===== FENOMENOLOGIA HEIDEGGERIANA ===== [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] comparou [[lexico:h:husserl|Husserl]] a [[lexico:d:descartes|Descartes]] ([[ga>GA17]], 254ss). Ambos admitem a suprema importância de um certo [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] da [[lexico:v:verdade|verdade]], da verdade teórica encontrada primariamente na [[lexico:m:matematica|matemática]] e nas ciências naturais, que eles desejam fundamentar. Ambos buscam a [[lexico:c:certeza|certeza]] dentro de si mesmos, na [[lexico:c:consciencia|consciência]]. Ao contrário de Descartes, Husserl [[lexico:n:nao|não]] quer excluir nenhuma [[lexico:c:ciencia|ciência]] nem o "[[lexico:m:mundo-da-vida|mundo da vida]]" cotidiano de seu [[lexico:e:espaco|espaço]] de [[lexico:j:jogo|jogo]]. Ele reconhece a [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]] e desenvolve a [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]], considerando invariavelmente os fenômenos e a ciência na sua [[lexico:r:relacao|relação]] com a consciência; não possui uma [[lexico:f:formula|fórmula]] teológica. No entanto — contra o [[lexico:e:espirito|espírito]] da fenomenologia — Husserl herdou em demasia as teorias tradicionais de Descartes e de outros filósofos acerca do [[lexico:e:ego-cogito|ego cogito]] ou consciência, com seu [[lexico:i:ideal|ideal]] de certeza e de ciência "rigorosa" à custa do mundo-da-vida onde começa a ciência, das ciências "inexatas" tais como a [[lexico:h:historia|história]], e de um filosofar mais perscrutador, reflexivo, "não-científico" e holístico. O [[lexico:c:conceito|conceito]] de intencionalidade de Husserl também é [[lexico:t:teorico|teórico]]. O [[lexico:a:amor|amor]] baseia-se na [[lexico:r:representacao|representação]] de alguém como uma [[lexico:e:entidade|entidade]] [[lexico:f:fisica|física]] à qual [[lexico:s:significacao|significação]] e [[lexico:v:valor|valor]] são atribuídos. Uma mesa é vista primeiramente como res extensa, [[lexico:c:coisa|coisa]] extensa, isolada, não como algo ao qual se está para comer, muito longe da janela etc. ([[ga>GA63]], 88-92). Para Husserl, "tudo o que me afeta, como um [[lexico:e:ego|ego]] ‘desenvolvido’, é percebido como um ‘[[lexico:o:objeto|objeto]]’, um [[lexico:s:substrato|substrato]] de [[lexico:p:predicados|predicados]]" (MC, 79). Esta [[lexico:e:explicacao|explicação]], permeada de [[lexico:c:conceitos|conceitos]] tradicionais, distorce tanto minha consciência de uma mesa quanto a de uma brisa leve ou a de o que [[lexico:e:eu|eu]] vejo pelo canto do olho. A intencionalidade torna tudo muito agudo e [[lexico:e:explicito|explícito]], ignorando a [[lexico:f:formacao|formação]] da qual eu estou tacitamente [[lexico:c:consciente|consciente]] ([[ga>GA17]], 318). A explicação cartesiana dos entes dada por Husserl conforma-se à sua [[lexico:v:visao|visão]] do [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Ele focaliza o [[lexico:p:puro|puro]] ego, introduzindo o [[lexico:c:corpo|corpo]] e o [[lexico:s:ser-no-mundo|ser-no-mundo]] como meros [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] posteriores. Desta [[lexico:f:forma|forma]], descreve [[lexico:c:coisas|coisas]] tais como a mesa, do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista de um espectador visual. O ego é, para Husserl, existente "por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] em [[lexico:e:evidencia|evidência]] contínua" (MC, 66). Na [[lexico:r:realidade|realidade]], eu em [[lexico:g:geral|geral]] dificilmente tenho consciência de mim mesmo, mas estou absorto em uma [[lexico:t:tarefa|tarefa]]; eu normalmente sou inautêntico, e faço e penso coisas porque isto é o que se faz e se pensa. Não somos tão perspicazes com relação a nós mesmos quanto Husserl supõe. Nós nos interpretamos [[lexico:m:mal|mal]], tanto porque não podemos [[lexico:v:ver|ver]] o que está debaixo de nossos narizes, quanto porque sucumbimos à [[lexico:t:tradicao|tradição]]. Um remédio é examinar nossa [[lexico:s:situacao|situação]] filosófica e a tradição que a denuncia. Husserl observou a [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]] à procura de antecipações da sua própria " [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] científica". Ele permaneceu preso à tradição que explorou inadequadamente. Heidegger trava um debate com a tradição para poder dela libertar-se. Considerou a sua fenomenologia como [[lexico:h:hermeneutica|hermenêutica]] — extraindo o [[lexico:s:significado|significado]] de um [[lexico:t:texto|texto]] como um [[lexico:t:todo|todo]], um texto obscurecido por interpretações passadas. Heidegger frequentemente denigre Husserl: "Alunos de Husserl chegaram a passar todo um semestre discutindo o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] de uma caixa de correio. [...] Se isto é filosofia, então eu sou pela [[lexico:d:dialetica|dialética]]!" ([[ga>GA63]], 110). Ele questiona os conceitos básicos da [[lexico:f:fenomenologia-husserliana|fenomenologia husserliana]]: eu, ego, consciência, objeto. Ainda assim, sua [[lexico:a:analise|análise]] de [[lexico:d:dasein|Dasein]], ser-no-mundo e [[lexico:t:temporalidade|temporalidade]], é reconhecidamente um empreendimento fenomenológico, comparável à [[lexico:o:obra|obra]] de Husserl, que passa então a sofrer a sua [[lexico:i:influencia|influência]]. Ele tenta revelar o inconspícuo sem torná-lo conspícuo. O [[lexico:p:proprio|próprio]] Dasein deve [[lexico:s:ser|ser]] capaz de discernir os aspectos atribuídos a ele pelo [[lexico:f:filosofo|filósofo]]. Mais obstinadamente que Husserl, Heidegger procura motivações dentro da [[lexico:v:vida|vida]] cotidiana para a [[lexico:a:atitude|atitude]] filosófica. Ele encontra uma versão da [[lexico:e:epoche|epoche]]: a [[lexico:a:angustia|angústia]] despe o [[lexico:m:mundo|mundo]] de significação predeterminada e prepara-o para o filósofo. Mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], quando o ser como tal (em contraste com o " ser dos entes") substitui Dasein como seu [[lexico:i:interesse|interesse]] principal, a fenomenologia é suplantada pela "história do ser" (N2, 415/ENDPHILO, 14s). "Fenomenologia" é dessas [[lexico:p:palavras|palavras]] da [[lexico:m:moda|moda]] que SZ, uma situação-limite de transição para coisas mais elevadas, inevitável mas equivocadamente, utilizou ([[ga>GA49]], 28).