===== HEDONE ===== hêdoné: [[lexico:p:prazer|prazer]] 1. As primeiras discussões sobre a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de o prazer constituir a [[lexico:f:finalidade|finalidade]] última do [[lexico:h:homem|homem]] tiveram provavelmente [[lexico:l:lugar|lugar]] no clima altamente ético — e subjetivista — da [[lexico:g:geracao|geração]] de [[lexico:s:socrates|Sócrates]] e dos [[lexico:s:sofistas|sofistas]]. Porém, a [[lexico:e:evidencia|evidência]] direta é errônea e deve recorrer-se geralmente a reconstruções fora dos [[lexico:d:dialogos-platonicos|diálogos platônicos]]. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], no [[lexico:g:gorgias|Górgias]] (491e-492c) Sócrates debate a [[lexico:q:questao|questão]] com um [[lexico:s:sofista|sofista]] que de [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:modo|modo]] seria desconhecido, [[lexico:c:chamado|chamado]] Cálicles, que advoga a [[lexico:p:posicao|posição]] hedonística. Fá-lo em termos de uma [[lexico:t:teoria|teoria]] psico-fisiológica do prazer dos sentidos que esteve aparentemente em voga no século quinto e para [[lexico:a:alem|além]] dele, a da [[lexico:p:privacao|privação]] ([[lexico:k:kenosis|kenosis]]) e plenitude ([[lexico:a:anaplerosis|anaplerosis]]). Segundo uma teoria médica, apresentada por Alcméon de Crotona, a saúde consistia num [[lexico:e:estado|Estado]] de equilíbrio ([[lexico:i:isonomia|isonomia]]) dos [[lexico:e:elementos|elementos]] do [[lexico:c:corpo|corpo]] ([[lexico:v:ver|ver]] Aécio V, 30, 1). Esta teoria tinha vastas implicações filosóficas (ver [[lexico:h:harmonia|harmonia]], [[lexico:a:agathon|agathon]], [[lexico:m:meson|meson]]), particularmente na sua [[lexico:a:adaptacao|adaptação]], talvez feita por [[lexico:e:empedocles|Empédocles]] (ver Diels 31A95), para [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:o:origem|origem]] e [[lexico:n:natureza|natureza]] do prazer. Segundo este [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista a privação (kenosis) de um dos elementos vitais do corpo conduz a um desequilíbrio, e o [[lexico:c:consequente|consequente]] e penoso [[lexico:s:sentido|sentido]] de [[lexico:n:necessidade|necessidade]] (endeia) cria o [[lexico:d:desejo|desejo]] ([[lexico:e:epithymia|epithymia]], [[lexico:o:orexis|orexis]], qq. v.), ou o [[lexico:i:impulso|impulso]] para uma «plenitude» (anaplerosis) complementar. É esta última correção da [[lexico:n:natural|natural]] isonomia do corpo que é responsável pelo prazer. 2. Sócrates usa esta teoria no Górgias para refutar o hedonista radical Cálicles, chamando a [[lexico:a:atencao|atenção]] para o [[lexico:f:fato|fato]] de nesta base o hedonista [[lexico:e:estar|estar]] sempre insaciado. A mesma teoria aparece de novo no [[lexico:t:timeu|Timeu]] 64e-65b (sobre os antecedentes [[lexico:a:atomistas|atomistas]] deste passo, ver [[lexico:p:pathos|pathos]]). Republica 585a, e Phil. 31b-32b, mas pelo menos nestes dois últimos passos está sobrecarregada de uma crescente [[lexico:c:consciencia|consciência]] do [[lexico:p:psiquico|psíquico]] enquanto oposto à natureza puramente somática do prazer, e à identificação do corpo como um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] de prazer (ver Republica 584c, Phil. 41c), [[lexico:d:distincao|distinção]] que eventualmente permitiu a [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] negar a aplicabilidade da teoria da kenosis - anaplerosis ([[lexico:e:ethica-nichomacos|Ethica Nichomacos]] 1173b). O que levou a isto foi indubitavelmente o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] da [[lexico:e:existencia|existência]] óbvia de um prazer que acompanha [[lexico:a:atividades|atividades]] intelectuais (Republica 585b-c, Phil. 51e-52a; em ambos estes passos [[lexico:p:platao|Platão]] faz uma certa tentativa de adaptar a teoria da kenosis a este novo [[lexico:t:tipo|tipo]] de prazer, mas sem grande [[lexico:s:sucesso|sucesso]]), do mesmo modo que a [[lexico:a:analise|análise]] psicológica mais subtil do papel da [[lexico:m:memoria|memória]] no prazer da [[lexico:a:antecipacao|antecipação]] (Phil. 32b-36c; esta análise conduz, 38a-40e, a uma ulterior [[lexico:d:discussao|discussão]] da possibilidade de prazeres falsos devidos aos nossos hábitos de «fantasias pintadas» - phantasmata ezographemena). 