===== FUTURO ===== (in. Future; fr. Avenir, al. Zukunft; it. Aveniré). Da [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] [[lexico:t:temporal:start|temporal]] chamada futuro ocupamo-nos noutro [[lexico:l:lugar:start|lugar]] ([[lexico:v:ver:start|ver]] [[lexico:t:tempo:start|tempo]]). Aqui examinaremos a [[lexico:q:questao:start|questão]] posta pela [[lexico:a:analise:start|análise]] de certos enunciados sobre acontecimentos futuros ou supostamente futuros. A [[lexico:e:expressao:start|expressão]] futuros, empregada com frequência, designa, por vezes, os acontecimentos que se supõem terão lugar ou poderiam [[lexico:t:ter:start|ter]] lugar e, outras vezes, os enunciados sobre tais acontecimentos. Para se ver com [[lexico:p:precisao:start|precisão]] que se entende por futuríveis é mister referir- se, embora brevemente, à [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre futuro e [[lexico:n:necessario:start|necessário]] e futuro e [[lexico:c:contingente:start|contingente]]. Os futuros (ou acontecimentos futuros) necessários são os que se supõe que possuem uma [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] determinada antes de terem lugar. Os futuros contingentes, livres ou contingentes livres (que chamaremos futuros contingentes) são os que se supõe que [[lexico:n:nao:start|não]] possuem [[lexico:r:realidade:start|realidade]] determinada antes de terem lugar. Os futuros necessários são os futuros a que se referem todas as formas de [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]]. Segundo elas, todos os acontecimentos futuros são necessários porquanto se encontram “contidos” de antemão numa [[lexico:c:causa:start|causa]], numa [[lexico:s:serie:start|série]] de [[lexico:c:causas:start|causas]], numa [[lexico:v:vontade:start|vontade]], etc. Deve-se a [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] a primeira análise pormenorizada do [[lexico:p:problema:start|problema]] dos futuros contingentes - o problema da [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] e [[lexico:v:valor:start|valor]] de [[lexico:v:verdade:start|verdade]] dos enunciados sobre futuros contingentes e o problema que consiste em [[lexico:s:saber:start|saber]] se pode haver futuros contingentes. Aristóteles afirma que todas as proposições (ou enunciados) são verdadeiras ou falsas com excepção das proposições que afirmam que algo se passará ou não passará no futuro, quer dizer, que se referem a um “futuro contingente”. Estas proposições não são verdadeiras (porque não aconteceu aquilo de que se trata),mas tão pouco são falsas (porque não afirmam que algo não é, ou não negam que algo é). Todavia, a [[lexico:d:disjuncao:start|disjunção]] de uma de tais proposições com a [[lexico:n:negacao:start|negação]] dela é necessariamente verdadeira. Aristóteles dá um [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] que chegou a [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:c:classico:start|clássico]]: “necessariamente haverá amanhã uma batalha naval ou não haverá, mas não é necessário que haja amanhã uma batalha naval e tão pouco é necessário que não haja amanhã uma batalha naval). Mas que haja ou não haja, amanhã uma batalha naval, isso é necessário” (SOBRE A [[lexico:i:interpretacao:start|INTERPRETAÇÃO]]). Neste problema encontram-se implicadas as questões da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] do necessário e do contingente, e da natureza das proposições [[lexico:m:modais:start|modais]], que se formulam assim: “é necessário que p”, “não é necessário que p”, “é [[lexico:p:possivel:start|possível]] que p”, “é possível que não p”, “é contingente que p”, etc.. Muitos filósofos medievais ocuparam-se do problema do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista [[lexico:l:logico:start|lógico]], ou do ponto de vista teológico ou de ambos simultaneamente. Amiúde calcularam que algo necessário é algo para sempre [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]; se não é necessário não é verdadeiro para sempre. Uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] sobre o passado ou sobre o presente é definitivamente falsa ou verdadeira. Uma proposição sobre o futuro contingente não pode ser definitivamente verdadeira ou falsa, mas pode ser verdadeira se o que diz do futuro vier a dar-se e falsa se não vier a dar-se. Até aqui parece que se trata unicamente de uma questão de [[lexico:l:logica:start|lógica]] e especificamente de lógica [[lexico:m:modal:start|modal]]. Mas depressa se ligaram a estes debates os problemas teológicos, em especial estes dois: o problema do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] dos futuros por [[lexico:d:deus:start|Deus]] e o da predeterminação ou não predeterminação dos homens (à [[lexico:s:salvacao:start|salvação]] eterna ou à condenação eterna). São Tomás põe em relevo que Deus tem um conhecimento dos acontecimentos futuros diferente do que as criaturas poderiam ter (no caso de o possuírem). Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], Deus não conhece propriamente o futuro, visto que conhece um presente. O futuro só é futuro para nós. [[lexico:p:pensar:start|pensar]] o contrário é negar que Deus seja [[lexico:e:eterno:start|eterno]] e, [[lexico:c:como-se:start|como se]] sabe, o eterno transcende [[lexico:t:todo:start|todo]] o temporal ([[lexico:s:suma-teologica:start|Suma Teológica]]). Segundo S. Tomás, a proposição que afirma que o conhecimento que Deus tem dum determinado futuro contingente é uma proposição absolutamente necessária. