===== HERÁCLITO ===== Eis [[lexico:a:agora:start|agora]] o mais [[lexico:e:extraordinario:start|extraordinário]] dos "[[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]]". Da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] até nossos dias ele foi compreendido nos sentidos mais divergentes; resta-nos hoje de seu livro menos de cento e trinta fragmentos de uma a cinco linhas, o que [[lexico:n:nao:start|não]] é negligenciável, se se leva em conta os testemunhos que a eles se juntam. Entretanto, o [[lexico:f:fato:start|fato]] dos Antigos haverem-no já denominado "o [[lexico:o:obscuro:start|obscuro]]" e o "Fazedor de [[lexico:e:enigmas:start|enigmas]]" basta para mostrar que a [[lexico:p:pobreza:start|pobreza]] relativa de nossas fontes não é a única [[lexico:r:razao:start|razão]] das divergências modernas e dos riscos que incorremos ao tentar uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]]. Ninguém mais que ele teve o [[lexico:e:estilo:start|estilo]] do oráculo, que quer "anunciar por sinais" e se furta à passividade e à suficiência do [[lexico:v:vulgar:start|vulgar]]. Nascido por volta de 540 a.C. na Jônia, em Éfeso, [[lexico:c:cidade:start|cidade]] grega sob tutela dos persas, pertencente à alta [[lexico:a:aristocracia:start|aristocracia]] dessa cidade, à qual se sentia ligado e cuja democracia moderada, que sucedera a conflitos violentos, contudo, desprezava com ostentação, inteiramente voltado, parece, para a [[lexico:c:cultura:start|cultura]] grega, mas talvez também inspirado, apesar de tudo, pelo [[lexico:z:zoroastrismo:start|zoroastrismo]], e aliás penetrado por sua [[lexico:s:solidao:start|solidão]], afastado de todas as tradições do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], animado por uma religiosidade afim dos [[lexico:m:misterios:start|mistérios]] de Eleusis e, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], porta-voz em [[lexico:p:prosa:start|prosa]] de uma [[lexico:v:verdade:start|verdade]] [[lexico:u:universal:start|universal]] e acessível a todos sem iniciação nem [[lexico:r:ritual:start|ritual]], o [[lexico:p:personagem:start|personagem]] anuncia as contradições às quais a doutrina deve seu brilho. Mas é talvez justamente evitando submeter, se [[lexico:p:possivel:start|possível]], um tal pensamento à [[lexico:n:norma:start|norma]] da [[lexico:c:coerencia:start|coerência]] [[lexico:a:analitica:start|analítica]] sobre a qual a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] clássica no [[lexico:e:essencial:start|essencial]] quis se regular, que se conserva as melhores chances de não se errar muito o alvo ao se procurar [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o heracliteísmo. Heráclito não se esforça, mais ou menos inabilmente, por expulsar as contradições da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] e do pensamento e não é tampouco insensível à [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da coerência analítica. Ele pensa de um [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:o:outro:start|outro]] e mais [[lexico:p:profundo:start|profundo]] e sabe-o. O pensamento [[lexico:a:analitico:start|analítico]] não pode [[lexico:s:ser:start|ser]] considerado como pura e simplesmente posterior, porque, sem explicitar suas formas nem assegurar-lhe uma [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] contínua, os [[lexico:m:milesianos:start|milesianos]] começavam a praticá-lo, sobretudo [[lexico:a:anaximenes:start|Anaxímenes]] e, depois deles, [[lexico:x:xenofanes:start|Xenófanes]] e [[lexico:p:pitagoras:start|Pitágoras]]. Se ele marca uma data muito importante, assim como veremos, o vigoroso [[lexico:e:esforco:start|esforço]] de elucidação de [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] não deixa de [[lexico:t:ter:start|ter]] ligações com o passado. De [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que, em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de procurar erros e deslizes lógicos nos fragmentos de Heráclito, [[lexico:c:coisa:start|coisa]] a que somos facilmente tentados, é melhor levá-los a sério como revelando