===== FILOSOFIA E TEOLOGIA ===== Sem confundir-se nunca, a [[lexico:r:razao|razão]] e a [[lexico:f:fe|fé]] podem compenetrar-se e ajustar-se mutuamente. A [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] e a [[lexico:t:teologia|teologia]] de [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] são exemplos admiráveis desta mútua compenetração e ajuda, que jamais degenera em confusão das duas ordens. A filosofia pode muito [[lexico:b:bem|Bem]] desempenhar sua [[lexico:f:funcao|função]] própria na teologia. As verdades da fé [[lexico:s:ser|ser]] vem, de sua [[lexico:p:parte|parte]], para iluminar os caminhos do [[lexico:p:pensar|pensar]] filosófico Mas sempre a fé e a razão procedem segundo sua própria e peculiar [[lexico:m:modalidade|modalidade]]. Na teologia, a filosofia [[lexico:n:nao|não]] se excederá tentando a [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] das verdades reveladas, que ultrapassam [[lexico:t:todo|todo]] o poder da razão humana. Isso seria contrário ao [[lexico:b:bom|Bom]] [[lexico:m:metodo|método]] e ademais constituiria uma imprudência notória, gravemente prejudicial para a própria fé. Mas a filosofia poderá e deverá "declarar" a fé, explicá-la, rodeá-la de comparações e preparações racionais. Elaborará os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] necessários que, a [[lexico:m:modo|modo]] de instrumentos mentais, sirvam para captar e reter melhor no [[lexico:e:espirito|espírito]] as verdades da fé. Mais ainda: visto que entre a fé do teólogo e a razão do [[lexico:f:filosofo|filósofo]] não pode haver discrepância, a filosofia deverá [[lexico:t:ter|ter]] por [[lexico:a:axioma|axioma]] certo que toda suposta demonstração [[lexico:r:racional|racional]] da [[lexico:f:falsidade|falsidade]] de um artigo de fé há de ser necessariamente falsa e sofistica; e ao filósofo tocará demonstrá-lo, abrindo assim [[lexico:c:campo|campo]] livre para a vigência indiscutível do [[lexico:d:dogma|dogma]]. De sua parte a filosofia não pode senão lucrar no contacto e fraternidade com a teologia. Da teologia tirará a filosofia indicações preciosas para seu propósito. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]]: de antemão saberá o filósofo crente que certas teses filosóficas têm que ser necessariamente falsas: todas aquelas teses que, de um modo ou de [[lexico:o:outro|outro]], resultem incompatíveis com os’ dogmas da fé. E esta [[lexico:i:iluminacao|iluminação]] orientadora da fé o guiará através dos problemas racionais e lhe indicará as questões em que o [[lexico:e:esforco|esforço]] do seu [[lexico:i:intelecto|intelecto]] deva firmar-se com maior afinco. Mas mesmo nos momentos de mais íntima colaboração e compenetração a razão e a fé conservam sempre seus [[lexico:c:caracteres|caracteres]] próprios e diferenciais, mantendo intacta a mútua independência. O filósofo demonstra por razões evidentes. O teólogo, pelo contrário, apela sempre, como [[lexico:f:fonte|fonte]] indiscutível, à [[lexico:a:autoridade|autoridade]] suprema da [[lexico:r:revelacao|revelação]] di vina. E até tal [[lexico:p:ponto|ponto]] acentua Tomás de Aquino a [[lexico:d:distincao|distinção]] radical entre esses dois [[lexico:m:modos-de-conhecimento|modos de conhecimento]], entre o método racional da filosofia e o método de autoridade da teologia, que chega a declarar entre ambas as ciências, uma [[lexico:d:diferenca|diferença]] de [[lexico:g:genero|gênero]]. Sem reservas de nenhuma [[lexico:e:especie|espécie]], com plena [[lexico:c:consciencia|consciência]] da profunda novidade que esta concepção implica, Tomás de Aquino proclama e realiza rigorosamente a distinção e, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], a [[lexico:u:unidade|unidade]] da razão e da fé. Sua filosofia é filosofia e [[lexico:n:nada|nada]] mais que filosofia. Ou, como costuma dizer-se hoje, filosofia pura. Nada de piedosas fraudes. Nem o menor [[lexico:e:elemento|elemento]] de suas demonstrações racionais está torcido ou inibido ou exaltado pela [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] de acomodá-lo. A filosofia de Tomás de