===== IDEALISMO TRANSCENDENTAL ===== **O [[lexico:i:idealismo-transcendental|idealismo transcendental]] e suas contradições.** — Ao chegarmos nesta etapa, eis-nos, ao que tudo indica, remetidos de novo a um "[[lexico:i:idealismo|Idealismo]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]]" (Meditações Cartesianas); este idealismo transcendental já residia na própria [[lexico:t:tarefa|tarefa]] da [[lexico:r:reducao|redução]]. Mas, como o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] transcendental [[lexico:n:nao|não]] difere do sujeito [[lexico:c:concreto|concreto]], o idealismo transcendental parece, [[lexico:a:alem|além]] disso, [[lexico:d:dever|dever]] [[lexico:s:ser|ser]] solipsista. [[lexico:e:eu|eu]] estou só no [[lexico:m:mundo|mundo]], este mesmo mundo é apenas a [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:u:unidade|unidade]] de todos os objetos, a [[lexico:c:coisa|coisa]] é somente a unidade de minha [[lexico:p:percepcao|percepção]] de coisa, isto é, dos Abschattungen, [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:s:sentido|sentido]] é fundado "na" minha [[lexico:c:consciencia|consciência]] na [[lexico:m:medida|medida]] em que ela é [[lexico:i:intencao|intenção]] ou doadora de sentido (Sinngebung). Na [[lexico:v:verdade|verdade]], [[lexico:h:husserl|Husserl]] não se deteve jamais nesse idealismo, monádico, primeiro porque a [[lexico:e:experiencia|experiência]] da [[lexico:o:objetividade|objetividade]] remete ao [[lexico:a:acordo|acordo]] de uma [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] de sujeitos e, depois porque [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] me é [[lexico:d:dado|dado]] numa experiência absolutamente original. Os outros [[lexico:e:ego|ego]] "não são [[lexico:s:simples|simples]] representações e objetos representados em mim, unidades sintéticas de um [[lexico:p:processo|processo]] de [[lexico:v:verificacao|verificação]] que se desenrola em "mim", mas justamente "outros" (Meditações Cartesianas, 75). A [[lexico:a:alteridade|alteridade]] do outro se distingue da [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] simples da coisa pelo [[lexico:f:fato|fato]] de que o outro é um eu para si mesmo e sua unidade não está na minha percepção mas nele mesmo; em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], o outro é um [[lexico:e:eu-puro|eu puro]] que não tem [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de [[lexico:n:nada|nada]] para [[lexico:e:existir|existir]], ele é uma [[lexico:e:existencia|existência]] absoluta e um [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida radical para ele mesmo, como eu o sou para mim. O [[lexico:p:problema|problema]] então é: como existe um sujeito constituinte (outrem) para um sujeito constituinte (eu)? É evidente que o outro é experimentado por mim como "estranho" (Meditações Cartesianas), pois ele é [[lexico:f:fonte|fonte]] de sentido e de [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]]. Mas, aquém dessa experiência de estranheza (que dará a [[lexico:s:sartre|Sartre]] seus temas de [[lexico:s:separacao|separação]] das consciências), no nível transcendental a explicitação do outro não pode ser feita nos mesmos termos que a explicitação da coisa e, no entanto, na medida em que o outro é para mim ele é também por mim, a crer nos resultados essenciais da redução transcendental. Esta exigência própria à explicitação do outro não é verdadeiramente satisfeita nas Meditações Cartesianas [[lexico:t:texto|texto]] de que acabamos de adotar a própria colocação do [[lexico:p:problema-do-outro|problema do outro]]. Com [[lexico:e:efeito|efeito]] depois de [[lexico:t:ter|ter]] descrito "a [[lexico:a:apercepcao|apercepção]] assimilante" pela qual o [[lexico:c:corpo|corpo]] de outrem me é dado como corpo [[lexico:p:proprio|próprio]] de um outro eu, sugerindo o [[lexico:p:psiquico|psíquico]] como seu próprio [[lexico:i:indice|índice]], e depois de ter feito de sua "acessibilidade indireta" o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] para nós da existência do outro, Husserl declara que, do ponto de vista fenomenológico, o outro é uma modificação de "meu" eu (Meditações Cartesianas, 97), o que frustra nossa [[lexico:e:expectativa|expectativa]]. Nas Ideen II, terceira [[lexico:p:parte|parte]], Husserl, em compensação, sublinhava a [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre "mundo [[lexico:n:natural|natural]]" e "mundo do [[lexico:e:espirito|espírito]]" (Geist) e a [[lexico:p:prioridade|prioridade]] [[lexico:o:ontologica|ontológica]] absoluta