===== FILOSOFIA DA EXISTÊNCIA ===== A [[lexico:f:filosofia-da-existencia:start|filosofia da existência]] ([[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:e:existencial:start|existencial]], [[lexico:e:existencialismo:start|existencialismo]]) representa hoje um [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] filosofar de elevada [[lexico:c:categoria:start|categoria]] e de vastíssima [[lexico:i:influencia:start|influência]]. Tendo-se organizado de maneira [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] no século XX, suas raízes penetram na primeira metade do século XIX. Em termos mais precisos, ela representa uma [[lexico:r:reacao:start|reação]] contra o [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]]. O [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] de [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], que se presta para o perigo de [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]], foi ulteriormente compreendida de maneira tal que o [[lexico:h:homem:start|homem]] se volatilizava em mero [[lexico:m:momento:start|momento]] evolutivo da [[lexico:i:ideia:start|ideia]] absoluta, e, por essa [[lexico:f:forma:start|forma]], a plenitude do existente se explicava por uma necessária conexão conceptual. Em face deste despotismo do [[lexico:u:universal:start|universal]], prevaleceu a substantividade e indeduzibilidade do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] [[lexico:h:humano:start|humano]] [[lexico:c:concreto:start|concreto]]. Num primeiro momento, o [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] e a burguesia superficial fizeram deste homem algo de inconsistente e de [[lexico:i:irreal:start|irreal]] (desessenciado), porque derribaram o universal [[lexico:i:ideal:start|ideal]], sem lhe oferecerem um novo [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] radical. Aqui se enxertou a filosofia da [[lexico:e:existencia:start|existência]], a qual confere ao indivíduo [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] e profundidade, chamando-o à "existência" ("Existenz"). O [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]] preparou o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] a essa filosofia, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que manda situar o homem em sua existência concreta, nele faz confluir a plenitude do [[lexico:s:ser:start|ser]] e também enquanto desperta o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da indeduzibilidade do [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] [[lexico:h:historico:start|histórico]]. [[lexico:s:schelling:start|Schelling]], no [[lexico:u:ultimo:start|último]] período de seu filosofar, levanta a [[lexico:q:questao:start|questão]] com maior [[lexico:p:perspicacia:start|perspicácia]]: o [[lexico:p:problema:start|problema]] da existência, ultrapassando as fronteiras da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] [[lexico:l:logica:start|lógica]] do universal, apela para a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] e, para [[lexico:a:alem:start|além]] da mera [[lexico:r:razao:start|razão]], exige como [[lexico:o:origem:start|origem]] a [[lexico:v:vontade:start|vontade]]: "O ser primordial é querer". O passo decisivo para chegar à filosofia da existência ou existencialismo é [[lexico:d:dado:start|dado]] pela [[lexico:t:teologia:start|teologia]] existencial de [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]]. Pretende este conduzir o indivíduo à plenitude de seu [[lexico:e:existir:start|existir]], ou seja, à existência (Existenz) (pela primeira vez aparece o [[lexico:t:termo:start|termo]] nesta acepção). A existência realiza-se mediante a [[lexico:d:decisao:start|decisão]] livre, na qual o homem se põe ou apreende a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], e mediante a [[lexico:f:fe:start|fé]] com que se apoia em [[lexico:d:deus:start|Deus]]; preliminarmente surge a [[lexico:a:angustia:start|angústia]], como comoção de [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:f:finito:start|finito]] e [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] do [[lexico:n:nada:start|nada]]. A f é é pensada à maneira cristã e é concebida como uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:s:salto:start|salto]]; sua indeduzibilidade aumenta até ao [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]], na medida em que o cristão aparece como contraditório do homem. Correntes afins ampliam o esboço traçado por Kierkegaard. Com ele a [[lexico:f:filosofia-da-vida:start|filosofia da vida]] (filosofia da [[lexico:v:vida:start|vida]]) propõe-se eximir a vida em sua concreta plenitude e profundidade à [[lexico:v:violencia:start|violência]] exercida pelo [[lexico:c:conceito-universal:start|conceito