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso sustenta que dada a proposição “se Deus conhece algo, este algo será”, o [[lexico:c:consequente:start|consequente]] é tão necessário como o [[lexico:a:antecedente:start|antecedente]]. Em contrapartida, Duns Escoto sustentava que o futuro (tal como o passado) é também futuro (ou passado) do ponto de vista da [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]] divina, visto que de [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:m:modo:start|modo]] não haveria distinção possível entre passado e futuro. Duns Escoto sustentava, além disso, que as proposições em que se introduzem expressões modais tais como “é contingente”, “não é necessário”, “é possível que”, “é possível que não”, “não é possível que não”e que se referem ao conhecimento de um futuro por Deus, são proposições contingentes; assim por exemplo a proposição “é contingente que Deus conheça que a será” é contingente. Do ponto de vista teológico, Ocam sustenta que Deus conhece todos os contingentes; mais exatamente, conhece que [[lexico:p:parte:start|parte]] de uma [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] relativa a toda a proposição sobre futuros contingentes é verdadeira e que parte é falsa. Ora [[lexico:b:bem:start|Bem]], Deus conhece a parte verdadeira porque a quer como verdadeira, e a parte falsa porque a quer como falsa, quer dizer, não a quer como verdadeira. Isto não significa que o conhecimento em questão dependa da arbitrariedade de Deus, mas sim da [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] divina. A [[lexico:v:vontade-de-deus:start|vontade de Deus]] é causa da verdade, mas não do conhecimento que Deus tem desse [[lexico:f:fato:start|fato]] contingente. Durante os séculos dezasseis e dezassete o problema de saber que conhecimento Deus possui dos futuros contingentes adquiriu [[lexico:s:singular:start|singular]] [[lexico:i:intensidade:start|intensidade]]. Entre as escolas que se enfrentaram distinguiram-se duas: a tomista e a molinista. Durante muito tempo se distinguiram entre dois modos da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] divina: a ciência de [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] e a ciência de [[lexico:v:visao:start|visão]]. A ciência de simples inteligência ou ciência dos possíveis é aquela pela qual Deus conhece os seres e os atos possíveis como possíveis; o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] deste conhecimento são as [[lexico:e:essencias:start|essências]], as proposições necessárias, as [[lexico:v:verdades-eternas:start|verdades eternas]]. A ciência de visão é aquela pela qual Deus conhece os seres e os atos atuais como atuais. O objeto deste conhecimento são os existentes como tais. Os tomistas consideravam que a citada [[lexico:d:divisao:start|divisão]] era adequada e negavam o conhecimento dos futuros contingentes ou futuríveis a menos que se desse dentro dos decretos logicamente possíveis, em cujo caso não saem do [[lexico:e:estado:start|Estado]] de [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]. Assim, afirmavam que a eternidade de Deus faz que se deem num só [[lexico:a:ato:start|ato]] de conhecimento os futuríveis em si mesmos e não apenas em suas causas. Os molinistas estimavam que a mencionada divisão era insuficiente e inadequada e introduziam uma terceira ciência divina: a chamada “ciência média” ou ciência dos futuríveis. Segundo ela, Deus conhece os futuríveis em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], antes de qualquer decreto determinante ou [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], embora não antes de qualquer decreto logicamente possível, pois em tal caso situar-se-iam os futuríveis fora do marco da possibilidade. Em [[lexico:s:suma:start|suma]], Deus conhece os futuríveis desde a eternidade, isto em dois modos: ou por [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] absoluta de todas as circunstâncias que poderiam influir na [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] das causas segundas, ou na sua verdade objetiva eternamente presente. O primeiro modo é caraterístico de [[lexico:m:molina:start|Molina]]; o segundo de [[lexico:s:suarez:start|Suárez]]. A questão perdeu vigência na [[lexico:e:epoca:start|época]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]], apesar de alguns pensadores como [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] e [[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]] a terem examinado em pormenor, mas foi inesperadamente renovada nos nossos dias em ligação como alguns problemas lógicos, semânticos e epistemológicos. Destes últimos destacamos a predição em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] da ciência; com efeito, uns negam que tenha [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:f:falar:start|falar]] de predição dizendo que “chegam a ser verdadeiras”, porquanto não é possível determinar “quando a proposição chega a ser verdadeira”. Outros manifestam que uma predição chega a ser verdadeira simplesmente quando o [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] predito se verifica, pois de contrário careceria de sentido usar vocábulos como ocorrer, ter lugar, etc. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}