===== HISTORICISMO ALEMÃO ===== O século XVTII foi o século dos grandes historiadores alemães da [[lexico:p:politica|política]], da [[lexico:a:arte|arte]], da [[lexico:f:filologia|filologia]] e da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]: basta recordar os nomes de Leopold Ranke (1795-1886), autor de uma [[lexico:h:historia|História]] dos papas nos séculos XVI e XVII e de uma História da Alemanha nos tempos da [[lexico:r:reforma|Reforma]]; de Berthold Niebuhr (1776-1831), que escreveu uma História romana; de Theodor Mommsen(1817-1903), autor de monumental História romana; de Jakob Burckardt (1818-1897), de [[lexico:q:quem|quem]] é justamente famosa a [[lexico:o:obra|obra]] A [[lexico:c:civilizacao|civilização]] do [[lexico:r:renascimento|Renascimento]] na Itália; de Karl Julius Beloch (1854-1929), que escreveu importante História grega; de Gustav Droysen (1808-1884), autor de uma História do helenismo; de Eduard Zeller (1814-1908), cuja A filosofia dos gregos em seu [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] [[lexico:h:historico|histórico]] continua fundamental. A história da política e da [[lexico:e:economia|economia]], da [[lexico:r:religiao|religião]] e da arte, da filosofia e da filologia encontra no século XVTII alemão o seu século de ouro, que foi [[lexico:c:chamado|chamado]] de "o século da história". Erwin Rohde (1845-1898) e Ulrich Wümowitz-Mõllendorff (1848-1931), dois grandes filólogos, foram protagonistas de um debate sobre as teorias que [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] havia proposto a propósito do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:g:grego|grego]]. E [[lexico:n:nao|não]] devemos esquecer que é nesse período que se realiza o paciente [[lexico:t:trabalho|trabalho]] de coleta [[lexico:s:sistematica|sistemática]] e recuperação dos textos literários e papíricos [[lexico:r:relativos|relativos]] aos epicuristas (Hermann Usener), aos estoicos (Hans von Arnim) e aos [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]] (Hermann Diels). O século XVIII também assistiu a portentoso desenvolvimento da [[lexico:l:linguistica|linguística]] histórica e da linguística comparada (falamos de Franz e Jacob Grimm). Ademais, foi intenso o [[lexico:i:interesse|interesse]] pela história do [[lexico:d:direito|direito]] na "[[lexico:e:escola-historica|Escola Histórica]]" de F. C. von Savigny (1779-1861), que quis mostrar como as instituições jurídicas não são fixadas pela [[lexico:e:eternidade|Eternidade]], mas sim produtos da [[lexico:c:consciencia|consciência]] de [[lexico:m:momento|momento]] preciso. Nesse interesse pela história certamente se encontra a [[lexico:i:influencia|influência]] do [[lexico:r:romantismo|Romantismo]], do seu [[lexico:s:sentido|sentido]] da [[lexico:t:tradicao|tradição]], do seu [[lexico:c:culto|culto]] pela consciência coletiva dos povos, da sua tentativa de reviver o passado em sua própria [[lexico:p:posicao|posição]] histórica. E, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, justamente com a [[lexico:a:abstracao|abstração]] de sua [[lexico:f:filosofia-da-historia|filosofia da história]], [[lexico:h:hegel|Hegel]] ensinara a [[lexico:v:ver|ver]] a história não como um amontoado de fatos separados uns dos outros, e sim como uma [[lexico:t:totalidade|totalidade]] em desenvolvimento dialético. Com base nesses [[lexico:e:elementos|elementos]], não é difícil [[lexico:c:compreender|compreender]] a [[lexico:g:genese|gênese]] e o desenvolvimento do [[lexico:m:movimento|movimento]] filosófico conhecido com o [[lexico:n:nome|nome]] de [[lexico:h:historicismo|historicismo]] e cujos representantes mais conhecidos, [[lexico:a:alem|além]] de Max [[lexico:w:weber|Weber]] (do qual falaremos à [[lexico:p:parte|parte]], dada a relevância, a complexidade e a válida e grande influência de sua obra), são Wilhelm [[lexico:d:dilthey|Dilthey]] (1833-1911), Georg [[lexico:s:simmel|Simmel]] (1858-1918). Oswald Splenger (1880-1936), Ernst [[lexico:t:troeltsch|Troeltsch]] (1865-1923) e Friedrich [[lexico:m:meinecke|Meinecke]] (1862-1954). A esses, costuma-se acrescentar os nomes de Wilhelm [[lexico:w:windelband|Windelband]] (1848-1915) e de Heinrich [[lexico:r:rickert|Rickert]] (1863-1936), que estão ligados mais propriamente à "[[lexico:f:filosofia-dos-valores|filosofia dos valores]]" dentro do [[lexico:n:neocriticismo|neocriticismo]], mas dos quais não se pode deixar de [[lexico:f:falar|falar]] em uma [[lexico:e:exposicao|exposição]] sobre o historicismo, por razões que explicitaremos. O historicismo surge nos últimos dois decênios do século passado e se desenvolve até a vigília da Segunda [[lexico:g:guerra|guerra]] Mundial. Como escreve Pedro Rossi, a primeira [[lexico:e:expressao|expressão]] do movimento historicista alemão foi a Introdução às [[lexico:c:ciencias-do-espirito|ciências do espírito]], de Dilthey (1883), e sua última grande [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] — um re-exame retrospectivo das [[lexico:o:origens|origens]] do historicismo, além de [[lexico:t:testemunho|testemunho]] de