===== FORMAS DA SENSIBILIDADE ===== Chega [[lexico:k:kant|Kant]] à conclusão de que o [[lexico:e:espaco|espaço]] e o [[lexico:t:tempo|tempo]] são as [[lexico:f:formas-da-sensibilidade|formas da sensibilidade]]. E por [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]] entende Kant a [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de [[lexico:t:ter|ter]] percepções. Pois [[lexico:b:bem|Bem]]; o espaço é a [[lexico:f:forma|forma]] da [[lexico:e:experiencia|experiência]] ou percepções externas; o tempo é a forma das vivências ou percepções internas. Mas toda [[lexico:p:percepcao|percepção]] externa tem duas faces: é externa por um dos seus lados, enquanto está constituída pelo que chamamos em [[lexico:p:psicologia|psicologia]] um [[lexico:e:elemento|elemento]] "presentativo"; mas é interna por [[lexico:o:outro|outro]] dos ‘seus lados, porque ao mesmo tempo que [[lexico:e:eu|eu]] percebo a [[lexico:c:coisa|coisa]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] vou dentro de mim sabendo que a percebo; tendo [[lexico:n:nao|não]] somente a percepção dela mas também a [[lexico:a:apercepcao|apercepção]]; dando-me conta de que a percebo. Assim, pois, é ao mesmo tempo um sair de mim para a coisa [[lexico:r:real|real]] fora de mim, e um [[lexico:e:estar|estar]] em mim em cujo "mim" mesmo acontece esta [[lexico:v:vivencia|vivência]]. Por conseguinte o tempo tem uma [[lexico:p:posicao|posição]] privilegiada, porque o tempo é forma da sensibilidade externa e interna, enquanto que o espaço somente é forma da sensibilidade externa. Esta posição privilegiada do tempo, que abrange no seu seio a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] das vivências, tanto na sua [[lexico:r:referencia|referência]] a objetos exteriores como na sua referência a acontecimentos interiores, é a base e [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da compenetração que existe entre a [[lexico:g:geometria|geometria]] e a [[lexico:a:aritmetica|aritmética]]. A geometria e a aritmética não são duas ciências paralelas, separadas por [[lexico:e:esse|esse]] espaço que separa as paralelas, mas antes duas ciências que se compenetram mutuamente. E foi precisamente [[lexico:d:descartes|Descartes]] o primeiro matemático que abriu a passagem entre a geometria e a aritmética, ou melhor [[lexico:d:dito|dito]], entre a geometria e a [[lexico:a:algebra|álgebra]], porque Descartes inventou a geometria [[lexico:a:analitica|analítica]], que é a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de reduzir as figuras à equações ou a possibilidade inversa de tornar [[lexico:f:figura|figura]] uma [[lexico:e:equacao|equação]]. Mais adiante [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] completa, por assim dizer, esta [[lexico:c:coerencia|coerência]] ou compenetração íntima da geometria com a aritmética e com a álgebra no [[lexico:c:calculo-infinitesimal|cálculo infinitesimal]]. Porque então encontra não somente, como Descartes, a possibilidade de passar, mediante leis unívocas, das equações às figuras e das figuras às equações, mas também a possibilidade de encontrar a [[lexico:l:lei|lei]] de [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] de um [[lexico:p:ponto|ponto]] em quaisquer direções do espaço. Esta possibilidade de encerrar numa [[lexico:f:formula|fórmula]] diferencial ou integral as diferentes posições sucessivas de um ponto qualquer segundo o percurso que ele fizer, é, pois, o remate [[lexico:p:perfeito|perfeito]] da coerência entre a geometria e a aritmética. Desta [[lexico:s:sorte|sorte]], toda a [[lexico:m:matematica|matemática]] representa um [[lexico:s:sistema|sistema]] de leis a p rio ri, de leis independentes da experiência e que se impõem a toda percepção sensível. Toda percepção sensível que nós tivermos haverá de estar sujeita às leis da matemática, e essas leis da matemática não foram deduzidas, inferidas de nenhuma percepção sensível: tiramo-las da cabeça, direi usando uma forma [[lexico:v:vulgar|vulgar]] de [[lexico:e:expressao|expressão]]. E, todavia, todas as percepções sensíveis, todos