Aquino pode apresentar-se na [[lexico:h:historia|história]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:h:humano|humano]] como [[lexico:m:modelo|modelo]] [[lexico:p:perfeito|perfeito]] de [[lexico:o:objetividade|objetividade]] racional. Não há nela nem rastro dessas habilidades habituais nos virtuosos do pensamento, que sabem às vezes com [[lexico:s:singular|singular]] mestria [[lexico:p:por|pôr]] o [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] ao serviço de uma [[lexico:c:causa|causa]] alheia à pura [[lexico:v:verdade|verdade]]. Quase me atreveria a dizer que a filosofia de Tomás de Aquino não é, na sua [[lexico:i:intencao|intenção]], [[lexico:f:filosofia-crista|filosofia cristã]]. É filosofia verdadeira e, por isso, resulta cristã. Porque todo o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] intelectual do [[lexico:s:santo|santo]] Doutor se funda precisamente na [[lexico:c:conviccao|convicção]] de que o melhor serviço que a filosofia pode prestar à [[lexico:r:religiao|religião]] consiste em desenvolver-se como exclusiva e autêntica filosofia. A verdade pura do pensar [[lexico:p:puro|puro]] não pode senão conduzir em linha reta à verdade santa da [[lexico:c:crenca|crença]] religiosa. Por isso no [[lexico:s:sistema|sistema]] de Tomás de Aquino fraternizam de maneira quase miraculosa a profundidade com a singeleza; e o [[lexico:a:acordo|acordo]] das verdades racionais com as verdades da fé se produz de modo tão [[lexico:n:natural|natural]] e evidente que se diria o encaixe e [[lexico:u:uniao|união]] das duas metades do mesmo todo. A unidade objetiva da verdade é a base sobre que se funda a [[lexico:h:harmonia|harmonia]] entre a fé e a razão. A verdade racional e a verdade da fé não podem contradizer-se. O [[lexico:u:unico|único]] contrário da verdade é a falsidade. Um só e mesmo [[lexico:d:deus|Deus]] é o autor de nossa razão e o autor da revelação. Necessariamente, portanto, hão de coincidir a revelação e a razão que procedem da absoluta verdade de Deus. A fé sabe o que sabe por aceitação reverenciai da autoridade divina. A razão sabe o que sabe por própria [[lexico:a:atividade|atividade]] inteligente. Porém, ambos os saberes são verdades e não podem contradizer-se, porque os [[lexico:p:principios|princípios]] do raciocínio foram postos em nós por Deus, que é o mesmo autor da revelação recebida pela fé. A verdade de uma [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] consiste na concordância daquilo que se diz com aquilo que é, não no modo ou método pelo qual chegamos a tal afirmação. Uma [[lexico:o:ocorrencia|ocorrência]] fortuita, um pensamento infundado, asseverações de um demente, podem ser verdadeiros se o pensado ou asseverado concorda com o ser do pensado ou asseverado, embora sua procedência resulte inexplicável ou incompreensível. É [[lexico:p:possivel|possível]] acertar por casualidade. Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] nas [[lexico:c:coisas|coisas]] humanas e mundanas a [[lexico:g:garantia|garantia]] do acerto ou da verdade deve ser exigida em [[lexico:f:forma|forma]] de provas e demonstrações, que nos convençam de que o pensado ou o falado coincide com o [[lexico:o:objeto|objeto]] a que se refere. Mas se o objeto está fora do alcance de nossa [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de comprovar e demonstrar, e se, de outra parte, a afirmação vem acompanhada de evidentes sinais que a indicam como de procedência divina, então é possível e conveniente e [[lexico:n:necessario|necessário]] recebê-la por verdadeira, embora não possamos humana e racionalmente comprová-la e demonstrá-la. E em todo caso, podemos [[lexico:e:estar|estar]] bem certos é que entre essas afirmações recebidas pela fé e as que a razão natural elabora, não pode haver [[lexico:c:contradicao|contradição]] alguma. A [[lexico:r:realidade|realidade]] é uma. Deus é um. A verdade é uma. A concordância entre a fé e a razão se funda em [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:e:extremo|extremo]] sobre o [[lexico:p:postulado|postulado]] da unidade do ser e da verdade em Deus.