===== IDEIA MEDIEVAL DE SER ===== ’[[lexico:e:ens|ens]] per nihil notius explicatur’, dizia Duns Scot. O [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:n:nao|não]] pode ser explicado por nenhuma [[lexico:n:nocao|noção]]. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], não pode ser definido, pois como já vimos na [[lexico:l:logica|Lógica]], definir é reduzir a [[lexico:o:outro|outro]]. Define-se algo ao opor outro, situando-o em algo, que lhe é mais [[lexico:g:geral|geral]], e que o inclui. Ora, o ser é incluso apenas em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e não em outro, pois do contrário este outro seria ser, e estaria apenas contendo a si mesmo. Definir é marcar limites (definire). O que conceituarmos de ser não pode opor-se a outro, nem ser incluído em [[lexico:c:conceitos|conceitos]] mais gerais, mais [[lexico:s:simples|simples]], mais primitivos, pois o ser não começa a ser de outro que não é, pois se [[lexico:e:esse|esse]] outro pudesse extrair de si o ser, o seu poder já apontaria o ser. Só podemos opor ao ser o [[lexico:c:conceito|conceito]] de [[lexico:n:nada|nada]]. Mas nada não se ob põe, como algo que é, pois excluímos dele o ser, portanto o nada não pode opor-se. Nada seria apenas uma [[lexico:r:recusa|recusa]] de ser, seria um afirmar, que já exigiria o ser, porque, [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo, o nada não pode afirmar-se por lhe faltar ser, e impõe-se, previamente, um ser para afirmá-lo. Portanto o ser sempre antecederia o nada. Ora, o ser é, portanto, a nossa própria [[lexico:e:experiencia|experiência]], é já um garantir dessa anterioridade eterna do ser que sempre é, a sua eternalidade, que já podemos estabelecer, embora muito tenhamos de percorrer para precisar, futuramente, a sua conceituação. Vemos, desde logo, que a [[lexico:i:ideia|ideia]] de ser não inclui em si uma [[lexico:c:contradicao|contradição]], pois a sua primordialidade se impõe, quer partamos da nossa experiência, quer partamos da [[lexico:e:especulacao|especulação]]. A ideia de ser, que vamos precisando cada vez mais, não implica nada que se lhe oponha para afirmar-se, e pode ser afirmada extra intellectum et in intellectu, pois o ser o compreendemos fora do nosso [[lexico:p:pensamento|pensamento]] e no nosso pensamento. E portanto ainda, a ideia de ser, que é comum a [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:e:ente|ente]], a tudo quanto há, a tudo quanto existe, a tudo quanto sucede, a tudo quanto é [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], porque tudo é ser, o ser que há em toda [[lexico:c:coisa|coisa]], e que é toda coisa, não inclui contradição, enquanto tal, porque a ideia de ser não inclui contradição, o que não é ser. Portanto, como [[lexico:b:bem|Bem]] dizia Duns Scot: "Ergo ens, hoc est, cui non repugnat esse" é ser o que, ao qual, não repugna ser. A indefinibilidade do ser decorre, portanto, claramente das [[lexico:p:palavras|palavras]] que alinhamos acima, pela [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de situá-lo em algo mais geral (num [[lexico:g:genero|gênero]] [[lexico:p:proximo|próximo]]). E se a ideia de ser não pode por sua vez ser incluída em outra, inclui todas as modalidades de ser. O ser é, portanto, o primam notam, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] primeiramente notado, e é per se notam, e é por si notado, pois não o é pelo nada o conceito mais claro, mais límpido e mais simples que nos surge, desde a primeira à última experiência. Não é explicado por outro, mas por si mesmo se explica; [[lexico:f:fonte|fonte]] de toda a experiência é também seu [[lexico:f:fundamento|fundamento]]. É ele explicável por si mesmo, pois, se tentássemos explicá-lo, teríamos sempre de recorrer ao ser para afirmá-lo, pois é ele o que explica tudo, pois não há conceito que não o inclua, seja de que [[lexico:e:especie|espécie]] for, inclusive quando tentamos conceituar o nada, em cuja conceituação não podemos deixar