===== HIPÓTESE ===== (gr. [[lexico:h:hypothesis:start|hypothesis]]; in. Hypothesis; fr. Hypothèse; al. Hypothese; it. Ipotesí). Em [[lexico:g:geral:start|geral]], um [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] (ou conjunto de enunciados) que só pode [[lexico:s:ser:start|ser]] comprovado, examinado e verificado indiretamente, através das suas consequências. Portanto, a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] da hipótese é que ela [[lexico:n:nao:start|não]] inclui nem [[lexico:g:garantia:start|garantia]] de [[lexico:v:verdade:start|verdade]] nem a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] direta. Uma [[lexico:p:premissa:start|premissa]] evidente não é uma hipótese, mas, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:c:classico:start|clássico]] do [[lexico:t:termo:start|termo]], um [[lexico:a:axioma:start|axioma]]. Um enunciado verificável é uma [[lexico:l:lei:start|lei]] ou uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] empírica, não uma hipótese. Uma hipótese pode ser verdadeira, mas sua verdade só pode resultar da verificação de suas consequências. Era neste sentido que [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] entendia a hipótese, pois mesmo usando vez por outra [[lexico:e:esse:start|esse]] termo em sentido muito amplo, como premissa de [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] (compare, p. ex., Met., V, 1, 1013 a 16; 1913 b 20; Fts., II, 3, 195 a 18), define-a em seu [[lexico:s:significado:start|significado]] específico, excluindo-a do [[lexico:c:campo:start|campo]] das premissas necessárias: "Aquilo que é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] que seja e que é necessário que pareça necessário, não é hipótese nem [[lexico:p:postulado:start|postulado]]" (An. post, 1,10, 76 b 23). Axiomas e definições constituem as premissas necessárias do [[lexico:s:silogismo:start|silogismo]]; hipótese e postulados são as premissas não necessárias. Em [[lexico:p:particular:start|particular]], as [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] estabelecem a [[lexico:e:existencia:start|existência]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] definidas. As definições — diz ele — devem apenas levar-nos a [[lexico:c:compreender:start|compreender]] aquilo de que se [[lexico:f:fala:start|fala]]; as hipóteses estabelecem sua existência, para deduzir as conclusões (Ibid., I, 10, 76b 35 ss.). Consequentemente, os raciocínios fundados em hipótese pressupõem uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de convenção ou [[lexico:a:acordo:start|acordo]] preliminar (An. Pr., I, 44, 50 a 33) e não têm o [[lexico:v:valor:start|valor]] probatório dos que se fundam em definições (Ibid., I, 23, 40b 22). Esta [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] da hipótese como premissa de [[lexico:g:grau:start|grau]] ou [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] inferior, isenta da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] própria das premissas autênticas, é característica da [[lexico:p:posicao:start|posição]] de Aristóteles. Não se encontra em [[lexico:p:platao:start|Platão]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] as premissas devem ser escolhidas com base no [[lexico:j:juizo:start|juízo]] [[lexico:c:comparativo:start|comparativo]], que se orienta para aquela que é "a mais forte" ou "a melhor" entre elas (Fed., 100a; 101d). Platão observa que a [[lexico:m:matematica:start|matemática]] e, em geral, as disciplinas propedêuticas não partem de hipótese, mas que "deixam-nas intocadas por não serem capazes de explicá-las" (Rep., VII, 533c). Em [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] são chamadas de hipótese todas as possíveis vias de [[lexico:i:investigacao:start|investigação]], não se privilegiando nenhuma com [[lexico:n:nome:start|nome]] diferente (Parm., 135 e). Platão declara às vezes que "investiga através da hipótese", como fazem os geômetras, ou seja, raciocinando assim: "Em certas condições, obter-se-á determinado resultado, mas se as condições forem outras, o resultado será diferente (Men., 87a). O [[lexico:u:uso:start|uso]] das hipóteses em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] estabelece uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] importante entre a filosofia de Platão e a de Aristóteles, no que concerne ao procedimento da própria filosofia e, em : geral, do [[lexico:s:saber-cientifico:start|saber científico]]. Essa diferença, porém, incide nos termos da [[lexico:n:nocao:start|noção]] geral de hipótese, como acima expressa. No âmbito dessa noção, é [[lexico:p:possivel:start|possível]] distinguir os seguintes significados específicos: 1) O [[lexico:a:antecedente:start|antecedente]] de uma proposição hipotética ou condicional, de um [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] [[lexico:a:anapoditico:start|anapodítico]] ou de um [[lexico:s:silogismo-hipotetico:start|silogismo hipotético]]. A [[lexico:l:logica:start|lógica]] estoica, ao contrário da aristotélica, privilegiou as proposições hipotéticas e os raciocínios anapodíticos, em conformidade com a formulação geral da lógica como [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] (v. lógica; dialética; condicional; [[lexico:c:consequencia:start|consequência]]; [[lexico:i:implicacao:start|implicação]]). 2) Uma proposição originária assumida como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] de um [[lexico:d:discurso:start|discurso]] científico, como p. ex. um postulado ou um axioma de matemática. Realmente, não se afirma nem se nega a verdade desses postulados ou axiomas, mas reconhece-se sua [[lexico:v:validade:start|validade]] se e na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que possibilitam o discurso matemático. Neste sentido, a matemática é denominada "[[lexico:s:sistema:start|sistema]] hipotético-dedutivo". Mas é possível encontrar proposições análogas aos postulados ou axiomas da matemática — e como eles assumidos por hipótese — em todas as ciências que alcançaram certo grau de elaboração conceitual. 3) Uma [[lexico:c:condicao:start|condição]] qualquer. Este é o significado do termo na [[lexico:e:expressao:start|expressão]] ex hipothesi: Aristóteles fala daquilo que é "necessário por hipótese", ou seja, em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de determinada condição (Fís., II, 9, 199b 34 e ss.). 4) A [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] causal dos fenômenos. Neste sentido, essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] foi usada frequentemente nos sécs. XVII e XVIII. [[lexico:l:locke:start|Locke]] advertia "para que a palavra [[lexico:p:principio:start|princípio]] não nos engane nem se nos imponha, fazendo-nos aceitar como verdade incontestável aquilo que, no melhor dos casos, [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é que uma conjectura muito duvidosa, como ocorre com a maioria das hipóteses da [[lexico:f:filosofia-natural:start|filosofia natural]], para não dizer todas" (Ensaio, IV, 12, 13). E óbvio que, para Locke, hipótese é o que anuncia os "[[lexico:p:principios:start|princípios]]", as [[lexico:c:causas:start|causas]] dos fenômenos. Ainda mais explicitamente [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] dizia: "A [[lexico:a:arte:start|arte]] de descobrir as causas dos fenômenos, ou as hipóteses verdadeiras, é como a arte de decifrar, na qual muitas vezes uma conjectura engenhosa abrevia em muito o [[lexico:c:caminho:start|caminho]]" (Nouv. ess., IV, 12, 13), onde "hipótese verdadeiras" e "causas dos fenômenos" são identificadas. A [[lexico:r:renuncia:start|renúncia]] de Newton ("hypotheses nonfingo" — não formulo hipóteses) refere-se exatamente a esse significado de hipótese. O [[lexico:t:texto:start|texto]] de Newton é o seguinte: "Até [[lexico:a:agora:start|agora]], não pude deduzir dos fenômenos as razões dessas propriedades da gravidade, e não formulo hipóteses. Tudo o que não se deduz dos fenômenos deve ser [[lexico:c:chamado:start|chamado]] de hipótese, e as hipóteses, tanto metafísicas quanto físicas, sejam elas de qualidades ocultas ou mecânicas, não têm [[lexico:l:lugar:start|lugar]] na filosofia [[lexico:e:experimental:start|experimental]]." A essas hipóteses ele contrapõe as causas verdadeiras, que são as "necessárias para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] os fenômenos" (Philosophiae naturalis [[lexico:p:principia-mathematica:start|Principia Mathematica]], 1687, ao final). Em Óptica (1704), Newton dizia que formular hipótese é recorrer às qualidades ocultas, assumidas como causas da [[lexico:m:metafisica-aristotelica:start|metafísica aristotélica]], às quais ele contrapunha os princípios (gravidade, fermentação, coesão), "que não considero qualidades ocultas, supostamente resultantes