deste sobre aquele: a unidade da coisa é a do desdobramento desses Abschattungen para uma consciência, a unidade da [[lexico:p:pessoa|pessoa]] é "unidade de [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] absoluta". No caso do sujeito, e por [[lexico:c:consequencia|consequência]] do outro enquanto sujeito (alter ego), não se pode reduzir a existência [[lexico:r:real|real]] a um correlato [[lexico:i:intencional|intencional]], uma vez que aquilo que eu intencionalizo, quando viso outrem, é precisamente uma existência absoluta: aqui ser real e ser intencional se confundem. Poder-se-ia, portanto, [[lexico:p:por|pôr]] à parte uma "[[lexico:c:comunidade|comunidade]] de pessoas" que [[lexico:r:ricoeur|Ricoeur]] ("Analyses et problèmes" dans Ideen II, revue de métaphysique et de morale, 1951) aproxima da consciência coletiva segundo [[lexico:d:durkheim|Durkheim]] ou do espírito [[lexico:o:objeto|objeto]] no sentido hegeliano e que é constituído ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] sobre a [[lexico:a:apreensao|apreensão]] mútua das subjetividades e a comunidade de seu [[lexico:m:meio|meio]] circundante. Esta comunidade das pessoas é constitutiva de seu próprio mundo (o mundo medieval, o [[lexico:g:grego|grego]] etc-); mas é ela constitutiva originariamente? Afirmá-lo seria dizer que o sujeito transcendental e solipsista não é radical, pois mergulharia suas raízes num mundo do espírito, numa [[lexico:c:cultura|cultura]] que é ela mesma constituinte. Em outro termos, a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] transcendental enquanto filosofia do sujeito radical não consegue integrar uma [[lexico:s:sociologia|sociologia]] cultural, continua a haver entre ela uma "[[lexico:t:tensao|tensão]]" (Ricoeur), uma [[lexico:c:contradicao|contradição]] mesmo, e que não se aplica ao [[lexico:p:pensamento|pensamento]] fenomenológico, mas que lhe é inerente: pois é a própria filosofia transcendental que conduz ao problema da [[lexico:i:intersubjetividade|intersubjetividade]] ou da comunidade das pessoas, como o demonstra a marcha paralela, das Meditações Cartesianas e das Ideen. É claro que o ponto de vista de uma sociologia cultural que era já o das Ideen II e que domina amplamente os últimos escritos ([[lexico:k:krisis|krisis]], Carta a [[lexico:l:levy-bruhl|Lévy-Bruhl]]) introduz, como o próprio Husserl o confessa, algo como um [[lexico:r:relativismo|relativismo]] [[lexico:h:historico|histórico]], que é exatamente aquilo que a filosofia transcendental tinha de combater, e entretanto, essa filosofia não pode deixar de desembocar na [[lexico:p:problematica|problemática]] do outro, nem deixar de elaborar [[lexico:e:esse|esse]] problema de maneira a rever as aquisições do [[lexico:s:subjetivismo|subjetivismo]] radical; com a [[lexico:a:analise|análise]] intencional do outro a radicalidade não está mais do lado do eu, mas do lado da intersubjetividade e esta não é apenas uma intersubjetividade para mim, [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] pela qual o eu retomaria seu sentido de [[lexico:u:unico|único]] fundamento, ela é uma intersubjetividade absoluta, ou se quisermos, primeira. Mas podemos dizer que o próprio Husserl jamais chegou a isto: a radicalidade do [[lexico:c:cogito|cogito]] transcendental, tal como é fundada nas Ideen I, mantém-se como o núcleo de toda a sua filosofia. Em Krisis II, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], encontramos esta significativa [[lexico:c:critica|crítica]] dirigida ao [[lexico:t:transcendentalismo|transcendentalismo]] cartesiano: [[lexico:d:descartes|Descartes]] "não descobriu que todas as distinções do [[lexico:t:tipo|tipo]] Eu e Tu, dentro e fora, só se constituem no ego [[lexico:a:absoluto|absoluto]]". Assim o tu, como o isto, é apenas uma [[lexico:s:sintese|síntese]] de vivências egológicas. E, no entanto, é no sentido dessa "sociologia cultural" que o pensamento de Husserl evolui no final de sua [[lexico:v:vida|vida]]. É o que testemunha abundantemente a Krisís, de que foram publicadas as duas primeiras partes em 1936, em Belgrado. Husserl se preocupa em ligar estreitamente esta [[lexico:r:reflexao|reflexão]] sobre a [[lexico:h:historia|história]], isto é, sobre a intersubjetividade, ao seu problema, o da radicalidade transcendental: "esse [[lexico:e:escrito|escrito]] procura fundar a necessidade inelutável de uma [[lexico:c:conversao|conversão]] da filosofia à [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] transcendental por meio de uma [[lexico:t:tomada-de-consciencia|tomada de