===== HUMORES ===== Em A Medicina da [[lexico:a:alma|alma]], de Hugo de São Vítor, o [[lexico:p:processo|processo]] de [[lexico:t:transfiguracao|transfiguração]] alegórica da [[lexico:t:teoria|teoria]] dos humores parece alcançar sua realização. Se em Hildegard von Bingen a [[lexico:p:polaridade|polaridade]] negativa da [[lexico:m:melancolia|melancolia]] ainda era interpretada como o [[lexico:s:sinal|sinal]] da [[lexico:q:queda|Queda]] original, em Hugo o [[lexico:h:humor|humor]] negro já se identifica com a tristitia utilis, em uma [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] na qual a patologia dos humores se torna o veículo corpóreo do [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] soteriológico: A alma humana usa [[lexico:q:quatro|Quatro]] humores: como [[lexico:s:sangue|sangue]], usa a doçura, como bílis vermelha, a amargura, como bílis negra, a [[lexico:t:tristeza|tristeza]]... A bílis negra é fria e seca, mas gelo e secura podem [[lexico:s:ser|ser]] interpretados ora em um [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:b:bom|Bom]], ora em sentido mau... Ela torna os homens ora sonolentos, ora vigilantes, ou seja, ora cheios de [[lexico:a:angustia|angústia]], ora vigilantes e voltados para os desejos celestes... Tiveste através do sangue a doçura da [[lexico:c:caridade|caridade]], tem [[lexico:a:agora|agora]], através da bílis negra, ou melancolia, a tristeza pelos [[lexico:p:pecados|pecados]]. Só se torna compreensível porque, nos escritos do chefe da [[lexico:e:escola|escola]] médica Salernitana, Constantino Africano, aparece como uma das [[lexico:c:causas|causas]] importantes da melancolia a “ânsia de [[lexico:v:ver|ver]] o [[lexico:s:sumo-bem|sumo bem]]” por [[lexico:p:parte|parte]] dos religiosos, e porque, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, um teólogo como Guilherme de Auvérnia chega mesmo a afirmar que no seu [[lexico:t:tempo|tempo]] “muitos homens piedosíssimos e religiosíssimos desejavam ardentemente a enfermidade melancólica” , se o vermos relacionado com essa recíproca compenetração entre [[lexico:a:acidia|acídia]] e melancolia, que mantinha intacta a sua dupla polaridade na [[lexico:i:ideia|ideia]] de um [[lexico:r:risco|risco]] mortal inscrito na mais nobre das intenções humanas ou de uma [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de [[lexico:s:salvacao|salvação]] escondida no perigo mais [[lexico:e:extremo|extremo]]. Na insistente [[lexico:v:vocacao|vocação]] contemplativa do [[lexico:t:temperamento|temperamento]] saturnino, continua vivo o [[lexico:e:eros|Eros]] perverso do acidioso, que mantém o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:d:desejo|desejo]] fixo no inacessível. [AgambenE:38]