===== HOMEM-MUNDO ===== A uma [[lexico:f:forma:start|forma]] do [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:h:humano:start|humano]], a uma forma do ser [[lexico:h:homem:start|homem]], ou do ser do homem, a qualquer de formas tais, corresponde uma forma do ser [[lexico:m:mundano:start|mundano]], uma forma de ser [[lexico:m:mundo:start|mundo]], uma forma de ser do mundo. Homem e mundo são inseparáveis parceiros do mesmo [[lexico:j:jogo:start|jogo]]. E a parceria é tão necessária, tão indissolúvel, quanto o das duas projeções do mesmo [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de um [[lexico:p:plano:start|plano]] em qualquer [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de coordenadas. Esta figuração geométrica [[lexico:b:bem:start|Bem]] pode fingir a inexorabilidade da [[lexico:r:recusa:start|recusa]]. Mas enquanto a finge, também vai sugerindo fingimentos a que [[lexico:n:nao:start|não]] nos propúnhamos ou ainda não nos propúnhamos fingir. Precariamente firmados num estreito patamar do [[lexico:a:abismo:start|abismo]] a que descemos, sempre perigando a [[lexico:q:queda:start|Queda]] no sem fundo e olhando timidamente para cima ou por cima da coordenação [[lexico:h:homem-mundo:start|homem-mundo]], atendamos bem aos dois pontos coordenados, que o são por ambos se coordenarem a [[lexico:o:outro:start|outro]], aquele que se projeta nos eixos do sistema referencial. Se este «[[lexico:p:projeto:start|projeto]]» não se movesse no plano da [[lexico:f:figura:start|figura]], diríamos que, sempre inalterada a [[lexico:p:posicao:start|posição]] das suas coordenadas, um só Homem esteve, está e estará em um só Mundo. Poderíamos até olvidar-nos do Projeto para nos ocuparmos somente do Mundo em que o Homem está, ou do Homem que está no Mundo. Esta é a [[lexico:s:situacao:start|situação]] mais cômoda para um [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] que desdenha de abrir seu [[lexico:c:caminho:start|caminho]] através do ermo intransitado. Suponhamos, porém, que mude a posição do Projeto (que, por [[lexico:i:impulso:start|impulso]] meu ou de outrem, o ponto se mova no plano da figura). A mercê da [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] súbita, aí ficamos nós perdidos do Homem e do Mundo, uma vez que um e outro, coordenadamente projetados, mudaram com a mudança do Projeto. Podemos dar mais um passo ao encontro do que [[lexico:n:nada:start|nada]] tem de geométrico, reencalçando outro passo da [[lexico:g:geometria:start|geometria]]: um dos projetados (uma das coordenadas), Y (Homem ou Mundo), pode encarar-se como [[lexico:f:funcao:start|função]] do outro projetado (da outra coordenada), X (Mundo ou Homem), e, então, diremos que o mundo é função do homem ou que homem é função do mundo. Não razoamos no [[lexico:v:vazio:start|vazio]]: há correntes no oceano do pensamento já pensado, que corre num ou noutro [[lexico:s:sentido:start|sentido]]; ou o homem depende do mundo ou o mundo depende do homem. Mas a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] mais verdadeira é que ambos dependem do Projeto, numa estreita e rigorosa [[lexico:s:solidariedade:start|solidariedade]]. [EudoroMito:28-29] Poucos «feitos» do pensamento me parecem tão espantosos quanto o de tão raras dúvidas incidirem na [[lexico:e:existencia:start|existência]] de um só Mundo, posto na [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]] ou abandonado ao [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que decorreu desde o [[lexico:i:instante:start|instante]] em que se coloque o seu início; quanto o não querer falar-se de [[lexico:m:mundos:start|mundos]] que coexistem ou que um a outro se sucedem no mesmo [[lexico:l:lugar:start|lugar]] e tempo em que só evoluiria o Mundo. Pois — isso sabem-no os mais sábios — o Mundo não pode ser [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de [[lexico:e:experiencia:start|experiência]]. O que não impede a grande maioria dos homens de [[lexico:t:ter:start|ter]] sido levada a crer na existência do Mundo, embora se permita acreditar que ele se ache em contínua [[lexico:m:mutacao:start|mutação]]. Quanto a mim, prefiro crer que a mutação é descontínua, chegando a transpor a distância que vai do mesmo ao outro. E tão raras são as dúvidas acerca da existência de um só Homem. A enorme [[lexico:m:multidao:start|multidão]] dos homens crê no Homem, como crê no Mundo, ainda que os considere, cada um, pendendo para seu lado; crê que o Homem existe, embora com [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] hesitação também consinta que ele se ache em contínua mutação. Mais uma vez declaro e proclamo a minha preferência pela descontinuidade, a que vai do mesmo ao outro. Proponho, consequentemente, que, em vez de falar-se em um só Homem que se transforma através dos tempos, se fale de homens profundamente dissemelhantes de «[[lexico:e:epoca:start|época]]» para «época» de uma [[lexico:h:historia:start|história]] que não