===== HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS ===== Diferentemente da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], que é ciência de um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] que [[lexico:n:nao:start|não]] é [[lexico:h:historia:start|história]], a [[lexico:h:historia-das-ciencias:start|história das ciências]] é a história de um objeto que é uma história. Neste [[lexico:s:sentido:start|sentido]], ela mantém uma [[lexico:r:relacao:start|relação]] direta com a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Porque a história das ciências é, segundo as expressões de [[lexico:b:bachelard:start|Bachelard]] e de Canguilhem, "um tecido de juízos implícitos sobre o [[lexico:v:valor:start|valor]] dos [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] e das descobertas científicos" No domínio da ciência, menos ainda do que no da filosofia, o "historiador" não tem o [[lexico:d:direito:start|direito]] de limitar-se a uma narração pretensamente objetiva nem tampouco a ficar preso a uma [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:d:descricao:start|descrição]] cronológica. A [[lexico:f:funcao:start|função]] e o sentido de uma história das ciências precisam [[lexico:e:estar:start|estar]] referidos ao "[[lexico:m:modelo:start|modelo]] da [[lexico:e:escola:start|escola]] ou do tribunal, de uma [[lexico:i:instituicao:start|instituição]] ou de um [[lexico:l:lugar:start|lugar]] onde se possa emitir juízos sobre o passado do [[lexico:s:saber:start|saber]], sobre o saber do passado". Por isso, a história das ciências está ligada a uma [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] que poderíamos chamar de "panhistoricidade" na qual devem [[lexico:s:ser:start|ser]] levados em conta, não somente os discursos, mas as "idealidades" e, mesmo, os referentes. Neste sentido, só se torna eficaz com a [[lexico:c:condicao:start|condição]] de vincular-se à consciência da [[lexico:h:historicidade:start|historicidade]], não somente da própria ciência ("só há história da [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]]", diz Derrida), mas do objeto da ciência. A este [[lexico:r:respeito:start|respeito]], Michel [[lexico:s:serres:start|Serres]] é mais radical que Canguilhem: "Se os objetos do [[lexico:c:ceu:start|céu]] pareciam a nossos antecessores tão estáveis e puros quanto as idealidades do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:t:teorico:start|teórico]], doravante sabemos que o rigor e a pureza estão em [[lexico:d:devir:start|devir]] ao mesmo título que as estrelas que nascem, envelhecem e morrem. A [[lexico:t:teoria:start|teoria]] é uma história, a pureza possui um [[lexico:t:tempo:start|tempo]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]], como a cosmologia tem, doravante, sua [[lexico:c:cosmogonia:start|cosmogonia]]". Sabemos que a história das "mentalidades", das "[[lexico:i:ideias:start|ideias]]", das "atitudes" ou, simplesmente, do "pensamento" versa sobre fenômenos culturais, vale dizer, coletivos. Sendo assim, a filosofia não dependeria dessa história. No entanto, há uma historicidade da filosofia, historicidade específica, pensada e feita pelos próprios filósofos. Mas esta história não consiste numa [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] de teses dispostas segundo a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] cronológica de sua formulação. O que ela tenta fazer é descrever, em cada [[lexico:o:obra:start|obra]], os percursos segundo os quais os autores pensaram estabelecer essas teses, ou seja, a ordem de suas razões. Todavia, posto que a filosofia pretende ser uma escola de [[lexico:v:vida:start|vida]], e não uma [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] desencarnada, precisa "morder" a [[lexico:r:realidade:start|realidade]], porque deve estar [[lexico:c:consciente:start|consciente]] de que os problemas são mais importantes do que os autores. A [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] constitui, no interior de certos limites, um [[lexico:m:meio:start|meio]] excelente, nunca um [[lexico:f:fim:start|fim]]. Para evitarmos o irrealismo, talvez fosse [[lexico:i:interessante:start|interessante]] não nos esquecer dessa [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] ‘primum