===== HIERARQUIA DOS VALORES ===== VIDE [[lexico:o:ontologia-dos-valores:start|ontologia dos valores]] Chegamos com isto à quarta [[lexico:c:categoria:start|categoria]] dessa [[lexico:e:esfera:start|esfera]] [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] dos valores, e esta quarta categoria é a [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]]. Os valores têm hierarquia. Que quer dizer isto? Há uma [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de valores, Já citei uma [[lexico:m:multidao:start|multidão]] deles. Estes valores múltiplos são todos eles valores, ou seja, modos do valer, como as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] são modos de [[lexico:s:ser:start|ser]]. Mas os modos do valer são modos da não-indiferença. Ora, o [[lexico:n:nao:start|não]] ser indiferente é uma [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] que em [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:m:momento:start|momento]] e em todo [[lexico:i:instante:start|instante]], sem faltar um pingo, tem que [[lexico:t:ter:start|ter]] o [[lexico:v:valor:start|valor]]. Logo a têm que ter também os valores nas suas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] múltiplas. E essa não-indiferença dos valores nas suas relações múltiplas, uns com [[lexico:r:respeito:start|respeito]] aos outros, é o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] de sua hierarquia. Compreender-se-á muito melhor esta categoria ontológica do valor, que chamo hierarquia, quando fizermos rapidamente uma [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] dos valores. Vamos fazer, pois, uma classificação dos valores. O [[lexico:p:problema:start|problema]] é difícil e não vou entrar a expor as dificuldades, porque nos levaria muito longe. O problema de classificar os valores foi estudado por quase todos os filósofos contemporâneos que se ocuparam do valor. **Classificação dos valores** Vamos tomar provisoriamente uma classificação que anda por aí e que é provavelmente a menos incorreta, a mais aceitável de todas, que é a classificação de [[lexico:s:scheler:start|Scheler]] no seu livro O [[lexico:f:formalismo:start|formalismo]] na [[lexico:e:etica:start|ética]] e a ética material dos valores. Segundo esta classificação, poder-se-iam agrupar os valores nos seguintes grupos ou classes: primeiro, valores úteis; por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], [[lexico:a:adequado:start|adequado]], inadequado, conveniente, inconveniente. Depois, valores vitais; como, por exemplo, forte, fraco. Valores lógicos, como [[lexico:v:verdade:start|verdade]], [[lexico:f:falsidade:start|falsidade]]. Valores estéticos, como [[lexico:b:belo:start|belo]], feio [[lexico:s:sublime:start|sublime]], ridículo. Valores éticos, como justo, injusto, misericordioso, desapiedado. E, por [[lexico:u:ultimo:start|último]], valores religiosos, como [[lexico:s:santo:start|santo]], profano. Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]; entre essas classes ou grupos de valores existe uma hierarquia. Que quer dizer esta hierarquia? Quer dizer que os valores religiosos afirmam-se superiores aos valores éticos; que os valores éticos, afirmam-se superiores aos valores estéticos; que os valores estéticos afirmam-se superiores aos lógicos, e que estes por sua vez se afirmam superiores aos vitais, e estes por sua vez superiores aos úteis. E este afirmar-se [[lexico:s:superior:start|superior]], que quer dizer? Pois quer dizer o seguinte, [[lexico:n:nada:start|nada]] mais que o seguinte: que se esquematicamente assinalarmos um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] com o [[lexico:z:zero:start|zero]] para designar o ponto de indiferença, os valores, seguindo sua [[lexico:p:polaridade:start|polaridade]], agrupar-se-iam à direita ou à esquerda deste ponto em valores positivos ou valores negativos e a maior ou menor distância do zero. Uns valores, os úteis, se afastarão se desviarão pouco do ponto de indiferença; estarão próximos do ponto de indiferença. Outros valores, o [[lexico:g:grupo:start|grupo]] seguinte, os vitais, se afastarão algo mais do ponto de indiferença. Quer dizer, que postos a escolher entre sacrificar um valor [[lexico:u:util:start|útil]] ou sacrificar um valor vital, sacrificaremos com mais [[lexico:g:gosto:start|gosto]] o valor útil que o valor vital, porque a distância em que se acham os