===== HUXLEY ===== Na Inglaterra os opositores do [[lexico:d:darwinismo:start|darwinismo]] tiveram que se defrontar com "o mastim de [[lexico:d:darwin:start|Darwin]]" e "secretário [[lexico:g:geral:start|geral]] da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] evolucionista", isto é, com Thomas H. Huxley (1825-1895). Escrevia Huxley em O [[lexico:l:lugar:start|lugar]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] na [[lexico:n:natureza:start|natureza]] (1863): "Variabilidade, [[lexico:l:luta:start|luta]] pela [[lexico:e:existencia:start|existência]] e [[lexico:a:adaptacao:start|adaptação]] às condições eram fatos suficientemente conhecidos, mas nenhum de nós suspeitava que neles estava o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] que levava ao centro da [[lexico:q:questao:start|questão]] da [[lexico:e:especie:start|espécie]], até que Darwin e Wallace perscrutaram as sombras e o farol de A [[lexico:o:origem:start|origem]] das espécies passou a guiar [[lexico:q:quem:start|quem]] tateava no escuro". Para Huxley, "a luta pela existência vale para o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] tanto quanto para o mundo [[lexico:f:fisico:start|físico]]. Uma teoria é uma ‘espécie’ de pensamento e tem [[lexico:d:direito:start|direito]] à existência enquanto consegue resistir à extinção por [[lexico:p:parte:start|parte]] de suas espécies [[lexico:r:rivais:start|Rivais]]". Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]], para ele, o darwinismo era precisamente um pensamento que, até onde se podia [[lexico:s:saber:start|saber]], vencera a luta pela existência, pelo menos no [[lexico:m:momento:start|momento]]. Com base nessa [[lexico:c:conviccao:start|convicção]], Huxley manteve muitas controvérsias, a mais célebre das quais foi aquela que, em 1860, o viu oposto ao Bispo de Oxford, Samuel Wilberforce. Com sorridente [[lexico:s:sarcasmo:start|sarcasmo]], em determinado [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de sua conferência, Wilberforce dirigiu-se a Huxley com as seguintes [[lexico:p:palavras:start|palavras]]: "Posso perguntar se é de parte de avô ou de avó que o senhor reclama os seus direitos de descendência de macaco?" Depois que o bispo acabou de [[lexico:f:falar:start|falar]], Huxley fez um breve e documentado [[lexico:d:discurso:start|discurso]] científico e, dirigindo-se a ele, acabou dizendo que teria preferido [[lexico:t:ter:start|ter]] por antepassado um macaco ao invés de homem de [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] versátil e nunca ocioso, mas que, no entanto, usa os seus talentos para obscurecer a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] e ridicularizar uma questão científica séria. Homem fortemente [[lexico:p:polemico:start|polêmico]], Huxley sabia aceitar e apreciar os adversários leais e preparados, como foi o caso dos professores do maior seminário católico inglês, que o convidaram "a falar abertamente aos seus alunos". Houve então um debate entre aqueles "doutos, zelosos e firmes" professores e o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Huxley, que ele recorda em um ensaio sobre a [[lexico:e:educacao:start|Educação]] científica, de 1869: "Discutimos como enviados de exércitos adversários durante um armistício, isto é, amigavelmente como inimigos. E quando [[lexico:e:eu:start|eu]] expus as dificuldades que seus estudantes iriam ter que enfrentar por parte do pensamento científico, eles replicaram: ‘Nossa Igreja vive há muitíssimo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e já atravessou imune por muitos furacões. Esta dos nossos dias é somente uma onda de velha tempestade. E nós [[lexico:n:nao:start|não]] queremos formar os nossos jovens de [[lexico:m:modo:start|modo]] que sejam capazes de resistir a essa onda menos do que, em outros tempos, os outros estiveram em condições de enfrentar as dificuldades daqueles tempos. As heresias atuais lhes são explicadas pelos seus professores de [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] e de [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e lhes é ensinado como tratá-las’". Diante dessa [[lexico:r:realidade:start|realidade]], Huxley, comparando o clero católico inglês com os "acomodados exemplares" do anglicanismo e dos protestantes, dizia que entre estes e os católicos há a mesma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] que existe entre um bando improvisado de voluntários e os adestrados veteranos da Velha Guarda de Napoleão. Concluía ele: "Eu [[lexico:r:respeito:start|respeito]] uma organização que faz frente aos