===== HISTÓRIA ===== VIDE História O [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] do passado da [[lexico:h:humanidade|humanidade]]; [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] [[lexico:a:atual|atual]] da [[lexico:v:vida|vida]] humana. — Em seu [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:i:imediato|imediato]], a história é o conhecimento da [[lexico:o:origem|origem]] e da [[lexico:e:evolucao|evolução]] da humanidade, particularmente dos povos e nações. A [[lexico:q:questao|questão]] fundamental que se coloca a [[lexico:r:respeito|respeito]] dela é [[lexico:s:saber|saber]] se pode tomar a [[lexico:f:forma|forma]] de uma [[lexico:c:ciencia|ciência]]. 1.° A história pura, tal como era entendida outrora, tinha o [[lexico:h:habito|hábito]] de só considerar os "acontecimentos", isto é, os fatos únicos, sem [[lexico:r:repeticao|repetição]], ligados em [[lexico:g:geral|geral]] à [[lexico:e:existencia|existência]] de personagens históricos. "Os tenentes de Napoleão escrutavam seu [[lexico:h:humor|humor]] para conhecer o [[lexico:d:destino|destino]] do [[lexico:m:mundo|mundo]]." Desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, [[lexico:n:nao|não]] há ciência, e sim uma constatação dos fatos. 2.° A ciência define-se como um conhecimento das leis. Ora, a [[lexico:a:analise|análise]] [[lexico:m:moderna|moderna]] da história descobriu precisamente nela leis que ultrapassam toda [[lexico:v:vontade|vontade]] individual. É a concepção dita "sociológica" da história. Em [[lexico:g:guerra|guerra]] e [[lexico:p:paz|paz]], Tolstoi mostra Kutuzov recusando a tomar qualquer iniciativa individual, deixando agir o conjunto de leis sociais e humanas cujo brinquedo somos nós. Karl [[lexico:m:marx|Marx]] buscou na infra-estrutura [[lexico:e:economica|econômica]] de um país a [[lexico:l:lei|lei]] de seu [[lexico:f:futuro|futuro]] [[lexico:p:politico|político]] e [[lexico:s:social|social]]. Na [[lexico:r:realidade|realidade]], se é [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] que o desenvolvimento econômico de um país obedece a leis gerais (como mostrou F. Simiand), a história, em sua realidade concreta, é absolutamente imprevisível: uma guerra pode modificar o mundo sem que ninguém a tenha previsto. É que a história das sociedades, no fundo, é de [[lexico:n:natureza|natureza]] [[lexico:p:politica|política]] e depende de fatores humanos para os quais não existe lei absoluta. Correlativamente, o conhecimento [[lexico:h:historico|histórico]] de uma [[lexico:e:epoca|época]] requer, [[lexico:a:alem|além]] da ciência dos fatos que a marcaram, uma [[lexico:s:simpatia|simpatia]], uma [[lexico:c:compreensao|compreensão]] interna do [[lexico:m:meio|meio]], da atmosfera humana que nela reinava. Devido a isso* o historiador é mais um [[lexico:i:interprete|intérprete]] do que [[lexico:s:sabio|sábio]]: um historiador comunista negligenciará a importância da [[lexico:r:revolucao|revolução]] burguesa de 1789 e se estenderá longamente sobre o papel de Robespierre. Não explicamos objetivamente o passado, compreendê-mo-lo subjetivamente. Em seu segundo sentido, a história atual coloca um [[lexico:p:problema|problema]] de "[[lexico:p:prospectiva|prospectiva]]". É o que os governantes encontram todos os dias para resolver as questões relativas ao desenvolvimento e à [[lexico:d:divisao|divisão]] da [[lexico:e:economia|economia]] de um país, às tendências das populações etc: só o conhecimento conjugado do passado, das leis econômicas, das realidades psicológicas e humanas pode dar às prospectivas um [[lexico:v:valor|valor]] [[lexico:o:objetivo|objetivo]]. Em sentido muito amplo (1) é [[lexico:t:todo|todo]] acontecer. Assim, falamos de uma história da [[lexico:t:terra|Terra]], de uma historia [[lexico:n:natural|natural]]. Mas, em sentido [[lexico:e:estrito|estrito]] e [[lexico:p:proprio|próprio]] (2), o vocábulo "história" desliga-se do acontecer da natureza, [[lexico:n:necessario|necessário]] e univocamente explicável por suas [[lexico:c:causas|causas]] eficientes, o qual é [[lexico:s:simples|simples]] caso de uma lei, e designa o acontecer [[lexico:h:humano|humano]], que tem sua [[lexico:r:raiz|raiz]] na