===== FILOSOFIA DE ZENÃO ===== Vamos [[lexico:a:agora|agora]] presenciar o [[lexico:e:espetaculo|espetáculo]] de um [[lexico:f:filosofo|filósofo]] eleático, discípulo de [[lexico:p:parmenides|Parmênides]], a esmiuçar a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de seu [[lexico:m:mestre|mestre]]. Este discípulo, a [[lexico:q:quem|quem]] nos vamos referir, é muito famoso. É [[lexico:z:zenao|Zenão]], da [[lexico:c:cidade|cidade]] de Eleia. É muito famoso na [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]] grega. Compartilha em [[lexico:a:absoluto|absoluto]] os [[lexico:p:principios|princípios]] fundamentais do [[lexico:e:eleatismo|eleatismo]], dessa filosofia que acabamos de descrever em poucas [[lexico:p:palavras|palavras]]. Compartilha-a mas vamos surpreendê-lo nos pormenores de suas afirmações. Zenão preocupou-se durante toda a sua [[lexico:v:vida|vida]] muito especialmente em demonstrar em detalhe que o [[lexico:m:movimento|movimento]] que existe, com [[lexico:e:efeito|efeito]], no [[lexico:m:mundo|mundo]] dos sentidos, nesse mundo [[lexico:s:sensivel|sensível]], nesse mundo aparencial (v. [[lexico:a:aparencia|aparência]]), ilusório, é [[lexico:i:ininteligivel|ininteligível]], e, visto que é ininteligível, [[lexico:n:nao|não]] é. Em [[lexico:v:virtude|virtude]] do [[lexico:p:principio|princípio]] eleático da [[lexico:i:identidade|identidade]] do [[lexico:s:ser|ser]] e do [[lexico:p:pensar|pensar]], aquilo que não se pode pensar não pode ser. Não pode ser mais que aquilo que se pode pensar coerentemente, sem contradições. Se, pois, a [[lexico:a:analise|análise]] do movimento nos conduz à conclusão de que o movimento é impensável, de que ao pensarmos nós o movimento chegamos a contradições insolúveis, a conclusão é evidente: se o movimento é impensável, o movimento não é. O movimento é uma mera [[lexico:i:ilusao|ilusão]] de nossos sentidos. Zenão de Eléla propõe-se a polir uma [[lexico:s:serie|série]] de argumentos incontrovertíveis que demonstram que o movimento é impensável; que não podemos logicamente, racionalmente, pensá-lo, porque chegamos a absurdos. Com [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:m:metodo|método]] de [[lexico:p:paradigma|paradigma]] constante, de [[lexico:e:exemplificacao|exemplificação]] constante que empregam os gregos, como [[lexico:p:platao|Platão]], e que [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] usará mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], Zenão exemplifica também seus raciocínios. É [[lexico:a:alem|além]] disso, com este [[lexico:g:gosto|gosto]] que têm os gregos — entre artistas e [[lexico:s:sofistas|sofistas]] — de chamar a [[lexico:a:atencao|atenção]] e de encher de [[lexico:a:admiracao|admiração]] os ouvintes, Zenão se colocava diante dos seus amigos, dos seus ouvintes, e lhes dizia: "Vou demonstrar-lhes uma [[lexico:c:coisa|coisa]]: se vocês colocarem [[lexico:a:aquiles|Aquiles]] a disputar uma corrida com uma tartaruga, Aquiles não alcançará jamais a tartaruga, se derem [[lexico:v:vantagem|vantagem]] a esta na saída." Aquiles, relembremos, é o [[lexico:h:heroi|herói]] a quem Homero chama sempre ocus podas, ou seja, veloz dos pés, o melhor corredor (que havia na [[lexico:g:grecia|Grécia]], e a tartaruga é [[lexico:a:animal|animal]] que se move com muita lentidão. Aquiles dá uma vantagem à tartaruga e fica uns quantos metros atrás. Digam-me: quem ganhará a carreira? Todos respondem: "Aquiles em dois pulos passa por cima da tartaruga e a vence." E Zenão diz: "Estão completamente enganados. Vocês o vão [[lexico:v:ver|ver]]. Aquiles deu uma vantagem à tartaruga; logo, entre [[lexico:a:aquiles-e-a-tartaruga|Aquiles e a tartaruga]], no [[lexico:m:momento|momento]] de partir, há uma distância. Começa a carreira. Quando Aquiles chegar ao [[lexico:p:ponto|ponto]] onde estava a tartaruga, esta terá caminhado algo, estará mais adiante e Aquiles