===== FILOSOFIA E METAFÍSICA ===== Na [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] filosófica nenhuma [[lexico:p:palavra:start|palavra]] supera as vicissitudes sofridas pelo vocábulo ‘[[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]’, cujo primeiro [[lexico:s:sentido:start|sentido]] foi puramente classificatório, depois se revestiu de acepção pejorativa, em seguida caracterizou uma etapa civilizatória e, portanto, negada na etapa subsequente, para terminar representando o papel de uma [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] em certas divisões pedagógicas da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Nasceu o vocábulo no século I a. C. quando [[lexico:a:andronico-de-rodes:start|Andrônico De Rodes]], ao ordenar os escritos de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], encontrou alguns livros cuja [[lexico:d:denominacao:start|denominação]], assim como sua colocação dentro da [[lexico:o:obra:start|obra]] aristotélica, eram problemáticas. Resolveu, então, pô-los "depois dos livros de [[lexico:f:fisica:start|física]]" (tà meta tà physikà). Posteriormente essas [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] [[lexico:p:palavras:start|palavras]] gregas se reduziram a uma só, mediante a supressão dos artigos e [[lexico:f:fusao:start|fusão]] da preposição com o substantivo. E assim surgiu o vocábulo ‘metaphysica’, de cunhagem latina apesar de sua evidente [[lexico:o:origem:start|origem]] helênica, e sua [[lexico:f:fortuna:start|fortuna]] se deve a que nunca foi entendido como uma prosaica postphysica, mas como uma reverberante, incitante e misteriosa transphysica, acepção adotada por [[lexico:s:santo:start|santo]] Tomas De Aquino, constituindo, em toda a [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] medieval e [[lexico:m:moderna:start|moderna]], um [[lexico:s:saber:start|saber]] que pretende penetrar no que está situado [[lexico:a:alem:start|além]] ou por trás do [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:f:fisico:start|físico]] enquanto tal. Na polêmica contra os escolásticos, a metafísica foi envolvida sofrendo a mesma [[lexico:c:critica:start|crítica]] da [[lexico:l:logica:start|lógica]] medieval e assumiu um sentido pejorativo, em [[lexico:p:particular:start|particular]] nos filósofos [[lexico:c:cientistas:start|cientistas]] do século XVII, que dela se serviam para estigmatizar na [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] uma ôca logomaquia, aparecendo sempre associada a adjetivos depreciativos. [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], no [[lexico:d:discurso:start|discurso]] do [[lexico:m:metodo:start|método]] (IV, 1) se desculpa de que suas considerações sejam "tão metafísicas e tão pouco comuns"; o mesmo acontece com [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]] que, em De corpore (II, 8, § 9), diz que "a maioria dos que buscam certa [[lexico:s:sutileza:start|sutileza]] metafísica são extraviados pelo [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] das palavras como fogos fátuos". Desta depreciação resulta, afinal, o menosprezo em que caiu a metafísica no século seguinte, dedicando [[lexico:v:voltaire:start|Voltaire]], no seu Dicionário filosófico, um verbete à palavra ‘metafísica’ discretamente irônico, indo porém mais longe D’Alembert ao afirmar que o título de metafísico logo se transformaria numa injúria, "como o [[lexico:n:nome:start|nome]] de [[lexico:s:sofista:start|sofista]], que no entanto significava [[lexico:s:sabio:start|sábio]]". Em [[lexico:c:comte:start|Comte]], a metafísica passa a designar o [[lexico:m:modo:start|modo]] de [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] entre o teológico e o [[lexico:p:positivo:start|positivo]], tendo como [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] próprios a [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]], o predomínio das abstrações e das explicações verbais, caracterizando-se o "[[lexico:e:estado:start|Estado]] metafísico" aquele em que o [[lexico:h:homem:start|homem]] se esforça por [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] íntima das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] por entidades, e no qual domina a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] a argumentar em [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de observar, chegando Sully Prudhomme a afirmar que "a metafísica começa onde a clareza termina". O mesmo ocorre com o [[lexico:c:criticismo:start|criticismo]] neokantiano que nega a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de um [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]] do suprassensível, reconhecendo, portanto, a impotência última do saber conceituai proporcionado pela [[lexico:c:ciencia:start|ciência]]. Finalmente, a metafísica é reduzida a uma seção da filosofia, para fins pedagógicos, designando coletivamente tudo o que [[lexico:n:nao:start|não]] cabia nas outras seções. Assim, o que não era [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]], nem lógica, nem [[lexico:m:moral:start|moral]] e nem [[lexico:t:teodiceia:start|Teodiceia]], passou a ser metafísica, [[lexico:c:como-se:start|como se]] pode [[lexico:v:ver:start|ver]] em Paul [[lexico:j:janet:start|Janet]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] a [[lexico:q:questao:start|questão]] fundamental da metafísica estava nas "[[lexico:r:relacoes:start|relações]] do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e do [[lexico:o:objeto:start|objeto]], do pensamento e do ser". Não obstante essa tradição, mais confusionista que negativista, que tem sido o maior [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] para que a metafísica assuma um sentido que possa ser comumente aceito, hoje em dia o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] de "[[lexico:r:retorno:start|retorno]] à metafísica" se consolida cada vez mais, graças a três grupos de [[lexico:m:motivos:start|motivos]], assinalados por Julián [[lexico:m:marias:start|Marías]]: a) Os primeiros motivos são inicialmente extra-filosóficos, em particular teológicos, e significam uma [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de reivindicar a metafísica e justificá-la, quase sempre em suas formas escolásticas e como [[lexico:r:reacao:start|reação]] contra a [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] (não só a que é especificamente adversa à metafísica, mas em sua [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]]), sobressaindo-se