===== HISTÓRICO ===== Há primeiro uma [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] no [[lexico:t:termo:start|termo]] [[lexico:h:historia:start|história]] que designa tanto a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] histórica como a [[lexico:c:ciencia-historica:start|ciência histórica]]. Essa ambiguidade exprime um [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]], a [[lexico:s:saber:start|saber]] que o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] histórica é também um [[lexico:s:ser:start|ser]] histórico. Compreender-se-á logo que a [[lexico:i:interrogacao:start|interrogação]] "como é [[lexico:p:possivel:start|possível]] uma ciência histórica?" que nos interessa está estreitamente ligada à interrogação: "o ser histórico deve e pode transcender sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]] de ser histórico para [[lexico:a:apreender:start|apreender]] a realidade histórica na [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] de [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de ciência?" Se denominarmos [[lexico:h:historicidade:start|historicidade]] a essa natureza, surge uma segunda [[lexico:q:questao:start|questão]]: a historicidade do historiador é comparável com uma consideração da história de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com as condições das ciências? É [[lexico:n:necessario:start|necessário]] antes de mais [[lexico:n:nada:start|nada]] interrogarmo-nos acerca da própria [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de história; como o objeto História surge à consciência? [[lexico:n:nao:start|Não]] pode provir da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] [[lexico:n:natural:start|natural]] que se refere ao desenrolar no [[lexico:t:tempo:start|tempo]]; não é porque o sujeito se encontra na história" que ele é [[lexico:t:temporal:start|temporal]], mas "se ele só existe e só pode [[lexico:e:existir:start|existir]] historicamente é que no fundo de seu ser ele é temporal". Que significaria, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], uma história na qual o sujeito se encontraria, um objeto histórico em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]? Tomemos de [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] o [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] de um [[lexico:m:movel:start|móvel]] antigo, [[lexico:c:coisa:start|coisa]] histórica. O móvel’ é coisa histórica não só porque é um objeto eventual da ciência histórica mas em si mesmo. Mas [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]], em si, o [[lexico:f:fato-historico:start|fato histórico]]? Será porque ele é ainda de algum [[lexico:m:modo:start|modo]] aquilo que era? Nem isso, pois ele mudou, se degradou etc. . . Será então porque ele é "velho", fora de [[lexico:u:uso:start|uso]]? Mas ele pode não o ser, ainda que seja móvel antigo. O que então é passado nesse móvel? É — responde Heidegger, o "[[lexico:m:mundo:start|mundo]]" de que fazia [[lexico:p:parte:start|parte]]; assim essa coisa subsiste ainda [[lexico:a:agora:start|agora]] e por isso ela está presente e só pode [[lexico:e:estar:start|estar]] presente; mas enquanto objeto que pertence a um mundo passado, esta coisa presente é passada. Por conseguinte, o objeto é realmente histórico em si mesmo, mas secundariamente apenas; ele é histórico apenas porque sua proveniência se deve a uma [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]], a uma [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] que foi presente. Mas essa subjetividade, por sua vez, que significa? Que significa para ela o [[lexico:f:fato:start|fato]] de [[lexico:t:ter:start|ter]] [[lexico:e:estado:start|Estado]] presente? Eis-nos, portanto de volta do histórico secundário a um histórico [[lexico:p:primario:start|primário]] ou melhor originário. Se a [[lexico:c:condicao:start|condição]] do histórico do móvel não está no móvel mas no histórico do mundo [[lexico:h:humano:start|humano]] em que [[lexico:e:esse:start|esse]] móvel se encontrava, que condições nos garantem que esse histórico seja originário? Dizer que a consciência é histórica não é apenas dizer que existe algo como o tempo para ela mas que ela é tempo. Ora, a consciência é sempre consciência de [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] e uma elucidação tanto psicológica como fenomenológica da consciência vai revelar uma [[lexico:s:serie:start|série]] infinita de intencionalidades, isto é, de consciências de. Neste [[lexico:s:sentido:start|sentido]] a consciência é um fluxo de vivências (Erlehnisse) que estão todos no presente. Do lado [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], não há qualquer [[lexico:g:garantia:start|garantia]] de continuidade