consciência]] teleológico-histórica aplicada às [[lexico:o:origens|origens]] da [[lexico:s:situacao|situação]] crítica em que estamos no que se refere às ciências e à filosofia. Este escrito constitui, por conseguinte, uma introdução [[lexico:i:independente|independente]] à fenomenologia transcendental". Em outros termos, o [[lexico:c:caminho|caminho]] percorrido até o presente e que, partindo dos problemas lógico-matemáticos ou do problema perceptivo nos levava ao eu absoluto, não é um caminho privilegiado: a via da história é igualmente segura. A elucidação da história na qual estamos empenhados ilumina a tarefa do [[lexico:f:filosofo|filósofo]]. "Nós, que não temos apenas uma herança espiritual, mas que somos do [[lexico:c:comeco|começo]] ao [[lexico:f:fim|fim]], seres em [[lexico:d:devir|devir]] segundo o espírito histórico, apenas em [[lexico:r:razao|razão]] disso é que temos uma tarefa verdadeiramente nossa" (Krisis, 15); e o filósofo não pode não passar pela história porque o filósofo preocupado com a radicalidade deve [[lexico:c:compreender|compreender]] e ultrapassar os dados imediatos históricos, que são na [[lexico:r:realidade|realidade]] as sedimentações da história, os pressupostos, e que constituem seu "mundo" no sentido cultural. Ora, qual é a crise diante da qual nos encontramos? É a crise [[lexico:p:produto|produto]] do [[lexico:o:objetivismo|objetivismo]]. Não se traia para sermos exatos, da crise da [[lexico:t:teoria|teoria]] [[lexico:f:fisica|física]], mas da crise que atinge a [[lexico:s:significacao|significação]] das ciências para a própria vida. O que caracteriza o espírito [[lexico:m:moderno|moderno]] é a [[lexico:f:formalizacao|formalização]] lógico-matemática (a mesma que constituía a [[lexico:e:esperanca|esperança]] das [[lexico:i:investigacoes-logicas|investigações lógicas]]) e a matematização do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] natural: a [[lexico:m:mathesis-universalis|mathesis universalis]] de [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] e a nova [[lexico:m:metodologia|metodologia]] de Galileu.. Sobre esta base é que se desenvolve o objetivismo: descobrindo o mundo como [[lexico:m:matematica|matemática]] aplicada, Galileu redescobriu-a como [[lexico:o:obra|obra]] da consciência (Krisis II, § 9). Assim, o [[lexico:f:formalismo|formalismo]] objetivista é alienador; esta [[lexico:a:alienacao|alienação]] devia [[lexico:a:aparecer|aparecer]] como mal-estar desde que a [[lexico:c:ciencia|ciência]] objetiva viesse a apoderar-se do [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]: ela levava então à [[lexico:e:escolha|escolha]] entre construir o psíquico pelo [[lexico:m:modelo|modelo]] do [[lexico:f:fisico|físico]] ou então renunciar a estudar com rigor o psíquico pelo modelo do físico ou então renunciar a estudar com rigor o psíquico. Descartes anuncia a solução introduzindo o [[lexico:m:motivo|motivo]] transcendental: pelo cogito a verdade do mundo como [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], como cogitatum lhe é restituída, a alienação objetivista que conduz às aporias metafísicas da [[lexico:a:alma|alma]] e de [[lexico:d:deus|Deus]] cessa então — ou pelo menos teria cessado, se o próprio Descartes não tivesse sido vítima, do objetivismo galileano e não houvesse confundido o cogito transcendental e o eu [[lexico:p:psicologico|psicológico]]: a [[lexico:t:tese|tese]] do ego [[lexico:r:res-cogitans|res cogitans]] suprime todo o [[lexico:e:esforco|esforço]] transcendental. Daí deriva a dupla herança cartesiana: o [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] metafísico, que elimina o ego; o [[lexico:e:empirismo|empirismo]] cético que arruína o [[lexico:s:saber|saber]]. É somente o transcendentalismo, articulando todo saber sobre um ego fundamental, doador de sentido e que vive de uma vida pré-objetiva, pré-científica, num [[lexico:l:lebenswelt|Lebenswelt]] [[lexico:i:imediato|imediato]] cuja ciência exata é apenas um revestimento, que dará ao objetivismo seu [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] fundamento eliminando seu poder aliena-dor: a filosofia transcendental torna [[lexico:p:possivel|possível]] uma reconciliação do objetivismo e do subjetivismo, do saber abstraio e da vida concreta. Assim, a [[lexico:s:sorte|sorte]] da [[lexico:h:humanidade|humanidade]] europeia, que é também a sorte da humanidade simplesmente, está ligada às possibilidades de conversão da filosofia à fenomenologia: "Nós somos, por nossa [[lexico:a:atividade|atividade]] filosófica, os funcionários da humanidade".