universal]]; a vida abre-se só à [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] pré-racional ou [[lexico:s:supra-racional:start|supra-racional]], p, ex., ao [[lexico:i:instinto:start|instinto]] ([[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]]) ou à [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] ([[lexico:b:bergson:start|Bergson]]). Acresce a [[lexico:h:hermeneutica:start|hermenêutica]] (interpretação) do histórico (Ditlhey), o qual em sua irrepetibilidade [[lexico:n:nao:start|não]] consente ser explicado por [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] e leis [[lexico:u:universais:start|universais]], mas só pode ser compreendido, se lhe interpretarmos o sentido ([[lexico:c:compreender:start|compreender]]). Aparentada a este [[lexico:m:metodo:start|método]] é a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] de [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] com sua [[lexico:i:intuicao-das-essencias:start|intuição das essências]], enquanto, partindo das situações internas, leva a cabo uma interpretação das mesmas; em [[lexico:s:scheler:start|Scheler]], no último período, a fenomenologia aproxima-se da filosofia da vida, e, por essa forma, o [[lexico:i:impulso:start|impulso]] ou alor vital, de importância central já para Nietzcshe e (em sentido diferente) para Bergson, de novo passa a ocupar o primeiro [[lexico:p:plano:start|plano]]. Voltando-se [[lexico:a:agora:start|agora]] para os principais representante." da filosofia existencial na Alemanha, o que mais [[lexico:p:proximo:start|próximo]] se situa de Kierkegaard é [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]] (nascido em 1883), que também recebeu o [[lexico:i:influxo:start|influxo]] de [[lexico:k:kant:start|Kant]]. O indivíduo, enquanto existência, não é concebido a partir do universal, mas deve ser esclarecido a partir de si mesmo, como tal ou tal indivíduo, em sua uni-decorrente ou irrepetível sitúaselo histórica. Contra o nada Intimamente experimentado na angústia, a existência afirma-se pela decisão em favor de seu auto-ser (Selbsteein). Esta decisão, por seu turno, fundamenta-se na [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]], a qual se manifesta ao passar através das situações-limite. A ela corresponde a "fé filosófica" supra-conceptual, a qual, em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] à "[[lexico:f:fe-religiosa:start|fé religiosa]]", que abarca o Deus presente, só pode dirigir-se ao Deus ausente ou [[lexico:o:oculto:start|oculto]]. Todas as influências apontadas determinaram [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] (nascido em 1889). Seu pensamento não é só existentivo (existenziell), ou seja, elucidativo de tudo em sua [[lexico:s:significacao:start|significação]] para a existência individual (Jaspers), mas primariamente [[lexico:e:existenciario:start|existenciário]] (existenzial), ou seja, dirigido, através do indivíduo ao "[[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]]" ([[lexico:d:dasein:start|Dasein]] = ao homem), e até mesmo simplesmente ao ser. Por isso, Heidegger move-se do [[lexico:o:ontico:start|ôntico]] ao [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]], do [[lexico:e:ente:start|ente]] [[lexico:f:factico:start|fáctico]] ao ser que o fundamenta. Assim sendo, a [[lexico:a:analitica:start|analítica]] existencial do homem é tão-somente a [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] fundamental, à qual deve seguir-se a ontologia como interpretação do [[lexico:p:proprio:start|próprio]] ser; contudo, recentemente, Heidegger denomina ontologia a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] do ente, a qual se identifica com a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], e designa por ontologia fundamental o esclarecimento do ser; este, segundo ele, leva a cabo a [[lexico:s:superacao:start|superação]] da metafísica. O ser manifesta-se primeiro como [[lexico:p:projeto:start|projeto]], bosquejo do homem em seus modos de existência ou existenciários. Na inautenticidade (caracterizada como "[[lexico:q:queda:start|Queda]]": "Verfallen"), o homem perde-se a si mesmo por se preocupar com as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] mundanas. Acima desta o eleva a angústia, a qual esboça o nada como fundamento de todo ente: no presente como futilidade ("[[lexico:n:nao-ser:start|não-ser]]": Nichtigkeit) do cotidiano, no passado, enquanto o "donde" (das Woher) permanece oculto: lançadura (Geworfenheit); no [[lexico:f:futuro:start|futuro]], porque deste só uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é certa: que se precipita na [[lexico:m:morte:start|morte]]. A experiência do nada abarca, pois, todas as prolongações do "ser-aí" ou