pelo menos as insuficiências do pensamento analítico, sempre em dificuldades com o [[lexico:d:devir:start|devir]] e a novidade e incapaz de efetuar plenamente seu [[lexico:i:ideal:start|ideal]] de não-contradição quando distribui o [[lexico:r:real:start|real]] em seres e em [[lexico:r:relacoes:start|relações]], em seres distintos e fixos e em relações que unem esses seres. [[lexico:p:platao:start|Platão]] terminará por compreender e integrar à sua [[lexico:l:logica:start|lógica]] [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] do heracliteísmo e, ainda que toda aproximação muito estreita de Heráclito com os dialéticos modernos leve a erros manifestos, não se deve esquecer que, passando por Platão e seu longínquo discípulo do século V, Proclos de Bizâncio, segue-se uma filiação que liga a Heráclito, por [[lexico:m:meio:start|meio]] de transformações e contribuições diversas, o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:h:hegel:start|Hegel]]. Heráclito não elaborou certamente um pensamento dialético [[lexico:c:complexo:start|complexo]]; antes lutou com a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] para fazer transmitir, pela [[lexico:f:fulguracao:start|fulguração]] dos choques verbais, o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]], elementar talvez, em [[lexico:t:todo:start|todo]] caso vigoroso, que é contido na [[lexico:f:formula:start|fórmula]] cardinal segundo a qual "o Combate é o Pai e o Rei de tudo". Este que assim [[lexico:f:fala:start|fala]] só podia condenar Pitágoras e, de fato, ataca-o duramente, [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] que fornece o [[lexico:b:bom:start|Bom]] fio condutor. O [[lexico:p:pitagorismo:start|pitagorismo]] se pretende pacificador e conciliador. Heráclito replica pela [[lexico:g:guerra:start|guerra]] universal e a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de toda conciliação e de toda [[lexico:f:fusao:start|fusão]] de opostos. Ao mesmo tempo censura expressamente a Pitágoras a [[lexico:p:polimatia:start|polimatia]], isto é, o [[lexico:s:saber:start|saber]] que acumula minuciosamente os detalhes, por vã erudição sem profundidade nem real [[lexico:u:unidade:start|unidade]], literalidade análoga à recitação [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]] de uma fórmula sagrada. Não se trata, pois, de substituir um enciclopedismo artificial por uma [[lexico:v:visao:start|visão]] voluntariamente disparatada (a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] seria diminuta) e Heráclito concebe uma unidade profunda do cosmos: se se recorda que no pitagorismo a unidade suprema desempenha um papel primordial, cumpre considerar que Heráclito a considera como nula, porque acrescentada de maneira [[lexico:f:facticia:start|factícia]]. A verdadeira unidade é logo [[lexico:i:imanente:start|imanente]] e, de Pitágoras, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] recusado é essencialmente o [[lexico:d:dualismo:start|dualismo]]. Neste [[lexico:s:sentido:start|sentido]], Heráclito confirma o [[lexico:m:monismo:start|monismo]] milesiano, ao qual o liga também sua hostilidade literal das representações místicas que acompanha [[lexico:e:esse:start|esse]] rnonismo e que se exprime nele numa cosmologia naturalista próxima da [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] milesiana. Todavia, o importante para ele não é se abandonar à incansável "[[lexico:i:investigacao:start|investigação]]" dos milesianos. O que conta é [[lexico:a:apreender:start|apreender]] a unidade profunda das forças em [[lexico:j:jogo:start|jogo]] no cosmos e Heráclito insiste sobre a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] de [[lexico:e:espirito:start|espírito]] que é preciso cultivar; [[lexico:n:nada:start|nada]] de [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] passiva: é preciso [[lexico:e:estar:start|estar]] desperto, atento, ativo para captar em nós e nas [[lexico:c:coisas:start|coisas]], [[lexico:a:alem:start|além]] de toda falsa [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] da [[lexico:r:reserva-mental:start|reserva