===== HISTORIOGRAFIA ===== (lat. historiographia; in. History; fr. Histoire; al. [[lexico:g:geschichte:start|Geschichte]], às vezes Historie; it. Storiografià). O [[lexico:t:termo:start|termo]] historiographus aparece em Cornélio Agripa (De incertitude et vanitate scientiarum, 1527, Cap. V, em Opera, II, p. 2,27) e o termo historiographie é encontrado num idílio em [[lexico:p:prosa:start|prosa]] do [[lexico:p:poeta:start|poeta]] inglês Nicholas Breton (Wits Trenchmour, 1597). Foi adotado por T. [[lexico:c:campanella:start|Campanella]] para indicar "a [[lexico:a:arte:start|arte]] de escrever corretamente a [[lexico:h:historia:start|história]]" (Philosophiae Rationalis partes quinque, videlicet Grammatica, Dialectica, Rethorica, Poetica, Historiographia, iuxta própria principia, 1638, p. 243). Permaneceu com [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:s:significado:start|significado]] em inglês e em francês (o alemão usa Historik), ao passo que em italiano passou a significar, na esteira de [[lexico:c:croce:start|Croce]], o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:h:historico:start|histórico]] em [[lexico:g:geral:start|geral]] ou o conjunto das ciências históricas. Dada a [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] do termo história, é oportuno dispor de um termo [[lexico:a:adequado:start|adequado]] para indicar o conhecimento histórico, na sua [[lexico:d:distincao:start|distinção]] da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] histórica. As interpretações dadas sobre esse conhecimento são fundamentalmente duas, que podem [[lexico:s:ser:start|ser]] qualificadas como A) historiografia [[lexico:u:universal:start|universal]]; B) historiografia pluralista. A [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] do conhecimento histórico como [[lexico:h:historia-universal:start|história universal]] corresponde à interpretação da realidade histórica como [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. A interpretação dela como história pluralista corresponde à interpretação da realidade histórica como [[lexico:o:objeto:start|objeto]] definível ou verificável só através dos instrumentos de [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] de que se dispõe. A) A história universal, ou melhor, cósmica (al. Weltgeschichte), é o conhecimento do [[lexico:p:plano:start|plano]] providencial do mundo histórico (cf. [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], Phil. der Geschichte, ed. Lasson, p. 52). Tem duas características fundamentais: 1)É [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] do [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], e [[lexico:n:nao:start|não]] do historiador, e a [[lexico:o:obra:start|obra]] do historiador pode servir-lhe apenas como auxílio não indispensável. [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], que a chama "história apriori", afirma: "[[lexico:c:compreender:start|compreender]] com clara [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] o universal, o [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], o [[lexico:e:eterno:start|eterno]] e o imutável que guia a [[lexico:e:especie:start|espécie]] humana é tarefa do filósofo. Fixar de [[lexico:f:fato:start|fato]] a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] sempre cambiante e mutável dos fenômenos através dos quais marcha em passo firme a espécie humana, é tarefa do historiador, cujas descobertas são só casualmente recordadas pelo filósofo" (Grundzüge des gegenwärtigen Zeitalters, 1806, IX; trad. it., Cantoni, p. 67). Hegel, em polêmica com os grandes historiadores do seu [[lexico:t:tempo:start|tempo]], degradados a "filólogos" (v. [[lexico:f:filologia:start|filologia]]), afirmava: "Para conhecer o [[lexico:s:substancial:start|substancial]], é preciso [[lexico:t:ter:start|ter]] [[lexico:a:acesso:start|acesso]] a ele por [[lexico:m:meio:start|meio]] da [[lexico:r:razao:start|razão]]... A [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], na [[lexico:c:certeza:start|certeza]] de que o que impera é a razão, ficará convencida de que o ocorrido encontrará [[lexico:l:lugar:start|lugar]] no [[lexico:c:conceito:start|conceito]] e não alterará a [[lexico:v:verdade:start|verdade]], como hoje é [[lexico:m:moda:start|moda]] particularmente entre os filólogos que, usando aquilo que chamam de acuidade, introduzem na história [[lexico:e:elementos:start|elementos]] francamente apriorísticos" (Op. cit., p. 8). Era isso que tinham em [[lexico:m:mente:start|mente]] Croce, ao identificar filosofia e história ([[lexico:t:teoria:start|teoria]] estória della storiografia, 1917, pp. 71 ss.), e Gentile, ao identificar história e [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] (Teoria generale dello spirito, 1920, XIII, 14). 