===== IDEALISMO ALEMÃO ===== Esta [[lexico:e:expressao|expressão]] serve para designar uma das potentes irrupções do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] na arena filosófica da [[lexico:h:humanidade|humanidade]]. Num período de apenas quarenta anos (entre 1790 e 1830) desenvolve-se um [[lexico:m:movimento|movimento]] intelectual de [[lexico:r:riqueza|riqueza]] e profundidade sem par. Apresenta-se como [[lexico:i:idealismo|Idealismo]], na [[lexico:m:medida|medida]] em que, para ele, [[lexico:s:ser|ser]] e [[lexico:i:ideia|ideia]] coincidem, com o que renova, a seu [[lexico:m:modo|modo]], o [[lexico:p:platonismo|platonismo]]. Caracteriza-o como [[lexico:i:idealismo-alemao|idealismo alemão]] o [[lexico:f:fato|fato]] de ser determinado pela [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] e sobretudo por [[lexico:k:kant|Kant]]. Seus principais representantes são [[lexico:f:fichte|Fichte]], [[lexico:s:schelling|Schelling]] e [[lexico:h:hegel|Hegel]]. A despeito das profundas diferenças que os separam nos pormenores, concordam eles em dois traços fundamentais: a primazia da [[lexico:r:razao|razão]] ou do [[lexico:e:espirito|espírito]] e o movimento dialético. A razão é a ideia das [[lexico:i:ideias|ideias]] e o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:p:primitivo|primitivo]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]], que se põe a si mesma e em si mesma põe tudo o mais como momentos evolutivos ou manifestações suas; está, portanto, essencialmente sujeita ao [[lexico:d:devir|devir]]. O movimento dialético, em que deve também ser levado a cabo o nosso pensamento se, filosofando, quiser realizar a [[lexico:v:verdade|verdade]] absoluta, traduz o curso recorrido pelo devir. Três são os momentos que entram em [[lexico:j:jogo|jogo]] neste movimento: a [[lexico:t:tese|tese]], [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:n:nao|não]] desdobrado, ainda quiescente; a [[lexico:a:antitese|antítese]], entranhada naquele princípio, que o põe em movimento (da "dicção" se separa a "contra-dicção"); a [[lexico:s:sintese|síntese]], que reduz ambos os contrários, à sua mais profunda [[lexico:u:unidade|unidade]]. Este movimento compreende inúmeros degraus, porque toda síntese aparece, por seu turno, como tese num [[lexico:p:plano|plano]] [[lexico:s:superior|superior]]. Sirvamos-nos da [[lexico:e:explicacao|explicação]] seguinte, para esclarecer esta marcha triádica: uma verdade parcial produz, em [[lexico:v:virtude|virtude]] de sua unilateralidade, o seu contrário igualmente unilateral; só a compensação e complementação de ambas as não-verdades dão em resultado a verdade propriamente tal ou plena, a qual, por sua vez, de um [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista ulterior, se torna em verdade parcial. Este fundo básico comum aparece em Fichte (1762-1814) como [[lexico:t:teoria|teoria]], da [[lexico:c:ciencia|ciência]]. Elaborada primeiramente em sua [[lexico:o:obra|obra]] [[lexico:c:capital|capital]] "Fundamento da [[lexico:t:teoria-da-ciencia|Teoria da Ciência]]" (1794-1795), foi sucessivamente aperfeiçoada, transformada e conduzida a suas esferas de aplicação. Partindo de Kant, Fichte pretende [[lexico:s:superar|superar]] a cisão que naquele existe entre o [[lexico:t:teoretico|teorético]] e o [[lexico:p:pratico|prático]], entre a [[lexico:c:consciencia|consciência]] e a [[lexico:c:coisa|coisa]] em si. Por isso coloca tm [[lexico:p:posicao|posição]] central o [[lexico:e:eu|eu]] prático com sua [[lexico:l:liberdade|liberdade]], deven-do-se entender por tal o [[lexico:e:eu-puro|eu puro]], que se comporta, perante o eu [[lexico:e:empirico|empírico]], como o fundamento primitivo [[lexico:g:geral|geral]] perante sua [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] [[lexico:p:particular|particular]]. Como atuação pura, o Eu põe-se a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] na [[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]] e põe tudo o mais no movimento dialético. Éste resulta do fato de o Eu, para se desdobrar, necessitar da resistência de uma barreira; por isso coloca, em frente de si, o [[lexico:n:nao-eu|Não-Eu]]. Ao Eu prático subordina-se o Eu teorético, porque o [[lexico:m:mundo|mundo]] dos objetos só se esboça como material da [[lexico:o:obrigacao|obrigação]] [[lexico:m:moral|moral]]. Posteriormente, Fichte, considerando o Eu mais acentuadamente do ponto dc vista do [[lexico:h:homem|homem]], reduziu-o à razão absoluta, que aparece então como fundamento primitivo de cunho vincadamente panteísta. Schelling (1775-1854), começando por ser expositor da teoria da ciência e essencialmente influenciado pelo [[lexico:r:romantismo|Romantismo]], cria seu [[lexico:s:sistema|sistema]] [[lexico:p:proprio|próprio]], que sucessivamente submete a importantes variações. Cinco são os períodos que nele geralmente se distinguem. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], elabora a [[lexico:f:filosofia-da-natureza|filosofia da natureza]], a qual, mercê da primazia do ético propugnada por Fichte, pouco se tinha desenvolvido. A [[lexico:n:natureza|natureza]] é [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]] cjue tende à [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]], através da [[lexico:a:abundancia|abundância]] de suas formas. O [[lexico:i:idealismo-transcendental|idealismo transcendental]] apresenta então o espírito em sua [[lexico:v:vida-consciente|vida consciente]], e, com isso, a inclusão da [[lexico:h:historia|história]] e da [[lexico:a:arte|arte]] assinala nova ascensão acima da posição de Fichte. Encaradas estas duas fases como tese e antítese, a [[lexico:f:filosofia-da-identidade|filosofia da identidade]] constitui a síntese correspondente; no Absoluto ou na Razão absoluta, como indiferença total, são superadas todas as diferenças (inclusive a de natureza e espírito). No atinente ao [[lexico:m:metodo|método]], propugnava Schelling a [[lexico:i:intuicao|intuição]] intelectual, que se desdobra segundo o princípio da [[lexico:p:polaridade|polaridade]] ou do movimento dialético e inclui a primazia do estético. Schelling pretende, com sua doutrina da liberdade e sua [[lexico:f:filosofia-da-religiao|filosofia da religião]], superar o [[lexico:p:panteismo|panteísmo]] contido em todas as doutrinas precedentes. Outorga ao mundo certa substantividade, porque só assim são possíveis a liberdade e a [[lexico:r:religiao|religião]]. Intimamente relacionada com esta [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] doutrinal é a derradeira fase da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] positiva, que Schelling opõe à filosofia negativa de Hegel. À consideração do [[lexico:e:essencial|essencial]] acrescenta a do [[lexico:e:existencial|existencial]], completando assim a razão e a [[lexico:e:essencia|essência]] [[lexico:u:universal|universal]] com a [[lexico:v:vontade|vontade]] e com a [[lexico:e:existencia|existência]] concreta. Aproveita, outrossim, as experiências da consciência religiosa no [[lexico:m:mito|mito]] e na [[lexico:r:revelacao|revelação]] e aspira a harmonizar o [[lexico:s:saber|saber]] com a [[lexico:f:fe|fé]]. Apesar de tudo, os dois últimos períodos continuam lastrados pelo panteísmo primitivo e só pouco a pouco seus geniais esboços chegam a alcançar eficácia histórica ([[lexico:f:filosofia-da-existencia|filosofia da existência]]). Pela amplidão da [[lexico:m:materia|matéria]] e rigor do método, Hegel (1770-1831) representa o ponto culminante do idealismo alemão. Assim o mostram suas obras capitais. "[[lexico:f:fenomenologia-do-espirito|fenomenologia do espírito]]" (1807), "[[lexico:l:logica|Lógica]]" (1812-1816) e "[[lexico:e:enciclopedia|Enciclopédia]]" (1817), nas quais se defende a primazia do pensamento. O fundamento primordial mais íntimo é a ideia que, no saber absoluto, se eleva a ideia absoluta e, em marcha necessária, desdobra todas as realidades como manifestações de si mtsma. Expõe Hegel este [[lexico:p:processo|processo]] de duas maneiras: a [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] (doutrina do "[[lexico:f:fenomeno|fenômeno]]", do "que aparece") conduz ao saber absoluto através dos fenômenos, dentro do saber absoluto o sistema propriamente [[lexico:d:dito|dito]] move-se desde o ser [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]] até à profusão de suas formas. Neste sistema, a lógica visa o ser pré-cósmico da ideia, a filosofia da natureza visa o ser-fora-de-si da ideia, e a [[lexico:f:filosofia-do-espirito|Filosofia do Espírito]] visa o ser-permanecendo-em-si da ideia. Este compreende três estádios: o espírito [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] no [[lexico:s:sujeito|sujeito]] [[lexico:h:humano|humano]] individual, o espírito [[lexico:o:objetivo|objetivo]] nas formas reais existentes da [[lexico:c:comunidade|comunidade]] ([[lexico:d:direito|direito]], [[lexico:e:eticidade|eticidade]], história) e o espírito absoluto que na arte, na religião e na filosofia, se volve sobre si mesmo. — Do ponto de vista do método, Hegel leva o movimento dialético à sua [[lexico:p:perfeicao|perfeição]]. A filosofia da [[lexico:r:reflexao|reflexão]], que elabora suas arbitrárias "reflexões" por sobre os contrários unilaterais, é superada por ele mediante a [[lexico:a:absorcao|absorção]] dos mesmos, absorção que não os extingue mas os conserva em sua unidade mais elevada. As expressões em si, para si e em e para si, correspondem â tese, a qual "em si", ou seja, em [[lexico:f:forma|forma]] não desdobrada, é já todas as [[lexico:c:coisas|coisas]]; à antítese, na qual os contrários se afirmam "para si", isto é, separados e, por isso, aparecem só Daquilo que eles são "para si"; e à síntese, que com a unidade dos contrários manifesta sua verdade, desdobrando no "para si" a oculta plenitude do "em si". — Enquanto Fichte e Schelling não formaram [[lexico:e:escola|escola]], houve um [[lexico:h:hegelianismo|hegelianismo]] que se cindiu numa ala direita fiel ao [[lexico:m:mestre|mestre]] e numa ala esquerda que desc iiu no [[lexico:m:materialismo|materialismo]], não obstante, também o hegelianismo se extinguiu como escola propriamente dita, sobrevivendo tão-sò-mente no [[lexico:m:materialismo-dialetico|materialismo dialético]]. Posteriormente continuou mantendo sua [[lexico:i:influencia|influência]] a doutrina hegeliana do [[lexico:e:estado|Estado]]. O século XX, principalmente depois da primeira [[lexico:g:guerra|guerra]] mundial, assistiu a uma poderosa revivescência do pensamento hegeliano; muito embora um [[lexico:n:neo-hegelianismo|neo-hegelianismo]], como corrente intelectual definida, não se tenha ainda imposto, é inegável que por toda a [[lexico:p:parte|parte]] se percebe a profunda influência de Hegel. No idealismo alemão empolga a grandiosa [[lexico:f:forca|força]] construtiva, com que, segundo rigorosíssima [[lexico:l:lei|lei]], faz brotar de um [[lexico:u:unico|único]] fundamento primordial a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] do [[lexico:r:real|real]]. Compreendeu outrossim, como talvez nenhuma outra corrente filosófica, a essência do espírito o sua [[lexico:s:significacao|significação]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]], segundo a qual mesmo o corpóreo deve ser concebido a partir do espírito. Mas aqui se encontram também os limites deste idealismo. Segundo se nos afigura, seu [[lexico:e:erro|erro]] básico reside na afirmação da primazia do devir sobre o ser, como salta à vista principalmente no princípio da Lógica de Hegel; o ser é apenas um [[lexico:m:momento|momento]] parcial a par do [[lexico:n:nada|nada]], dentro da [[lexico:r:realidade|realidade]] propriamente dita, que é o devir. Como também o fundamento primordial absoluto está, consequentemente, sujeito ao devir, é [[lexico:i:imanente|imanente]] ao mundo do devir, e só pelo devir alcança o desdobramento de sua plenitude, encontramo-nos perante o panteísmo. Desse modo, o espírito primitivo [[lexico:d:divino|divino]] chega à consciência de si mesmo unicamente no espírito do homem; pelo que, a mais elevada realização do saber humano coincide com o saber divino e o homem crê poder [[lexico:c:compreender|compreender]] exaustivamente no saber absoluto o processo do [[lexico:u:universo|universo]]. De fato, porém, o homem perde-se numa construção ilusória, incapaz de justificar a substantividade do fundamento primordial [[lexico:i:infinito|infinito]] nem a do ser [[lexico:f:finito|finito]] e que, [[lexico:a:alem|além]] disso, não deixa [[lexico:e:espaco|espaço]] algum para a genuína liberdade. — O idealismo alemão começou a superar-se a si mesmo com Schelling na última fase deste [[lexico:f:filosofo|filósofo]], ao tender para a realidade integral. Esta ensina que a verdadeira natureza do espírito exige a [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] do espírito infinito, o qual num [[lexico:a:ato|ato]] livre criador produz [[lexico:e:essencias|essências]] finitas subsistentes, que nem por isso deixam de participar da nobreza do espírito e de [[lexico:d:deus|Deus]]. — Lotz.