mental]], a organização do "[[lexico:l:logos:start|Logos]]". Quase todos os homens se contentam preguiçosamente com uma sabedoria sonhada que se limita a particularidades individuais e imobiliza o devir nas constatações sensíveis (admirar-se-á, com [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]], que, aos olhos de Heráclito, o [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] [[lexico:i:imediato:start|imediato]] e [[lexico:p:passivo:start|passivo]] dos sentidos provoca, contrariamente ao que a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] julga toda a tradição posterior, um [[lexico:e:erro:start|erro]] fixista). O Logos é nossa razão e a Razão de tudo, indissociavelmente; Razão ou "[[lexico:v:verbo:start|verbo]]", [[lexico:l:lei:start|lei]], Unidade, [[lexico:f:forca:start|Força]] motora e criadora do devir, que pode ser dita "separada" enquanto universal, mas que deve ser do mesmo modo considerada como confundida com o cosmos em devir, [[lexico:a:atuante:start|atuante]] que é, até nos homens que o ignoram. É também o [[lexico:f:fogo:start|fogo]], fogo celeste, "[[lexico:e:eter:start|éter]]" [[lexico:d:divino:start|divino]] e o raio que, segundo a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] antiga, "governa como piloto", o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e o fogo que vemos, em nossa [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] mais próxima, devorar luminosamente os outros [[lexico:e:elementos:start|elementos]]: sempre ao mesmo tempo outro que a [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] do mundo e secretamente idêntica à própria [[lexico:v:vida:start|vida]] do mundo. Mas essa universal Unidade deve ainda se identificar à Guerra, de onde partimos. Ora, a Guerra não é [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] ou, pelo menos, [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]]? Não apenas: a guerra une os que ela coloca em combate, o conflito atesta uma [[lexico:a:afinidade:start|afinidade]]. Poder-se-ia assim desenvolver a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] de Heráclito: uma unidade [[lexico:s:simples:start|simples]] é fácticia, uma pluralidade inorgânica não constitui tampouco um mundo; só a oposição, que a mais familiar e mais antiga experiência reconhece, implica a unidade da diversidade e a [[lexico:i:identidade:start|identidade]] das diferenças, pois os termos opostos só existem uns pelos outros (por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], saúde e [[lexico:d:doenca:start|doença]], [[lexico:b:bem:start|Bem]] e [[lexico:m:mal:start|mal]]) mesmo mantendo entre eles uma diferença irredutível. O monismo de Heráclito se afirma com dificuldade às custas de um [[lexico:p:pluralismo:start|pluralismo]] conflitual / solução antidualista que, sem ser a única concebível, [[lexico:c:como-se:start|como se]] pode admitir, constitui em todo caso uma notável radicalização do [[lexico:e:esquema:start|esquema]] milesiano. As coisas se passam de um outro modo que o imaginava Homero, que aspira a uma [[lexico:p:paz:start|paz]] que seria aniquilamento. Só a discórdia é criadora; [[lexico:e:existir:start|existir]] é ser quer um combate, quer em combate, num [[lexico:m:movimento:start|movimento]] em que a pluralidade se mantém pelo conflito, a unidade pela identidade profunda dos antagonistas. Um olhar ingênuo e adormecido como o de Pitágoras crê [[lexico:v:ver:start|ver]] por todo o mundo casos maravilhosos de tranquilas e imóveis harmonias. Quando não são arranjos inertes e inconsistentes, absolutamente desprovidos de unidade, essas harmonias aparentemente tranquilas e precisas consistem, em sua realidade última, numa [[lexico:l:luta:start|luta]] temporariamente indecisa entre forças contrárias; a bela imobilidade da [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] visível recobre um movimento que escapa à nossa vista. Assim, o arco e a lira (emblema de Apolo tão caro aos pitagóricos) devem, cada um, sua realidade, sua [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] [[lexico:f:funcional:start|funcional]], apenas