2) É [[lexico:i:independente:start|independente]] das limitações do material historiográfico e dos instrumentos de pesquisa, podendo, pois, prescindir de qualquer história que tenha sido ou que possa ser [[lexico:e:escrita:start|escrita]]. Fichte considerava a história [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] completamente independente da história [[lexico:a:a-posteriori:start|a posteriori]], que é do historiador (Op. cit). Hegel afirmava que, para reconhecer a realidade substancial da história, é preciso "trazer consigo a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] da razão: não olhos físicos, não um [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] [[lexico:f:finito:start|finito]], mas o olho do conceito, da razão", e portanto confiar no [[lexico:m:modo:start|modo]] de proceder rigorosamente apriorístico" (Phil. der Geschichte, I, p. 8). Croce falava de uma "[[lexico:a:anamnese:start|anamnese]]" do [[lexico:e:espirito:start|Espírito]] Universal que teceu a história e para o qual as fontes da história servem apenas como [[lexico:m:motivos:start|motivos]] de recordação (Teoria e storia della storiografia, p. 16). O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] compartilha desta concepção da história cósmica; adverte que "história cósmica" significa em primeiro lugar "o historicizar-se do mundo na sua [[lexico:e:essencial:start|essencial]] [[lexico:u:unidade:start|unidade]] [[lexico:e:existencial:start|existencial]] com o [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]]"; em segundo lugar, "o historicizar-se intra-mundano dos instrumentos e das [[lexico:c:coisas:start|coisas]]"; em ambos os sentidos, a história cósmica é independente do conhecimento historiográfico (Sein und Zeit, § 75), de tal [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que é a [[lexico:e:escolha:start|escolha]] implícita na [[lexico:h:historicidade:start|historicidade]] do ser-aí que determina a escolha historiográfica (Ibid., § 76). B) A historiografia pluralista caracteriza-se, em primeiro lugar, pelo [[lexico:a:abandono:start|abandono]] de [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] como "mundo histórico" ou "história universal" e pelo [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] da [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] das formas do conhecimento histórico e da sua dependência em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao material documentário disponível e aos [[lexico:p:principios:start|princípios]] que orientam a escolha historiográfica. Deste [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, o conhecimento histórico [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] versa sempre sobre objetos delimitados ou delimitáveis, nunca sobre a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] da história; e nunca é [[lexico:j:juizo:start|juízo]] sobre essa totalidade, de sorte que exclui, como desprovidos de [[lexico:s:sentido:start|sentido]], os conceitos de [[lexico:p:progresso:start|progresso]], [[lexico:d:decadencia:start|decadência]], etc, entendidos em sentido absoluto. Embora a [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] grega nos tenha [[lexico:l:legado:start|legado]] exemplos excelentes de historiografia nesse sentido (p. ex., a obra de Tucídides e de Políbio), os fundamentos do que hoje se chama [[lexico:m:metodologia:start|metodologia]] historiográfica começaram a aclarar-se só a partir do [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]] e a ser definidos por historiadores e filósofos só nos últimos anos. Tais fundamentos podem ser resumidos do seguinte modo: 1) O conhecimento histórico é perspectivista, mantém afastamento em relação ao passado e quer entendê-lo no seu tempo e lugar, sem assimilá-lo ou reduzi-lo ao presente. O reconhecimento da [[lexico:a:alteridade:start|alteridade]] entre a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] histórica e a realidade histórica, entre o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] histórico e o objeto histórico, ou entre o presente e