===== HEGELISMO ===== É uma doutrina difícil e ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] de uma simplicidade grandiosa. Ao ler pela primeira vez a [[lexico:l:logica:start|Lógica]], imaginávamos poder [[lexico:r:representar:start|representar]] este [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] por uma [[lexico:f:figura:start|figura]] [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]], [[lexico:e:especie:start|espécie]] de nuvem imensa e [[lexico:u:universal:start|universal]] em que a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] recortasse porções claramente delimitadas até o conjunto assumir, por seu turno, uma [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]] geométrica. E com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], é uma [[lexico:i:imagem:start|imagem]] bastante fiel desta primeira [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] imediata, deste [[lexico:c:conceito:start|conceito]] do [[lexico:o:objeto:start|objeto]] mediatizado pela [[lexico:n:negacao:start|negação]], deste [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] atingido ao [[lexico:t:termo:start|termo]] da [[lexico:s:sintese:start|síntese]]. Que vem a [[lexico:s:ser:start|ser]] então o [[lexico:e:espirito:start|Espírito]], [[lexico:u:uno:start|uno]], [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]] e [[lexico:u:unico:start|único]], que vem a ser este [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] que vemos [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] depois de tantos outros, depois de [[lexico:p:platao:start|Platão]], de [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] e de [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]]? Possui o [[lexico:c:carater:start|caráter]] original de ser [[lexico:d:dinamico:start|dinâmico]] e de fazer passar a [[lexico:i:ideia:start|ideia]], sem que ela saia de si e pelo seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:m:movimento:start|movimento]], da [[lexico:u:unidade:start|unidade]] à [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] e por [[lexico:f:fim:start|fim]] a uma nova unidade. [[lexico:n:nao:start|Não]] que o [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]], o leibnitzianismo e o [[lexico:s:spinozismo:start|spinozismo]] não comportassem uma [[lexico:f:forca:start|força]] espiritual [[lexico:a:a-se:start|a se]] propagar e a [[lexico:c:criar:start|criar]] de alguma [[lexico:f:forma:start|forma]]; mas aqui essa força se reduz exclusivamente a si e confunde-se com a sua [[lexico:n:nocao:start|noção]]. Desaparece a [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]] [[lexico:s:sujeito-objeto:start|sujeito-objeto]], reduzindo-se tudo ao [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]; desaparece igualmente a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre o que percebe e [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] percebido, e a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]! de conceber uma [[lexico:c:criacao:start|criação]] ex nihilo ou mesmo a criação simplesmente. [[lexico:d:deus:start|Deus]] não tem [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de criar, porquanto a criação, o [[lexico:a:ato:start|ato]] de criar, já é o próprio Deus. No entanto, isto não é um [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]], ou pelo menos não é um panteísmo à maneira de Spinoza. O [[lexico:m:mundo:start|mundo]] não é Deus nem o conjunto das modalidades de Deus: é a [[lexico:s:serie:start|série]] ou o ciclo dos momentos de Deus. O movimento do Espírito basta para diferenciá-lo, para marcá-lo numa [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] de realidades em cujo termo tornará a reconstituir-se e que, apesar disso, serão suficientemente distintas dele. Mas o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] tem outras consequências metafísicas e religiosas bastante graves. É a [[lexico:r:reducao:start|redução]] de toda a [[lexico:m:materia:start|matéria]] à matéria espiritual tínica e a supressão de qualquer [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]]. Esta lógica é de [[lexico:f:fato:start|fato]] uma lógica, se [[lexico:b:bem:start|Bem]] seja uma lógica [[lexico:s:substancial:start|substancial]]; não é mais uma [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] na [[lexico:s:significacao:start|significação]] precisa da [[lexico:p:palavra:start|palavra]]. O próprio [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] o confessará ao colocar no termo e no ápice da [[lexico:a:atividade:start|atividade]] humana, não a [[lexico:r:religiao:start|religião]], ainda figurativa, mas a "[[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]". Esta armadura e esta [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] emprestam todavia à doutrina uma coesão e um poder singulares. Os hegelianos souberam tirar proveito disto, chegando o mais inflamado deles, Vera, o tradutor e comentador perpétuo do [[lexico:m:mestre:start|mestre]], a sustentar que fora do hegelismo não havia [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], nem [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] nem pensamento válidos ou sequer possíveis. E realmente, como [[lexico:p:pensar:start|pensar]] fora do pensamento, quando o pensamento é tudo? É um pensamento, ajunta este discípulo, "que não recebe o seu objeto e o seu conteúdo de fora e como um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] que