ao jogo de forças divergentes da madeira e das cordas; pouco importa que a corda esteja atada à madeira, se não se realiza o equilíbrio, aliás necessariamente precário, das tensões em luta. Que a corda ou a madeira venham [[lexico:a:a-se:start|a se]] romper, o arco não é mais arco; num relâmpago, as tensões constitutivas se manifestam por um movimento bem visível, antes da paz da [[lexico:m:morte:start|morte]]. Essa [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] frágil permanece inferior, sem que possa [[lexico:r:representar:start|representar]] figuradamente a mais alta. "O que se opõe a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] está em [[lexico:a:acordo:start|acordo]] consigo mesmo (ou mais literalmente: o que se afasta de si próprio, em si se reúne», harmonia de tensões contrárias como do arco e da lira." A harmonia ganha em [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] e estabilidade quando, em vez de ser a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] de um movimento visível, se esconde ao contrário por trás do movimento manifesto. A [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] tem sua constância e se produz em equilíbrio [[lexico:d:dinamico:start|dinâmico]]; mas ela não é fácil de ser apreendida, pois "a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] ama o segredo". Por exemplo, o rio guarda sua identidade no e pelo movimento [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] de suas águas e é preciso compreender do mesmo modo como a [[lexico:a:alma:start|alma]] se mantém em vida pelo movimento contínuo que a renova. Seria [[lexico:n:natural:start|natural]] [[lexico:p:pensar:start|pensar]] aqui nas concepções modernas do [[lexico:o:organismo:start|organismo]] vivo e com mais razão ainda nas descobertas recentes acerca dos equilíbrios interespecíficos; mas essa harmonia entra no jogo de uma mais secreta ainda, que regula primordialmente o cosmos inteiro e que não é outra senão o Logos [[lexico:a:agonistico:start|agonístico]]. O Combate gerador e organizador faz predominar ora um [[lexico:t:termo:start|termo]], ora o outro, nos pares de opostos que se entredevoram segundo um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de compensações sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] ao mesmo tempo sucessivo e simultâneo, cuja "[[lexico:m:medida:start|medida]]" e cujos limites resultam de sua profunda unidade discordante. A harmonia suprema é, pois, o equilíbrio dinâmico imanente à [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do cosmos, o qual é lícito considerar e só ele absolutamente [[lexico:e:eterno:start|eterno]] e imperecível. Para dizer a verdade, não se pode decidir pelos textos se, sim ou não, Heráclito afirmava essa conflagração periódica universal, a [[lexico:e:ekpyrosis:start|ekpyrosis]], cuja paternidade os estoicos lhe atribuem; parece, todavia, que a guerra perderia com isso algo de sua realeza absoluta e que o esquema seja um pouco simples; não se percebe bem como o Fogo, reduzido, se se pode dizer, a si próprio, permaneceria, a despeito de sua [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]] significativa, um combate regulado entre opostos, já que ele participa, como as outras forças elementares, das grandes transmutações cósmicas. Do mesmo modo é muito pouco [[lexico:p:provavel:start|provável]] a concepção, demasiado fixista e talvez pitagórica por outro lado, de um "Grande Ano", isto é, de um ciclo cósmico [[lexico:u:unico:start|único]] e indefinidamente repetido. Compreendamos, pois, que, no grande equilíbrio movediço em que nenhum ser se eterniza, a [[lexico:d:desordem:start|desordem]] é [[lexico:o:ordem:start|ordem]], o [[lexico:a:acaso:start|acaso]] [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]], a fealdade [[lexico:b:beleza:start|beleza]], a injustiça [[lexico:j:justica:start|justiça]]. [[lexico:a:anaximandro:start|Anaximandro]] se enganava ao dizer que os opostos em luta cometem alternadamente injustiças compensadoras ou que à injustiça sucede a reparação, pois todo o movimento, em sua unidade