===== FUNDAMENTAÇÃO DAS CIÊNCIAS DO ESPÍRITO ===== [[lexico:c:como-se|como se]] vê, à [[lexico:m:medida|medida]] que avança, o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de [[lexico:d:dilthey|Dilthey]] amplia os seus horizontes e os problemas se multiplicam, ligando-se uns aos outros. Entretanto, o núcleo para o qual todos esses problemas convergem e do qual partem é sempre o da [[lexico:f:fundamentacao-das-ciencias-do-espirito|fundamentação das ciências do espírito]]. Pergunta-se Dilthey nos Estudos para a fundamentação das [[lexico:c:ciencias-do-espirito|ciências do espírito]] (1905): "Como é que as ciências do [[lexico:e:espirito|espírito]] podem [[lexico:s:ser|ser]] delimitadas pelas ciências da [[lexico:n:natureza|natureza]]?" Onde estão a [[lexico:e:essencia|essência]] da [[lexico:h:historia|história]] e a sua [[lexico:d:diferenca|diferença]] em [[lexico:r:relacao|relação]] às outras disciplinas? Pode-se alcançar um [[lexico:s:saber|saber]] [[lexico:h:historico|histórico]] [[lexico:o:objetivo|objetivo]]? Na [[lexico:o:obra|obra]] citada e em outra, intitulada A construção do [[lexico:m:mundo|mundo]] histórico nas ciências do espírito (1910), ele apresenta em [[lexico:f:forma|forma]] definitiva o seu [[lexico:p:projeto|projeto]] de fundamentação das ciências do espírito. Operando uma [[lexico:d:distincao|distinção]] entre [[lexico:e:erlebnis|Erlebnis]] e Erleben (o Erlebnis é uma etapa do Erleben, isto é, da [[lexico:v:vida|vida]]), Dilthey sustenta que aquilo que é comum às ciências do espírito, ou seja, o que constitui o seu domínio, é "que todas elas estão baseadas no Erleben, nas expressões encontradas pelos Erlebnisse e no entender voltado para essas expressões". Por outros termos, a corrente da vida se realiza em [[lexico:c:complexo|complexo]] de objetivações cujo [[lexico:s:significado|significado]] deve ser entendido graças ao [[lexico:e:esforco|esforço]] de [[lexico:c:compreensao|compreensão]]. "Os estados de [[lexico:c:consciencia|consciência]] se expressam continuamente em sons, em gestos de vulto, em [[lexico:p:palavras|palavras]] e têm sua [[lexico:o:objetividade|objetividade]] em instituições, estados, igrejas e institutos científicos — e precisamente nessas conexões é que se move a história". E o [[lexico:n:nexo|nexo]] entre Erleben, [[lexico:e:expressao|expressão]] e entender que institui a peculiaridade do mundo [[lexico:h:humano|humano]] e fundamenta a [[lexico:a:autonomia|autonomia]] das ciências do espírito. [[lexico:e:esse|esse]] nexo [[lexico:n:nao|não]] pode ser encontrado na natureza nem nas ciências naturais. A vida, o Erleben, torna-se espírito objetivo, isto é, se objetiva em instituições (Estados, igrejas, sistemas jurídicos, movimentos religiosos, filosóficos, literários e artísticos, sistemas éticos etc). E o entender, na [[lexico:r:referencia|referência]] retrospectiva, dá [[lexico:o:origem|origem]] às ciências do espírito: "tais disciplinas são a história, a [[lexico:e:economia-politica|economia política]], as ciências do [[lexico:d:direito|direito]] e do [[lexico:e:estado|Estado]], a [[lexico:c:ciencia|ciência]] da [[lexico:r:religiao|religião]], o [[lexico:e:estudo|estudo]] da [[lexico:l:literatura|literatura]] e da [[lexico:p:poesia|poesia]], da [[lexico:a:arte|arte]] figurativa e da [[lexico:m:musica|música]], das intuições do mundo e dos sistemas filosóficos e, por [[lexico:f:fim|fim]], a [[lexico:p:psicologia|psicologia]]. Todas essas ciências se referem ao mesmo grande [[lexico:f:fato|fato]]: o [[lexico:g:genero|gênero]] humano", isto é, "a [[lexico:r:realidade|realidade]] histórico-social do [[lexico:h:homem|homem]]". Uma realidade que tem um lado [[lexico:e:externo|externo]] investigável pelas ciências naturais, claro, mas cujo lado interno — o significado ou essência — só pode ser alcançado pelas ciências do espírito. E pode ser alcançado porque, através do entender — que é "um encontro do [[lexico:e:eu|eu]] no tu" —, o homem pode [[lexico:c:compreender|compreender]] as obras e as instituições dos homens. "Aqui, o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] do saber é [[lexico:i:identico|idêntico]] ao seu [[lexico:o:objeto|objeto]]", pois "aqui a vida capta a vida". Em [[lexico:s:suma|suma]], o entender é [[lexico:p:possivel|possível]] porque "a [[lexico:a:alma|alma]] anda pelos caminhos habituais, nos quais já gozou e sofreu, sofreu e agiu em situações de vida semelhantes. Há infinitas estradas no passado e nos sonhos do [[lexico:f:futuro|futuro]]". Através de uma "[[lexico:t:transferencia|transferência]] interior" implica um "consentimento" (Mitfühlen) e uma "penetração simpatética", o homem pode reviver várias outras existências: "Diante dos confins impostos pelas circunstâncias, abrem-se para ele outras belezas do mundo e outras regiões da vida (...). Em termos gerais, ligado às realidades da vida e por elas determinado, o homem vem [[lexico:a:a-se|a se]] libertar não somente mediante a arte — o que tem ocorrido com maior frequência —, mas também através da compreensão daquilo que é histórico". Abre-se a cortina do palco, aparece Ricardo "e, seguindo as suas palavras, os seus gestos e os seus movimentos, o espírito penetrante pode reviver algo que está fora de toda [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de sua vida [[lexico:r:real|real]]". Esse reviver nos torna possível a aquisição das [[lexico:c:coisas|coisas]] espirituais. Assim, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], escreve Dilthey, "quando percorro as cartas e os escritos de [[lexico:l:lutero|Lutero]], os relatos de seus contemporâneos, os anais das conferências religiosas e dos concílios, [[lexico:b:bem|Bem]] como suas atas oficiais, vivo um [[lexico:p:processo|processo]] [[lexico:r:religioso|religioso]] de tal [[lexico:f:forca|força]] de erupção e de tal [[lexico:e:energia|energia]] que, na vida e na [[lexico:m:morte|morte]], ele está [[lexico:a:alem|além]] de toda possibilidade de Erlebnis para cada homem dos nossos dias. Eu, porém, posso revivê-lo". Mais: "Vejo nos claustros uma [[lexico:t:tecnica|técnica]] de contato com o mundo invisível que dá às almas dos monges constante [[lexico:o:orientacao|orientação]] em direção às coisas transcendentes: aqui, as controvérsias teológicas tornam-se questões de [[lexico:e:existencia|existência]] interior. Vejo como é que, no mundo laico, se prepara em numerosos canais — púlpitos, confessionários, cátedras, escritos — [[lexico:o:o-que-e|o que é]] elaborado nos claustros. E, assim, esse processo nos revela um mundo religioso que está presente nele (em Lutero) e nos seus companheiros dos primeiros tempos da [[lexico:r:reforma|Reforma]], ampliando o nosso [[lexico:h:horizonte|horizonte]] através de possibilidades de vida que só desse [[lexico:m:modo|modo]] se tornam acessíveis para nós".