das formas específicas das coisas, mas leis naturais gerais, pelas quais as coisas são formadas e cuja verdade se nos manifesta pelos fenômenos, mesmo que suas causas não tenham sido descobertas" (Opticks, III, 1 q. 31). Portanto, a renúncia de Newton às hipóteses nada mais é que a renúncia à explicação em favor da [[lexico:d:descricao:start|descrição]]. Em meados do séc. XIX, a [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] entre descrição e explicação hipotética era reforçada pelo [[lexico:f:fisico:start|físico]] inglês J. Macquorn Rankine: "Segundo o [[lexico:m:metodo:start|método]] [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]], uma [[lexico:c:classe:start|classe]] de objetos e de fenômenos é definida por descrição, ou seja, mostrando-se que determinado conjunto de propriedades é comum a todos os objetos ou fenômenos da classe, e considerando-os tais como os sentidos no-los dão a perceber, sem nada introduzir de [[lexico:h:hipotetico:start|hipotético]] e só lhes atribuindo um nome ou [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]]. Pelo método hipotético, a [[lexico:d:definicao:start|definição]] de uma classe de objetos ou de fenômenos é deduzida de uma concepção conjectural acerca de sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]]." E Rankine previa o [[lexico:a:abandono:start|abandono]] gradativo das teorias hipotéticas e sua [[lexico:s:substituicao:start|substituição]] pelas teorias abstratas (Outlines of the Science of Energetics, 1865, em Miscellaneous Scientifics Papers, p. 210; cf. P. [[lexico:d:duhem:start|Duhem]], La théorie physique, 1906, pp. 80-81). 5) Um procedimento especial que substitui a [[lexico:i:inducao:start|indução]], para a formulação de princípios a serem verificados experimentalmente. Para [[lexico:s:stuart-mill:start|Stuart Mill]], o procedimento científico é [[lexico:c:composto:start|composto]] por três partes: indução, raciocínio e verificação. Ora, "o método hipotético suprime o primeiro desses três passos, a indução, para comprovar a lei, e limita-se às outras duas operações, raciocínio e verificação: a lei sobre a qual se raciocina é presumida, em vez de ser provada" (Logic, III, 14, 4). No mesmo sentido, [[lexico:p:peirce:start|Peirce]] põe a hipótese ao lado da [[lexico:d:deducao:start|dedução]] e da indução, como um [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de raciocínio válido que se distingue da indução porque, enquanto esta "procede [[lexico:c:como-se:start|como se]] todos os objetos que têm determinados [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] fossem conhecidos", a hipótese é "a [[lexico:i:inferencia:start|inferência]] que procede como se todos os caracteres necessários à determinação de certo [[lexico:o:objeto:start|objeto]] ou classe fossem conhecidos". Enquanto a indução pode ser considerada como a inferência da premissa maior do silogismo, a hipótese pode ser considerada como a inferência da premissa menor a partir das outras duas ("Some Consequences of Four lncapacities", em Values in a Universe of Chance, pp. 44 ss.). Este significado do termo tornou-se raro. 6) O [[lexico:a:argumento:start|argumento]] de um discurso, enquanto proposto ou enunciado no início do discurso (Aristóteles, Ret. ad Al., 30, 1436 a 36; Ret., II, 18, 1391 b 13). 7) Uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] científica ou [[lexico:p:parte:start|parte]] de uma teoria científica. Nesse sentido, [[lexico:m:mach:start|Mach]] diz: "Chamemos de hipótese uma explicação provisória que tem por [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] fazer compreender mais facilmente os fatos, que foge à [[lexico:p:prova:start|prova]] dos fatos" (Erkenntniss und Irrtum, cap. 14; trad. fr., p. 240). Para este significado, v. teoria. (do gr. hypo, sob debaixo e thesis, posição, afirmação; etimologicamente, suposição). verdade possível, mas ainda não provada. — A hipótese é a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] pela qual os fatos são interpretados. A [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], como a [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] filosófica (segundo Platão ou [[lexico:f:fichte:start|Fichte]]), consiste num perpétuo vaivém entre os fatos e as [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. A [[lexico:o:observacao:start|observação]] dos fatos é o primeiro [[lexico:m:momento:start|momento]] de