reguladora, é "a mais alta justiça", ordem da desordem, razão da sem-razão, medida da desmedida, em [[lexico:s:suma:start|suma]], Unidade [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]] do Cosmos, do "Fogo sempre vivo" que "julgará todas as coisas". Tomar a mais aguda [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] possível desta lei parece ter sido a [[lexico:v:vocacao:start|vocação]] de Heráclito e sua concepção da sabedoria. A alma tem uma afinidade natural com a "pilotagem de todas as coisas por todas as coisas", porque ela é fogo, fogo celeste. Como tal originária da água, que é também, em sentido inverso, sua morte, ela guarda, se é vigilante e ativa, a secura do fogo e se une ao Logos universal que o torna capaz notadamente de dominar seu [[lexico:c:corpo:start|corpo]], mas se ela se torna úmida, perde toda força e toda [[lexico:l:lucidez:start|lucidez]] (como testemunha o [[lexico:e:estado:start|Estado]] de embriaguez); é a razão pela qual "as almas dos que morreram em combate são mais puras que as das pessoas mortas de doenças". Não são todas as almas que morrem devoradas pela água: algumas, as melhores, sobrevivem desencarnadas e, depois, parece, reúnem-se ao fogo celeste, o "éter". Mas não se deve imaginar aqui uma [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], isto é, marcada pelas taras da pseudo-sabedoria "privada" e de resto o próprio fogo celeste não é um refúgio separado do grande movimento cósmico e de suas transmutações impiedosas. Não se deve colocar nenhuma [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] antropocêntrica em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o [[lexico:e:estatuto:start|estatuto]] [[lexico:p:particular:start|particular]] da alma: se a alma humana tem como o fogo essa originalidade significativa que a aparenta ao Todo e lhe permite compreendê-lo agindo e agir compreendendo-o, a [[lexico:a:assimilacao:start|assimilação]] ao divino e o [[lexico:c:culto:start|culto]] da Lei têm aqui um sentido completamente distinto que em Pitágoras. Afinal de contas, mais [[lexico:p:proximo:start|próximo]] dos milesianos, talvez influenciado pela [[lexico:r:religiao:start|religião]] depurada de Xenófanes, atento aos cultos agrários, cujos ritos e imagens não [[lexico:r:recusa:start|recusa]] de todo, Heráclito proclama uma verdade difícil, natureza, [[lexico:d:drama:start|drama]] e [[lexico:t:tragedia:start|tragédia]], com a qual consente e coopera o pequeno [[lexico:n:numero:start|número]] de sábios. [J. Bernhardt] HERÁCLITO, em gr. Hêrakleitos, [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] [[lexico:g:grego:start|grego]] (Éfeso, Ásia Menor, c. 540 a.C. — t c. 480). Proveniente de uma importante [[lexico:f:familia:start|família]], é, na Antiguidade, o filósofo do fogo "criador do mundo e dos homens". De seu tratado Da natureza restam-nos apenas fragmentos, escritos em prosa jônica. É o filósofo do devir, da mudança constante de todas as coisas (panta rei): o frio torna-se calor, o dia torna-se noite, o vivo morre etc. Essa profunda [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]] ao devir faz dele, na Antiguidade, o filósofo do mundo [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]; opõe-se aos "[[lexico:e:eleatas:start|eleatas]]" (Parmênides, [[lexico:z:zenao:start|Zenão]]), que sublinham a [[lexico:i:imutabilidade:start|imutabilidade]] do ser, e à filosofia das "[[lexico:e:essencias:start|essências]]" de Platão. Heráclito de Éfeso viveu entre os séculos VI e V a.C. Tinha um [[lexico:c:carater:start|caráter]] desencontrado e um [[lexico:t:temperamento:start|temperamento]] esquivo e desdenhoso. Não quis participar de modo algum da vida pública, como registra uma [[lexico:f:fonte:start|fonte]] antiga: "Solicitado pelos concidadãos a elaborar as leis da cidade, recusou-se, porque elas já haviam caído no arbítrio por sua má [[lexico:c:constituicao:start|constituição]]." Escreveu um livro intitulado Sobre a natureza, do qual chegaram até nós numerosos fragmentos, talvez constituído de uma [[lexico:s:serie:start|série]] de aforismos e intencionalmente