===== FILOSOFIA PLATÔNICA ===== Esta duplicidade na [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "[[lexico:s:saber:start|saber]]" corresponde à [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre a [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] e o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] racionalmente [[lexico:b:bem:start|Bem]] fundado, com esta distinção entre a opinião e o conhecimento fundamentado inicia [[lexico:p:platao:start|Platão]] a sua [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Distingue o que ele chama [[lexico:d:doxa:start|doxa]], opinião (a palavra doxa encontramo-la na bem conhecida paradoxa, [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]], que é a opinião que se afasta da opinião corrente), e frente à opinião, que é o saber que temos sem tê-lo procurado, coloca Platão a [[lexico:e:episteme:start|episteme]], a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], que é o saber que temos porque o procuramos. E então, a filosofia já [[lexico:n:nao:start|não]] significa "[[lexico:a:amor:start|amor]] à [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]]", nem tampouco significa o saber em [[lexico:g:geral:start|geral]], qualquer saber; senão que significa [[lexico:e:esse:start|esse]] saber especial que temos, que adquirimos depois de tê-lo procurado e de tê-lo procurado metodicamente, por [[lexico:m:meio:start|meio]] de um [[lexico:m:metodo:start|método]], ou seja, seguindo determinados caminhos, aplicando determinadas funções mentais à [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]]. Para Platão o método da filosofia, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] do saber reflexivo que encontramos depois de tê-lo procurado propositalmente, é a [[lexico:d:dialetica:start|dialética]]. Quer dizer, que quando não sabemos [[lexico:n:nada:start|nada]], ou o que sabemos, o sabemos sem tê-lo procurado, como a opinião, é um saber que não vale nada; quando nada sabemos mas queremos saber; quando queremos aproximar-nos ou chegar a essa episteme, a este saber [[lexico:r:racional:start|racional]] e reflexivo, temos que aplicar um método para encontrá-lo, e esse método Platão o chama dialética. A dialética consiste em supor que o que queremos averiguar é tal [[lexico:c:coisa:start|coisa]] ou tal outra; isto é, antecipar o saber que procuramos, mas logo depois negar e discutir essa [[lexico:t:tese:start|tese]] ou essa [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] que fizemos e depurá-la em [[lexico:d:discussao:start|discussão]]. Ele chama, pois, dialética a esse método da auto-discussão, porque é uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] consigo mesmo. E assim, supondo que as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] são isto ou aquilo, e logo discutindo essa [[lexico:s:suposicao:start|suposição]] para substituí-la por outra melhor, acabamos pouco a pouco chegando ao conhecimento que resiste a todas as críticas e a todas as discussões; e quando chegamos a uma conhecimento que resiste às discussões dialogadas ou dialéticas, então temos o saber filosófico, a sabedoria autêntica, a episteme, como a chama Platão, a ciência. Com Platão, pois, a palavra "filosofia" adquire o sentido de saber racional, saber reflexivo, saber [[lexico:a:adquirido:start|adquirido]] mediante o método dialético. **[[lexico:c:carater:start|Caráter]] poliédrico e polivalente do filosofar platônico** Ao longo dos séculos, revelaram-se paulatinamente diferentes aspectos de Platão. E é precisamente essa [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de fisionomias que constitui o segredo do fascínio que ele exerceu ao longo de toda [[lexico:h:historia:start|história]] espiritual do Ocidente. a) A partir dos filósofos da [[lexico:a:academia:start|Academia]], começou-se a ler Platão em [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] metafísico-gnosiológica, considerando-se como fulcro do [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]] a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] e do conhecimento das Ideias, b) Posteriormente, com o [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]], acreditou-se encontrar a [[lexico:m:mensagem:start|mensagem]] platônica mais autêntica na [[lexico:t:tematica:start|temática]] religiosa, na ânsia do [[lexico:d:divino:start|divino]] e, em geral, na [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] [[lexico:m:mistica:start|mística]], maciçamente presentes na maior [[lexico:p:parte:start|parte]] dos [[lexico:d:dialogos:start|diálogos]], c) Essas duas interpretações se prolongaram, em diferentes formas, até os tempos modernos, quando, finalmente, surgiu uma terceira linha de [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]], original e sugestiva, que indicou a temática [[lexico:p:politica:start|política]], ou melhor, ético-político-educativa, como a [[lexico:e:essencia:start|essência]] do platonismo. Os intérpretes do passado não haviam atribuído nenhuma importância a essa temática ou, pelo menos, não a haviam considerado em seu justo [[lexico:v:valor:start|valor]]. Platão, entretanto, na Carta VII (recuperada como autêntica somente em nosso século), afirma claramente que sua [[lexico:p:paixao:start|paixão]] profunda foi precisamente a política. Sua própria [[lexico:v:vida:start|vida]] confirma isso, especialmente através das experiências sicilianas. E, paradoxalmente, isso também é confirmado pelos próprios títulos das obras-primas platônicas, de A [[lexico:r:republica:start|República]] e As Leis. d) Finalmente, nas últimas décadas, recuperamos a dimensão da "oralidade dialética" e o sentido daquelas "coisas últimas" que, segundo a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de Platão, deviam permanecer "não escritas". Acreditamos, entretanto, que o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] Platão não possa [[lexico:s:ser:start|ser]] encontrado em nenhuma dessas perspectivas singularmente tomadas e consideradas válidas de [[lexico:m:modo:start|modo]] exclusivo: parece-nos que só é [[lexico:p:possivel:start|possível]] encontrá-lo no conjunto de todos esses rumos de interpretação, na [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]] própria de cada um deles. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], as três primeiras propostas de [[lexico:l:leitura:start|leitura]], como dizíamos, iluminam três lados da poliédrica e polivalente [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] platônica, três dimensões ou três linhas de [[lexico:f:forca:start|força]] que constantemente emergem, diversamente acentuadas ou objetivadas pelos escritos platônicos considerados individualmente ou em conjunto. A quarta proposta de leitura, a da "oralidade dialética", explica a própria [[lexico:r:razao:start|razão]] dessa polivalência e do caráter multifacetado da [[lexico:o:obra:start|obra]] de Platão, deixando transparecer claramente os verdadeiros contornos do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] platônico. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}