Dasein e, com isso, situa o homem ante a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] de sua existência. O homem, ao captar esta em sua resolução (= em seu [[lexico:e:estado:start|Estado]] de resolução, em sua abertura determinada: Entschlossenheit), chega à autenticidade (à [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] = Eigentlichkeit). Esta significaria [[lexico:c:carencia:start|carência]] de sentido (Sinnlosigkeit) e, por isso mesmo, [[lexico:t:tragedia:start|tragédia]] sem [[lexico:e:esperanca:start|esperança]], se o nada denotasse o [[lexico:v:vacuo:start|vácuo]] [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. De [[lexico:f:fato:start|fato]], porém, sob o véu do nada (do nada do ente) mostra-se o ser, o qual por forma alguma é só um projeto do homem, mas precede-o na [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] de fundamento (Grund) de todo ente. Embora o ser deixe [[lexico:e:espaco:start|espaço]] para o [[lexico:s:santo:start|santo]], para a divindade e para Deus, o [[lexico:p:problema-de-deus:start|problema de Deus]] continua sem solução categórica. A par da filosofia existencial alemã importa mencionar o existencialismo francês, no qual perdura a herança espiritual de pensadores como [[lexico:p:pascal:start|Pascal]] e Maine de Piran. Desenvolve-se em duas direções fundamentais: uma ateístico-niilista, cujo principal representante é J. P. [[lexico:s:sartre:start|Sartre]] (nascido em 1905), e outra, metafísico-teísta, cultivada especialmente por G. Mareei (nascido em 1889). Sartre procede principalmente de Heidegger, Husserl e Hegel. Segundo ele, no homem a existência precede a [[lexico:e:essencia:start|essência]], ou, por outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], o homem como liberdade absoluta e ilimitada só determina sua essência e os valores importantes da existência. Dado que, enquanto liberdade, inteiramente desamparado, sem Deus e sem [[lexico:n:norma:start|norma]], deve buscar seu caminho, parece [[lexico:e:estar:start|estar]] condenado a ela como a um [[lexico:o:onus:start|ônus]]. A liberdade inclui a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], a qual se contrapõe essencialmente a si mesma e, portanto, não é inteiramente ela própria; impedida, por este não ou nada, de ser completamente ela própria, a liberdade é o ser, roto pelo nada, frente ao qual se ergue o corpóreo [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]] como ser pleno sem [[lexico:r:ruptura:start|ruptura]]. A consciência, tendendo necessariamente, embora em vão, [[lexico:a:a-se:start|a se]] tornar [[lexico:c:consciente:start|consciente]] e a ser completamente ela própria, manifesta-se como [[lexico:p:paixao:start|paixão]] inútil ou como absurdidade, da qual dá [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] a [[lexico:n:nausea:start|náusea]] como experiência fundamental da existência. O polo oposto é, de certa maneira, constituído por G. Marcel, que chegou a formular suas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] fundamentais anteriormente a Sartre e independentemente de Kierkegaard e da filosofia existencial alemã. Também ele investiga o [[lexico:m:misterio:start|mistério]] da [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] humana e de sua liberdade. O homem, ao elucidar sua [[lexico:s:situacao:start|situação]] concreta, aparece, primeiramente, como que fracturado e segregado da própria vida. Contudo encontra-a e, com isso, encontra-se a si mesmo, enquanto, mediante o recolhimento e a [[lexico:f:fidelidade:start|fidelidade]], se eleva em direção à transcendência e, por essa forma, se apoia no "tu" [[lexico:d:divino:start|divino]]. Deste [[lexico:m:modo:start|modo]], a existência, para G. Marcel, é caracterizada mais pela esperança e pela adoração do que pela angústia e pelo cuidado. A filosofia da existência tem razão, quando assevera que o homem não é meramente existente (vorhanden), mas sim existência (Existenz), por outras palavras, que o homem só se conquista a si mesmo na decisão com que abarca e realiza a plenitude de seu ser. Assim sendo, a vontade e a liberdade, a atuação em [[lexico:g:geral:start|geral]], instalam-se no [[lexico:p:ponto:start|ponto]] central, e são exigidos um ser-captado [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] e uma [[lexico:s:seriedade:start|seriedade]] existencial, Com [[lexico:v:visao:start|visão]] profunda pe salientou que esta "des-essencialização" (Verwesentlichung) se funda na transcendência, na [[lexico:u:uniao:start|união]] com algo de supramundano. Contudo, precisamente o véu, que envolve o [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], mostra as limitações da filosofia existencial. Juntamente com o universal idealístico