elaborado de modo obscuro e num estilo que recorda as [[lexico:s:sentencas:start|sentenças]] oraculares, "para que dele se aproximassem somente aqueles que o podiam" e o vulgo se mantivesse distante. E o fez para evitar a depreciação e a desilusão daqueles que, lendo coisas aparentemente fáceis, acreditam estar entendendo aquilo que, no entanto, não entendem. Por isso, foi denominado "Heráclito, o Obscuro". Os filósofos de Mileto haviam notado o [[lexico:d:dinamismo:start|dinamismo]] universal das coisas, que nascem, crescem e perecem, bem como do mundo— aliás, dos [[lexico:m:mundos:start|mundos]] —, submetido ao mesmo [[lexico:p:processo:start|processo]]. Além disso, haviam pensado o dinamismo como [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] essencial do próprio "[[lexico:p:principio:start|princípio]]" que gera, sustenta e reabsorve todas as coisas. Entretando, não haviam levado adequadamente tal [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] da realidade ao nível temático. E é precisamente isso o que faz Heráclito. "Tudo se move", "tudo escorre" (panta rhei), nada permanece imóvel e fixo, tudo muda e se transmuta, sem [[lexico:e:excecao:start|exceção]]. Em dois de seus mais famosos fragmentos podemos ler: "Não se pode descer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma [[lexico:s:substancia:start|substância]] mortal no mesmo estado, pois, por [[lexico:c:causa:start|causa]] da impetuosidade e da velocidade da mudança, ela se dispersa e se reúne, vem e vai. (...) Nós descemos e não descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos." É claro o sentido desses fragmentos: o rio é "aparentemente" sempre o mesmo, mas "na realidade" é constituído por águas sempre novas e diferentes, que sobrevêm e se dispersam. Por isso, não se pode descer duas vezes a mesma água do rio, precisamente porque ao se descer pela segunda vez já se trata de outra água que sobreveio. E também porque, nós próprios mudamos: no [[lexico:m:momento:start|momento]] em que completamos uma imersão no rio, já nos tornamos diferentes de como éramos quando nos movemos para nele imergir. Dessa [[lexico:f:forma:start|forma]], Heráclito pode muito bem dizer que nós entramos e não entramos no mesmo rio. E pode dizer também que nós somos e não somos, porque, para ser aquilo que somos em um determinado momento, devemos não-ser-mais aquilo que éramos no momento anterior, do mesmo modo que, para continuarmos a ser, devemos continuamente não-ser-mais aquilo que somos em cada momento. E isso, segundo Heráclito, vale para toda realidade, sem exceção. Sem dúvida, esse é o aspecto da doutrina de Heráclito que se tornou mais conhecido e que alguns de seus discípulos levaram a consequências extremas, como, por exemplo, [[lexico:c:cratilo:start|Crátilo]], que censurou Heráclito por não ter sido suficientemente rigoroso: com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], não apenas não podemos nos banhar duas vezes nó mesmo rio como também não podemos fazê-lo nem mesmo uma vez, dada a celeridade do fluxo (no momento em que começamos a imergir no rio já sobrevêm outra água e, por mais célere que possa ser a imersão, nós mesmos já somos outros antes que ela se complete, no sentido que já apontamos). Mas, para Heráclito, essa é apenas a constatação de base, um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida para outras inferências, ainda mais profundas e argutas. O devir ao qual tudo está destinado caracteriza-se por uma contínua passagem de um contrário ao outro: as coisas frias esquentam, as quentes esfriam, as úmidas secam, as secas umedecem, o jovem envelhece,o vivo morre, mas daquilo que está morto renasce outra vida jovem e assim por diante. Há, portanto, uma guerra perpétua entre os contrários que se aproximam. Mas, como toda coisa só tem realidade precisamente no devir, a guerra (entre os opostos) revela-se essencial: "A guerra é mãe de todas as coisas e de todas as coisas é rainha." Mas, note-se bem, trata-se de uma guerra que, ao mesmo tempo, é paz, num contraste que é harmonia ao mesmo tempo. O perene correr de todas as coisas