histórica; mas em direção do pólo [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] qual a condição de [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] dessa onda unitária de vivências? "Apesar de estar entrelaçado deste modo especial com todas as vivências o [[lexico:e:eu:start|eu]] que as vive não é, entretanto, de modo algum algo que possa ser considerado [[lexico:p:por-si:start|por si]] e tratado como um objeto [[lexico:p:proprio:start|próprio]] de [[lexico:e:estudo:start|estudo]]. Se fazemos [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] de suas maneiras de se relacionar e comportar. . ., não possui nenhum conteúdo que se possa explicitar: ele é em si e por si indescritível: [[lexico:e:eu-puro:start|eu puro]] e nada mais" ([[lexico:h:husserl:start|Husserl]], Ideen I, 271). O [[lexico:p:problema:start|problema]] ao qual a elaboração do problema da ciência histórica conduz é pois, atualmente, o seguinte: já que a História não pode ser dada ao sujeito pelo objeto, é por que o sujeito é ele mesmo histórico, não [[lexico:p:por-acidente:start|por acidente]] mas originariamente. Como, isto posto, a historicidade do sujeito é compatível com sua [[lexico:u:unidade:start|unidade]] e sua [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]]? Esse problema da unidade de uma [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] é igualmente válido para a [[lexico:h:historia-universal:start|história universal]]. Uma [[lexico:f:formula:start|fórmula]] célebre de [[lexico:h:hume:start|Hume]] pode esclarecer melhor esse problema: "O sujeito nada mais é que uma série de estados que se pensa a si mesmo". Estamos novamente diante da série dos Erlehnisse. A unidade dessa série seria dada por um [[lexico:a:ato:start|ato]] de [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:i:imanente:start|imanente]] a essa série; mas esse ato, como observa Husserl, se junta à serie como um Erlehnisse suplementar para o qual seria preciso uma nova tomada sintética da série, isto é, uma nova [[lexico:v:vivencia:start|vivência]]: estaremos pois, primeiramente, diante de uma série inacabada, e cuja unidade sobretudo será sempre discutível. Ora, a unidade do eu não é discutível. "Não ganhamos nada em transportar o tempo das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] em nós, se renovamos "na consciência" o [[lexico:e:erro:start|erro]] de defini-lo como uma sucessão de agora" ([[lexico:m:merleau-ponty:start|Merleau-Ponty]], [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] da [[lexico:p:percepcao:start|Percepção]], 472); nisto é que a fenomenologia procura se desligar do [[lexico:b:bergsonismo:start|bergsonismo]]. É claro que o passado é como [[lexico:n:noesis:start|noesis]] um "agora" ao mesmo tempo que um "não mais" como [[lexico:n:noema:start|noema]],- o [[lexico:f:futuro:start|futuro]] um "agora" ao mesmo tempo que um "não ainda" e, por conseguinte, não se deve dizer que o tempo se escoa na consciência, pois, ao contrário, é a consciência que, a partir de seu agora, desdobra ou constitui o tempo. Poder-se-ia dizer que a consciência intencionaliza agora o isto de que ela é consciência segundo o modo do não mais, ou segundo o modo do ainda, ou finalmente o modo da [[lexico:p:presenca:start|presença]]. Mas a consciência seria então contemporânea de todos os tempos, se é a partir de seu agora que ela desdobra o tempo: uma consciência constitutiva do tempo seria intemporal. A [[lexico:f:fim:start|fim]] de evitar a [[lexico:i:imanencia:start|imanência]], pouco satisfatória, da consciência no tempo, caímos numa imanência do tempo na consciência, isto é, numa [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] da consciência ao tempo que deixa inexplicada a [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]] dessa consciência. Em certo sentido não avançamos um passo desde a [[lexico:p:posicao:start|posição]] do problema: a consciência e especialmente a consciência histórica, ao mesmo tempo que envolve o tempo é envolvido por ele. Mas, em [[lexico:o:outro:start|outro]] sentido elaboramos o problema sem prever a solução, preocupados de colocá-lo corretamente; o tempo, e por conseguinte a história, não é apreensível em si, ele deve ser devolvido à consciência que se tem da história; a [[lexico:r:relacao:start|relação]] imanente dessa consciência e sua história não pode ser compreendida nem horizontalmente como série que se desenvolve, pois não se tira uma unidade de uma [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]], nem verticalmente como consciência [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] que postula a história, pois de uma unidade intemporal não se obtém uma continuidade temporal. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}