===== FILOSOFIA DA VIDA ===== Por [[lexico:f:filosofia-da-vida|filosofia da vida]] (1) entende-se, no [[lexico:v:viver|viver]] cotidiano, a concepção ou [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] da [[lexico:v:vida|vida]] que serve para estruturá-la praticamente. Também a [[lexico:e:etica|ética]], enquanto [[lexico:c:ciencia|ciência]] do [[lexico:f:fim|fim]] e das normas da vida [[lexico:m:moral|moral]], pode denominar-se [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] da vida (2). Por [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:m:motivo|motivo]], foram de preferência qualificados como filosofia da vida (3) aqueles sistemas filosóficos que concedem [[lexico:l:lugar|lugar]] dominante à ética prática e à concepção da vida, como, p. ex., o [[lexico:e:estoicismo|estoicismo]] e o [[lexico:e:epicurismo|epicurismo]]. Destas variedades da filosofia da vida, que encaram a vida no [[lexico:s:sentido|sentido]] do [[lexico:p:pratico|prático]], do ético, importa distinguir a filosofia da vida (4) que entra em cena em fins do século passado, com a pretensão de fazer prevalecer também no domínio [[lexico:t:teoretico|teorético]] o [[lexico:c:conceito|conceito]] de vida. Foi ela preparada pela concepção de vida de [[lexico:g:goethe|Goethe]] e do [[lexico:r:romantismo|Romantismo]], mas foi suscitada pelo predomínio da [[lexico:c:ciencia-natural|ciência natural]] mecanicista e pelo [[lexico:p:progresso|progresso]] técnico do século XIX. Contudo a contracorrente, denominada filosofia da vida, [[lexico:n:nao|não]] possui [[lexico:n:natureza|natureza]] [[lexico:u:uniforme|uniforme]]. De [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:g:geral|geral]], o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:f:fundamento|fundamento]] e conteúdo da [[lexico:r:realidade|realidade]] é posto na "vida" considerada como o [[lexico:d:dinamico|dinâmico]], o que está em [[lexico:d:devir|devir]], o que desde o interior impele ao [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]], em [[lexico:o:oposicao|oposição]] ao [[lexico:e:estatico|estático]], ao [[lexico:m:mecanico|mecânico]], ao conceptualmente acabado. Muitas vezes porém torna-se difícil determinar o que se deva precisamente entender por vida. Podemos, com [[lexico:r:rickert|Rickert]] distinguir fundamentalmente duas direções que com frequência se entrecruzam. Uma concebe a vida em sentido preponderantemente biológico e estende a toda a realidade as [[lexico:c:categorias|categorias]] aí obtidas. Temos, neste caso, o [[lexico:b:biologismo|biologismo]]. A outra direção refere, de preferência, o conceito de vida à [[lexico:v:vivencia|vivência]] íntima, que nunca é mero [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], menos ainda mero conhecimento [[lexico:a:abstrato|abstrato]], científico, mas é o [[lexico:j:jogo|jogo]] pleno de todas as forças do [[lexico:e:espirito|espírito]], um [[lexico:c:continuo|contínuo]] fluir, que nenhum conceito "rígido" pode exprimir de maneira acabada. A [[lexico:c:cultura|cultura]], em sua integridade, é interpretada, "compreendida" desde esta vivência íntima (vide [[lexico:c:ciencias-do-espirito|ciências do espírito]], [[lexico:c:compreender|compreender]]). A [[lexico:e:expressao|expressão]] "filosofia da vida" encontra-se já em Fr. Schlegel (1827), marcando um [[lexico:d:desvio|desvio]] relativamente a [[lexico:h:hegel|Hegel]] e uma volta à [[lexico:e:experiencia|experiência]] interna do vital. Igual direção seguem os trabalhos de [[lexico:k:kierkegaard|Kierkegaard]], que influíram tanto na [[lexico:t:teologia-dialetica|teologia dialética]] quanto na filosofia [[lexico:e:existencial|existencial]] ([[lexico:f:filosofia-da-existencia|filosofia da existência]]). [[lexico:m:maxima|Máxima]] foi