e o devir universal revelam-se como harmonia de contrários, ou seja, como perene pacificação de beligerantes, uma permanente conciliação de contendentes (e vice-versa): "Aquilo que é oposição se concilia, das coisas diferentes nasce a mais bela harmonia e tudo se gera por meio de contrastes. (...) Eles (os ignorantes) não compreendem que aquilo que é diferente concorda consigo mesmo; é a harmonia dos contrários, como a harmonia do arco e da lira." Somente em contenda entre si é que os contrários dão um sentido específico um ao outro: "A doença torna doce a saúde, a fome torna doce a saciedade e o cansaço torna doce o repouso. (...) Não se conheceria sequer o [[lexico:n:nome:start|nome]] da justiça, se ela não fosse ofendida." E, na harmonia, os opostos coincidem: "O [[lexico:c:caminho:start|caminho]] de subida e o caminho de descida são um único e mesmo caminho. (...) No [[lexico:c:circulo:start|círculo]], o [[lexico:f:fim:start|fim]] e o princípio são comuns. (...) O vivo e o morto, o desperto e o adormecido, o jovem e o velho são a mesma coisa, porque, mudando, estas coisas são aquelas e, por seu turno, aqueles são estas ao mudar." Assim, "tudo é um" e "do um deriva tudo". Essa "harmonia" e "unidade dos opostos" é o "princípio" e, portanto, [[lexico:d:deus:start|Deus]] ou o divino: "Deus é dia-noite, é inverno-verão, é guerra e paz, é saciedade e fome." Hegel apreciava Heráclito a tal ponto que acolheu todas as suas propostas na sua Lógica, muito embora a harmonia dos opostos de Heráclito, evidentemente, esteja bem distante da [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] hegeliana, radicando-se na filosofia da [[lexico:p:physis:start|physis]], de modo que a identidade e a diversidade, como os estudiosos destacaram bem, são as "da substância primordial em todas as suas manifestações" (J. Burnet). Com efeito, tanto os fragmentos como a tradição indireta indicam claramente que Heráclito colocou o fogo como "princípio" fundamental, considerando todas as coisas como transformações do fogo: "Todas as coisas são uma troca do fogo e o fogo uma troca de todas as coisas, assim como as mercadorias são uma troca do ouro e o ouro troca de iodas as mercadorias. (...) Essa ordem, que é idêntica para todas as coisas, não foi feita por nenhum dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]] nem dos homens, mas era sempre, é e será fogo eternamente vivo, que se acende segundo a medida e segundo a medida se apaga." Também é evidente por que Heráclito adjudicou ao fogo a "natureza" de todas as coisas: o fogo expressa de modo [[lexico:e:exemplar:start|exemplar]] as características de mudança contínua, contraste e harmonia. Com efeito, o fogo é continuamente [[lexico:m:movel:start|móvel]], é vida que vive da morte do combustível, é a contínua [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] do combustível em cinzas, fumaça e vapores, é perene "necessidade e saciedade", como diz Heráclito de seu Deus. Esse fogo é como um "raio que governa todas as coisas". E aquilo que governa todas as coisas é "[[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]", é "razão", é "logos", é "lei [[lexico:r:racional:start|racional]]". Assim, a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de inteligência, que nos filósofos de Mileto estava apenas implícita, é associada expressamente ao "princípio" de Heráclito. Um fragmento particularmente significativo sela a nova [[lexico:p:posicao:start|posição]] de Heráclito: "O [[lexico:u:uno:start|uno]], único [[lexico:s:sabio:start|sábio]], quer e não quer ser [[lexico:c:chamado:start|chamado]] [[lexico:z:zeus:start|Zeus]]." Não quer ser chamado Zeus se por Zeus se entende o deus de formas humanas próprio dos gregos; quer ser chamado Zeus se por esse nome se entende o Deus ser supremo. Em Heráclito já emerge uma série de elementos [[lexico:r:relativos:start|relativos]] à verdade e ao [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. É preciso estar atento em relação aos sentidos, pois estes se detêm na [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] das coisas. E também é preciso