vivere, deinde philosophare, denique narrare historiam philosophiae’. Evidentemente, para sabermos o que os filósofos quiseram dizer, precisamos saber como e em que condições eles conseguiram estabelecer o que quiseram dizer, numa [[lexico:p:palavra:start|palavra]], as condições objetivas em que seu saber foi produzido. Porque a filosofia não pode separar-se de sua história, de seu [[lexico:m:modo:start|modo]] de produzir filosofia. Suas "verdades" não são intemporais, subsistindo fora das condições reais que as engendraram, fora dos esforços sucessivos para sua aquisição. Diferentemente das chamadas ciências positivas, ela não admite verdades atualmente consideradas como adquiridas. Para ela, a historicidade nunca é um [[lexico:a:acidente:start|acidente]] [[lexico:e:exterior:start|exterior]]. Constitui seu [[lexico:e:elemento:start|elemento]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] e [[lexico:c:constitutivo:start|constitutivo]]. E por isso que a história da filosofia mantém uma relação muito estreita com a história das ciências, mas estreita do que com a história e com a ciência propriamente ditas. Porque ela é um conjunto de juízos sobre o valor das descobertas científicas em suas condições sócios-histórias [[lexico:b:bem:start|Bem]] precisas. Koyré tinha plena consciência, como observa G. Jorland (La science dans la philosophie, Gallimard, 1981, p. 71s), de que há várias maneiras de se fazer a história das ciências: a) pode ser apresentada como uma cronologia das descobertas, das vitórias da [[lexico:r:razao:start|razão]] sobre a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] ou, ao contrário, como um "graveyard of forgotten theories", como uma história dos erros humanos; b) mas também pode ser vinculada à história da [[lexico:t:tecnica:start|técnica]], de [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] [[lexico:s:social:start|social]], da [[lexico:l:luta:start|luta]] de classes, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que a ciência [[lexico:m:moderna:start|moderna]] constituiu uma vitória da burguesia sobre o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] feudal. Mas ele não aceita nenhuma dessas duas possibilidades: a primeira só faz sentido quando se investe a história de uma [[lexico:l:logica:start|lógica]] dos resultados que a normaliza, que a retifica com [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] [[lexico:a:apologetica:start|apologética]]; quanto à segunda, não leva em conta o papel fundamental exercido pelas matemáticas e pela [[lexico:a:astronomia:start|astronomia]], muito mais voltadas para o [[lexico:i:interesse:start|interesse]] teórico da [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] do [[lexico:u:universo:start|universo]]. Seu modo de praticar a história das ciências é primordialmente filosófico: busca descobrir os processos do pensamento em direção à [[lexico:v:verdade:start|verdade]]. Não está preocupado em [[lexico:e:explicar:start|explicar]], de [[lexico:f:forma:start|forma]] causal, a [[lexico:e:emergencia:start|emergência]] do [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]], mas em [[lexico:c:compreender:start|compreender]], de modo "empático", as atitudes dos criadores da ciência moderna, vale dizer, adotando uma [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] intelectual consistindo em transportar-se, por [[lexico:i:intuicao:start|intuição]], no interior mesmo de seu pensamento a fim de elucidar suas motivações e de compreender sua estrutura e seu [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]]. Prefere detectar os [[lexico:m:motivos:start|motivos]] do que as [[lexico:c:causas:start|causas]]. As causas agem, determinam e necessitam: pertencem à natureza. Quanto aos motivos, não agem e nem mesmo são reais. As causas destroem a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]], diz Koyré, enquanto os motivos a preservam: a [[lexico:a:acao:start|ação]] motivada escapa ao encadeamento das causas da natureza. O [[lexico:h:homem:start|homem]] explica por causas naturais ou sociais, mas compreende por causas intelectuais e imanentes, quer dizer, por motivações. E desta forma que o historiador precisa re-representar o passado. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}