a repercussão obtida pela [[lexico:c:critica|crítica]] da cultura formulada por [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]], o qual opôs vivamente a vida e a vivência do [[lexico:s:ser|ser]] e ao conhecer. O [[lexico:b:bem-supremo|bem supremo]] é a plenitude e [[lexico:f:forca|força]] da vida, tal como encontra perfeita expressão no "[[lexico:s:super-homem|super-homem]]". O conhecimento tem de servir à vida. É de somenos importância a [[lexico:q:questao|questão]] da [[lexico:v:verdade|verdade]] ou da [[lexico:f:falsidade|falsidade]]; o decisivo é apenas o que fomenta a vida ([[lexico:p:pragmatismo|pragmatismo]]). Aparentadas com estas [[lexico:i:ideias|ideias]], mas transplantadas da [[lexico:e:esfera|esfera]] individual para o domínio racial-nacional, são as concepções da filosofia das raças (Gobineau, H. St. Chamberlain, Rosenberg): a [[lexico:r:raca|raça]] não é só um [[lexico:c:complexo|complexo]] de características exteriores transmitidas por [[lexico:h:hereditariedade|hereditariedade]], mas é a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] da [[lexico:a:alma|alma]] (da alma racial); e a alma é a feição interna da raça. Esta constitui a realidade última e o [[lexico:v:valor|valor]] supremo acessível a nosso [[lexico:p:pensamento|pensamento]] e [[lexico:i:investigacao|investigação]]. A partir dela se deve compreender e apreciar toda cultura, [[lexico:a:arte|arte]], ciência, [[lexico:r:religiao|religião]] e [[lexico:h:historia|história]] (Rosenberg). Não existe [[lexico:m:medida|medida]] supra-racial ([[lexico:r:relativismo|relativismo]]). — Na França, e [[lexico:a:alem|além]] de suas fronteiras, [[lexico:b:bergson|Bergson]] influiu no sentido da filosofia da vida por suas doutrinas do élan vital, do valor vital, e da évolution créatrice, da [[lexico:e:evolucao-criadora|evolução criadora]], que, numa primeira fase, se eleva a [[lexico:i:instinto|instinto]] [[lexico:a:animal|animal]] e, numa segunda fase, à [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] humana. Esta cria as sociedades humanas e uma moral vinculada à [[lexico:s:sociedade|sociedade]]. Por sobre ela, o alor vital eleva-se nas grandes figuras dos profetas da religião [[lexico:d:dinamica|dinâmica]] à [[lexico:m:mistica|mística]] religiosa e cria uma moral que une a [[lexico:h:humanidade|humanidade]] inteira. O pensamento conceptualmente fragmentante serve, é certo, para dominar tecnicamente a natureza; todavia, uma [[lexico:c:compreensao|compreensão]] mais profunda da realidade só é [[lexico:p:possivel|possível]] à "[[lexico:i:intuicao|intuição]]", a qual, para exprimi-la, deve utilizar "[[lexico:c:conceitos|conceitos]]" flexíveis, interpenetráveis, plásticos. E incontestável que a filosofia da vida atuou vigorosamente contra muitos abusos de uma cultura racionalística e mecanicista. Mas não é menos certo que em sua crítica foi muito além dos justos limites. A questão que se põe não é entre ser ou devir, mas torna-se indispensável um aprofundamento de conceitos que faça [[lexico:j:justica|justiça]] a ambos. Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], toda realidade radica em [[lexico:d:deus|Deus]], Vida absoluta; mas daí não se infere que o [[lexico:v:vivente|vivente]] e o não-vivente sejam a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]]. Decerto, a policromia do conceito e a [[lexico:m:mudanca|mudança]] escapam ao mero conceito. Mas, em compensação, este tem em seu favor o poder penetrar numa profundidade sustentadora do multicolor e da [[lexico:m:mutacao|mutação]] e une-se com a experiência concreta, a fim de os [[lexico:e:explicar|explicar]]. vide [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]], [[lexico:i:intelectualismo|intelectualismo]], [[lexico:i:intuicionismo|intuicionismo]]. — [[lexico:b:brugger|Brugger]]. Assim