os objetos reais físicos na [[lexico:n:natureza|natureza]] e aqueles que acontecerem no [[lexico:f:futuro|futuro]], eternamente, sempre haverão de estar sujeitos a essas leis matemáticas que nós tiramos de nossa cabeça. Como é isso [[lexico:p:possivel|possível]]? Já o acabamos de ouvir em [[lexico:t:todo|todo]] o desenvolvimento do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] kantiano. Isto é possível porque o espaço e o tempo, base das matemáticas, não são [[lexico:c:coisas|coisas]] que nós conheçamos por experiência, mas antes formas de nossa faculdade de perceber coisas, e, portanto, são estruturas que nós, [[lexico:a:a-priori|a priori]], fora de toda a experiência, imprimimos sobre nossas sensações para torná-las objetos cognoscíveis. As formas da sensibilidade, espaço e tempo, são pois, aquilo que o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] envia ao [[lexico:o:objeto|objeto]] para que o objeto se aposse dele, assimile-o, converta-se nele e logo possa [[lexico:s:ser|ser]] conhecido. Então diremos que Kant emitiu sobre as coisas em si (que continuavam perseguindo os idealistas desde Descartes) uma definitiva [[lexico:s:sentenca|sentença]] de exclusão. As coisas em si mesmas não existem, e se existem não podemos dizer [[lexico:n:nada|nada]] delas, não podemos nem [[lexico:f:falar|falar]] delas. Nós não podemos falar mais que de coisas não em si, mas extensas no espaço e sucessivas no tempo. Porém como o espaço e o tempo não são propriedades que pertençam às coisas "absolutamente", mas formas da sensibilidade, condições para a perceptibilidade, que nós, os sujeitos, pomos nas coisas, resulta que nunca em nenhum [[lexico:m:momento|momento]] terá [[lexico:s:sentido|sentido]] o falar de conhecer as coisas "em si mesmas". A única coisa que terá sentido será falar, não das coisas em si mesmas, mas recobertas das formas de espaço e tempo. E essas coisas recobertas das formas de espaço e tempo chama-as Kant "fenômenos". Por isso diz Kant que não podemos conhecer coisas em si mesmas, mas fenômenos. E que são fenômenos? Pois os fenômenos são as coisas providas já dessas formas do espaço e do tempo que não lhes pertencem em si mesmas; porém lhes pertencem enquanto são objetos "para mim", vistas sempre na [[lexico:c:correlacao|correlação]] [[lexico:s:sujeito-objeto|sujeito-objeto]]. Toda esta [[lexico:p:parte|parte]] da [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da razão pura]] que acabo de expor leva em Kant um [[lexico:n:nome|nome]] esquisito: chama-se "[[lexico:e:estetica-transcendental|estética transcendental]]". Digo que o nome é esquisito não porque o seja em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] (logo se verá que está justificado), mas sim porque a [[lexico:p:palavra|palavra]] "[[lexico:e:estetica|estética]]" tem hoje um sentido muito popular, muito espalhado, que é aquele que habitualmente se evoca ao ouvi-la. A palavra "estética" significa hoje, para todo o [[lexico:m:mundo|mundo]], "[[lexico:t:teoria|teoria]] do [[lexico:b:belo|belo]]", "teoria da [[lexico:b:beleza|beleza]]", ou, ao [[lexico:a:acaso|acaso]], "teoria da [[lexico:a:arte|arte]] e da beleza". Advirta-se, porém, que a palavra "estética", no sentido de teoria do belo, é [[lexico:m:moderna|moderna]], muito moderna; é aproximadamente da mesma [[lexico:e:epoca|época]] que Kant. Kant toma-a em outro sentido muito diferente: toma-a no seu sentido etimológico. A palavra "estética" deriva-se de uma palavra grega que é [[lexico:a:aisthesis|aisthesis]], que se pronuncia "estesis" e que é [[lexico:s:sensacao|sensação]]; também significa percepção. Então, que significa estética? Estética significa teoria da percepção, teoria da faculdade de ter percepções, teoria da faculdade de ter percepções sensíveis e ainda teoria da sensibilidade como faculdade de ter percepções sensíveis. A palavra "[[lexico:t:transcendental|transcendental]]" usa-a Kant no mesmo sentido já tantas vezes dito de [[lexico:c:condicao|condição]] para que algo seja objeto de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]].