o passado, é uma das condições fundamentais da [[lexico:p:pesquisa-historica:start|pesquisa histórica]]. Constitui a contribuição do [[lexico:h:humanismo:start|humanismo]] para a metodologia histórica. Pois, enquanto a Idade Média ignorava a [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] histórica, transformando os fatos e os acontecimentos mais heterogêneos e distantes em fatos e acontecimentos contemporâneos, o Humanismo procurou entender o passado como passado, a antiguidade como antiguidade, o [[lexico:o:outro:start|outro]] como outro (cf. E. Garin, Medioevo e Rinascimento, 1954, II, 5). A exigência de "reviver" o passado, de fazê-lo "voltar", seria falsificadora da história, se tomada ao pé da letra (cf. historiografia I. Marrou, De la connaissance historique, 1954, pp. 43 ss.), assim como seria falsificadora da história, se tomada ao pé da letra, a exigência apresentada por Croce (Teoria e storia della storiografia, pp. 3 ss.; La storia comepensiero e come azione, 1938, p. 5), de que toda história seja entendida como "história contemporânea". Um [[lexico:c:corolario:start|corolário]] da exigência da perspectiva histórica é o afastamento em relação ao passado, que [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]] atribuía à história [[lexico:c:critica:start|crítica]] (ao lado da [[lexico:h:historia-arqueologica:start|história arqueológica]], que "conserva e venera", e da história monumental, que exalta e encoraja, Unzeitgemässe Betrachtungen, 1873, II), afastamento que Nietzsche entendia como abandono do passado e encaminhamento do presente para novos caminhos, e que certamente é um dos ensinamentos da historiografia. Mas há também um afastamento em relação ao presente, inerente à [[lexico:a:atitude:start|atitude]] historiográfica preconizada sobretudo pelo [[lexico:i:iluminismo:start|Iluminismo]], e expressa por P. [[lexico:b:bayle:start|Bayle]] em [[lexico:p:palavras:start|palavras]] que ficaram famosas: "O historiador deve esquecer que pertence a certo país, que foi criado em certa [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]], que seu [[lexico:d:destino:start|destino]] se deve a isto ou àquilo e que fulano e sicrano são seus parentes ou seus amigos. Um historiador, enquanto tal, assim como Melquisedeque, não tem pai, mãe, nem genealogia" (Dictionnaire, art. Usson, rem. F.). O [[lexico:i:ideal:start|ideal]] proposto por Bayle é difícil, para não dizer [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], porque, como os historiadores hoje reconhecem (cf., p. ex., Marrou, op. cit., cap. II), a interferência ativa dos interesses e das tendências do historiador sempre condiciona, em certa [[lexico:m:medida:start|medida]], os resultados da sua [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] e mesmo a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] dos fatos. Entretanto, a [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] da investigação historiográfica não tende mais a descarnar ou desumanizar o historiador, como queria Bayle, mas a limitar e a disciplinar a interferência dos seus interesses na pesquisa. 2) O conhecimento histórico é individualizante, porque individualizantes são os instrumentos de que se vale. A [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]] ou [[lexico:u:unicidade:start|unicidade]] (não-repetibilidade), amiúde atribuída aos fatos históricos, na verdade é [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] dos instrumentos que os examinam (v. História). Em primeiro lugar, [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] histórico é individualizado pelos dois parâmetros fundamentais: cronologia e geografia. Em segundo lugar, a documentação da historiografia tem [[lexico:c:carater:start|caráter]] individualizante. Um documento, uma moeda, uma inscrição sempre se referem a um [[lexico:u:unico:start|único]] fato; o mesmo ocorre com o [[lexico:r:relato:start|relato]]. Em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, têm caráter individualizante os critérios de escolha historiográfica, porque tendem a [[lexico:p:por:start|pôr]] em [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] um fato entre outros, a ressaltar seu significado ou sua importância, portanto o seu caráter de algum modo "[[lexico:s:singular:start|singular]]" ou "único". A unicidade do [[lexico:f:fato-historico:start|fato histórico]] às vezes foi criticada como caráter supostamente metafísico