os nomes de Bolzano, Rosmini. Gioberti, Gratry, [[lexico:b:brentano:start|Brentano]] e os iniciadores do movimento neotomista, Liberatore, Sanseverino E Kleutgen. b) Os segundos, cujo [[lexico:a:antecedente:start|antecedente]] inicial se encontraria em Bolzano e sua plenitude em Brentano, significam a reconquista da [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]]: através de Marty, [[lexico:m:meinong:start|Meinong]], Von Ehrenfels e, sobretudo, [[lexico:h:husserl:start|Husserl]], se deságua numa filosofia que, ao [[lexico:s:superar:start|superar]] [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:s:subjetivismo:start|subjetivismo]] e todo [[lexico:p:psicologismo:start|psicologismo]], enfrenta-se novamente como [[lexico:t:tema:start|tema]] de [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. c) O [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de motivos é particularmente sutil: trata-se do descobrimento de certas realidades ou aspectos da realidade cujo [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:g:geral:start|geral]] é a irredutibilidade: o "[[lexico:f:fato:start|fato]] [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]]" de [[lexico:m:maine-de-biran:start|Maine de Biran]], a "[[lexico:e:existencia:start|existência]]" em [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]], a tríplice realidade do "sentido" em Gratry, a "[[lexico:v:vida:start|vida]]" e a "[[lexico:h:historia:start|história]]" em [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]]. Estas realidades, que de certo modo provocam uma crise irracionalista na filosofia, fazem-na transcender dos supostos cientificistas, explicativos e positivistas, e atiram-na ante problemas radicais. Seu primeiro [[lexico:p:problema:start|problema]], adverte Julián Marías, é o da [[lexico:d:definicao:start|definição]] da metafísica. A metafísica não pode ser definida previamente por seu conteúdo, pois isto a invalida automaticamente com [[lexico:r:referencia:start|referência]] à sua pretensão; a única definição [[lexico:p:possivel:start|possível]] consiste em determinar sua [[lexico:f:funcao:start|função]], o que dela reclamamos. Ora, o homem, para poder [[lexico:v:viver:start|viver]], necessita de uma [[lexico:c:certeza:start|certeza]] fundamental, e não de certezas particulares ou parciais. Na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que o homem não tem essa certeza fundamental, busca-a, já que não lhe é dada mas tem que fazê-la. A essa [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] a que o homem, em determinadas situações, se vê forçado, chama Julián Marías "fazer metafísica"; portanto, a metafísica é o que nessa tarefa se faz, ou seja, uma certeza fundamental e última que o homem tem que fazer porque não se encontra nela e necessita-a para viver. Disto resulta que a metafísica não é uma certeza em que "se está", mas uma certeza a que "se chega". Assim, a metafísica pode ser definida, ainda que apenas de modo provisório, como o [[lexico:s:saber-teorico:start|saber teórico]], possível ou [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]], "do que é em si" como o "[[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]", objeto supremo da metafísica, o ser das coisas e seu sentido. Daí ser a metafísica a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] científica da realidade em suas relações mais gerais e em seus fundamentos supremos; seu [[lexico:f:fim:start|fim]] é a aquisição de uma concepção homogênea do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], caracterizando-se, por um lado, por sua tendência universalista, e por [[lexico:o:outro:start|outro]] identificando-se com a filosofia. Isto porque, por exemplo, enquanto as ciências naturais e culturais, como ciências particulares da realidade, se ocupam só de certos setores parciais desta realidade, a metafísica, como ciência geral do [[lexico:r:real:start|real]], ocupa-se do mundo em sua totalidade, da realidade íntegra. Neste sentido compreende também as partes, não como tais, mas em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o conjunto. Por isso nos fatos e fenômenos há sempre uma referência metafísica, ainda que residual, que está sempre presente em qualquer [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] do [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]], mesmo naqueles momentos larvados do apogeu do [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]], quando então ocorria o que se poderia chamar de metafísica dos antimetafísicos. Quem melhor exprimiu essa [[lexico:a:ambivalencia:start|ambivalência]] foi Dilthey que, não obstante se opor frequentemente à metafísica enquanto pretende ser um saber rigoroso do mundo e da vida, essa [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] jamais significou negar o fato da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] metafísica sentida de modo constante pelo homem. Para Dilthey a metafísica é, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] e inevitável, pois o homem não pode permanecer num [[lexico:r:relativismo:start|relativismo]] absoluto nem negar a condicionalidade histórica de cada um de seus produtos culturais. Daí a grande [[lexico:a:antinomia:start|antinomia]] entre a pretensão de vali-dez absoluta que tem todo pensamento [[lexico:h:humano:start|humano]] e o fato da [[lexico:c:condicao:start|condição]] histórica do [[lexico:p:pensar:start|pensar]] efetivo. Esta antinomia se apresenta antes de tudo como uma [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] "entre a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] histórica [[lexico:a:atual:start|atual]] e todo [[lexico:g:genero:start|gênero]] de metafísica como [[lexico:m:mundividencia:start|mundividência]] científica". É a metafísica, pois, uma [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] onde o problema "usurpa" — no dizer de Jean [[lexico:w:wahl:start|Wahl]] — aquele mesmo que o propõe. Ou, consoante [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], "nenhuma questão metafísica pode ser proposta sem que o proponente, como tal, deixe de envolver-se, a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], nessa questão", interpretando-se a [[lexico:i:inquietude:start|inquietude]] metafísica, ao ver de [[lexico:g:gabriel-marcel:start|Gabriel Marcel]], "como certa [[lexico:r:recusa:start|recusa]] em abdicar, quando o objeto é precisamente aquilo diante do que abdico". {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}