caso as ideias podem situar-se: ou em nenhuma [[lexico:p:parte:start|parte]] — e esta é a solução de [[lexico:p:platao:start|Platão]], que nega [[lexico:l:localizacao:start|localização]] às ideias no [[lexico:e:espaco:start|espaço]] e no [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e as faz eternas realidades transcendentes — ou em alguma [[lexico:m:mente:start|mente]] que, não podendo [[lexico:s:ser:start|ser]] humana, teria que ser necessariamente a-divina — e esta é a solução dada por [[lexico:s:santo:start|santo]] [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], que, como é bem sabido, sofreu profundamente a [[lexico:i:influencia:start|influência]] da [[lexico:f:filosofia-platonica:start|filosofia platônica]]. A solução que considera as ideias como residentes nas coisas mesmas, foi a que descobriu [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]; segundo ele, nós conhecemos partindo da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] das coisas, sobre a qual realizamos um [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] de [[lexico:a:abstracao:start|abstração]], prescindindo do estritamente individual em cada coisa, para chegar, por depurações e por destilações sucessivas, até o conjunto das notas ou [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] essenciais, até a essência, até aquilo que a coisa é, até a ideia. Entre as duas soluções, a aristotélica de uma parte e a platônico-agostiniana de outra, abre-se um [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] [[lexico:a:abismo:start|abismo]] que parece [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] preencher. A [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] das duas soluções chegou na [[lexico:e:epoca:start|época]] de Tomás de Aquino a apresentar caracteres de extraordinária agudeza e mesmo [[lexico:v:violencia:start|violência]]. Na época de Tomás de Aquino discutiam e combatiam os aristotélicos contra os platônico-agostinianos. E Tomás de Aquino viu-se desde logo na [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de tomar em conta o problema e escolher entre a solução aristotélica ou a solução platônico-agostiniana. Nesse transe, que fará o Santo Doutor? Em muitos casos, em quase todos os livros de [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]], lê-se que Tomás de Aquino escolhe a solução aristotélica. Mas eu digo que isto é [[lexico:f:falso:start|falso]]. Tomás de Aquino não escolhe a solução aristotélica. Então, a platônico-agostiniana? Tampouco escolhe a platônico-agostiniana. Neste ponto Tomás de Aquino se conduz também como [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] pensador [[lexico:c:classico:start|clássico]] e rejeita o [[lexico:d:dilema:start|dilema]]: ou Aristóteles ou Platão-Santo Agostinho. Converte simplesmente a conjunção ou em e; e escolhe Aristóteles e Santo Agostinho. Toma as duas soluções; não uma das duas; porque não crê que em definitivo duas soluções sejam incompatíveis uma com a outra, mas que ambas têm seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]], sua [[lexico:r:realidade:start|realidade]], e sua [[lexico:v:verdade:start|verdade]]. As ideias estão nas coisas como diz Aristóteles. Mas também estão na mente de [[lexico:d:deus:start|Deus]], como diz Santo Agostinho. Não está a ideia da [[lexico:e:estatua:start|estátua]] na mente do escultor e também na própria estátua? Ou por [[lexico:a:acaso:start|acaso]] a estátua é informe? Não; a estátua não é informe. Toda realidade, toda coisa [[lexico:r:real:start|real]] é uma [[lexico:m:materia:start|matéria]] que possui certa [[lexico:f:forma:start|forma]]. Aristóteles colocou a ideia da coisa, como forma da coisa. Mas essa ideia que é forma da coisa, não está também, prévia e exemplarmente, na mente de Deus? Aristóteles, para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] em que [[lexico:s:sentido:start|sentido]] a realidade da coisa contém a ideia da coisa, descobriu esta [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da matéria e da forma como constituintes de toda realidade [[lexico:s:substancial:start|substancial]]. Mas esta teoria aristotélica não é nem de longe incompatível com a de Santo Agostinho, que coloca as ideias na mente de Deus. Não se pode ser em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] exclusivista e parcial. Não é [[lexico:p:possivel:start|possível]] deixar de aceitar a [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]]. Nosso pensamento deve ser amplo, [[lexico:c:complexo:start|complexo]], matizado, [[lexico:e:ecletico:start|eclético]]; em [[lexico:s:suma:start|suma]], clássico; porque assim é a própria realidade eclética, matizada, complexa e vasta. O ser não é [[lexico:u:univoco:start|unívoco]], nem [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]]; o ser é [[lexico:a:analogo:start|análogo]], quer dizer, diverso e, todavia, [[lexico:u:uno:start|uno]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}