tornam-se-lhe suspeitos o universal em geral e a razão ([[lexico:r:ratio:start|ratio]]) a ele subordinada. Como porém o [[lexico:i:irracional:start|irracional]] só patenteia as coisas em sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] com a existência, persiste o perigo de que o [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] se dilua no [[lexico:p:puro:start|puro]] existenciário do homem, de que, portanto, "seja" unicamente na medida em que o homem o projete como [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] de sua existência. A filosofia da existência não deve sucumbir a este perigo, uma vez que na passagem através dos existenciários pode abrir para si uma rota nova e cheia de vida para o ser. A filosofia da existência passou a ser de [[lexico:m:moda:start|moda]] em vários países, depois da Segunda [[lexico:g:guerra:start|guerra]] Mundial. L’Être et le Néant (O Ser e o Nada), a [[lexico:o:obra:start|obra]] tão difícil de Sartre, que supõe profundos conhecimentos da [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] e cujas análises são a tal ponto técnicas e abstratas que geralmente só são acessíveis a filósofos especializados e [[lexico:b:bem:start|Bem]] formados, está novamente esgotada, apesar de suas oito edições sucessivas e do [[lexico:n:numero:start|número]] correspondente de exemplares publicados — umas dúzias de milhar. Sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], os filósofos [[lexico:e:existencialistas:start|existencialistas]] franceses — especialmente Sartre — vieram ao encontro do [[lexico:p:publico:start|público]] com seus romances e peças de teatro. Mas esta popularidade acarretou consigo certos equívocos a propósito do existencialismo filosófico, equívocos que importa começar por dissipar. Por isso, diremos imediatamente, e de uma vez por todas, o que o existencialismo filosófico não é. É certo que o existencialismo se ocupa de problemas do homem, hoje chamados "existenciais", tais como o sentido da vida, da morte, da [[lexico:d:dor:start|dor]], etc, mas o existencialismo não consiste em desenvolver tais problemas, que têm sido discutidos em quase todas as épocas. Seria [[lexico:e:erro:start|erro]] palmar qualificar de existencialistas S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] ou Pascal ou certos escritores modernos, como o crítico espanhol Miguel de [[lexico:u:unamuno:start|Unamuno]] (1864-1937), o grande romancista russo Fjedor M. Dostoievski (1821-1881) ou o [[lexico:p:poeta:start|poeta]] alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926). Estes escritores e poetas, sem dúvida, debateram e trataram em suas obras de maneira particularmente impressionante diversos problemas humanos, mas nem por isso são filósofos da existência. [[lexico:o:outro:start|outro]] erro consiste em chamar existencialistas aos filósofos que estudaram a existência no sentido [[lexico:c:classico:start|clássico]] do vocábulo ou o ser existente. Não faz sentido que muitos tomistas pretendam fazer de S. [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] um [[lexico:e:existencialista:start|existencialista]]. Não menos [[lexico:g:grotesco:start|grotesco]] é o [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]], de encorporar Husserl na filosofia da existência, pelo fato de haver exercido grande influência sobre ela; sucede que Husserl colocou entre parêntesis precisamente a existência. Por último, importa não identificar a filosofia da existência com uma única doutrina existencialista, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] a de Sartre, dado que, como a seguir veremos, há diferenças essenciais entre as diferentes direções. Em face de todos estes equívocos, tenha-se como ponto assente que a filosofia da existência é uma [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] filosófica que só tomou forma pela primeira vez em nossa [[lexico:e:epoca:start|época]] e, ao [[lexico:s:sumo:start|sumo]], remonta a Kierkegaard, tendência que se desenvolveu em direções entre si divergentes, e das quais só o denominador comum pode ser denominado a filosofia da existência. Características das distintas filosofias da existência: a) O traço comum fundamental das diversas filosofias da existência de nossa época reside em que elas procedem todas de uma denominada [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] "existencial", difícil de definir mais de perto e que varia de [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] para filósofo. Assim, em Jaspers ela parece consistir numa [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] da fragilidade do ser, em Heidegger na experiência da "marcha para a morte", em Sartre numa [[lexico:r:repugnancia:start|repugnância]] ou náusea geral. Os existencialistas