qualquer [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]]; a hipótese explicativa é o seu segundo momento e a verificação experimental o [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]]. A [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de levantar hipóteses serve, em [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]], para mensurar o grau de [[lexico:e:espirito:start|espírito]] inventivo de uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]]. Em ciência, distingue-se a hipótese-lei, ou pequena hipótese, que se define como a [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]] da lei, e a grande hipótese, ou hipótese-teoria, que propõe uma explicação do conjunto do [[lexico:u:universo:start|universo]] (de seu nascimento e [[lexico:f:formacao:start|formação]]: Laplace; da natureza da [[lexico:m:materia:start|matéria]]: [[lexico:a:atomismo:start|atomismo]] etc.). [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] "hipotético" contrapõe-se ao que é "[[lexico:r:real:start|real]]", como o "[[lexico:p:provavel:start|provável]]" ao "certo". É uma proposição não devidamente provada mas aceita, por dar uma explicação a uma [[lexico:s:sequencia:start|sequência]] de fatos, num determinado campo do [[lexico:s:saber:start|saber]] [[lexico:h:humano:start|humano]] (hipóteses científicas, históricas, etc.). A hipótese funda-se numa possibilidade e não deve incluir em si [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]. Por essa [[lexico:r:razao:start|razão]], para ser perfeita como tal, deve cumprir [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] requisitos necessários. 1) ser possível, portanto não pode contradizer as leis metafísicas, nem os fatos físicos conhecidos; 2) que nenhum [[lexico:f:fato:start|fato]], [[lexico:d:dado:start|dado]] pela nossa [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], possa repugná-la; 3) que explique os fatos de [[lexico:m:modo:start|modo]] cômodo; 4) que seja [[lexico:s:simples:start|simples]]. É no campo da hipótese que se pode encontrar uma das distinções entre a ciência, como se compreende hoje, e a filosofia. A ciência não pode, de modo algum, ultrapassar o campo da hipótese, pois trabalhando apenas com o [[lexico:c:contingente:start|contingente]] seus resultados serão contingentes. A filosofia como penetra no campo da necessidade pode dispensá-las, e deve fazê-lo, pois as leis científicas são leis provisórias, fundadas no experimental, enquanto as leis metafísicas, como as da [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]], são leis necessárias e indefectíveis quando rigorosamente construídas. Os que julgam que tal não se dá, revelam apenas desconhecer o mais sério dos estudos filosóficos, e são precisamente os que permanecem no campo das asserções, e que não alcançam a apoditicidade que aquela exige. Só a filosofia, em sentido genuinamente especulativo, onde predominar a apoditicidade, onde se tender aos juízos necessários, universalmente válidos. É o nome que se dá, nas ciências naturais, a uma [[lexico:s:suposicao:start|suposição]] ou [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] feita no intuito de explicar os fatos observados; o fato [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] subtrai-se, pelo menos em princípio, à comprovação imediata. Assim, para explicar as leis da composição química, supõe-se eme os corpos são compostos de partículas muito pequenas: os átomos. Uma hipótese possui valor [[lexico:h:heuristico:start|heurístico]], se, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, leva à [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] de leis e de fatos até então desconhecidos. Quando a hipótese não subministra explicação alguma isenta de contradição, sendo, portanto, indubitavelmente falsa, pode, apesar disso, continuar existindo como hipótese de [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]], no caso de ser [[lexico:u:util:start|útil]] para encontrar a verdade. Enquanto se trata de uma hipótese, temos somente, um grau maior ou menor de [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]], não ainda [[lexico:c:certeza:start|certeza]], porque o mesmo [[lexico:e:estado:start|Estado]] de coisas permite, por vezes, ser interpretado de várias maneiras. Por [[lexico:m:meio:start|meio]] da verificação, isto é, por meio da comprovação, direta ou indireta, a probabilidade existente