3. Tendo alargado os horizontes do prazer ([[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]]/[[lexico:f:falso|falso]], misturado/não-misturado, psíquico/[[lexico:s:somatico|somático]]) Platão tenta integrá-lo na [[lexico:v:vida|vida]] boa no [[lexico:f:filebo|Filebo]]. A posição puramente hedonística é rejeitada, como no Górgias, do mesmo modo que uma [[lexico:e:especie|espécie]] de anti-hedonismo radical (Phil. 44a) negava a existência do prazer. A teoria do [[lexico:p:proprio|próprio]] Platão é moderada, a vida boa é a «vida misturada», i. e., uma vida que contém tanto o agradável como o intelectual ([[lexico:p:phronesis|phronesis]]; Phil. 20a-b, 59c-61c). 4. Esta posição que tenta reconciliar as pretensões em conflito do [[lexico:h:hedonismo|hedonismo]] e do [[lexico:i:intelectualismo|intelectualismo]] [[lexico:s:socratico|socrático]] deixa transparecer os desacordos dentro da própria [[lexico:a:academia|Academia]]. Sabemos, por Aristóteles, que Espeusipo negara que o prazer fosse de qualquer modo um [[lexico:b:bem|Bem]] (ver Ethica Nichomacos VII, 1152b, 1153b), uma posição ao que parece referida no Phil. 53c-55d. Espeusipo argumentou que a) o prazer é um [[lexico:p:processo|processo]] ([[lexico:g:genesis|genesis]]) e um processo é um [[lexico:m:meio|meio]] e [[lexico:n:nao|não]] um [[lexico:f:fim|fim]], e b) sobre a teoria do meio (meson) tanto o prazer como a [[lexico:d:dor|dor]] são excessos e por isso não podem [[lexico:s:ser|ser]] um bem. No passo do Filebo Platão coincide no primeiro [[lexico:a:argumento|argumento]] pelo menos até ao ponto em que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao prazer [[lexico:f:fisico|físico]], mas não admitia que se refira aos prazeres mais elevados, não misturados, descritos no Phil. 51a-52b. Quanto ao segundo argumento de Espeusipo, de que o bem reside no estágio médio ou neutro entre o prazer e a dor, Platão tem consciência do estágio (Phil. 42c-44a) mas não o vê corno um bem; não está disposto a banir o prazer da vida boa. 5. Nem aceita o hedonismo [[lexico:e:empirico|empírico]] de um outro acadêmico contemporâneo, Eudóxio, que sustentava que o prazer era o [[lexico:u:unico|único]] bem para o homem, [[lexico:d:dado|dado]] que todas as criaturas o procuram (Ethica Nichomacos X, 1172b). Este não é exatamente o ponto de vista hedonístico apresentado por Filebo que havia sugerido (Phil. 60a-b) que todos os homens deviam procurar o prazer dado que ele é o bem mais alto, e embora a [[lexico:p:presenca|presença]] do prazer na vida boa de Platão no Filebo e a [[lexico:a:admissao|admissão]] correlata de que a phronesis não é um fim inteiramente suficiente para o homem (Phil. 27b) possa ser uma concessão à [[lexico:f:forca|força]] do ponto de vista de Eudóxio, a linha contra o hedonismo é firmemente sustentada. 6. Eudóxio é escolhido por Aristóteles como exemplo da [[lexico:e:escola|escola]] hedonista, provavelmente devido à longa [[lexico:a:associacao|associação]] desta última com a Academia. Mas um proponente desta posição ainda mais proeminente, um dos próprios contemporâneos de Platão, foi [[lexico:a:aristipo|Aristipo]], fundador do [[lexico:g:grupo|grupo]] cirenaico, cujo hedonismo, se fosse melhor conhecido por nós, era pelo menos tão radical como o de Eudóxio. O prazer é o fim de toda a [[lexico:a:atividade|atividade]] e o [[lexico:o:objeto|objeto]] de toda a [[lexico:e:escolha|escolha]] [[lexico:c:como-se|como se]] [[lexico:p:prova|prova]] pela nossa opção instintiva e espontânea do prazer. Assim, [[lexico:t:todo|todo]] o prazer é [[lexico:b:bom|Bom]] e os prazeres físicos melhores do que os da [[lexico:a:alma|alma]] (D. L. II, 87-88). E além disso, uma vez que a [[lexico:f:felicidade|felicidade]], i. é., o prazer calculado por uma vida, é uma espécie de desilusão visto que só o presente é [[lexico:r:real|real]], cada [[lexico:m:momento|momento]] de prazer deve ser procurado [[lexico:p:por-si|por si]] próprio (Eliano, Var. hist. XIV, 6). 