===== FREUDISMO ===== O que importa, enfim, dar mais concisão é que [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:h:historia|história]] é contada aqui. Pois se apresenta o freudismo frequentemente como uma história empírica do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] na qual o que lhe advém e irá lhe advir resulta largamente do que lhe aconteceu na infância, de sua [[lexico:r:relacao|relação]] com o pai, com a mãe, do trauma de seu nascimento etc. O que constitui a [[lexico:i:ingenuidade|ingenuidade]] de toda [[lexico:e:explicacao|explicação]] desse [[lexico:g:genero|gênero]] (como, aliás, da história em [[lexico:g:geral|geral]]), é que [[lexico:n:nao|não]] faz senão reportar ao passado um [[lexico:p:problema|problema]] que se encontra ali intacto e do qual não se avança sequer um passo. “[[lexico:e:explicar|explicar]]” o [[lexico:a:amor|amor]] de um adulto pelo que tinha por sua mãe é explicar o amor pelo amor. O Pai não torna a [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]] [[lexico:i:inteligivel|inteligível]] senão ao que não compreendeu que nessas duas figuras se representa uma mesma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] [[lexico:o:ontologica|ontológica]], precisamente a [[lexico:e:essencia|essência]] da [[lexico:v:vida|vida]] na [[lexico:m:medida|medida]] em que não cessa de se fazer a [[lexico:p:prova|prova]] de si mesma [s’éprouver soi-même] e assim de fazer a prova de si como daquilo de que jamais é o [[lexico:f:fundamento|fundamento]]. A [[lexico:s:situacao|situação]] de desamparo do nascimento só dá conta da [[lexico:a:angustia|angústia]] de um [[lexico:s:ser|ser]] originariamente constituído, em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], como [[lexico:a:afetivo|afetivo]] e capaz de ser determinado afetivamente. Foi com a mesma ingenuidade que a genealogia da [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]], que exporemos aqui, foi considerada uma espécie de história das doutrinas ou das diversas concepções filosóficas ou científicas que a precederam e da qual ela seria como o resultado previsível. E, na [[lexico:v:verdade|verdade]], quando [[lexico:f:freud|Freud]] chegou a Paris, uma [[lexico:p:psicologia|psicologia]] do [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]], apresentada notadamente como a [[lexico:c:condicao|condição]] incontornável do [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] central da [[lexico:m:memoria|memória]], estava espalhada em todos os manuais de [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] da [[lexico:e:epoca|época]]. O [[lexico:c:conceito|conceito]] de inconsciente, que será conjuntamente o de [[lexico:b:bergson|Bergson]] e de Freud, foi ensinado nas escolas antes que fixassem a sua genial [[lexico:d:descoberta|descoberta]] em seus livros. Mas quando se pôs em [[lexico:e:evidencia|evidência]] essas sequências ideológicas sutis com a satisfação legítima que confere a erudição, não se avançou muito. Não foi compreendida ainda a [[lexico:r:razao|razão]] da [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] [[lexico:c:crucial|crucial]] de um inconsciente que constitui o ser mais íntimo e mais [[lexico:p:profundo|profundo]] do [[lexico:h:homem|homem]] – a afirmação de um inconsciente [[lexico:p:psiquico|psíquico]]. O [[lexico:f:fato|fato]] de que essa afirmação se produziu nos contemporâneos de [[lexico:d:descartes|Descartes]] como uma [[lexico:o:objecao|objeção]] inevitável à [[lexico:d:definicao|definição]] [[lexico:e:eidetica|eidética]] da [[lexico:p:psique|psique]] como [[lexico:f:fenomenalidade|fenomenalidade]] pura, em [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], em [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]], em [[lexico:h:hartmann|Hartmann]], em Bergson ou em Freud, ou no manual de filosofia de Rabier, isso apenas diz [[lexico:r:respeito|respeito]] justamente à história, [[lexico:e:esse|esse]] feixe de questões que se pode lhe formular e às quais ela é justamente capaz de responder como “história das [[lexico:i:ideias|ideias]]”. Do [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista da história, aliás, a formulação do inconsciente psíquico, repetida em circunstâncias diferentes, deveria [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:d:dado|dado]] o que [[lexico:p:pensar|pensar]]. Pensar que não se poderia tratar ali, tudo [[lexico:b:bem|Bem]] considerado, de uma descoberta ocasional ou de uma [[lexico:i:invencao|invenção]] pontual. Se a [[lexico:d:designacao|designação]] do inconsciente se refere ao que há de mais profundo em nós e assim ao [[lexico:p:proprio|próprio]] ser, não antes será este [[lexico:u:ultimo|último]] que a produz e não deixa de produzi-la? [[lexico:a:acaso|acaso]] não será a própria vida, em sua invencível retirada do [[lexico:m:mundo|mundo]], na medida em que se oculta à fenomenalidade do [[lexico:e:extase|êxtase]] na qual se move [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:p:pensamento|pensamento]], que