===== GÊNESE DAS VERDADES ===== Então conclui-se que são inatas. Inatas? Por que [[lexico:n:nao:start|não]]? Explicaremos o que queremos dizer quando dizemos que as [[lexico:v:verdades-de-razao:start|verdades de razão]] são inatas. Por inatas não queremos dizer que as crianças nascem no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] sabendo [[lexico:g:geometria:start|geometria]] [[lexico:a:analitica:start|analítica]]. Não; isto não. [[lexico:i:inato:start|inato]] não quer dizer que estejam totalmente impressas no nosso [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]], no nosso , [[lexico:e:espirito:start|espírito]], na nossa [[lexico:a:alma:start|alma]], estas verdades; quer dizer que estão virtualmente impressas. Inato quer dizer, pois, germinativamente, seminalmente; como numa semente ou num germe encontram-se estas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] no espírito, constituem o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] espírito. No curso da [[lexico:v:vida:start|vida]], do espírito, essas ideias se desenvolvem, se explicitam, se formulam, se separam umas das outras; estabelecem-se e formam-se em sua [[lexico:r:relacao:start|relação]]. A [[lexico:m:matematica:start|matemática]] surge, a matemática se aprende. Mas, que é aprender matemática? Aprender matemática não é algo que se pareça em [[lexico:n:nada:start|nada]] à [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] que um [[lexico:h:homem:start|homem]] possa fazer a [[lexico:o:outro:start|outro]] de uma [[lexico:v:verdade:start|verdade]] de [[lexico:f:fato:start|fato]]. Se alguém vem e me diz: "O roseiral do seu jardim floresceu", este é um novo [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] de fato que entra em mim. Porém, não se aprende assim matemáticas. Aprender matemáticas consiste em que as matemáticas latentes que estão em cada um saiam à superfície, que cada um descubra as matemáticas. E o próprio [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], nos seus Novos [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]], lembra a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da [[lexico:r:reminiscencia:start|reminiscência]], de [[lexico:p:platao:start|Platão]], aquele [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] em que [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] chama a um [[lexico:e:escravo:start|escravo]] jovem, Mênon, para demonstrar a seus ouvintes que [[lexico:e:esse:start|esse]] rapaz também sabia matemáticas sem as [[lexico:t:ter:start|ter]] aprendido, porque as matemáticas surgem, nascem no espírito por [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] dos germes racionais que estão nele. Neste [[lexico:s:sentido:start|sentido]] seminal, [[lexico:g:genetico:start|genético]], germinativo, pode dizer-se que as verdades de [[lexico:r:razao:start|razão]] são inatas. Mas, naturalmente, não no sentido ridículo de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] que um ignorante, que um menino já sabe geometria. Porém, qualquer homem pode vir a conhecê-la e não precisa para isso da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], mas somente do desenvolvimento desses germes já existentes. Expressa isto Leibniz de uma maneira perfeita, clara, quando propõe que ao [[lexico:l:lema:start|lema]] fundamental dos empiristas, ao velho adágio latino, aristotélico de [[lexico:n:nihil-est-in-intellectu-quod-non-prius-fuerit-in-sensu:start|nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu]] (ou seja: "nada há no [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] que não tenha [[lexico:e:estado:start|Estado]] antes nos sentidos"), se acrescente: Nisi intellectus ipse. Nada há no intelecto que não tenha estado antes nos sentidos, a não [[lexico:s:ser:start|ser]] o próprio intelecto com suas leis, com seus germes, com todas essas possibilidades de desenvolvimento que não necessitam mais que desenvolver-se no contacto com a experiência. Em [[lexico:s:suma:start|suma]]: a teoria de Leibniz sobre a [[lexico:o:origem:start|origem]] da verdade de razão descobre aquilo que, a partir dele, e sobretudo em [[lexico:k:kant:start|Kant]], vamos chamar [[lexico:a:a-priori:start|a priori]]. A priori é um [[lexico:t:termo:start|termo]] latino que quer dizer, nesses arrazoados filosóficos, [[lexico:i:independente:start|independente]] da experiência. Diremos, pois, que as verdades de razão são a priori, independentes da experiência, são prévias à experiência, ou, melhor [[lexico:d:dito:start|dito]], alheias a elas, se desenvolvem florescendo dos germes que há em nosso espírito, sem [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de ter sido impressas em nós pela experiência, a qual não poderia imprimi-las, porque aquilo que imprime em nós são os fatos, e os fatos são sempre contingentes, nunca necessários. Depois das verdades de razão vem o [[lexico:e:estudo:start|estudo]] das [[lexico:v:verdades-de-fato:start|verdades de fato]]. As verdades de fato sim, são oriundas da experiência; não têm outra origem; são, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], produzidas pelas experiências; estão impressas em nós por [[lexico:m:meio:start|meio]] da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]. São verdades como essas que dizíamos antes: essa lâmpada é verde. Essas verdades, porém, que são, com efeito, contingentes, que não são necessárias, nem por isso carecem de certa [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]]; são objetivas, enunciam também aquilo que o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] é, dizem-nos a [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] do objeto. Porém isso que o objeto é, essa consistência do objeto, que é, com efeito, o conteúdo das verdades de fato, constitui um conhecimento de segunda [[lexico:o:ordem:start|ordem]], um conhecimento inferior. O [[lexico:i:ideal:start|ideal]] do conhecimento é o conhecimento [[lexico:n:necessario:start|necessário]], o conhecimento que nos fornecem as verdades de razão. Mas as de fato não deixam de ter certa objetividade, porque, com efeito, assim são as [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. Esta lâmpada é com efeito, verde; há, pois, certa objetividade nesse conhecimento. Donde vem a objetividade a este conhecimento das verdades de fato? Vem-lhe de que todas as verdades de fato se sustentam em um [[lexico:p:principio:start|princípio]] de razão. As verdades de fato têm uma base no [[lexico:p:principio-de-razao-suficiente:start|princípio de razão suficiente]]. Uma verdade de fato está fundada enquanto podemos procurar e [[lexico:d:dar-razao:start|dar razão]] de por que é assim. Esta lâmpada é verde, mas poderia ser rosa. Se é verde, é por algo; é porque [[lexico:q:quem:start|quem]] a fez, a fez verde; e a fez verde por algo: porque lho mandaram; e lho mandaram por algo: porque o freguês o pedira; e o freguês o pedira por algo, e assim sucessivamente. De [[lexico:m:modo:start|modo]] que se considerarmos que cada uma das verdades de fato está fundada em um princípio de [[lexico:r:razao-suficiente:start|razão suficiente]], e se prolongarmos a [[lexico:s:serie:start|série]] de razões suficientes a cada uma das [[lexico:c:causas:start|causas]] das verdades de fato até bastante longe, cada prolongamento será mais uma [[lexico:g:garantia:start|garantia]] da objetividade dessas verdades de fato. O ideal seria chegar a uma [[lexico:c:causa:start|causa]] que não necessitasse por seu turno da aplicação do princípio de razão suficiente, mas que fosse uma causa que constituísse já, dentro de si, a necessidade; quer dizer^ que fosse ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] um fato e uma verdade de razão. Tal causa é [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Por conseguinte, em Deus não há verdades de razão e verdades de fato: todas são verdades de razão. Em Deus desapareceria a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre verdades de fato e verdades de razão, porque como Deus conhece atualmente toda a série infinita de razões suficientes que fizeram que cada [[lexico:c:coisa:start|coisa]] seja aquilo que é, como Deus conhece toda essa série de razões de ser como são as coisas, nenhum [[lexico:j:juizo:start|juízo]] é nele assertórico e puramente [[lexico:c:contingente:start|contingente]], mas é necessário. Como ele conhece toda a série infinita atualmente, para ele o contingente deixa de sê-lo e se transforma em necessário. A verdade de fato deixa de ser verdade de fato e se transforma em verdade de razão. Então surge diante de nós um conhecimento [[lexico:r:real:start|real]], puro, um ideal de conhecimento, que consiste em aproximar-nos o mais [[lexico:p:possivel:start|possível]] desse conhecimento [[lexico:d:divino:start|divino]], que consiste em cumular tal [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] de séries de conhecimentos nos [[lexico:p:principios:start|princípios]] de razão suficiente de cada coisa, que a coisa esteja apoiada cada vez mais em razões suficientes e vá devindo cada vez mais uma verdade necessária, uma verdade de razão, em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de ser uma verdade de fato. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}