não a terá alcançado ainda. Quando Aquiles chegar a este novo [[lexico:l:lugar|lugar]] em que agora está a tartaruga, esta terá caminhado algo, e Aquiles não a terá alcançado porque para alcançá-la será mister que a tartaruga não avance [[lexico:n:nada|nada]] no [[lexico:t:tempo|tempo]] que necessita Aquiles para chegar onde ela estava. E como o [[lexico:e:espaco|espaço]] pode ser dividido sempre num [[lexico:n:numero|número]] [[lexico:i:infinito|infinito]] de pontos, Aquiles não poderá jamais alcançar a tartaruga, embora ele seja, como diz Homero, ocus podas, ligeiro de pés, e, ao contrário, a tartaruga seja lenta e sossegada." Os gregos riam-se ouvindo estas [[lexico:c:coisas|coisas]], porque gostavam imensamente dessas brincadeiras. Riam-se muitíssimo e talvez dissessem: está louco. Mas não compreendiam o [[lexico:s:sentido|sentido]] do [[lexico:a:argumento|argumento]]. Nas filosofias gregas posteriores, conforme nos narra [[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]], Diógenes demonstrou o movimento andando, se pôs a andar, e assim acreditou [[lexico:t:ter|ter]] refutado a Zenão. Ilusões! E que não compreendeu o sentido do argumento de Zenão. Zenão não diz que no mundo sensível de nossos sentidos não alcance Aquiles a tartaruga; o que quer dizer é que se aplicarmos as leis do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:r:racional|racional]] ao [[lexico:p:problema|problema]] do movimento, simbolizado aqui por esta carreira pedestre, verificaremos que as leis do movimento racional são incapazes de fazer [[lexico:i:inteligivel|inteligível]] o movimento. Por que que é o movimento? O movimento é a translação de um ponto no espaço, ponto que passa de um lugar a [[lexico:o:outro|outro]]. Ora; o espaço é infinitamente divisível. Um pedaço de espaço, por pequeno que seja, ou é espaço ou não o é. Se não o é, não falemos nisso; estamos falando do espaço. Se é espaço, então é extenso; por pouca que seja sua [[lexico:e:extensao|extensão]], é algo extenso, porque, se não fosse extenso, não seria espaço. E se é extenso, é divisível em dois. O espaço é, pois, divisível num número infinito de pontos. Como o movimento consiste no trânsito de um ponto do espaço a outro ponto do espaço, e como entre dois pontos do espaço, por próximos que estejam, há uma infinidade de pontos, resulta que esse trânsito não pode realizar-se senão num infinito de tempo, e se faz ininteligível. O que queria demonstrar Zenão é que o movimento, pensado segundo o [[lexico:p:principio-de-identidade|princípio de identidade]] — o ser é, e, o [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] não é — resulta ininteligível. E como é ininteligível, é preciso declarar que o movimento não pertence ao ser [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], como dizem os gregos, ao ontos on, ao que é verdadeiro. A Platão convenceu o argumento de Zenão; tanto, que, como veremos mais adiante, na solução que dá ao problema da [[lexico:m:metafisica|metafísica]], Platão elimina o movimento do mundo inteligível e o deixa reduzido, como os eleáticos, ao mundo sensível, ao mundo da aparência. Nas histórias da filosofia mais amplas podem ser encontrados outros dois famosos argumentos do [[lexico:e:estilo|estilo]] desse de Aquiles e a tartaruga. São o argumento da [[lexico:f:flecha|flecha]] e o argumento dos carros que correm no [[lexico:e:estadio|estádio]]. O primeiro argumento consiste em que uma flecha voando pelo [[lexico:a:ar|ar]] não está em movimento mas em repouso. Compreende-se facilmente [[lexico:c:como-se|como se]] pode demonstrar isto: simplesmente partindo da [[lexico:t:tese|tese]] de Zenão. O outro argumento consiste em que dois carros, que se perseguem no estádio, não se alcançam nunca. É exatamente o argumento de Aquiles e a tartaruga, referido a outros objetos, de [[lexico:m:modo|modo]] que não vale a [[lexico:p:pena|pena]] insistir sobre isto.