da realidade histórica (cf. os textos citados no verbete História, 4, 1), mas não poderá suscitar objeções, se for entendida como resultado do caráter individualizante dos instrumentos historiográficos. Pode-se dizer que o [[lexico:g:grau:start|grau]] de individualidade do fato histórico deriva do grau de êxito que a investigação historiográfica logra obter. Um fato se mostra não-repetível quando a investigação historiográfica consegue reconstruí-lo em sua individualidade completa, mas essa individualidade é ideal historiográfico, mais que fato. 3) O conhecimento histórico é seletivo. Este é um dos pontos pacíficos na metodologia historiográfica (R. [[lexico:a:aron:start|Aron]], Introduction à la philosophie de l’histoire, 1948; ed. 1952, pp. 131 ss.; P. Gardiner, The Nature of Historical Explanation, 1952, pp. 104 ss.; M. Bloch, Apologie pour l’histoire, 1952, p. 2; H. I. Marrou, De la connaissance historique, 1954, pp. 209 ss.; W. Dray, Laws and Explanation in History, 1957, pp. 98 ss.; J. H. Randall, Nature and Historical Experience, 1958, pp. 25, 45, etc). O caráter seletivo da historiografia também é reconhecido por K. [[lexico:p:popper:start|Popper]], The Poverty of Historicism, 1944, § 31, e pelo marxista L. Goldmann, Sciences humaines et philosophie, 1952, p. 4. J. historiografia Randall ilustrou deste modo a [[lexico:f:funcao:start|função]] seletiva da historiografia: "O historiador deve fazer uma escolha. Na infinita variedade de [[lexico:r:relacoes:start|relações]] revelada pelos acontecimentos passados, deve escolher [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] importante ou fundamental para a sua história. Para que a [[lexico:s:selecao:start|seleção]] não seja apenas aquilo que parece importante para ele, para não ser subjetiva e arbitrária, deve ter um foco [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] em [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] que deve ser feita, em alguma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que ele considere obrigatória ou imposta aos homens, em algum Aufgabe ou faciendum, em algum [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] que deve ser feito" (op. cit., p. 60). A [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] da escolha não implica a possibilidade de que o passado mude. "Não que o passado em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] possa mudar; o que pode mudar é a seleção que o presente faz do passado. O que é significante e [[lexico:r:relevante:start|relevante]] no passado de cada coisa muda à medida que a própria coisa muda e se desenvolve" (op. cit, p. 36). A escolha historiográfica é feita, em primeiro lugar, em relação aos fatos, mas também, e simultaneamente, em relação às [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] que estão incorporadas na própria [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] dos fatos. A escolha de uma [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] não é necessariamente sugerida ao historiador por suas próprias simpatias ou tendências; às vezes, como ocorre no caso de Tucídides, a hipótese que ele apresenta e acha comprovada pelos fatos é contrária a todos os seus desejos. O [[lexico:p:pluralismo:start|pluralismo]] das escolhas, isto é, a possibilidade de efetuar opções historiográficas diferentes e de mudar e corrigir as já efetuadas, é uma das condições do conhecimento histórico. Por vezes, os filósofos tentaram limitar, por [[lexico:p:principio:start|princípio]], a pluralidade das escolhas, ou seja, estabelecer um princípio que orientasse unilateralmente, em cada caso, a seleção historiográfica. Foi o que fez Hegel, ao afirmar que a história é "história do espírito", obrigando assim a escolha do historiógrafo a deter-se nas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] e a declarar historicamente inexistente todo o resto. Foi o que fez também o [[lexico:m:materialismo-historico:start|materialismo histórico]] , ao afirmar que a história é, em primeiro lugar, história das "relações de produção de trabalho", e que todo o resto é "[[lexico:s:superestrutura:start|superestrutura]]", que não determina, mas decorre. Não há [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] de que essas tentativas de [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] da escolha historiográfica, especialmente a marxista, chamaram a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] para fatos que podiam ser ou que eram negligenciados, aguçando, por assim dizer, o olhar do historiador para caminhos menos trilhados. Em última [[lexico:a:analise:start|análise]], porém, e se assumidos como princípios absolutos para a limitação das escolhas, negariam a pluralidade das escolhas, impediriam a sua retificação, e acabariam por falsear a história, ocultando esferas de fatos que não são os privilegiados por essa [[lexico:t:tendencia:start|tendência]]. 