assente no preconceito da [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] do Homem. Referimo-nos primeiro ao Mundo, e depois ao Homem; poderíamos ter procedido ao invés. Em qualquer dos casos, deslizamos pelo [[lexico:p:pendor:start|pendor]] [[lexico:a:analitico:start|analítico]] da [[lexico:e:expressao:start|expressão]] verbal. Mas [[lexico:a:agora:start|agora]] devemos acrescentar que melhor teria sido situar Homem e Mundo em duas pautas conexas ou, pelo menos, contíguas. Então claramente se veria que a mutação que vai do mesmo ao outro atinge solidariamente Homem e Mundo. Um e outro homem, um e outro mundo, não são apenas como quaisquer valores discretos que assumem duas variáveis independentes. Um homem está em um mundo, outro em outro. A mutação descontínua do Mundo, que nos permite designar «este mundo», é a mesma mutação descontínua do Homem, que nos deixa [[lexico:f:falar:start|falar]] d’«este homem». Mas «este homem» e «este mundo» são interdependentes, co-pertinentes, são como pontos situados na mesma perpendicular às duas pautas. «Este homem», está n’«este mundo», como n’«este mundo» está «este homem». O mesmo se pode dizer por [[lexico:p:palavras:start|palavras]] menos ofensivas ao [[lexico:b:bom-senso:start|bom senso]] ou à [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] da maioria, se não se atendeu já a que, talvez irrefletidamente, se [[lexico:f:fala:start|fala]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], do «mundo do selvagem» e do «mundo do civilizado», do «mundo do [[lexico:p:poeta:start|poeta]]» e do «mundo do cientista» e de outros tantos binários homem-mundo. [EudoroMito:30-31] Como poderíamos arriscar a [[lexico:e:esperanca:start|esperança]] de alguma vez o [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]] da [[lexico:c:complementaridade:start|complementaridade]] indelevelmente se imprimir na [[lexico:m:mente:start|mente]] de alguns poucos? Mas, antes de qualquer [[lexico:e:expectativa:start|expectativa]] de [[lexico:s:sucesso:start|sucesso]] ou fracasso, repare-se que uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] já pode passar por certa: não é de esperar um [[lexico:m:momento:start|momento]] que já chegou. Muitos, senão todos os que se dão ao cuidado de [[lexico:p:pensar:start|pensar]], bem sabem que sempre correm o [[lexico:r:risco:start|risco]] de se lhes entorpecerem os passos em algum ponto do caminho dos caminhos do pensamento já trilhados, deixando disjuntos e inconjuntos «mundo sem homem» e «homem sem mundo». Um e outro já ficaram para trás, definitivamente para trás, em qualquer ponto das trilhas do pensamento pensado até o [[lexico:l:limite:start|limite]] do pensável ou o liminar do impensado. Até a [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] os liga — homem e mundo — nas mais salutares expressões do [[lexico:e:espiritualismo:start|espiritualismo]] e do [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]], do [[lexico:r:realismo:start|realismo]] e do [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]]. A ninguém há que ensinar, por exemplo, que o homem é ele e a sua circunstância. Mas o perigo da [[lexico:d:disjuncao:start|disjunção]] subsiste enquanto nos dispensarmos de averiguar o que os conjunta e [[lexico:c:como-se:start|como se]] acham conjuntados. Só [[lexico:f:falta:start|falta]] mostrar a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] do [[lexico:n:nexo:start|nexo]]. O mais frequente é que no-lo apresentem como obnóxio, isto é, que nos digam que o mundo se sujeita ao homem ou que o homem se sujeita ao mundo. Neste caso, o nexo é só o da sujeição, que pressupõe a oposição e, às vezes, o confronto agressivo e exterminador; e, no extermínio, o nexo se perde. Insubsistente como tal, é também o nexo que eventualmente na [[lexico:g:gnosiologia:start|gnosiologia]] se nos propõe: o homem é movido pelo anseio de conhecer o mundo. Está certo. Mas daí por diante prossegue-se nos sentidos opostos de dois membros de uma [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]]: ou o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] submerge o homem no mundo ou faz que o mundo submirja no homem. Está claro que estes são casos extremos. O mais frequente é encontrar [[lexico:q:quem:start|quem]] afirme que o conhecimento também sujeita o mundo, haja ou não haja quem pense que, conhecido ou não, o mundo permanece o mesmo diante do homem que permanece o mesmo, quer o conheça, quer não. Mas se o conhecedor e o conhecido, um por querer conhecer e outro por se dar a conhecer, ficam [[lexico:i:indiferentes:start|indiferentes]] um perante o outro, nem sobra [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] para falar-se de nexo. Conexão verdadeira não se dá sem que se realizem possibilidades de mútuo afeiçoamento do mundo ao homem e do homem ao mundo. Mas todas as possibilidades são as que o Projeto previu. [EudoroMito:38-39] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}