se precaver quanto às opiniões dos homens, que se baseiam nas aparências. A Verdade consiste em captar, para além dos sentidos, a inteligência que governa todas as coisas. E Heráclito sente-se como que o profeta dessa inteligência, daí o caráter oracular de suas sentenças e o caráter hierático de seu [[lexico:d:discurso:start|discurso]]. Deve-se ressaltar ainda uma outra ideia: apesar da colocação [[lexico:g:geral:start|geral]] de seu pensamento, que o levava a interpretar a alma como fogo e, portanto, a interpretar a alma sábia como a mais seca, fazendo a insensatez coincidir com a umidade, Heráclito escreveu uma das mais belas sentenças sobre a alma que chegaram até nós: "Nunca poderás encontrar os limites da alma, por mais que percorras os seus caminhos, tão profundo é o seu logos." Mesmo no âmbito de um [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] "[[lexico:f:fisico:start|físico]]", nessa [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] Heráclito, com a ideia da [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] infinita da alma, abre uma fresta em direção a algo ulterior e, portanto, não físico. Mas é só uma fresta, muito embora genial. Parece que Heráclito acolheu algumas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] dos órficos, afirmando o seguinte sobre os homens: "Imortais [[lexico:m:mortais:start|mortais]], mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles." Essa afirmação parece expressar, na linguagem de Heráclito, a ideia órfica de que a vida do corpo é a mortificação da alma e a morte do corpo é a vida da alma. Ainda com os órficos, Heráclito acreditava em castigos e prêmios depois da morte: "Depois da morte, esperam pelos homens coisas que eles não esperam nem imaginam." Entretanto, hoje não podemos mais estabelecer de que modo Heráclito procurava colocar essas crenças órficas em conexão com sua filosofia da physis. Heráclito de Éfeso, na Ásia Menor, é aproximadamente contemporâneo de Parmênides, embora filosoficamente deva ser considerado seu sucessor, pelo fato de mover-se dentro da dialética parmenídica do ser e do não ser. Foi chamado o obscuro, por seu estilo breve e alusivo, muitas vezes difícil de interpretar-se. Heráclito entende a realidade como algo que varia de um modo constante, que flui como um rio, que nunca é o mesmo que antes. É como um fogo — o [[lexico:e:elemento:start|elemento]] mais móvel e ativo — que continuamente se acende e se apaga. A alma melhor é a que se assemelha ao fogo, a mais seca; sua inferioridade consiste em fazer-se úmida como o barro ou converter-se em água. Mas, por outro lado, o [[lexico:h:homem:start|homem]] participa de um certo princípio chamado sophon — o "sábio" —, que é uno, sempre e separado de todas as coisas. Pelo nus, o homem tende ao sophón — cujos [[lexico:p:predicados:start|predicados]] coincidem com os do [[lexico:e:ente:start|ente]] de Parmênides — e assim é philósophos, filósofo. "Heráclito diz que a alma é uma centelha da substância estelar." (Macróbio, [[lexico:s:sonho:start|sonho]] de Cipião, I, 14, 19.) "Para as almas, se converterem em água é a morte; para a água, tornar-se [[lexico:t:terra:start|Terra]] é a morte. Porém da terra se faz a água; da água, a alma." (Fr. 36 de Diels.) "Todas as coisas que vemos despertos são morte; as que vemos dormindo, sonhos (mas as que vemos mortos são vida)." (Fr. 21 de Diels. A [[lexico:f:frase:start|frase]] entre [[lexico:p:parenteses:start|parênteses]] é um complemento de Diels, que supõe uma escala psíquica: vida, sonho, morte, paralela à [[lexico:f:fisica:start|física]]: fogo, água, terra.) "Procurei-me a mim mesmo." (Fr. 101 de Diels.) "Não encontrarás os limites da alma, ainda que avances por todos os caminhos; tão profunda é sua medida." (Fr. 115 de Diels.) "Ao morrerem os homens, aguardam-lhes coisas que não esperam nem imaginam." (Fr. 27 de Diels.) Os fragmentos de Heráclito foram publicados em uma excelente edição por Bywater. Pode-se consultar também Diels: Herakleitos von Ephesos: griechisch und deutsch. [Julián Marías] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}