7. Aristóteles, fiel ao seu [[lexico:m:metodo-historico|método histórico]] (ver [[lexico:e:endoxon|endoxon]]), revê tanto as posições hedonistas (Ethica Nichomacos X, 1172a-1174a) como as anti-hedonistas (ibid. VII, 1152b-l 154b). Não se satisfaz com nenhumas nem, de fato, com as objeções postas por Platão. Nega que o prazer seja um processo (ibid. X, 1173a-b), mas acharia preferível chamar-lhe uma atividade ([[lexico:e:energeia|energeia]]) ou, mais amplamente (ibid. VII, 1153a), «uma atividade não embaraçada com um estado ([[lexico:h:hexis|hexis]]) [[lexico:c:caracteristico|característico]] em concordância com a natureza». De [[lexico:a:acordo|acordo]] com esta [[lexico:d:definicao|definição]] o [[lexico:e:estatuto|estatuto]] [[lexico:m:moral|moral]] dos hedonai é realizado em termos de energeiai com as quais cada um está propriamente associado. Primeiro, o prazer é um todo, completo em cada momento do [[lexico:t:tempo|tempo]], muito [[lexico:s:semelhante|semelhante]] ao [[lexico:a:ato|ato]] de ver (ibid. X, 1174b). O prazer é algo que é sobreposto a, e completa uma atividade quando esta não é obstruída, v. g. por um defeito no [[lexico:s:sujeito|sujeito]] ou objeto dessa atividade (ibid. X, 1174b). Eudóxio quase tinha [[lexico:r:razao|razão]]: todos os homens parecem de fato desejar o prazer, mas é porque todos os homens desejam [[lexico:v:viver|viver]] e o prazer completa a atividade básica do viver; é a vida que é desejável, não o prazer (ibid. X 1175a). Em resumo, são as atividades que são boas ou más, não os seus prazeres sobrepostos (ibid. X, 1175b). 8. Destes pontos de vista diversos, resulta o hedonismo de [[lexico:e:epicuro|Epicuro]]. Como Eudóxio ele é um hedonista de base empírica: o prazer é o bem procurado pelos homens (D. L. X, 128). Mas a prova é a mais sofisticada de Aristipo que aponta para o [[lexico:c:comportamento|comportamento]] instintivo e não aprendido (D. L. X, 137); ver [[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]], Adv. Math. XI, 96). Aqui há uma [[lexico:c:correlacao|correlação]] com a sua teoria da [[lexico:s:sensacao|sensação]] ([[lexico:a:aisthesis|aisthesis]]) baseada no [[lexico:a:atomismo|atomismo]]: tal como a sensação é o [[lexico:c:criterio|critério]] da [[lexico:v:verdade|verdade]], assim também os movimentos ou experiências (pathe) do prazer e da dor, que são concebidos como tipos de deslocação atômica (Lucrécio II, 963-966), servem como critérios do bom e do mau, visto que o prazer é aquilo que é natural, tal como o bem, enquanto a dor é contrária à natureza, da mesma [[lexico:f:forma|forma]] que o [[lexico:m:mal|mal]] (D. L. X, 34). 9. Epicuro aceita a análise kenosis - endeia - epithymia - anaplerosis do prazer e da dor (D. L. X, 144; confrontar Lucrécio IV, 858-876) e insiste na primazia dos prazeres físicos, particularmente os do estômago (Ateneu XII, 546). Também aceita o [[lexico:c:corolario|corolário]] de que o prazer, sendo físico, deve ser medido pela [[lexico:q:quantidade|quantidade]] ([[lexico:p:poson|poson]]) e não pela [[lexico:q:qualidade|qualidade]] ([[lexico:p:poion|poion]]; cf. Eusébio, Praep. Evang. XIV, 21, 3). Mas ao submeter o processo a uma análise ainda mais aturada, Epicuro detecta um outro tipo de prazer mais [[lexico:p:puro|puro]] além do corretivo «preenchimento» de uma necessidade [[lexico:f:fisica|física]] que está, afinal, sutilmente misturada com a dor (ver o comentário perceptivo de Sócrates no [[lexico:f:fedon|Fédon]] 60b). Este prazer mais puro não é então o prazer cinético da anaplerosis, mas o prazer [[lexico:e:estatico|estático]] (katastematike) do equilíbrio, a [[lexico:a:ausencia-de-dor|ausência de dor]] ([[lexico:a:algos|algos]]) do corpo ([[lexico:a:aponia|aponia]]) e a [[lexico:a:ausencia|ausência]] de perturbação da alma ([[lexico:a:ataraxia|ataraxia]]) (D. L. X, 131). Esta posição fica a [[lexico:d:dever|dever]] bastante ao estado neutro de Espeusipo (ver Clemente de [[lexico:a:alexandria|Alexandria]], Strom. II, 22, 133), mas [[lexico:o:o-que-e|o que é]] evidente é que Epicuro se afastava da [[lexico:e:explicacao|explicação]] mais [[lexico:m:mecanica|mecânica]] de Aristipo que só sustentou o prazer cinético (D. L. X, 136) e desprezou o lado psíquico do prazer. Epicuro, por outro lado, visto que defendeu firmemente a [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:e:experiencial|experiencial]] do passado e do [[lexico:f:futuro|futuro]], posição que salienta os prazeres mentais (e as dores), desvia o foco da ênfase do «momento agradável» para «a vida feliz» (D. L. X, 137, 133). Assim é a atividade do [[lexico:e:espirito|espírito]] que detém as chaves, isto é, a memória e a [[lexico:i:imaginacao|imaginação]], do prazer ao longo de toda a vida feliz, e que controla e tempera o hedonismo epicúreo.