===== FILOSOFIA GREGA ===== A [[lexico:f:filosofia-grega|filosofia grega]] [[lexico:n:nao|não]] é uma [[lexico:c:ciencia|ciência]], uma [[lexico:t:teoria|teoria]] ou [[lexico:d:disciplina|disciplina]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], tal como nós as entendemos hoje em dia. Ao contrário! Toda ciência, teoria ou disciplina do conhecimento é que são, de alguma maneira, dependentes da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] Grega, quer se reconheçam ou não, quer se assumam ou não, como oriundas da Filosofia. A Filosofia Grega também não se constitui uma [[lexico:i:ideologia|ideologia]], concepção de [[lexico:v:vida|vida]] ou [[lexico:v:visao-de-mundo|visão de mundo]]. Mas não vale a inversão. Pois, uma ideologia, concepção de vida ou [[lexico:v:visao|visão]] de [[lexico:m:mundo|mundo]] não pode prescindir de [[lexico:t:todo|todo]] da Filosofia Grega. Foi o que, em 1949, no Congresso Nacional de Filosofia, reunido em Mendoza, na Argentina, reconheceu o [[lexico:p:proprio|próprio]] Bertrand [[lexico:r:russell|Russell]] com as seguintes [[lexico:p:palavras|palavras]]: "... incompromising empiricism is untenable!" / um [[lexico:e:empirismo|empirismo]] sem [[lexico:c:compromisso|compromisso]] é insustentável!" Mas então [[lexico:o:o-que-e|o que é]] Filosofia Grega, se não for ciência, teoria ou disciplina do conhecimento, nem ideologia, concepção de vida ou visão de mundo? - Antes de responder, pensemos um pouco o que nos leva a perguntar assim, isto é, o que nos torna esta [[lexico:p:pergunta|pergunta]] não somente [[lexico:p:possivel|possível]] como, sobretudo, imperiosa! Esta pergunta supõe aceitas sem [[lexico:d:discussao|discussão]] muitas [[lexico:c:coisas|coisas]]. Assim supõe que toda Filosofia, portanto também a Filosofia Grega, seja ou, ao menos, pretenda [[lexico:s:ser|ser]] um exercício de conhecimento. Supõe, do mesmo [[lexico:m:modo|modo]], que, [[lexico:a:alem|além]] do conhecimento, já não sobre [[lexico:n:nada|nada]] mais para a Filosofia ser. Supõe, igualmente, que tudo que é não possa deixar de ser [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], um quê, por isso se pergunta o que é. Supõe, outrossim, que toda pretensão de conhecimento termine sempre ou com a produção de um [[lexico:c:conhecimento-objetivo|conhecimento objetivo]] e então é ciência, ou, com a produção de uma [[lexico:i:ilusao|ilusão]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]] ou empírica e então é ideologia. Supõe, por [[lexico:f:fim|fim]], que toda [[lexico:e:epoca|época]], a época dos gregos também, tenha sua concepção de vida e visão de mundo. [[lexico:c:como-se|como se]] vê, não são poucas as suposições que sustentam aquela pergunta! Mas e se todas estas suposições forem e estiverem a serviço de dicta dura, isto é, da ditadura da [[lexico:r:razao|razão]], seu [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] e sua [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]], muito bons, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], para conhecer objetos, mas imprestáveis para [[lexico:p:pensar|pensar]] a [[lexico:r:realidade|realidade]] nas realizações do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:g:grego|grego]]? Neste caso, com que cara nós ficaremos, ao perguntar: "Mas, então, que é a Filosofia Grega se não for nem conhecimento nem ideologia, nem concepção de vida nem visão de mundo?" Será que ainda ficaremos com uma cara quando só nos restar a carranca intransigente da razão e sua ditadura? [[lexico:a:agora|agora]] que sabemos das suposições e limites da pergunta, poderemos tentar respondê-la. A Filosofia Grega é uma [[lexico:e:experiencia|experiência]] de Pensamento. Mas não é a única experiência grega de pensamento. Outra