como o [[lexico:e:empirismo|empirismo]] e o [[lexico:m:materialismo|materialismo]] situam no centro de sua [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] o conhecimento da [[lexico:m:materia|matéria]], e o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] se move em torno da [[lexico:i:ideia|ideia]], os filósofos da vida procuram explicar a realidade global pela vida. Mas não é este o [[lexico:u:unico|único]] rasgo que os caracteriza. Diferenciam-se dos empiristas e dos idealistas principalmente pelo empenho em alargar o quadro geral da filosofia "[[lexico:m:moderna|moderna]]" (1600-1900) e, de modo especial, do [[lexico:k:kantismo|kantismo]]. Apartam-se radicalmente tanto do [[lexico:m:mecanicismo|mecanicismo]] como do idealismo. Embora difiram entre si, apresentam em comum os pontos seguintes: 1) Todos são atualistas absolutos. Para eles não há senão [[lexico:m:movimento|movimento]], devir, vida. Não consideram o ser, a matéria, etc, senão como resíduos do movimento. As [[lexico:p:palavras|palavras]] de Bergson: "o devir encerra mais do que o ser", exprimem uma concepção por todos eles compartilhada. 2) Têm uma concepção orgânica da realidade. Para eles a [[lexico:b:biologia|biologia]] é tão decisiva quanto a [[lexico:f:fisica|física]] para os representantes do materialismo científico. Nalguns filósofos da vida, especialmente na [[lexico:e:escola|escola]] de [[lexico:d:dilthey|Dilthey]], também a história desempenha papel importante. Como quer que seja, para todos eles o [[lexico:m:mundo|mundo]] não é uma [[lexico:m:maquina|máquina]], mas, pelo contrário, é a vida em [[lexico:a:acao|ação]]. 3) À base desta [[lexico:p:posicao|posição]] biologista, os filósofos da vida elaboram uma doutrina peculiar da ciência. São, sem [[lexico:e:excecao|exceção]], irracionalistas e empiristas declarados. Os [[lexico:a:a-priori|a priori]], as deduções lógicas são para eles [[lexico:o:objeto|objeto]] de horror. Como verdadeiro [[lexico:m:metodo-filosofico|método filosófico]] nunca admitem o [[lexico:m:metodo|método]] [[lexico:r:racional|racional]], mas tão-somente a intuição, a prática, a compreensão viva da história. 4) Apesar de tudo não são, via - de [[lexico:r:regra|regra]], subjetivistas; ao invés, admitem a [[lexico:e:existencia|existência]] duma realidade objetiva que transcende o [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Rejeitam absolutamente, como é [[lexico:n:natural|natural]], o [[lexico:i:idealismo-transcendental|idealismo transcendental]] ou [[lexico:a:absoluto|absoluto]]. 5) Enfim, a maior [[lexico:p:parte|parte]] destes filósofos manifesta acentuada [[lexico:p:propensao|propensão]] para o [[lexico:p:pluralismo|pluralismo]] e o [[lexico:p:personalismo|personalismo]], propensão esta que nem sempre se entrosa com a doutrina fundamental da [[lexico:e:evolucao|evolução]] da vida, mas que se explica talvez como [[lexico:r:reacao|reação]] contra o [[lexico:m:monismo|monismo]] materialista ou idealista. Justamente nesta direção o movimento tem feito sentir sua maior [[lexico:i:influencia|influência]]. Podemos distinguir [[lexico:q:quatro|Quatro]] escolas diferentes da filosofia da vida: a filosofia do élan vital de Bergson; o pragmatismo americano e inglês; o [[lexico:h:historicismo|historicismo]] proveniente de Dilthey e a [[lexico:f:filosofia-alema|filosofia alemã]] da vida. Por [[lexico:m:motivos|motivos]] técnicos, reunimos as duas últimas escolas no mesmo parágrafo e estudaremos à parte Bergson e os bergsonianos. Nossa [[lexico:e:exposicao|exposição]] da filosofia da vida articula-se pois em três parágrafos: Bergson, pragmatismo e bergsonismoj filosofia alemã da vida e historicismo.