===== GRAMÁTICAS GERAIS ===== Depois de haver redigido várias gramáticas (grega, latina, espanhola), um professor das «Petites Écoles» de [[lexico:p:port-royal|Port-Royal]] des Champs, Claude Lancelot, escreveu em 1660, em colaboração com Antoine Arnauld, uma Grammaire Générale et Raisonnée, que posteriormente muitas vezes se designou de [[lexico:g:gramatica|Gramática]] de Port-Royal. A gramática [[lexico:g:geral|geral]] visa enunciar certos [[lexico:p:principios|princípios]] a que todas as línguas obedecem, e que dão a [[lexico:e:explicacao|explicação]] profunda dos usos; trata-se, pois, de definir a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] de que as línguas particulares são casos particulares. O [[lexico:e:exemplo|exemplo]] de Port-Royal foi seguido por muitos gramáticos do século XVII, sobretudo franceses, que são de [[lexico:o:opiniao|opinião]] de que, se nos [[lexico:n:nao|não]] apoiarmos numa gramática geral, a [[lexico:a:aprendizagem|aprendizagem]] das línguas particulares se reduz a um exercício meramente [[lexico:m:mecanico|mecânico]], onde só entram em [[lexico:j:jogo|jogo]] a [[lexico:m:memoria|memória]] e o [[lexico:h:habito|hábito]]. Se todas as línguas têm um [[lexico:f:fundamento|fundamento]] comum, é porque todas elas têm como objectivo permitir aos homens «significarem-se», darem a conhecer uns aos outros os seus [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]]. Ora, Lancelot e Arnauld admitem implicitamente, e certos gramáticos posteriores (como Beauzée) afirmam explicitamente, que a [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] pela [[lexico:p:palavra|palavra]] exige que esta seja uma [[lexico:e:especie|espécie]] de «[[lexico:r:reproducao|reprodução]]», de «[[lexico:i:imitacao|imitação]]», do pensamento. Quando eles afirmam que a [[lexico:l:lingua|língua]] tem como [[lexico:f:funcao|função]] a [[lexico:r:representacao|representação]] do pensamento, esta palavra deve pois [[lexico:s:ser|ser]] tomada no seu [[lexico:s:sentido|sentido]] mais forte. Não se trata apenas de dizer que a palavra é [[lexico:s:signo|signo]], mas também que é espelho, e que comporta uma [[lexico:a:analogia|analogia]] interna com o conteúdo que veicula. Porque é que, [[lexico:a:agora|agora]], estas [[lexico:p:palavras|palavras]] que «[[lexico:n:nada|nada]] têm de parecido com o que se passa no nosso [[lexico:e:espirito|espírito]]», podem, no entanto, imitar «os diversos movimentos da nossa [[lexico:a:alma|alma]]» ? Para os autores de [[lexico:g:gramaticas-gerais|gramáticas gerais]], não se trata de procurar na materialidade da palavra uma imitação da [[lexico:c:coisa|coisa]] ou da [[lexico:i:ideia|ideia]] (embora a [[lexico:c:crenca|crença]] no [[lexico:v:valor|valor]] imitativo dos sons da linguagem se encontre em todas as épocas da [[lexico:r:reflexao|reflexão]] [[lexico:l:linguistica|linguística]], e, mesmo no século XVII, em certos textos de [[lexico:l:leibniz|Leibniz]]). Para eles, só a organização das palavras no [[lexico:e:enunciado|enunciado]] tem um poder [[lexico:r:representativo|representativo]]. Mas como é [[lexico:p:possivel|possível]] que um [[lexico:a:agregado|agregado]] de palavras separadas possa [[lexico:r:representar|representar]] um pensamento cuja [[lexico:c:caracteristica|característica]] primeira é a «indivisibilidade» ([[lexico:t:termo|termo]] usado por Beauzée) ? Será que a fragmentação imposta pela [[lexico:n:natureza|natureza]] material da palavra não contradiz a [[lexico:u:unidade|unidade]] [[lexico:e:essencial|essencial]] do espírito? Para responder a esta [[lexico:q:questao|questão]] (a mesma que no século XIX, guia a reflexão de [[lexico:h:humboldt|Humboldt]] sobre a [[lexico:e:expressao|expressão]] linguística da [[lexico:r:relacao|relação]]), deve notar-se que existe uma [[lexico:a:analise|análise]] do pensamento que, ao decompô-lo, respeita a sua unidade: a análise efectuada pelos lógicos. Ao distinguir numa [[lexico:p:proposicao|proposição]] um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] e um predicada (aquilo a [[lexico:r:respeito|respeito]] do qual se afirma [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], e aquilo que dele se afirma), não se quebra a sua unidade, uma vez que cada um destes termos deve definir-se em relação ao [[lexico:o:outro|outro]], uma vez que o sujeito apenas é sujeito em relação a uma predicação possível, e que o [[lexico:p:predicado|predicado]] não se basta a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], mas comporta uma «ideia confusa» do sujeito em relação ao qual ele é afirmado. Por conseguinte, a palavra poderá deixar transparecer a indivisibilidade do [[lexico:a:ato|ato]] intelectual, se a fragmentação em palavras reproduzir a análise [[lexico:l:logica|lógica]] do pensamento. É por isso que «a [[lexico:a:arte|arte]] de analisar o pensamento é o principal fundamento da arte de [[lexico:f:falar|falar]], ou, por outras palavras, é por isso que uma lógica sã é o fundamento da arte da gramática» (Beauzée). Da ideia de que a linguagem é representação passa-se assim à ideia de que ela é representação do pensamento [[lexico:l:logico|lógico]]. Desde já se compreende que possa haver uma gramática «geral»: como, nessa [[lexico:e:epoca|época]], quase não se põe em [[lexico:d:duvida|dúvida]] que a lógica seja [[lexico:u:universal|universal]], parece [[lexico:n:natural|natural]] que haja princípios, também [[lexico:u:universais|universais]], que todas as línguas devem respeitar quando se esforçam por tornar visível, através das coações da comunicação [[lexico:e:escrita|escrita]] ou oral, a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do pensamento lógico. Compreende-se também que o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] desses princípios possa obter-se de maneira «[[lexico:r:racional|racional]]» (e não indutiva), a partir duma reflexão sobre as operações lógicas do espírito e sobre as necessidades da comunicação. Vê-se, por [[lexico:u:ultimo|último]], que esta gramática geral e racional permite, por sua vez, [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:r:razao|razão]] dos usos observados nas diferentes línguas: trata-se, pois, de «aplicar aos princípios imutáveis e gerais da palavra pronunciada ou escrita, as instituições arbitrárias e usuais» das línguas particulares. **Alguns exemplos** As principais [[lexico:c:categorias|categorias]] de palavras correspondem aos momentos fundamentais do pensamento lógico. Consistindo o [[lexico:j:juizo|juízo]] em atribuir uma [[lexico:p:propriedade|propriedade]] (predicado) a uma coisa, as línguas comportam palavras para designar as [[lexico:c:coisas|coisas]] (substantivos), para designar as propriedades (adjectivos) e para designar o [[lexico:p:proprio|próprio]] ato de [[lexico:a:atribuicao|atribuição]] (o [[lexico:v:verbo|verbo]] ser; os outros verbos representam, segundo Port-Royal, um amálgama do verbo ser com um adjectivo: «o cão corre» = «o cão é corredor»). Outra categorias, ligadas, também elas, ao exercício do pensamento lógico, são determinadas, [[lexico:a:alem|além]] disso, pelas condições da comunicação. Por conseguinte, a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de [[lexico:t:ter|ter]] um [[lexico:n:nome|nome]] para cada coisa impõe o recurso a nomes comuns cuja [[lexico:e:extensao|extensão]] é depois limitada por artigos ou por demonstrativos. Enunciar-se-ão mesmo, combinando [[lexico:p:principios-logicos|princípios lógicos]] com exigências de comunicação, certas regras apresentadas como universais. Por exemplo, o [[lexico:a:acordo|acordo]] entre o nome e o adjectivo que o determina, acordo [[lexico:n:necessario|necessário]] à clareza da comunicação (permite [[lexico:s:saber|saber]] de que nome depende o adjectivo) deve ser uma concordância ([[lexico:i:identidade|identidade]] do [[lexico:n:numero|número]], do [[lexico:g:genero|gênero]] e do caso) porque, segundo a sua natureza lógica, o adjectivo e o nome se referem a uma