pode aumentar e conduzir, finalmente, à certeza, pela exclusão de qualquer outra espécie de explicação; a hipótese converte-se, então, em teoria. Por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a hipótese atômica converteu-se em teoria atômica devido a múltiplas comprovações entre si independentes, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que a existência de átomos não é já uma suposição, senão um fato. — A hostilidade dos pensadores positivistas à formação de hipóteses é unicamente consequência de sua concepção da [[lexico:c:ciencia-natural:start|ciência natural]], a missão da qual, segundo eles, consiste em descrever os fatos observados, sem formular qualquer explicação dos mesmos. — Junk. O vocábulo hipótese significa literalmente “algo posto debaixo”. O que se põe debaixo é um enunciado e o que se coloca em cima dele é [[lexico:o:outro:start|outro]] enunciado ou [[lexico:s:serie:start|série]] de enunciados. A hipótese é, portanto, um enunciado (ou série articulada de enunciados) que antecede outros, constituindo os seus fundamentos. O significado de hipótese está relacionado com o de vocábulos como fundamento, princípio, postulado, suposição, etc. No entanto, não é [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao de nenhum deles. Em Platão a hipótese é uma suposição de que vão extrair-se certas consequências. Platão toma aqui como exemplo o procedimento dos matemáticos e especialmente o dos geômetras. A hipótese distingue-se do axioma na medida em que este é admitido como uma “verdade evidente”; neste caso, com o que a hipótese se parece mais é com um postulado. Em certa passagem da [[lexico:m:metafisica:start|METAFÍSICA]], Aristóteles afirma que “a hipótese” é um dos possíveis significados de princípio; as hipóteses são então os princípios da demonstração. De um modo menos geral, Aristóteles considera a hipótese como uma [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de algo, de que se deduzem determinadas consequências, diferentemente da definição em que não se afirma ou nega nada, mas apenas se precisa o significado daquilo de que se fala. por sua vez, a hipótese e o postulado distinguem-se do axioma porque em nenhum dos dois primeiros se deve crer necessariamente. Nem na [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] nem na idade média se analisou a fundo o significado de hipótese e os problemas que as hipóteses suscitam como tais. Em contrapartida, a idade [[lexico:m:moderna:start|moderna]], preocupada pela natureza das teorias físicas, abundou em análises e reflexões. Nos PRINCÍPIOS, Newton escreveu: “até agora explicámos os fenômenos do [[lexico:c:ceu:start|Céu]] e do nosso mar por intermédio do poder da gravidade, mas não atribuímos nenhuma [[lexico:c:causa:start|causa]] a este poder. É certo que deve proceder de uma causa que penetre até os próprios centros do [[lexico:s:sol:start|sol]] e dos planetas... Mas até agora não pude descobrir as causas dessa [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] da gravidade a partir dos fenômenos, e não forjo hipóteses. Pois o que não está deduzido dos fenômenos há que chamá-lo hipótese; e as hipóteses, sejam metafísicas ou mesmo físicas, sejam de qualidades ocultas ou mesmo mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental. Nesta filosofia as proposições particulares inferem-se dos fenômenos e logo se tornam gerais por indução”. Tem-se discutido muito o sentido desta passagem famosa, e sem entrar em pormenores pode afirmar-se que, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], as hipóteses inadmissíveis na ciência são as de [[lexico:c:carater:start|caráter]] metafísico. Em contrapartida, admitem-se as que se formulam dentro do domínio do [[lexico:r:reino:start|reino]] da experiência possível. Embora este [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:p:ponto:start|ponto]] não fosse tratado explicitamente por Newton, constitui uma consequência de algumas das suas ideias metodológicas, e foi neste sentido que [[lexico:k:kant:start|Kant]] elaborou a sua própria noção de hipótese. Na [[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da Razão Pura]], Kant manifestou que as hipóteses não devem ser assunto de mera [[lexico:o:opiniao:start|opinião]], mas fundamentar-se “na possibilidade do objeto”. Neste caso, as suposições são verdadeiras hipóteses, em compensação, “as hipóteses [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]]”, que utilizam uma ideia da razão, não dão propriamente uma explicação, são simplesmente uma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] da “[[lexico:r:razao-preguicosa:start|razão preguiçosa]]”. Na sua Lógica, Kant define a hipótese em termos de raciocínio; admitir uma hipótese equivale a afirmar que um juízo é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]], quando se sustenta a verdade do antecedente com base no caráter [[lexico:a:adequado:start|adequado]] das suas consequências. De um ponto de vista estritamente [[lexico:l:logico:start|lógico]], os raciocínios deste tipo são uma [[lexico:f:falacia:start|falácia]]. Isto vê-se no seguinte exemplo: “se Pedro se torna louco, Anastácia suicida-se. Anastácia suicida-se; portanto, Pedro torna-se louco”. A esta falácia chama-se “a falácia de afirmar o antecedente”, que é admissível de um modo condicional e por isso pode ser chamada hipótese. Quando se conhecem todas as consequências de um antecedente, o raciocínio resultante já não é uma falácia, mas o juízo condicional não pode ser chamado então hipótese. Muitos autores, especialmente os positivistas, têm afastado por completo as hipóteses e têm-nas identificado com a pretensão injustificada de formular enunciados que se refiram a causas, a “verdadeiras causas”. Para tais autores toda a hipótese se refere a causas, as quais nunca podem descobrir-se, e simultaneamente [[lexico:t:todo:start|todo]] o juízo [[lexico:r:relativo:start|relativo]] a causas é hipotético. Segundo [[lexico:c:comte:start|Comte]], o forjar hipóteses é [[lexico:p:proprio:start|próprio]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] teológico (os [[lexico:d:deuses:start|deuses]] como agentes naturais) e do pensamento metafísico (a explicação dos fenômenos naturais com base em causas ocultas, simpatias). Em contrapartida, o pensamento [[lexico:p:positivo:start|positivo]] não admite hipóteses, pois em vez de tentar conhecer o porquê, ele limita-se a conhecer a única [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que pode conhecer-se: o como. Não as causas, mas as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre fenômenos, eram expressáveis mediante leis. Alguns positivistas posteriores adotaram opiniões menos cortantes que as de Comte. repeliram as hipóteses quando estas aparecem como “especulações”, mas admitiram-nas quando se expressam em proposições condicionais em princípio verificáveis, ou que se espera que possam verificar-se. Na [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] é muito menos frequente discutir-se se se deve admitir ou não hipóteses nas teorias científicas; o que preocupa hoje é analisar o significado de hipótese em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o significado de outros termos usados na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] científica. Trata-se, portanto, da lógica do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] hipótese. A este [[lexico:r:respeito:start|respeito]] é preciso distinguir dois pontos importantes. Em primeiro lugar reconheceu-se que, dado um determinado enunciado [[lexico:t:teorico:start|teórico]], este não é mais em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] uma hipótese, mas em relação com a teoria dentro da qual se encontra. A teoria tem diversos níveis conceptuais, como por exemplo enunciados sobre medidas, leis, princípios, etc. O enunciado determinado que no momento pode ser uma hipótese pode ser noutro momento uma lei. Em segundo lugar e tendo em conta o que disse atrás, tem-se tendido para distinguir cuidadosamente entre a hipótese, por um lado, e o princípio, a lei, o fundamento, a causa, o postulado, a teoria, a [[lexico:s:sintese:start|síntese]], etc, por outro. As razões mais usuais em favor desta [[lexico:d:distincao:start|distinção]] são as seguintes: Enquanto a hipótese é uma antecipação de fatos, exteriormente comprováveis, o princípio é um fundamento [[lexico:i:ideal:start|ideal]], o fundamento é um princípio real, a causa é um antecedente invariável, a síntese é uma [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]] indutiva e a teoria é uma síntese de leis. Cabe destacar que boa parte da [[lexico:d:discussao:start|discussão]] [[lexico:a:atual:start|atual]] sobre a índole das hipóteses assenta nos dois pontos esboçados. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}