===== FICÇÃO COMUNISTA ===== O [[lexico:c:comportamento|comportamento]] [[lexico:u:uniforme|uniforme]] que se presta à [[lexico:d:determinacao|determinação]] [[lexico:e:estatistica|estatística]] e, portanto, à predição cientificamente correta dificilmente pode [[lexico:s:ser|ser]] explicado pela [[lexico:h:hipotese|hipótese]] liberal de uma [[lexico:n:natural|natural]] “[[lexico:h:harmonia|harmonia]] de interesses” que é a base da [[lexico:e:economia|economia]] “clássica” [[lexico:n:nao|Não]] Karl [[lexico:m:marx|Marx]], mas os próprios economistas liberais tiveram de introduzir a “[[lexico:f:ficcao-comunista|ficção comunista]]” isto é, supor a [[lexico:e:existencia|existência]] de um [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:i:interesse|interesse]] da [[lexico:s:sociedade|sociedade]] como um [[lexico:t:todo|todo]], que com “uma mão invisível” guia o comportamento dos homens e produz a harmonia de seus interesses conflitantes. Uma das principais teses da brilhante [[lexico:o:obra|obra]] de Myrdal (The political element in the development of economic theory, p. 54 e 150) é que o [[lexico:u:utilitarismo|utilitarismo]] liberal, e não o [[lexico:s:socialismo|socialismo]], é “forçado a manter uma ‘[[lexico:f:ficcao|ficção]] comunista’ insustentável acerca da [[lexico:u:unidade|unidade]] da sociedade”, e que “a ficção comunista [está] implícita na maioria das obras sobre economia”. Myrdal demonstra categoricamente que a economia só pode ser uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] se presumir que um só interesse permeia a sociedade como um todo. Por trás da “harmonia de interesses”, está sempre a “ficção comunista” de um interesse único, que pode então ser [[lexico:c:chamado|chamado]] de “[[lexico:b:bem-estar|bem-estar]]” ou de “[[lexico:b:bem-comum|bem comum]]” . Consequentemente, os economistas liberais foram sempre guiados por um [[lexico:i:ideal|ideal]] “comunista”, ou seja, pelo “interesse da sociedade como um todo” (p. 194-195). O [[lexico:p:ponto|ponto]] [[lexico:c:crucial|crucial]] do [[lexico:a:argumento|argumento]] é que isso “equivale à [[lexico:a:assercao|asserção]] de que a sociedade deve ser concebida como um único [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. E isto, não obstante, é precisamente o que não pode ser concebido. Se tentarmos fazê-lo, seremos tentados a ignorar o [[lexico:f:fato|fato]] [[lexico:e:essencial|essencial]] de que a [[lexico:a:atividade|atividade]] [[lexico:s:social|social]] é o resultado das intenções de vários indivíduos” (p. 154). A [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre Marx e seus precursores foi apenas que ele encarou a [[lexico:r:realidade|realidade]] do conflito, como este se apresentava na sociedade de seu [[lexico:t:tempo|tempo]], tão seriamente quanto a hipotética ficção da harmonia. Esteve certo ao concluir que a “[[lexico:s:socializacao|socialização]] do [[lexico:h:homem|homem]]” produziria automaticamente uma harmonia de todos os interesses, e apenas teve mais [[lexico:c:coragem|coragem]] que os seus mestres liberais quando propôs estabelecer na realidade a “ficção comunista” subjacente a todas as teorias econômicas. O que Marx não compreendeu – e em seu tempo seria [[lexico:i:impossivel|impossível]] [[lexico:c:compreender|compreender]] – é que os germes da sociedade comunista estavam presentes na realidade de um [[lexico:l:lar|lar]] nacional, e o que atravancava o completo [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] dela não era qualquer interesse de [[lexico:c:classe|classe]] como tal, mas somente a já obsoleta [[lexico:e:estrutura|estrutura]] monárquica do Estado-nação. Obviamente, o que impedia a sociedade de funcionar suavemente eram apenas certos resquícios tradicionais que interferiam e ainda influenciavam no comportamento de classes “atrasadas” Do ponto de vista da sociedade, estes não passavam de [[lexico:s:simples|simples]] fatores perturbadores no [[lexico:c:caminho|caminho]] do pleno desenvolvimento das “forças sociais”; já não correspondiam à realidade e eram, portanto, em certo [[lexico:s:sentido|sentido]], muito mais “fictícios” que a “ficção” científica de um interesse único. Uma vitória completa da sociedade produzirá sempre algum [[lexico:t:tipo|tipo]] de “ficção comunista” cuja principal [[lexico:c:caracteristica|característica]] [[lexico:p:politica|política]] é a de que realmente será governada por uma “mão invisível” isto é, por ninguém. O que tradicionalmente chamamos de [[lexico:e:estado|Estado]] e de [[lexico:g:governo|governo]] cede [[lexico:l:lugar|lugar]] aqui à mera administração – um estado de [[lexico:c:coisas|coisas]] que Marx previu corretamente como o “definhamento do Estado” embora estivesse errado ao presumir que somente uma [[lexico:r:revolucao|revolução]] pudesse provocá-lo, e mais errado ainda quando acreditou que essa completa vitória da sociedade significaria o eventual surgimento do “[[lexico:r:reino|reino]] da [[lexico:l:liberdade|liberdade]]”. [Há uma brilhante exposição desse aspecto, geralmente negligenciado, da relevância de Marx para a sociedade moderna em Siegfried Landshut, “Die Gegenwart im Lichte der Marxschen Lehre”, Hamburger Jahrbuch fur Wirtschafts- und Gesellschaftspolitik, v. I (1956).] [ArendtCH, 6]