valores úteis é mais próxima do ponto de indiferença. Menos nos importa [[lexico:j:jogar:start|jogar]] pela janela um saco de batatinhas que sacrificar um valor vital, por exemplo, um gesto bizarro. Mas estes valores vitais, por sua vez importam-nos menos que os valores intelectuais. Quer dizer, que os valores intelectuais se afastam mais do ponto de indiferença e são ainda menos [[lexico:i:indiferentes:start|indiferentes]] que os valores vitais, e assim sucessivamente. Se nós tivermos que optar entre salvar a [[lexico:v:vida:start|vida]] de uma criança, que é uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]], e, portanto, contém valores morais supremos, ou deixar que se queime um quadro, preferiremos que se queime o quadro. Haverá [[lexico:q:quem:start|quem]] não tenha a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] dos valores estéticos e então preferirá salvar um livro de uma biblioteca antes do que um quadro. Isto é o que quer dizer a [[lexico:h:hierarquia-dos-valores:start|hierarquia dos valores]]. No ápice das hierarquias coloca Scheler os valores religiosos. Que quer dizer isto? Pois quer dizer que para quem não seja cego aos valores religiosos ([[lexico:c:coisa:start|coisa]] que pode acontecer), para quem tenha a intuição dos valores religiosos estes têm hierarquia superior a todos os demais. Desta maneira chegamos a esta última categoria estrutural ontológica da esfera dos valores: a hierarquia, E [[lexico:a:agora:start|agora]], para terminar vão duas observações de relativa importância para dar por terminada esta caminhada pela esfera dos valores. A primeira [[lexico:o:observacao:start|observação]] é a seguinte: um [[lexico:e:estudo:start|estudo]] detido, pormenorizado, [[lexico:p:profundo:start|profundo]], de cada um destes grupos de valores que vimos na classificação pode e deve servir de base — ainda que isto não o percebam os escritores [[lexico:c:cientistas:start|cientistas]] — a um grupo ou a uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] correspondente a cada um desses grupos. De [[lexico:m:modo:start|modo]] que, por exemplo, a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] pura dos valores úteis constitui o fundamento da [[lexico:e:economia:start|economia]], saibam-no ou não os economistas. Se os economistas percebessem isto e estudassem a [[lexico:a:axiologia:start|axiologia]] antes de começarem propriamente sua ciência [[lexico:e:economica:start|econômica]], e esclarecessem seus [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] do valor útil, então veríamos quanto melhor fariam a ciência econômica. Depois vêm os valores vitais. Pois bem; de que achamos [[lexico:f:falta:start|falta]], desde tantos anos, na ciência contemporânea, senão de um esclarecimento [[lexico:e:exato:start|exato]] dos valores vitais que permitiria introduzir pela primeira vez [[lexico:m:metodo:start|método]] e clareza científica num grande [[lexico:n:numero:start|número]] de problemas que andam dispersos por diferentes disciplinas e que não se sabe como tratar? Somente alguns [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] curiosos e raros deles trataram. Por exemplo: a [[lexico:m:moda:start|moda]], a indumentária, a vestimenta, as formas de vida, as formas do trato [[lexico:s:social:start|social]], os jogos, os esportes, as cerimônias sociais etc. Todas essas coisas têm que ter sua [[lexico:e:essencia:start|essência]], sua [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]] própria, e, não obstante, hoje, ou não estão estudadas em [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] ou estão em livros curiosos ou estranhos como alguns [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]] de [[lexico:s:simmel:start|Simmel]] ou em notas ao pé das páginas. E, não obstante, constituem todo um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de conceitos cuja base está num estudo detido dos puros valores vitais. O resto é bem evidente. É bem evidente que o estudo detido dos valores lógicos serve de base à [[lexico:l:logica:start|lógica]]. É evidente também que o estudo detido daquilo que são os valores estéticos serve de base à [[lexico:e:estetica:start|estética]]. É evidente também que o estudo dos valores morais serve de base à ética. E disto não há queixa, porque, efetivamente, na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] contemporânea a