sua crise final — o constitui a obra Origens do historicismo (1936), de Meinecke. Assim, o arco do desenvolvimento [[lexico:t:temporal|temporal]] do historicismo abrange acontecimentos como a Primeira Guerra Mundial, a ruína do poder germânico, a [[lexico:r:revolucao|Revolução]] Russa de 1917, a difusão do [[lexico:m:marxismo|marxismo]], a [[lexico:r:republica|República]] de Weimar, o nascimento do fascismo e do nazismo e os preparativos para o segundo grande conflito internacional. E é certo que esses acontecimentos não foram [[lexico:i:indiferentes|indiferentes]] para os filósofos do historicismo. O [[lexico:h:historicismo-alemao|historicismo alemão]] não é uma filosofia compacta. Entretanto, entre as suas várias expressões, é [[lexico:p:possivel|possível]] detectar certo "[[lexico:a:ar|ar]] de [[lexico:f:familia|família]]", identificável nos seguintes pontos: 1) Como diz Meinecke, "o primeiro [[lexico:p:principio|princípio]] do historicismo consiste em substituir a consideração generalizante e abstrativa das forças histórico-humanas pela consideração do seu [[lexico:c:carater|caráter]] individual". 2) Para o historicismo, a história não é a realização de um princípio espiritual [[lexico:i:infinito|infinito]] (Hegel) ou, como queriam os românticos, uma [[lexico:s:serie|série]] de manifestações individuais da [[lexico:a:acao|ação]] do "[[lexico:e:espirito|Espírito]] do mundo" que se encarna em cada "Espírito dos povos". Para os historicistas alemães contemporâneos, a história é obra dos homens, ou seja, de suas [[lexico:r:relacoes|relações]] recíprocas, condicionadas pela sua pertença a um [[lexico:p:processo|processo]] temporal. 3) Do [[lexico:p:positivismo|positivismo]], os historicistas rejeitam a filosofia comtiana da história e a pretensão de reduzir as ciências históricas ao [[lexico:m:modelo|modelo]] das ciências naturais, não obstante os historicistas concordem com os positivistas na exigência de [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] concreta dos fatos empíricos. 4) Com o neocriticismo, os historicistas vêem a [[lexico:f:funcao|função]] da filosofia como função [[lexico:c:critica|crítica]], voltada para a [[lexico:d:determinacao|determinação]] das condições de [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]], isto é, o [[lexico:f:fundamento|fundamento]], do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] e das [[lexico:a:atividades|atividades]] humanas. O historicismo estende o âmbito da crítica kantiana a [[lexico:t:todo|todo]] aquele conjunto de ciências que [[lexico:k:kant|Kant]] não considera, ou seja, as ciências histórico-sociais. E por isso que uma exposição sobre o historicismo não pode excluir Windelband e Rickert, ou seja, os neocriticistas, que se haviam proposto nos mesmos termos o [[lexico:p:problema|problema]] das ciências histórico-sociais. 5) É fundamental para o historicismo a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre história e [[lexico:n:natureza|natureza]], como também o é o [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] de que os objetos do conhecimento histórico são específicos, no sentido de serem diferentes dos objetos do conhecimento [[lexico:n:natural|natural]]. 6) O problema cardeal em torno do qual gira o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] historicista alemão é o de encontrar as razões da distinção das ciências histórico-sociais em [[lexico:r:relacao|relação]] às ciências naturais e investigar os [[lexico:m:motivos|motivos]] que fundamentam as ciências histórico-sociais como conjuntos de conhecimentos válidos, isto é, objetivos. 7) O [[lexico:o:objeto|objeto]] do conhecimento histórico é visto pelos historicistas como estando na [[lexico:i:individualidade|individualidade]] dos produtos da [[lexico:c:cultura|cultura]] humana (mitos, leis, [[lexico:c:costumes|costumes]], valores, obras de arte, filosofias etc), individualidade oposta ao caráter [[lexico:u:uniforme|uniforme]] e repetível dos objetos das ciências naturais. 8) Se o [[lexico:i:instrumento|instrumento]] do conhecimento natural é a [[lexico:e:explicacao|explicação]] causal (o Erklären), o instrumento do conhecimento histórico, segundo os historicistas, é o compreender (o Verstehen). 9) As [[lexico:a:acoes|ações]] humanas são ações que tendem a fins e os acontecimentos humanos são sempre vistos e julgados na [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] de valores precisos. Por isso, mais ou menos elaborada, sempre há uma [[lexico:t:teoria|teoria]] dos valores no pensamento dos historicistas. 10) Por [[lexico:f:fim|fim]] deve-se recordar que, se o problema cardeal dos historicistas é problema de natureza kantiana, no entanto, para os historicistas, o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] do conhecimento não é o sujeito [[lexico:t:transcendental|transcendental]], com suas funções [[lexico:a:a-priori|a priori]], e sim homens concretos, históricos, com poderes cognoscitivos condicionados pelo [[lexico:h:horizonte|horizonte]] e pelo contexto histórico em que vivem e atuam.