só e mesma coisa. (Port-Royal vai ao [[lexico:p:ponto|ponto]] de"explicar o [[lexico:m:motivo|motivo]] do acordo do particípio em francês.) Mais ainda, há uma [[lexico:o:ordem|ordem]] das palavras (a que coloca o nome antes do adjectivo [[lexico:e:epiteto|epíteto]], e o sujeito antes do verbo) que é natural e universal, por que, para [[lexico:c:compreender|compreender]] a atribuição duma propriedade a um [[lexico:o:objeto|objeto]], é preciso primeiro representar-se o objeto: só depois é possível afirmar algo sobre ele. Esta última [[lexico:r:regra|regra]] — na [[lexico:m:medida|medida]] em que os contra-exemplos surgem imediatamente (o latim e o alemão quase não respeitam a «ordem natural») — mostra que é indispensável a todas as gramáticas gerais uma [[lexico:t:teoria|teoria]] das figuras. Na época, concebe-se uma [[lexico:f:figura|figura]] de [[lexico:r:retorica|retórica]] como uma maneira de falar artificial e imprópria, substituída voluntariamente, por razões de elegância ou de expressividade, por uma maneira de falar natural, que deve ser restabelecida para que se compreenda o [[lexico:s:significado|significado]] da [[lexico:f:frase|frase]]. Segundo as gramáticas gerais, encontram-se essas figuras não só na [[lexico:l:literatura|literatura]] mas também na própria língua: elas assentam no facto de que a língua, primitivamente destinada a representar o pensamento lógico, se encontra na [[lexico:v:verdade|verdade]] ao serviço das paixões. Estas impõem, por exemplo, abreviações (subentendem-se os [[lexico:e:elementos|elementos]] logicamente necessários, mas afetivamente neutros), e, muito frequentemente, uma inversão da ordem natural (põe-se à cabeça não o sujeito lógico, mas a palavra importante). Em todos estes casos, as palavras subentendidas e a ordem natural haviam primeiramente [[lexico:e:estado|Estado]] presentes no espírito do locutor, e devem ser restabelecidas pelo [[lexico:o:ouvinte|ouvinte]] (o romano que ouvia Venit Petrus era obrigado, para compreender, a reconstruir em si mesmo Petrus venit). É por isso que o latim e o alemão se chamam línguas transpositivas: elas invertem uma ordem primeiramente reconhecida. A [[lexico:e:existencia|existência]] de figuras, em vez de contradizer os princípios gerais, constitui antes a sua [[lexico:c:confirmacao|confirmação]]: elas não substituem as regras, mas sobrepõem-se a elas. Qual a importância histórica da gramática geral? Primeiro que tudo, ela marca, intencionalmente pelo menos, o [[lexico:f:fim|fim]] do privilégio reconhecido, nos séculos precedentes, à gramática latina, que tendia a apresentar-se como [[lexico:m:modelo|modelo]] para qualquer gramática: a gramática geral é tanto latina como francesa ou alemã, mas transcende todas as línguas. Compreende-se que no século XVII se tenha tornado um lugar-comum (repetido em muitos artigos linguísticos da [[lexico:e:enciclopedia|Enciclopédia]]) condenar os gramáticos que só sabem [[lexico:v:ver|ver]] uma língua através de uma outra (ou, como dirá O. Jespersen no século XX, que falam duma língua «com o olhar invejoso» noutra). Por uma lado, a gramática geral evita o [[lexico:d:dilema|dilema]], que até então parecia insuperável, da gramática meramente filosófica e da gramática meramente empírica. Os inúmeros tratados De modis significandi na Idade Média consagravam-se a uma reflexão geral sobre o acto de significar. Por outro lado, a gramática, tal como a entendia Vaugelas, não passava dum registo dos usos, ou antes dos «bons usos», julgando-se a [[lexico:q:qualidade|qualidade]] do [[lexico:u:uso|uso]] sobretudo pela qualidade do utente. A gramática geral procura dar uma explicação dos usos particulares a partir de regras gerais deduzidas. Se essas regras podem aspirar a um tal poder [[lexico:e:explicativo|explicativo]], é porque, apesar de fundadas na lógica, não se contentam com repeti-la : exprimem a sua [[lexico:t:transparencia|transparência]] possível através das condições materiais da comunicação humana.