extravia esse pensamento a ponto de fazê-lo declarar que tudo o que não se mostra a ele ou não é suscetível de fazê-lo, tudo o que nunca vem a nós na obstância de um [[lexico:o:objeto|objeto]] ou de um “em face”, não é senão Inconsciente – o [[lexico:p:privado|privado]] em si do poder da [[lexico:m:manifestacao|manifestação]]? Genealogia não é certamente arqueologia. Os desvios historiais pelo [[lexico:e:efeito|efeito]] dos quais o inconsciente adveio em nosso mundo, e cada dia lhe vem, não podem constituir o objeto de uma simples constatação, muito menos de uma [[lexico:d:descricao|descrição]], a das estruturas epistêmicas ou dos horizontes ideológicos que dirigem o pensamento [[lexico:m:moderno|moderno]]: os referidos desvios procedem, em última [[lexico:a:analise|análise]] e de [[lexico:m:modo|modo]] cabal, do querer da vida em permanecer em si. É a vida que deixa o [[lexico:c:campo|campo]] livre ao [[lexico:a:aparecer|aparecer]] do mundo, enquanto o funda secretamente; é ela que se diz, portanto, ao pensamento – o qual não pode, em nenhum [[lexico:m:momento|momento]], tomá-la na [[lexico:v:visao|visão]] de seu [[lexico:v:ver|ver]] – como o inconsciente. A construção fantástica desse inconsciente, em conformidade com a imagística [imagérie] científica de uma época, de 1895, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], os desenvolvimentos transcendentes, os raciocínios especulativos, os encaixes de [[lexico:h:hipoteses|hipóteses]] ao [[lexico:i:infinito|infinito]], as personagens mais ou menos pitorescas que são engendradas, seus jogos, às vezes, burlescos – [[lexico:n:nada|nada]] de tudo isso é tão [[lexico:a:absurdo|absurdo]] como parece. A [[lexico:m:mitologia|mitologia]] freudiana tem a [[lexico:s:seriedade|seriedade]] de todas as mitologias, porquanto elas se elevam desse mesmo Fundo [[lexico:e:essencial|essencial]] e secreto que somos nós, que é a vida. E é, por isso, que se crê nela sem muita dificuldade e é nela que tão facilmente nos reconhecemos. Mas como, mais que os outros, de modo mais deliberado em todo caso, o pensamento freudiano pôs em [[lexico:c:causa|causa]] os direitos da [[lexico:o:objetividade|objetividade]] e como nele as [[lexico:c:categorias|categorias]] científicas fulguram sob os pesos das determinações fenomenológicas originárias, pode-se dizer a seu respeito que é também uma espécie de [[lexico:o:ontologia|ontologia]]: na medida em que, longe de ser o [[lexico:u:unico|único]] resultado do [[lexico:t:trabalho|trabalho]] da análise, o seu [[lexico:d:discurso|discurso]] sobre o inconsciente depende, na [[lexico:r:realidade|realidade]], das estruturas fundamentais do ser e as expõe do seu modo. Daí que esse discurso não repete somente, sem [[lexico:s:saber|saber]], o da filosofia clássica (o inconsciente da [[lexico:c:consciencia|consciência]] pura, da “consciência transcendental”, a [[lexico:c:conversao|conversão]] dessa filosofia da consciência em uma filosofia da [[lexico:n:natureza|natureza]] etc), reproduzindo, assim, as grandes carências do pensamento ocidental: ele vai mais longe, até ao impensado desse pensamento, até ao [[lexico:l:lugar|lugar]] em que se funde, através de nós, no invisível de nossa noite, a incansável e invencível vinda em si da vida. A esses [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] da vida, todavia, e embora procedam todos dela, a própria vida permanece indiferente. Reduzir o ser, pelo contrário, ao pensamento que se pode ter dele, inclusive a esse pensamento mais essencial que se lhe une em sua co-pertença e conveniência originária, é [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:i:idealismo|Idealismo]]. [[lexico:c:compreender|compreender]] a psicanálise em sua proveniência historial a partir do ser, não consistirá, pois, de modo algum, em incluí-la neste último como um de seus momentos, uma de suas “figuras” ou de suas “épocas”. Se a nossa relação primitiva com o ser não é uma ek-stasis – e é aqui, no final das contas, o que quer dizer a psicanálise –, se ela não reside no pensamento nem em seus diferentes modos, então não podemos mais entregar-nos inteiramente a esse pensamento, cuja errância, aliás, pouco importa, e o [[lexico:d:destino|destino]] do indivíduo não é, de modo algum, o do mundo. Quer seja puramente e simplesmente negada, como na [[lexico:c:ciencia|ciência]] contemporânea que pretende tudo conter em sua [[lexico:v:visada|visada]] [visée] objetivista, quer se esforce, pelo contrário, em formar dela um conceito [[lexico:a:adequado|adequado]] nesta [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] radical da qual se perseguirá aqui a edificação, ou que a sua [[lexico:r:representacao|representação]] seja lançada no folclore das mitologias, a vida nem por isso deixa de prosseguir sua [[lexico:o:obra|obra]] em nós, não cessando de nos dar a nós mesmos no [[lexico:p:pathos|pathos]] de seu sofrer e de sua embriaguez – ela é a essência eternamente viva da vida. [MHPsique:46-49]