de partir do ser para tentar a recusa, que é ainda uma [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] e que o implica. Ser é, deste [[lexico:m:modo|modo]], um conceito [[lexico:s:simpliciter|simpliciter]] simplex, um conceito simplesmente simples, ([[lexico:a:absoluto|absoluto]]), pois não precisa de outro, senão de si mesmo e apenas de si mesmo, para afirmar-se (ab - solutum). O ente é o que tem ser (ens est habens esse), o que é, id [[lexico:q:quod|quod]] est. Ser é o [[lexico:q:quid|quid]] est do ente. Tenho um [[lexico:o:objeto|objeto]] ante os meus olhos: é um livro. Nele, desde logo, capto o que me permite classificá-lo, situá-lo no conceito livro, a este livro. Este livro é um ser, um ente, mas dele posso dizer id, [[lexico:q:quo|quo]] res est id, aquilo que esta coisa é, a sua [[lexico:e:essencia|essência]], ser livro, e esta coisa que existe, id, quod res exsistit, isto que se dá extra [[lexico:c:causas|causas]] et extra nihilum, isto que se dá fora de suas causas e fora do nada, a sua [[lexico:e:existencia|existência]], o [[lexico:f:fato|fato]] de ser. E desde logo percebo que tanto a essência deste livro como a sua existência não se excluem do ser, mas estão incluídos no ser, são modos de ser. E este livro, pego-o nas minhas [[lexico:m:maos|mãos]]; leio-o. Ele pode ser [[lexico:a:aberto|aberto]], lido, manuseado, pesado, [[lexico:s:sentido|sentido]]. Ele pode padecer todas essas determinações que lhe dou. Ele pode sofrer, tem a [[lexico:p:potencia|potência]] de ser lido, manuseado, etc., de sofrer a [[lexico:a:acao|ação]] que sobre ele exerço. E desde logo posso desdobrar, nele, o que nele é [[lexico:a:ato|ato]] e o que nele é potência, e tanto ato como potência não são algo que excluo do ser, mas algo que incluo no ser, modos de ser. Para todos eles, o que é comum é o ser, predicatus communissimum et simplicissimum et essentiale respectu omnium, [[lexico:p:predicado|predicado]] comuníssimo, de todos, e simplicíssimo, e [[lexico:e:essencial|essencial]] de tudo. E quer [[lexico:e:eu|eu]] diga que uma coisa é, que uma coisa existe, que uma coisa sofre uma [[lexico:d:determinacao|determinação]], ou realiza uma determinação, que é [[lexico:r:real|real]], que é alguma coisa, que é um existente, seja como for que eu diga, estou sempre predicando ser. E não encerro o ser apenas neste objeto, mas naquele também. Não só a um ser individual, mas também a uma particularidade, que um [[lexico:g:grupo|grupo]] de objetos participa e, também, à universalidade de todos os entes. Portanto, vê-se que o [[lexico:c:conceito-de-ser|conceito de ser]] não é [[lexico:i:imanente|imanente]] apenas a este ente, mas vai [[lexico:a:alem|além]] dele, transcende-o. O conceito de ser é um conceito [[lexico:t:transcendental|transcendental]], pois posso predicá-lo a uma [[lexico:s:singularidade|singularidade]], a uma particularidade a uma universalidade, e a tudo, porque a tudo transcende, a todos os entes. E é em sua [[lexico:t:transcendentalidade|transcendentalidade]], em sua super-transcendentalidade, e em sua [[lexico:i:imanencia|imanência]], que o ser é objeto da [[lexico:o:ontologia|ontologia]], objeto [[lexico:f:formal|formal]] na sua transcendentalidade, e material na sua imanência. É um conceito de existência necessária, pois como [[lexico:c:compreender|compreender]] um ser sem o ser? É um conceito de uma existência eterna, pois como conceber o [[lexico:e:existir|existir]] do ser sem a sua primordialidade [[lexico:e:existencial|existencial]] e eterna? É um conceito de uma [[lexico:i:imutabilidade|imutabilidade]] eterna, pois como conceber o ser, deixando de ser, tornando-se nada, se ele não contém nada mas ser? Portanto, a heterogeneidade de todos os modos de ser é um apontar constante, um [[lexico:s:simbolo|símbolo]] uni-significativo do ser transcendentalmente imutável. O ser é o tò ti èn einai de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], o ser do que é. É o ser, portanto, o que é firme, estável, fixo.