===== GENEALOGIA DA MORAL ===== [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]], F.. A [[lexico:g:genealogia-da-moral|Genealogia da Moral]]. Tr. Paulo César Lima de Souza. [[lexico:b:belo|belo]] [[lexico:h:horizonte|horizonte]]: Companhia das Letras, 1998 (ebook) Juntamente com o cristianismo, aliás condenando o cristianismo, Nietzsche também submete a [[lexico:m:moral|moral]] a cerrada [[lexico:c:critica|crítica]]. Essa é a "grande [[lexico:g:guerra|guerra]]" que Nietzsche trava em [[lexico:n:nome|nome]] da "[[lexico:t:transformacao|transformação]] dos valores que dominaram até hoje". E essa revolta contra "o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] habitual dos valores" explicita-se especialmente em dois livros, "[[lexico:a:alem|Além]] do [[lexico:b:bem|Bem]] e do [[lexico:m:mal|mal]]" e "Genealogia da Moral". Escreve Nietzsche: "Até hoje, [[lexico:n:nao|não]] se teve sequer a mínima [[lexico:d:duvida|dúvida]] ou a menor hesitação em estabelecer o ‘[[lexico:b:bom|Bom]]’ como [[lexico:s:superior|superior]], em [[lexico:v:valor|valor]], ao ‘mau’ (...). Como? E se a [[lexico:v:verdade|verdade]] fosse o contrário? Como? E se no bem estivesse inserido também um [[lexico:s:sistema|sistema]] de retrocesso ou então um perigo, uma [[lexico:s:seducao|sedução]], um veneno?" Essa é a [[lexico:q:questao|questão]] proposta pela Genealogia da Moral. E é aí que Nietzsche começa a indagar os mecanismos psicológicos que iluminam a [[lexico:g:genese|gênese]] dos valores: a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] da gênese psicológica dos valores, em si mesma, será suficiente para [[lexico:p:por|pôr]] em dúvida a sua pretensa absoluticidade e indubitabilidade. Antes de mais [[lexico:n:nada|nada]], a moral é [[lexico:m:maquina|máquina]] construída para dominar os outros e, em segundo [[lexico:l:lugar|lugar]], devemos logo distinguir entre a moral aristocrática dos fortes e a [[lexico:m:moral-dos-escravos|moral dos escravos]]. Estes são os fracos, os mal-sucedidos. E, como diz o provérbio, os que não podem dar maus exemplos dão bons conselhos. É assim que os constitutivamente fracos agem para subjugar os fortes. E prossegue Nietzsche: "Enquanto toda moral aristocrática nasce da triunfal [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de si, a moral dos [[lexico:e:escravos|escravos]] opõe desde o [[lexico:c:comeco|começo]] um não àquilo que não pertence a ela mesma, àquilo que é diferente dela e constitui o seu [[lexico:n:nao-eu|não-eu]] — [[lexico:e:esse|esse]] é o seu [[lexico:a:ato|ato]] criador. Essa subversão (...) pertence propriamente ao [[lexico:r:ressentimento|ressentimento]]". É o ressentimento contra a [[lexico:f:forca|força]], a saúde e o [[lexico:a:amor|amor]] à [[lexico:v:vida|vida]] que torna [[lexico:d:dever|dever]] e [[lexico:v:virtude|virtude]] e eleva à [[lexico:c:categoria|categoria]] de bons comportamentos como o desinteresse, o [[lexico:s:sacrificio|sacrifício]] de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], a submissão. Assim, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], se examinarmos a [[lexico:p:psicologia|psicologia]] do asceta, aparentemente ele demonstrará [[lexico:p:profundo|profundo]] desinteresse pelas [[lexico:c:coisas|coisas]] e acontecimentos deste [[lexico:m:mundo|mundo]]; entretanto, a [[lexico:a:analise|análise]] um pouco mais aprofundada descobrirá nele forte [[lexico:v:vontade|vontade]] de domínio sobre outros. Sua moral é o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:m:modo|modo]] e o único [[lexico:i:instrumento|instrumento]] com que ele pode subjugar os outros. E é fruto do ressentimento. A moral dos fortes ou dos senhores é a moral do [[lexico:o:orgulho|orgulho]], da generosidade e do [[lexico:i:individualismo|individualismo]]; a moral dos escravos, ao contrário, é a moral dos "filisteus" ressentidos, é a moral da democracia e do [[lexico:s:socialismo|socialismo]]. E essa moral dos escravos é legitimada por metafísicas que a suportam com bases presumidamente "objetivas", sem que se perceba que tais metafísicas nada mais são do que "[[lexico:m:mundos|mundos]] superiores" inventados para poder "caluniar e sujar este mundo" que elas querem reduzir a mera [[lexico:a:aparencia|aparência]]. Escreve Nietzche: "Olhai os bons e os justos! [[lexico:q:quem|quem]] eles odeiam mais que a qualquer [[lexico:o:outro|outro]]? Aquele que rompe o quadro dos valores, o violador, o corruptor. Mas este é aquele que cria. Olhai os crentes de todas as religiões! Quem eles odeiam mais que a qualquer outro? Aquele que rompe o seu quadro de valores, o violador, o corruptor. Mas este é aquele que cria". E esse ódio, que impediu os instintos mais sadios, isto é, os instintos que ligam o [[lexico:h:homem|homem]] à [[lexico:t:terra|Terra]] (que é a [[lexico:a:alegria|alegria]], a saúde, o amor, a intelectualidade superior etc), fez com que esses instintos "se voltassem para trás, se revoltassem contra o [[lexico:p:proprio|próprio]] homem". E foi assim que, ao invés de se desenvolver externamente e [[lexico:c:criar|criar]] um mundo de [[lexico:b:beleza|beleza]] e de grandes obras, desenvolveu-se interiormente, fazendo nascer "a [[lexico:a:alma|alma]]", mas uma alma enferma da [[lexico:d:doenca|doença]] "mais grave e obscura".