seus inimigos desse modo e [[lexico:d:desejo:start|desejo]] que todas as organizações eclesiásticas estivessem em tal [[lexico:c:condicao:start|condição]] de [[lexico:e:eficiencia:start|eficiência]]. Isso seria [[lexico:b:bom:start|Bom]] não somente para eles, mas também para nós". E isso porque Huxley pensava que "o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] da ciência é essencialmente crítico" e que "o [[lexico:d:destino:start|destino]] habitual das novas verdades é o de começar como heresias e acabar com superstições". Homem de grande [[lexico:c:cultura:start|cultura]] e espírito brilhante, Huxley nos deixou escritos ainda hoje instrutivos, claros e plenos de [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]. Eis como, em uma conferência, ele procurou [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de "[[lexico:s:selecao:start|seleção]] [[lexico:n:natural:start|natural]]" entendida como luta pela existência: "Recordo-me de ter lido uma [[lexico:d:descricao:start|descrição]] da famosa retirada das tropas napoleônicas de Moscou. Cansadas, esgotadas, extenuadas, as tropas por [[lexico:f:fim:start|fim]] se encontraram diante de um grande rio, sobre o qual restava apenas uma ponte para a passagem daquele grande exército desorganizado e desmoralizado. Nessas condições, deve ter sido terrível a luta, cada qual cuidando de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], apertando-se nas longas filas e passando por cima dos corpos dos companheiros. O autor dessa descrição, que foi um dos poucos afortunados que conseguiram passar, diante dos milhares que foram deixados do [[lexico:o:outro:start|outro]] lado do rio ou que foram jogados na correnteza, atribuiu a sua [[lexico:s:salvacao:start|salvação]] ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de ter visto um imenso homem, um couraceiro com um grande capote azul, que abria caminho entre a [[lexico:m:massa:start|massa]], tendo ele então a [[lexico:p:presenca:start|presença]] de espírito de agarrar-se ao seu capote, sem largá-lo mais". E continua Huxley: "Eis o que escreve ele: ‘Grudei-me ao seu capote, malgrado as suas injúrias, os empurrões e os pontapés. Depois, quando viu que não conseguia me desgrudar, suplicou-me que o deixasse ir, pois caso contrário não conseguiria não só me salvar, mas nem mesmo salvar-se. Mas eu permanecei agarrado nele e não larguei a minha presa enquanto, por fim, ele não me tirou fora da [[lexico:m:multidao:start|multidão]]’. Como podeis [[lexico:v:ver:start|ver]], é um caso, se assim podemos chamá-lo, de salvação seletiva, cujo êxito dependeu da natureza robusta do tecido do capote de couraceiro. E o mesmo ocorre na natureza: toda espécie tem a sua ponte de Beresina. Nesse momento, ela deve combater para abrir caminho, lutando contra as outras espécies. E, quando está perto de [[lexico:s:ser:start|ser]] vencida, pode ocorrer que uma [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] mínima — talvez, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], uma diferença de cor, em [[lexico:s:suma:start|suma]], a diferença mais ínfima — faça pender a balança para um ou outro [[lexico:s:sentido:start|sentido]] (...)." E encerrava ele: "Para vos mostrar como os agentes seletivos naturais podem agir de modo indireto, concluirei esta lição pondo em [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] um caso, entre os mais curiosos do [[lexico:g:genero:start|gênero]], descrito por Darwin: é o caso do zangão. Nota-se que os zangões são muito mais frequentes na periferia das cidades do que no [[lexico:c:campo:start|campo]] [[lexico:a:aberto:start|aberto]]. E a [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] é a seguinte: o zangão constrói os seus ninhos, nos quais guarda o seu mel e deposita os ovos dos quais se desenvolverão as larvas: os ratos do campo são gulosíssimos pelo mel e pelas larvas; assim, no campo aberto, onde há muitos ratos do campo, os zangões ficam para trás; mas, na periferia das cidades, muitos gatos caçam os ratos; e, naturalmente, quanto mais gatos existem comendo ratos, menos ratos existem para atacar os ninhos dos zangões. Os gatos, portanto, são ‘auxiliares indiretos’ dos zangões. Dando outro passo atrás, podemos dizer que as velhas solteironas são amigas indiretas dos zangões e inimigas indiretas dos ratos do campo, pois mantêm os gatos que comem os ratos. E um exemplo que talvez tire um pouco da [[lexico:s:seriedade:start|seriedade]] do nosso assunto, mas que me escapou. E, com isso, encerro a lição". {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}