===== FENOMENOLOGIA EM HUSSERL E HEGEL ===== O [[lexico:t:termo:start|termo]] [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] recebeu de [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] plena e especial acepção, com a publicação em 1807 de Die Phänomenologie des Geistes (A [[lexico:f:fenomenologia-do-espirito:start|fenomenologia do espírito]]). A fenomenologia é "[[lexico:c:ciencia:start|ciência]] da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]", "na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que a consciência é em [[lexico:g:geral:start|geral]] o [[lexico:s:saber:start|saber]] de um [[lexico:o:objeto:start|objeto]], ou [[lexico:e:exterior:start|exterior]] ou interior". Hegel escreve no Prefácio Fenomenologia: "O estar-ali [[lexico:i:imediato:start|imediato]] do [[lexico:e:espirito:start|espírito]], a consciência, possui os dois momentos: o do saber e o da [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] que é o [[lexico:n:negativo:start|negativo]] em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao saber. Quando o espírito se desenvolve nesse [[lexico:e:elemento:start|elemento]] da consciência e ali expõe seus momentos, esta [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] malogra a cada [[lexico:m:momento:start|momento]] [[lexico:p:particular:start|particular]] e eles surgem todos então como figuras da consciência. A ciência desse [[lexico:c:caminho:start|caminho]] é a ciência da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] que a consciência realiza" (trad. J. Hyppolite, pp. 31-32). Assim, [[lexico:n:nao:start|não]] há resposta à [[lexico:i:indagacao:start|indagação]] se se deve, em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], partir do objeto ([[lexico:r:realismo:start|realismo]]) ou do [[lexico:e:eu:start|eu]] ([[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]]) . A própria [[lexico:n:nocao:start|noção]] de fenomenologia dispensa essa [[lexico:q:questao:start|questão]]: a consciência é sempre consciência de e não existe objeto que não seja objeto para. Não há [[lexico:i:imanencia:start|imanência]] do objeto à consciência se não se atribui correlativamente ao objeto um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:r:racional:start|racional]], sem o que o objeto não seriam um objeto para. O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] ou sentido não é exterior ao [[lexico:s:ser:start|ser]], o ser é imediatamente conceito em si, e o conceito é ser para si. O [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] do ser é o ser que se pensa a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] e, por conseguinte, o "[[lexico:m:metodo:start|método]]" que emprega [[lexico:e:esse:start|esse]] pensamento, a própria filosofia, não é constituída de um conjunto de [[lexico:c:categorias:start|categorias]] independentes daquilo que ela pensa, de seu conteúdo. A fotma do pensamento não se distingue de seu conteúdo a não ser formalmente, ela é concretamente o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] conteúdo que se apreende, o [[lexico:e:em-si:start|em-si]] que se torna [[lexico:p:por-si:start|por si]]. "Deve-se considerar ss formas do pensamento era si e para si; pois elas são o objeto e a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] do objeto" ([[lexico:e:enciclopedia:start|Enciclopédia]]). Assim, o [[lexico:e:erro:start|erro]] kantiano — mas que era um erro [[lexico:p:positivo:start|positivo]] enquanto momento no devir-verdade do Espírito — consistia em descobrir as formas e as categorias como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] do pensamento do objeto para o pensamento; o erro era admitir o [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] como originário. Segundo a identificação [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] do ser e do conceito, o [[lexico:p:problema:start|problema]] da originariedade é, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], "pulado": não há [[lexico:c:comeco:start|começo]] imediato e absoluto, isto é, um algo sem a consciência ou uma consciência sem algo, pelo menos porque o conceito de começo ou de imediato contém como sua [[lexico:n:negacao:start|negação]] dialética a [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] de um progressão subsequente, de uma [[lexico:m:meditacao:start|meditação]]: "A progressão não é supérflua; ela o seria se o começo fosse já verdadeiramente absoluto" ([[lexico:c:ciencia-da-logica:start|Ciência da Lógica]]). [[lexico:n:nada:start|nada]] é absolutamente imediato, tudo é derivado, a rigor a única [[lexico:r:realidade:start|realidade]] "não derivada" é o conjunto do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] das derivações, isto é, a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] absoluta da [[lexico:l:logica:start|Lógica]] e o Saber da Fenomenologias: o resultado da [[lexico:m:mediacao:start|mediação]] dialética aparece diante de si mesmo como [[lexico:u:unico:start|único]] imediato absoluto. O saber absoluto, escreve Hyppolite, "não [[lexico:p:parte:start|parte]] de uma [[lexico:o:origem:start|origem]], mas do próprio [[lexico:m:movimento:start|movimento]] partir, do [[lexico:m:minimum:start|minimum]] rationale que é a tíade Ser-Nada-Devir, quer dizer, ele parte do Absoluto como mediação, sob sua [[lexico:f:forma:start|forma]] ainda imediata, a do [[lexico:d:devir:start|devir]]" (Logique et existence, 95). Esta dupla [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] hegeliana: o ser é já sentido ou conceito, não existe um originário que funde o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], permite delimitar com bastante clareza [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] de Hegel a partir de sua [[lexico:c:critica:start|crítica]] comum ao [[lexico:k:kantismo:start|kantismo]]. Sobre a primeira parte dessa proposição, a [[lexico:f:fenomenologia-husserliana:start|fenomenologia husserliana]] se declara de [[lexico:a:acordo:start|acordo]]: o objeto é "constituído" pela sedimentação de [[lexico:s:significacoes:start|significações]], que não são as condições [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] de toda experiência no sentido kantiano, pois o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] que estabelece essas condições como fundadoras da experiência em geral é ele mesmo já fundamentado na experiência. Não há anterioridade lógica das categorias nem mesmo das formas pelas quais um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] transcendental se daria objetos; é, ao contrário, como o mostra Erfahrung und Urteil, os juízos e as categorias que eles empregam que supõem uma [[lexico:c:certeza:start|certeza]] primeira, aquela que existe o ser, isto é, a [[lexico:c:crenca:start|crença]] numa realidade. Husserl a denomina Glaube, [[lexico:f:fe:start|fé]], crença, para sublinhar que se trata de um pré-saber. Antes de toda atividade predicativa e mesmo antes de toda doação de sentido, mesmo quando se trata da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] da [[lexico:c:coisa:start|coisa]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], existe no seio da "[[lexico:a:apresentacao:start|apresentação]] passiva" "uma fé exercida e inelutável na [[lexico:e:existencia:start|existência]] de algum [[lexico:r:real:start|real]]... [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de [[lexico:t:todo:start|todo]] saber e exercida nele (esta crença) não é inteiramente recuperável num saber propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]] o [[lexico:e:explicito:start|explícito]]" ([[lexico:w:waelhens:start|Waelhens]], Phénoménoiogie et vérité, págs. 52 e 50). Se, portanto, a recuperação da [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do real (no sentido hegeliano) se revela [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], é precisamente porque existe um real originário, imediato, absoluto que fundamenta toda recuperação [[lexico:p:possivel:start|possível]]. Dever-se-á, pois, dizer que ele é [[lexico:i:inefavel:start|inefável]], uma vez que é igualmente [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] que todo [[lexico:l:logos:start|Logos]], todo [[lexico:d:discurso:start|discurso]] racional, toda dialética do pensamento pressupõe por sua vez a fé originária? Haverá, pois, o ante-racional? Compreende-se que esta [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] basta para distinguir nitidamente de Hegel a fenomenologia husserliana e pós-husserliana. "Não existe inefável para Hegel, escreve Hyppolite, aquém e [[lexico:a:alem:start|além]] do saber, nem singuralidade imediata ou [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]]; não existe [[lexico:s:silencio:start|silêncio]] [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]], mas o discurso dialético é uma conquista progressiva do sentido. Isto não significa que esse sentido seja de [[lexico:d:direito:start|direito]] anterior ao discurso que o descobre e o cria..., mas esse sentido se desenvolve no próprio discurso" (Logique et existence, 25-6). Hegel no artigo "Glauben und Wissen" se opunha já à transcendência do em-si kantiano como [[lexico:p:produto:start|produto]] de uma filosofia do entendimento, para [[lexico:q:quem:start|quem]] a [[lexico:p:presenca:start|presença]] do objeto se mantém como [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] de uma realidade escondida. Ora, não é uma outra e mesma transcendência que Husserl reintroduz, em Experiência e [[lexico:j:juizo:start|Juízo]], sob a forma do [[lexico:l:lebenswelt:start|Lebenswelt]] ante-predicativo? Já que este [[lexico:m:mundo:start|mundo]] originário da [[lexico:v:vida:start|vida]] é antepredicativo, toda predicação, todo discurso certamente o implica, mas o perde, e para sermos exatos, nada podemos dizer a [[lexico:r:respeito:start|respeito]]. Aqui igualmente, num sentido diferente é [[lexico:v:verdade:start|verdade]], o Glauben substitui o Wissen e o silêncio da fé encerra o [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] dos homens sobre o ser. Por isso a verdade de Husserl se encontraria em [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] para quem "a [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]] do eu e do ser é insuperável" (Waelhens) e para quem o pretendido saber absoluto apenas traduz o [[lexico:c:carater:start|caráter]] "metafísico", especulativo, inautêntico, do sistema que o supõe. O imediato, o originário de Husserl é para Hegel um [[lexico:m:mediato:start|mediato]] que se ignora como momento no devir total do ser e do Logos; mas, o absoluto de Hegel, isto é, o devir considerado como totalidade fechada sobre si mesma e para ela mesma na [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] do [[lexico:s:sabio:start|sábio]], é para Husserl fundado e não originário, especulativo e não "solo" de toda verdade possível. Por conseguinte, quando Kojève demonstra na Introdução à [[lexico:l:leitura:start|leitura]] de Hegel, que o método da Fenomenologia do espírito é o mesmo de Husserl "puramente [[lexico:d:descritivo:start|descritivo]] e não dialético" (467), está certamente com a [[lexico:r:razao:start|razão]]; é [[lexico:n:necessario:start|necessário]], entretanto, acrescentar que a Fenomenologia hegeliana fecha o sistema, é a retomada total da realidade total no saber absoluto, enquanto que a [[lexico:d:descricao:start|descrição]] husserliana inaugura a [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] da "própria coisa", aquém de toda predicação, [[lexico:m:motivo:start|motivo]] pelo qual ela jamais deixou de se retomar, de se anular, pois é um combate da [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] consigo mesma para atingir o originário (pode-se observar, a tal respeito, as semelhanças notáveis em todos os pontos aliás do "[[lexico:e:estilo:start|estilo]]" de [[lexico:m:merleau-ponty:start|Merleau-Ponty]] com o de [[lexico:b:bergson:start|Bergson]]). Nesse combate, a derrota do [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], do logos, é certa, um vez que o originário, descrito, não mais é originário na medida em que é descrito. Em Hegel, ao contrário, o ser imediato, o pretendido "originário" é já logos, sentido, não é absolutamente o resultado da [[lexico:a:analise:start|análise]] regressiva, começo absoluto da existência, não se pode "considerar o começo como um imediato, mas como mediato e derivado, pois ele é por sua vez determinado segundo a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do resultado" (Ciência da Lógica). Nenhum objeto, enquanto se apresenta como algo de [[lexico:e:externo:start|externo]], como distante da razão, como [[lexico:i:independente:start|independente]] dela, pode resistir -lhe, ser diante dela de uma [[lexico:n:natureza:start|natureza]] particular, não ser penetrado por ela" (ibid.) Aparentementee, portanto, o conflito é total entre o [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] hegeliano e Husserl. Se, todavia, se considera que a empresa fenomenológica é fundamentalmente contraditória enquanto [[lexico:d:designacao:start|designação]] pela linguagem de um [[lexico:s:significado:start|significado]] [[lexico:p:pre-logico:start|pré-lógico]] no ser, ela é inacabada para sempre porque remetida dialeticamente do ser ao sentido através da análise [[lexico:i:intencional:start|intencional]]; então a verdade é devir e não somente "[[lexico:e:evidencia:start|evidência]] [[lexico:a:atual:start|atual]]", ela é retomada e correção das evidências sucessivas, dialética das evidências; "a verdade — escreve Merleau-Ponty — é um [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:n:nome:start|nome]] da sedimentação, que é por sua vez a presença de todos os presentes no nosso" (Sobre a fenomenologia da linguagem, m Problèmes actuels de la phénoménologie, 107), a verdade é Sinngenesis, [[lexico:g:genese:start|gênese]] do sentido. Portanto, se por outro lado se admite que "a Fenomenologia do Espírito é a filosofia militante, ainda não triunfante" (Merleau-Ponty), se se compreende o racionalismo hegeliano como [[lexico:a:aberto:start|aberto]], o sistema como etapa, talvez Husserl e Hegel convirjam finalmente no "Queremos [[lexico:v:ver:start|ver]] o verdadeiro sob forma de resultado" da Filosofia do Direito — com a [[lexico:c:condicao:start|condição]], porém, de que esse resultado seja também momento. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}