===== FENOMENOLOGIA E SOCIOLOGIA ===== Portanto, [[lexico:n:nao|não]] se coloca o [[lexico:p:problema|problema]] de definir o [[lexico:s:social|social]] como [[lexico:o:objeto|objeto]]. "É tão [[lexico:f:falso|falso]] colocar-nos na [[lexico:s:sociedade|sociedade]] como um objeto no [[lexico:m:meio|meio]] de outros objetos como colocar a sociedade em nós como objeto de [[lexico:p:pensamento|pensamento]], e de ambos os lados o [[lexico:e:erro|erro]] consiste em tratar o social como um objeto "(ibid., 415). Monnerot proclama ruidosamente que "não existe sociedade"; isto é [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] na [[lexico:m:medida|medida]] em que ela não tem uma [[lexico:r:realidade|realidade]] visível na [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de [[lexico:i:individuo|indivíduo]] e a [[lexico:i:ideia|ideia]] afinal de contas não é nova; mas daí a dissolver os fatos sociais nos comportamentos individuais, e a verter na "[[lexico:p:psicologia-social|psicologia social]]" pura e [[lexico:s:simples|simples]] o [[lexico:s:sociologismo|sociologismo]] de [[lexico:d:durkheim|Durkheim]] vai um passo que muitos sociólogos modernos dão, aparentemente pouco conscientes da gravidade do mesmo; pois o social é reduzido então a apenas uma [[lexico:r:representacao|representação]] individual, sendo um social para mim e o segundo [[lexico:e:eu|eu]], e a [[lexico:i:investigacao|investigação]] sociológica se refere não às modalidades reais do Mitsein mas ao que pensam dessas modalidades as individualidades sondadas. Encontrar-se-iam mil exemplos dessa passagem na [[lexico:s:sociologia|sociologia]] contemporânea; tomemos o das investigações de Warner ou de Centers sobre as classes sociais. Assim, os problemas sociológicos são escamoteados; é nesse [[lexico:s:sentido|sentido]] que tendem as observações de Monnerot, cuja solidez teórica não se poderia questionar. Que sociologia propõe, portanto, a [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]]? Ainda uma vez ela não se propõe uma sociologia. Propõe uma retomada, uma reinterpretação [[lexico:c:critica|crítica]] e construtiva das pesquisas sociológicas. Não há uma sociologia fenomenológica, há uma [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] que [[lexico:f:fala|fala]] "apenas como a sociologia, do [[lexico:m:mundo|mundo]], dos homens e do [[lexico:e:espirito|espírito]]" ([[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]], "Le philosophe et la sociologie", Signes, p. 138); mas essa filosofia se distingue de toda sociologia porque não objetiva seu objeto mas visa compreendê-lo no nível desse transitivismo que a [[lexico:c:ciencia|ciência]] da criança revelou. É claro que quando se trata das sociedades arcaicas essa [[lexico:o:operacao|operação]] não é fácil: a [[lexico:a:analise|análise]] [[lexico:i:intencional|intencional]] nos revela aqui não mais algo como nosso mundo, mas um mundo cujas estruturas profundas nos escapam. Não se poderia todavia afirmar sua incompreensibilidade e o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:l:levy-bruhl|Lévy-Bruhl]], que havia firmado essa [[lexico:o:opiniao|opinião]], renuncia a ela nos Carnets, [[lexico:o:obra|obra]] póstuma. Quanto a [[lexico:h:husserl|Husserl]]. desde 1935 ,escrevia ao mesmo Lévy-Bruhl, a [[lexico:r:respeito|respeito]] da My-thologie primitive: "É uma [[lexico:t:tarefa|tarefa]] [[lexico:p:possivel|possível]] e de alta importância, é uma alta tarefa projetar-nos numa [[lexico:h:humanidade|humanidade]] fechada sobre a [[lexico:s:socialidade|socialidade]] viva e tradicional e de compreendê-la na medida em que, na sua [[lexico:v:vida|vida]] social total e a partir dela essa humanidade possuí o mundo, que não é para ela uma "representação do mundo", mas o mundo que para ela é [[lexico:r:real|real]]" (citado por Merleau-Ponty, ibid., 72). Assim também devemos seguir a direção da [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] que Claude Lefort dá do [[lexico:t:trabalho|trabalho]] célebre de [[lexico:m:mauss|Mauss]] sobre Le don contra o funcionalismo matematizado que [[lexico:l:levi-strauss|Lévi-Strauss]] se contenta em [[lexico:v:ver|ver]] nele: pois é certo que Mauss se inclinava muito mais para uma [[lexico:c:compreensao|compreensão]] do [[lexico:d:dom|dom]] que para uma formulação [[lexico:a:aritmetica|aritmética]] ou algébrica das tensões sociais ou interpessoais inerentes ao dom. O comentário de Lefort, que procura esclarecer o dom à [[lexico:l:luz|luz]] da [[lexico:d:dialetica|dialética]] hegeliana das consciências em [[lexico:l:luta|luta]], se insere numa linha fenomenológica. Para o fenomenólogo o social não é objeto de nenhuma maneira, ele é tomado como [[lexico:v:vivencia|vivência]] e trata-se aqui, como há pouco em [[lexico:p:psicologia|psicologia]], de descrever adequadamente essa vivência para reconstitui-lhe o sentido; mas tal [[lexico:d:descricao|descrição]] por sua vez só pode [[lexico:s:ser|ser]] feita com base nos dados sociológicos, resultados igualmente de uma [[lexico:o:objetivacao|objetivação]] prévia do social. Pode-se evidentemente [[lexico:f:falar|falar]] de uma "[[lexico:e:escola|escola]] fenomenológica" em sociologia; [[lexico:s:scheler|Scheler]], Vierkandt, Litt, Schütz, Geiger seriam seus representantes. (Cf. p. ex. Cuvillier, Manuel de sociologie, I, págs. 49 e ss., 162 e bibliografias). Na realidade todos os ataques lançados contra essas tentativas, mais "filosóficos" que sociológicos são no fundo justificados. Quando Mauss preconizava que a sociologia [[lexico:g:geral|geral]] só interviesse nas conclusões das investigações concretas, ele temia pela fenomenologia contemporânea, como o veremos. Seja como for, a [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] de uma socialidade originaria nao implica em que a [[lexico:d:definicao|definição]] da socialidade seja anterior ao exame de suas formas concretas.