livre auto-realização e [[lexico:d:decisao|decisão]] do [[lexico:e:espirito|espírito]]. Realiza-se no [[lexico:e:espaco|espaço]] e no [[lexico:t:tempo|tempo]], na [[lexico:c:coexistencia|coexistência]] e [[lexico:s:sucessao|sucessão]] de raças e povos, dentro das múltiplas limitações da natureza infra-espiritual [[lexico:e:exterior|exterior]] e interior ao [[lexico:h:homem|homem]]. Tais limitações da humana atuação, não sobrevêm acidentalmente; pelo contrário, dimanam da [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]] (Homem). Por esta forma, a história (2) mostra [[lexico:s:ser|ser]] como que o [[lexico:m:modo|modo]] de operar especificamente humano (história como espaço vital e ordenação vital do homem). Pertence à [[lexico:e:essencia|essência]] do homem [[lexico:e:estar|estar]] na história e fazer história; tudo quanto faz, fá-lo como [[lexico:e:ente|ente]] histórico. Inclusive o [[lexico:c:caminho|caminho]] direto de seu espírito para [[lexico:d:deus|Deus]] é [[lexico:t:transcendencia|transcendência]], [[lexico:s:superacao|superação]], que nunca, até à [[lexico:m:morte|morte]], abandona inteiramente o mundo e a história. Por isso, o homem só pode desempenhar-se de sua missão supratemporal cumprindo honrosamente sua [[lexico:t:tarefa|tarefa]] histórica (história como [[lexico:c:campo|campo]] de [[lexico:p:prova|prova]] do homem). Para que um acontecer seja histórico, deve [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:r:relacao|relação]] com o homem, e não só com o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] enquanto tal, senão com o humano em geral. O homem é membro da humanidade não imediatamente, mas através de um [[lexico:g:grupo|grupo]], [[lexico:r:raca|raça]] ou [[lexico:n:nacao|nação]]. Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], o acontecer histórico [[lexico:p:parte|parte]] sempre de pessoas individuais responsáveis, mas está essencialmente relacionado com a [[lexico:c:comunidade|comunidade]]. Podemos [[lexico:f:falar|falar]] de [[lexico:n:necessidade|necessidade]] histórica no sentido de uma [[lexico:l:limitacao|limitação]] da [[lexico:l:liberdade|liberdade]] e de suas possibilidades, devida à parte infra-espiritual da natureza humana, aos limites de sua [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], a fatos historicamente ocorridos, dotados de [[lexico:l:logica|lógica]] interna e de seu [[lexico:p:peso|peso]] natural, nunca porém no sentido de suprimir a decisão livre e responsável. Historicamente fecundo é só o acontecer que, alimentado pelas forças maternas do passado ([[lexico:t:tradicao|tradição]]), satisfaz aos impulsos que apontam para o futuro. As decisões eticamente defeituosas trazem consigo sua vingança, senão nos efeitos próximos, certamente nos remotos. —? A história é importante para a [[lexico:a:antropologia-filosofica|antropologia filosófica]], tanto no que tange à sua essência geral (enquanto desenvolvimento [[lexico:d:dinamico|dinâmico]] da humana natureza e, por isso, enquanto caminho para conhecê-la), quanto em sua forma concreta, porque a essência da história só se patenteia no [[lexico:c:concreto|concreto]]. Recebe ainda o [[lexico:n:nome|nome]] de história (3) a [[lexico:i:investigacao|investigação]] da história (2) (= ciência história) e sua [[lexico:e:exposicao|exposição]] (p. ex., história da Guerra de Trinta Anos). Segundo a maneira desta exposição, a história será narrativa, [[lexico:p:pragmatica|pragmática]] (de [[lexico:f:finalidade|finalidade]] prática, docente) ou [[lexico:g:genetica|genética]] (evolutiva). — [[lexico:b:brugger|Brugger]]. O problema historiográfico consiste em reconstituir acontecimentos passados a partir de documentos presentes e em chegar a [[lexico:c:compreender|compreender]] estes acontecimentos. Decompõe-se, portanto, em dois subproblemas: primeiro, trata-se de passar dos documentos aos acontecimentos e, em seguida, de [[lexico:e:explicar|explicar]] estes últimos. O primeiro subproblema nos conduz a uma [[lexico:t:teoria|teoria]] da [[lexico:o:objetivacao|objetivação]]. Precisamos compreender como as intenções e as [[lexico:a:acoes|ações]] dos atores se projetam nos signos