não ocultam por forma alguma que a filosofia deles [[lexico:p:parte:start|parte]] de uma vivência desta espécie. Isso explica que a filosofia existencial apresente em seu conjunto — até mesmo em Heidegger — o cunho de experiência pessoal. b) O [[lexico:o:objeto:start|objeto]] principal da investigação é, para os existencialistas, aquilo que se chama "existência". Mas é difícil determinar o sentido que eles atribuem a este vocábulo. Em todo caso, trata-se da maneira de ser peculiarmente humana. O homem (raramente assim denominado, mas preferentemente [[lexico:d:designado:start|designado]] por "Dasein", "existência", "[[lexico:e:eu:start|eu]]", "ser-para-si") é o [[lexico:u:unico:start|único]] ser que possui a existência. Com maior rigor de [[lexico:e:expressao:start|expressão]], êle não a possui, êle é sua existência. Se tem uma essência, esta essência é sua existência ou resulta de sua existência. c) A existência é concebida de maneira absolutamente atualista. Ela nunca é, mas cria-se a si mesma em liberdade, devem. É um esboço, um pro-jeto. A cada [[lexico:i:instante:start|instante]], ela é mais (e menos) do que é. Os existencialistas reforçam ainda frequentemente esta [[lexico:t:tese:start|tese]], afirmando que a existência coincide com a [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]]. d) A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre este [[lexico:a:atualismo:start|atualismo]] e o da filosofia da vida consiste em que os existencialistas consideram o homem como mera [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] e não como [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] de outra corrente vital mais vasta (cósmica), como, por exemplo, sucede com Bergson. Além disso, a subjetividade é entendida em sentido criador: o homem cria-se livremente a si mesmo, êle é sua liberdade. e) Não obstante, seria inexato concluir que, para os existencialistas, o homem se encontra fechado em si mesmo. Pelo contrário, enquanto [[lexico:r:realidade:start|realidade]] imperfeita e aberta, êle parece estar, por essência, muito intimamente ligado ao [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e em [[lexico:p:particular:start|particular]] aos outros homens. Todos os representantes do existencialismo admitem esta dupla dependência, de modo que, por um lado, a existência humana parece estar inserta no mundo, e por isso o homem tem sempre uma situação determinada; mais ainda, é sua situação, e, por outro lado, há um vínculo particular entre os homens; vínculo que, do’ mesmo modo que a situação, constitui o ser próprio da existência. Este é o sentido da "co-existência" (Mitdasein) de Heidegger, da "[[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]]" (Kommunikation) de Jaspers e do "tu" (toi) de Marcel. f) Todos os existencialistas rejeitam a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre [[lexico:s:sujeito-e-objeto:start|sujeito e objeto]] e depreciam assim o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] intelectual no domínio da filosofia. Segundo eles, o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] conhecimento não se adquire pela [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], mas é mister que a realidade seja vivida. Esta vivência dá-se principalmente mediante a angústia, pela qual o homem se torna cônscio de sua [[lexico:f:finitude:start|finitude]] e da fragilidade de sua [[lexico:p:posicao:start|posição]] no mundo, no qual foi jogado, destinado à morte (Heidegger). A par destes traços fundamentais comuns ao existencialismo, aos quais poderíamos ainda acrescentar outros, existem igualmente profundas diferenças entre seus representantes tomados isoladamente. Assim, por exemplo, tanto Marcel como Kierkegaard são decididamente teístas, ao passo que Jaspers admite uma transcendência, que não sabemos se deve ser entendida como [[lexico:t:teismo:start|teísmo]], [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]] ou [[lexico:a:ateismo:start|ateísmo]], todos os três igualmente rejeitados por Jaspers. A filosofia de Heidegger parece ser ateia; no entanto, segundo a declaração expressa, sem dúvida, de alcance limitado, do autor, não o seria. Por último, Sartre tenta elaborar um ateísmo franco e [[lexico:c:consequente:start|consequente]]. Diferem igualmente muito entre si o [[lexico:f:fim:start|fim]] e o método das várias filosofias da existência. Heidegger pretende brindar-nos com uma ontologia em sentido aristotélico e aplica um método rigoroso, como o faz Sartre, inspirando-se nele. Jaspers rejeita toda ontologia no domínio da [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] da existência, mas também faz metafísica e emprega um método menos exigente. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}