experiência grega de Pensamento é o [[lexico:m:mito|mito]] e a [[lexico:m:mistica|Mística]]. Uma outra, são os [[lexico:d:deuses|deuses]] e o [[lexico:e:extraordinario|extraordinário]]. Ainda uma outra é a [[lexico:p:poesia|poesia]] e a [[lexico:a:arte|arte]]. Ainda outra é a [[lexico:p:polis|polis]] e a [[lexico:p:politeia|politeia]]. A última, por ser no fundo a primeira experiência grega de Pensamento, é a vida e a [[lexico:m:morte|morte]], [[lexico:e:eros|Eros]] e tanatos. Segundo a [[lexico:t:tradicao|tradição]], o criador do [[lexico:t:termo|termo]] "filo-sofia" foi [[lexico:p:pitagoras|Pitágoras]], o que, embora não sendo historicamente seguro, no entanto é [[lexico:v:verossimil|verossímil]]. O termo certamente foi cunhado por um [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:r:religioso|religioso]], que pressupunha só ser possível aos deuses uma [[lexico:s:sofia|sofia]] ("[[lexico:s:sabedoria|sabedoria]]"), ou seja, uma [[lexico:p:posse|posse]] certa e total do [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], uma contínua aproximação ao verdadeiro, um [[lexico:a:amor|amor]] ao [[lexico:s:saber|saber]] nunca saciado totalmente, de onde, justamente, o [[lexico:n:nome|nome]] "filo-sofia", ou seja, "amor pela sabedoria". Mas, substancialmente, o que entendiam os gregos por essa amada e buscada "sabedoria"? Desde o seu nascimento, a filosofia apresentou de modo [[lexico:b:bem|Bem]] claro três conotações, respectivamente relativas a 1) o seu conteúdo, 2) o seu [[lexico:m:metodo|método]] e 3) o seu [[lexico:o:objetivo|objetivo]]. 1) No que se refere ao conteúdo, a filosofia pretende [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] das coisas, ou seja, toda a realidade, sem exclusão de partes ou momentos dela. Assim, a filosofia distingue-se das ciências particulares, que assim se chamam exatamente porque se limitam a explicar partes ou setores da realidade, grupos de coisas ou de fenômenos. E a pergunta daquele que foi e é considerado como o primeiro dos filósofos — "Qual é o [[lexico:p:principio|princípio]] de todas as coisas?" —já mostra a perfeita [[lexico:c:consciencia|consciência]] desse [[lexico:p:ponto|ponto]]. Portanto, a filosofia se propõe como [[lexico:o:objeto|objeto]] a totalidade da realidade e do ser. E, como veremos, alcança-se a totalidade da realidade e do ser precisamente descobrindo qual é o primeiro "princípio", isto é, o primeiro "por que" das coisas. 2) No que se refere ao método, a filosofia visa ser "[[lexico:e:explicacao|explicação]] puramente [[lexico:r:racional|racional]] daquela totalidade" que tem por objeto. O que vale em filosofia é o [[lexico:a:argumento|argumento]] da razão, a [[lexico:m:motivacao|motivação]] [[lexico:l:logica|lógica]], o [[lexico:l:logos|Logos]]. Não basta à filosofia constatar, determinar dados de [[lexico:f:fato|fato]] ou reunir experiências: ela deve ir além do fato e além das experiências, para encontrar a [[lexico:c:causa|causa]] ou as [[lexico:c:causas|causas]] precisamente através da razão. É justamente [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:c:carater|caráter]] que confere "cientificidade" à filosofia. Pode-se dizer que esse caráter também é comum às outras ciências, que, enquanto tais, nunca são uma mera constatação empírica, mas também são [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] de causas e razões. A [[lexico:d:diferenca|diferença]], porém, está no fato de que, enquanto as ciências particulares são pesquisa racional de realidades e setores particulares, a filosofia, como dissemos, é pesquisa racional de toda a realidade (do princípio ou dos [[lexico:p:principios|princípios]] de toda a realidade). Com isso, fica esclarecida a diferença entre a filosofia, arte e [[lexico:r:religiao|religião]] também: a grande arte e as grandes religiões também visam captar o [[lexico:s:sentido|sentido]] da totalidade do [[lexico:r:real|real]], mas o fazem, respectivamente, uma com o mito e a. [[lexico:f:fantasia|fantasia]], outra com a [[lexico:c:crenca|crença]] e a [[lexico:f:fe|fé]] (como dissemos acima), ao passo que a filosofia procura a explicação da totalidade do real precisamente ao nível do logos. 