exteriores, cujo vestígio pode se conservar, a maneira como vêm a depositar-se nos suportes transmissíveis através do tempo. Se conseguirmos elaborar tal teoria, teremos à nossa [[lexico:d:disposicao|disposição]] um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] que nos permitirá ascender dos signos às ações e intenções dos atores, ou seja, aos acontecimentos e à sua [[lexico:s:significacao|significação]]. (...) Não é [[lexico:p:possivel|possível]] abstrair o papel representado pela [[lexico:s:situacao|situação]] histórica do historiador na elaboração de seu [[lexico:s:sistema|sistema]] de [[lexico:e:explicacao|explicação]]. Uma verdadeira validação dos processos da história supõe que se esclareça a situação do historiador. Para tanto, em se tratando de uma explicação em termos de [[lexico:p:projeto|projeto]], será preciso poder elucidar completamente a natureza do projeto. Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], será preciso poder efetuar uma [[lexico:r:reflexao|reflexão]] total. Mas tal reflexão é possível? Não existe, em todo projeto, um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] [[lexico:i:implicito|implícito]] que não se deixa apossar integralmente pela reflexão? Não se fará necessário levar em conta também as motivações inconscientes, inatingíveis pela reflexão, acessíveis apenas através de uma análise de [[lexico:t:tipo|tipo]] hermenêutico, tal como a [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]], de que mais adiante trataremos? Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, em se tratando de uma explicação em termos de sistemas, no caso em que a explicação considerada apoiar-se numa teoria de tipo [[lexico:f:fisico|físico]], será necessário conseguir reduzi-la completamente a uma explicação em termos físicos, como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], a uma explicação de tipo cibernético, e, no caso em que a explicação apoiar-se numa [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], fornecer uma [[lexico:j:justificacao|justificação]] completa desta filosofia e do papel que se lhe atribui. Num caso como no outro, a teoria histórica é incapaz de fundar-se a si mesma; para justificá-la, é mister passar para um outro tipo de [[lexico:d:discurso|discurso]]. Entretanto, poderíamos [[lexico:p:pensar|pensar]] em dois outros tipos de justificação, seja por uma metateoria, seja em nome de um [[lexico:c:criterio|critério]] pragmatista. Poderíamos tentar deixar ao discurso do historiador sua especificidade e justificá-lo por meio de uma metateoria que fosse capaz de considerar de fora a situação do historiador. Mas tal metateoria haveria de ser ou de tipo formalizado, ou não; no primeiro caso, estaremos novamente implicados em outro tipo de discurso, e no segundo, ou reencontramos uma teoria [[lexico:f:fisica|física]] ou filosófica, ou nos envolveremos com uma teoria em torno da qual reco-locar-se-ão os mesmos problemas que se colocam para a própria teoria histórica. Todavia, poderíamos ainda apelar para um critério pragmatista. Diremos, por exemplo, que o ponto de vista [[lexico:a:adequado|adequado]] e que deve ser tido como justificado é o ponto de vista mais progressista. E definiremos tal ponto de vista como aquele que é capaz de exprimir a [[lexico:t:totalidade|totalidade]]. Mas isto pressupõe uma certa filosofia, segundo a qual, além de efetivamente [[lexico:e:existir|existir]] a cada [[lexico:i:instante|instante]] um ponto de vista da totalidade, este ponto de vista pode ser explicitado e descrito num discurso [[lexico:a:apropriado|apropriado]]. Somos novamente obrigados a invocar um discurso de outro tipo. Em [[lexico:s:suma|suma]], qualquer que seja o caminho seguido, somos sempre reconduzidos a uma outra [[lexico:i:instancia|instância]]. Assim, o problema da justificação da [[lexico:h:hermeneutica|hermenêutica]] histórica vem a ser o problema da justificação de uma [[lexico:r:reducao|redução]] a um discurso psicanalista, ou o problema do [[lexico:f:fundamento|fundamento]] de um discurso filosófico, ou o da [[lexico:c:capacidade|capacidade]] fundadora de um discurso metateórico [[lexico:f:formal|formal]]. [Ladrière]