lógica, a estética e a ética têm fundamento numa prévia teoria desses valores. Do mesmo modo a [[lexico:f:filosofia-da-religiao:start|filosofia da religião]] não pode fundar-se senão num estudo cuidadoso, detido, dos valores religiosos. E hoje começa a haver também na [[lexico:l:literatura:start|literatura]] filosófica contemporânea uma filosofia da [[lexico:r:religiao:start|religião]] fundada na base de um prévio estudo dos valores religiosos. E posso citar um [[lexico:n:nome:start|nome]] tanto mais grato quanto está por suas crenças religiosas muito [[lexico:p:proximo:start|próximo]] de nós — Gründler — que escreveu um ensaio sobre Filosofia da religião sobre a base feno-ontológica, quer dizer, sobre um estudo dos valores religiosos. Esta é a primeira observação. A segunda observação enlaça-se com o que dizíamos na lição anterior (v. [[lexico:c:coisas-ideais:start|coisas ideais]]) refutando energicamente àqueles que acusam a [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] contemporânea de partir em dois ou em três a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] do ser. Relembre-se que tivemos de prestar [[lexico:a:atencao:start|atenção]] a essas críticas, segundo as quais distinguir o ser em ser [[lexico:r:real:start|real]], ser [[lexico:i:ideal:start|ideal]] etc, é renunciar à unidade do ser. Relembre-se o que tivemos que responder àquelas críticas. Tivemos que fazer [[lexico:v:ver:start|ver]] àqueles críticos que na [[lexico:s:serie:start|série]] das [[lexico:c:categorias:start|categorias]] do ser real a primeira era o ser; e na série das categorias do ideal, a primeira era também o ser, e que, portanto, essa [[lexico:d:distincao:start|distinção]] ou [[lexico:d:divisao:start|divisão]] não atingia a [[lexico:r:raiz:start|raiz]] ontológica do ser, mas suas diversas modalidades. Agora deparamos com essa mesma [[lexico:c:critica:start|crítica]] quando chegamos ao [[lexico:c:campo:start|campo]] dos valores; porque nos dizem: vocês dividem_ aquilo que há em duas esferas incomunicadas: as coisas que são e os valores que vocês chegam a dizer que não são, mas que valem. Porém á ingênua esta crítica e pode dar-se por respondida. Precisamente porque os valores não são é que não atentam nem menoscabem em nada a unidade do ser. [[lexico:d:dado:start|dado]] que não são, mas que valem, que são qualidades necessariamente de coisas, estão necessariamente aderidos às coisas. Representam aquilo que na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] há de valer. Não somente não se menoscaba nem se [[lexico:p:parte:start|parte]] em dois a realidade mesma, antes, ao contrário, integra-se a realidade; dá-se à realidade isso: valer. Em troca, não a diminui nem a divide. Precisamente porque os valores não são entes, antes qualidades de entes, sua homogênea [[lexico:u:uniao:start|união]] com a unidade total do ser não pode ser posta em [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] por ninguém. Teria que ser posta em dúvida se nós quiséssemos dar aos valores uma [[lexico:e:existencia:start|existência]], um ser [[lexico:p:proprio:start|próprio]], distinto do [[lexico:o:outro:start|outro]] ser. Porém não fazemos tal, antes, ao contrário, consideramos que os valores não são, mas representam [[lexico:s:simples:start|simples]] qualidades valiosas, qualidades valiosas; de quê? Pois das coisas mesmas. Aí está a [[lexico:f:fusao:start|fusão]] completa, a união perfeita com todo o restante da realidade. Aliás, este problema da unidade do real é um problema ao qual ainda não posso dar uma resposta plenamente satisfatória, por uma [[lexico:r:razao:start|razão]]: porque ainda nos resta o último [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. Resta-nos por estudar o último objeto daqueles em que dividimos a ontologia, e este último objeto, precisamente é aquele que tem no seu seio a raiz da unidade do ser. Resta-nos por estudar a vida como objeto metafísico, como recipiente em que há tudo isso que enumeramos: as [[lexico:c:coisas-reais:start|coisas reais]], os objetos ideais, e os valores. Resta-nos ainda a vida como o recipiente metafísico, como o [[lexico:e:estar-no-mundo:start|estar no mundo]]. É essa unidade ou objeto metafísico, que é a vida, que estudaremos na próxima lição; e nela, então, encontraremos a raiz mais profunda dessa unidade do ser. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}