3) Por [[lexico:u:ultimo|último]], o objetivo ou fim da filosofia está no [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:d:desejo|desejo]] de conhecer e contemplar a [[lexico:v:verdade|verdade]]. Em [[lexico:s:suma|suma]], a filosofia grega é amor desinteressado pela verdade. Como escreve [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], no filosofar, os homens "buscaram o conhecer a fim de saber e não para conseguir alguma [[lexico:u:utilidade|utilidade]] prática". Com [[lexico:e:efeito|efeito]], a filosofia só nasceu depois que os homens resolveram os problemas fundamentais da [[lexico:s:subsistencia|subsistência]], libertando-se das mais urgentes necessidades materiais. E conclui Aristóteles: "Portanto, é evidente que nós não buscamos a filosofia por nenhuma [[lexico:v:vantagem|vantagem]] estranha a ela. Aliás, é evidente que, como consideramos [[lexico:h:homem|homem]] livre aquele que é fim em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], sem [[lexico:e:estar|estar]] submetido a outros, da mesma [[lexico:f:forma|forma]], entre todas as outras ciências, só a esta consideramos livre, pois só ela é fim em si mesma." E é fim em si mesma porque tem por objetivo a verdade, procurada, contemplada e desfrutada como tal. Então, pode-se [[lexico:c:compreender|compreender]] a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de Aristóteles: "Todas as outras ciências podem ser mais necessárias do que esta, mas nenhuma será [[lexico:s:superior|superior]]." Uma afirmação que foi adotada por todo o helenismo. Impõe-se, porém, uma [[lexico:r:reflexao|reflexão]]: a "[[lexico:c:contemplacao|contemplação]]" peculiar à filosofia grega não é um otium [[lexico:v:vazio|vazio]]. Embora não se submetendo a objetivos utilitaristas, ela possui uma relevância [[lexico:m:moral|moral]] e também [[lexico:p:politica|política]] de primeira [[lexico:o:ordem|ordem]]. Com efeito, é evidente que, ao se contemplar o todo, mudam necessariamente todas as perspectivas usuais, muda a visão do [[lexico:s:significado|significado]] da vida do homem e se impõe uma nova [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] de valores. Em resumo, a verdade contemplada infunde uma enorme [[lexico:e:energia|energia]] moral. E, como veremos, com base precisamente nessa energia moral foi que [[lexico:p:platao|Platão]] quis construir o seu [[lexico:e:estado|Estado]] [[lexico:i:ideal|ideal]]. Mas só mais adiante é que poderemos desenvolver e esclarecer adequadamente esses [[lexico:c:conceitos|conceitos]]. Entrementes, ficou evidente a absoluta [[lexico:o:originalidade|originalidade]] dessa [[lexico:c:criacao|criação]] grega. Os povos orientais também tiveram uma "sabedoria" que tentava interpretar o sentido de todas as coisas (o sentido do todo) sem se submeter a objetivos pragmáticos. Mas tal sabedoria era entremeada de representações fantásticas e míticas, o que a levava para a [[lexico:e:esfera|esfera]] da arte, da poesia ou da religião. Em conclusão, a grande [[lexico:d:descoberta|descoberta]] da "filo-sofia" grega foi a de [[lexico:t:ter|ter]] tentado essa aproximação ao todo fazendo [[lexico:u:uso|uso]] somente da razão (do logos) e do método racional. Uma descoberta que condicionou estruturalmente, de modo [[lexico:i:irreversivel|irreversível]], todo o Ocidente.