4) O conhecimento histórico não visa à [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] causal, mas à explicação condicional. Embora não falte [[lexico:q:quem:start|quem]] ainda insista no caráter causal da explicação histórica (cf., p. ex. Hempel, em Readings in Philosophical Analysis, ed. Feigl. e Sellars, 1949, pp. 459 ss.; Gardiner, op cit., pp. 65 ss.), tende a prevalecer entre os metodizadores da história a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] de que as noções de [[lexico:c:causa:start|causa]] e de [[lexico:l:lei:start|lei]] têm pouca possibilidade de aplicação no domínio historiográfico (como também, aliás, no domínio da [[lexico:f:fisica:start|física]]). Nesse sentido, a obra citada de W. Dray é particularmente significativa (v. o verbete explicação). A preferência pela explicação condicional reduz a importância da [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] entre explicação e [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]], que por certo tempo pareceu expressar a oposição entre ciências da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e [[lexico:c:ciencias-do-espirito:start|ciências do espírito]]. De fato, tanto a explicação quanto a compreensão consistem na [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] da possibilidade do objeto. 5) O conhecimento histórico visa à determinação de possibilidades retrospectivas. Esta é uma [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] da [[lexico:r:renuncia:start|renúncia]] da historiografia ao [[lexico:e:esquema:start|esquema]] causal (que supõe a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] do objeto histórico) e do seu recurso ao esquema condicional. Este esquema consiste na determinação de possibilidades, ou melhor, de probabilidades retrospectivas. Essa [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] já foi atribuída ao conhecimento histórico por Max [[lexico:w:weber:start|Weber]]: "A consideração do significado causal de um fato histórico começará com a seguinte [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]]: excluindo os acontecimentos do conjunto de fatores considerados condicionantes, ou mudando-os para determinado sentido, e tomando como base regras gerais da experiência, seu curso teria podido tomar direção de algum modo diferente, nos aspectos decisivos para o nosso [[lexico:i:interesse:start|interesse]]?" (Kritische Studien auf dem Geliet der kulturwissenschaftlichen Logik, 1906; trad. it. em Il [[lexico:m:metodo:start|método]] delle scienze storico-sociali, p. 223). Por certo, qualquer historiador julgaria sem sentido a tentativa feita por [[lexico:r:renouvier:start|Renouvier]], em Uchronie, de imaginar "o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] europeia tal com poderia ter sido, mas não foi". Contudo, como diz R. Aron: "Todo historiador, para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] o que foi, pergunta-se o que poderia ter sido. A teoria limita-se dar [[lexico:f:forma:start|forma]] [[lexico:l:logica:start|lógica]] a essa prática espontânea do [[lexico:h:homem:start|homem]] comum" (op. cit., p. 164; cf. Marrou, op. cit., p. 181). Por mais que os historiadores e os metodizadores da história continuem a [[lexico:f:falar:start|falar]] de "causa", o sentido que dão a essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] [[lexico:n:nada:start|nada]] tem que [[lexico:v:ver:start|ver]] com seu significado tradicional: por isso, seria [[lexico:i:interessante:start|interessante]] que, à [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] conceitual já ocorrida, se seguisse a mudança terminológica (Cf. uma bibliografia selecionada sobre a metodologia historiográfica em Theory and Practice in Historical Study: a Report of the Committee on Historiography, 1942, e cf. sobre os autores tratados neste verbete: P. Rossi, Storia estoricismo nella filosofia contemporânea, 1960). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}