lhe seja estranho, mas que engendra objeto e conteúdo e não é pensamento livre e absoluto senão enquanto os engendra...". [[lexico:i:impossivel:start|Impossível]] resumir ou definir melhor. Já não há [[lexico:m:meio:start|meio]], efetivamente, de sair da ideia uma vez dentro dela; tudo aí marcha muito bem, demasiado bem, principalmente ela, quando marcha sozinha. Convenhamos seriamente em que a sistematização e a profundeza hegelianas emprestam aos grandes valores e às grandes disciplinas humanas uma solidez e um alcance que eles não encontram em muitas outras construções filosóficas. Como tudo provém do absoluto, tudo nele se insere e dele tira a sua força. A [[lexico:h:historia:start|história]] e a [[lexico:a:arte:start|arte]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], já não são produtos adventícios, contingentes, condicionados pelo meio, pelo [[lexico:m:momento:start|momento]] e pelas circunstâncias. São [[lexico:p:parte:start|parte]] integrante do [[lexico:v:vir-a-ser:start|vir-a-ser]], são esses outros momentos em que se assinalam as manifestações do Espírito, são o próprio Espírito na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que age, em que se deixa [[lexico:a:apreender:start|apreender]], em que "se faz". "Vir-a-ser", "fazer-se", eis as [[lexico:p:palavras:start|palavras]] perigosas e o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] que parece falho no sistema. Com efeito, como existiria o ser se ele "viesse a ser" e como "se faria" se já não estivesse feito? Mas antes de nos pronunciarmos é preciso distinguir e não exagerar ou simplificar o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]]. Hegel não teria sido positivista nem marxista; não teria feito da Tenra um "grande [[lexico:f:fetiche:start|fetiche]]", e chegou mesmo a dizer que a religião devia ser uma religião "revelada". Declarou simplesmente que o Espírito se afirmava, se desenvolvia, se apreendia, era apreendido, se realizava no seu movimento, e que, segundo a [[lexico:f:formula:start|fórmula]] famosa, tornava-se o que era. Ora, que vem a ser [[lexico:e:esse:start|esse]] "espírito" e esse "movimento"? Ao dispô-los e ordená-los assim Hegel não realizou [[lexico:o:obra:start|obra]] vã ou puramente ilusória; trouxe uma contribuição importante para a filosofia. Reduziu toda [[lexico:s:substancia:start|substância]] à [[lexico:s:substancia-espiritual:start|substância espiritual]], mas enriqueceu singularmente, se assim se pode dizer, essa substância. Antes de Hegel se poderia ser levado a [[lexico:v:ver:start|ver]] nela uma [[lexico:s:suposicao:start|suposição]], ao pé da letra, uma suposição derradeira, uma [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] ao cabo do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] da [[lexico:a:abstracao:start|abstração]]. Visou transformá-la em algo "[[lexico:c:concreto:start|concreto]]" e o conseguiu, graças a essa noção de "movimento" que lhe acrescentava. O Espírito hegeliano é [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]], talvez alguém. É um ser que aparece como uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]] não imaginativa, fictícia ou lógica, mas substancial, [[lexico:o:origem:start|origem]] e fim de tudo, e na qual tudo está compreendido. E é [[lexico:p:possivel:start|possível]] que este Espírito-Deus não tenha sido atingido também na doutrina hegeliana, pois os meios de que dispomos não são suficientes para tanto; jamais, porém, o movimento do nosso espírito se transviou em tão sutil profundeza. O [[lexico:e:erro:start|erro]] de Hegel, digamo-lo mais uma vez, foi o grande erro [[lexico:m:moderno:start|moderno]]: o desconhecimento ou a supressão da transcendência. Essa transcendência que a [[lexico:o:operacao:start|operação]] cartesiana separara demasiado bem — que isolara — não consegue mais restabelecer-se, nem mesmo em sistemas como o de Leibniz e o de Spinoza, onde desaparece pelo [[lexico:s:simples:start|simples]] fato de [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]] sozinha. Uma vez que se tenha isolado a Deus do mundo não se pode mais alcançá-lo, apesar de todos os esforços e meios [[lexico:e:empregados:start|empregados]], mesmo transformando o mundo em Deus. O Espírito de Hegel é pura e totalmente [[lexico:i:imanente:start|imanente]] e não pode ser outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]], pois que só existe ele e que ele é tudo, de forma que a própria [[lexico:q:questao:start|questão]] da transcendência não tem mais [[lexico:r:razao:start|razão]] de ser. Portanto, também aqui chega a filosofia a um dos seus termos, isto é, a um dos seus impasses. E sempre pela mesma razão: pelo abuso, aliás inevitável, a que submete essa palavra, essa noção de realidade que o [[lexico:h:homem:start|homem]] recebe do [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] e só por uma figura de [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] transfere ao [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]. Que é a realidade do Espírito, que é o Espírito? Podemos continuar a perguntá-lo depois de Hegel e o perguntaremos sempre; sempre se apresentará o [[lexico:p:problema:start|problema]] do espírito e da matéria, por mais que o torçamos ou o neguemos, quer convertamos a matéria em espírito, quer o espírito em matéria, quer imaginemos alguma coisa que não seja espírito nem matéria. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}