===== FENOMENOLOGIA E PSICANÁLISE ===== As [[lexico:r:relacoes|relações]] da [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] e da [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]] são ambíguas. [[lexico:s:sartre|Sartre]], nas páginas de O [[lexico:s:ser-e-o-nada|Ser e o Nada]], onde define sua [[lexico:p:psicanalise-existencial|psicanálise existencial]] (págs. 655-663) faz à psicanálise freudiana essencialmente duas críticas: ela é objetivista e causalista, ela utiliza o [[lexico:c:conceito|conceito]] incompreensível de [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]]. Como objetivista, [[lexico:f:freud|Freud]] postula, na base do [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] traumático, e portanto de toda a [[lexico:h:historia|história]] das neuroses, uma "[[lexico:n:natureza|natureza]]", a "[[lexico:l:libido|libido]]"; como causalista; admite uma [[lexico:a:acao|ação]] [[lexico:m:mecanica|mecânica]] do [[lexico:m:meio|meio]] [[lexico:s:social|social]] sobre o [[lexico:s:sujeito|sujeito]], a partir da qual elabora por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] uma [[lexico:s:simbolica|simbólica]] [[lexico:g:geral|geral]] que permite revelar o [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:l:latente|latente]] de um [[lexico:s:sonho|sonho]] sob seu sentido manifesto e isso independentemente do sujeito (do "conjunto significante", diz Sartre). Enfim, de que [[lexico:m:modo|modo]] o sentido de uma neurose, se ele é inconsciente, pode [[lexico:s:ser|ser]] reconhecido no [[lexico:m:momento|momento]] em que o drente auxiliado pelo psicanalista compreende por que está doente? E ainda mais radicalmente, como [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] de inconsciente poderia [[lexico:t:ter|ter]] um sentido uma vez que a [[lexico:f:fonte|fonte]] de [[lexico:t:todo|todo]] o sentido é a [[lexico:c:consciencia|consciência]]? Na [[lexico:r:realidade|realidade]] há uma consciência das tendências profundas, "mas tais tendências [[lexico:n:nao|não]] se distinguem da consciência" (662). As noções psicanalíticas de resistência, de recalcamento, etc., implicam que o isto não é na [[lexico:v:verdade|verdade]] uma [[lexico:c:coisa|coisa]], uma natureza (libido) mas o [[lexico:p:proprio|próprio]] sujeito na sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]]. A consciência discerne a [[lexico:t:tendencia|tendência]] a recalcar da tendência neutra, ela deseja pois não ser consciência daquela, ela é [[lexico:m:ma-fe|má-fé]]: uma "[[lexico:a:arte|arte]] de formar [[lexico:c:conceitos|conceitos]] contraditórios, isto é, que unam em si uma [[lexico:i:ideia|ideia]] e a [[lexico:n:negacao|negação]] dessa ideia" (95). Se [[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]] não retoma essa última [[lexico:c:critica|crítica]] em Fenomenologia da [[lexico:p:percepcao|Percepção]] (o [[lexico:c:corpo|corpo]] como ser sexuado, págs. 180-198) não é por [[lexico:a:acaso|acaso]]. Ter-se-á notado que a [[lexico:d:descricao|descrição]] sartriana da má-fé faz intervir uma consciência conceitual com Sartre permanecemos sempre no nível de uma consciência [[lexico:t:transcendental|transcendental]] pura. Merleau-Ponty, ao contrário procura revelar as sínteses passivas onde a consciência vai buscar suas [[lexico:s:significacoes|significações]]. "A psicanálise [[lexico:e:existencial|existencial]] — escreve o autor — não deve servir de pretexto para uma restauração do [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]]. E prossegue mais adiante (436): A ideia de uma consciência que seria transparente a si mesma e cuja [[lexico:e:existencia|existência]] se reduziria à consciência que ela tem de [[lexico:e:existir|existir]] não difere muito da [[lexico:n:nocao|noção]] de inconsciente: há, de ambos os lados, a mesma [[lexico:i:ilusao|ilusão]] retrospectiva, introduz-se no [[lexico:e:eu|eu]], a título de [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:e:explicito|explícito]], tudo aquilo que eu poderia em seguida aprender sobre mim mesmo". O [[lexico:d:dilema|dilema]] do "isto" e da consciência clara é portanto um [[lexico:f:falso|falso]] dilema. Não existe inconsciente pois a consciência está sempre presente àquilo de que é consciência; o sonho não é a imageria de um "isto" que desenvolveria, em prol do sono de minha consciência, seu próprio [[lexico:d:drama|drama]] travestido. É de [[lexico:f:fato|fato]] o mesmo eu que sonha e que se lembra de haver sonhado. O sonho é então uma permissão que concedo a meus impulsos, com toda a má-fé, pois eu sou o que eu sonho? Também não. Quando sonho eu me instalo na sexualidade, "a sexualidade é a atmosfera geral do sonho", de modo que a [[lexico:s:significacao|significação]] sexual do sonho não pode ser "tematizada" na [[lexico:f:falta|falta]] de uma [[lexico:r:referencia|referência]] não sexual a que eu possa relacioná-la: o [[lexico:s:simbolismo|simbolismo]] do sonho só é simbolismo para o [[lexico:h:homem|homem]] acordado, que compreende a incoerência da narração do sonho e procura fazê-lo simbolizar com um sentido latente; mas quando ele sonhava, a [[lexico:s:situacao|situação]] onírica era imediatamente significativa, não incoerente, mas também não identificada como situação sexual. Dizer como Freud que a "[[lexico:l:logica|lógica]]" do sonho obedece ao [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:p:prazer|prazer]] é dizer que, quando não está ancorada no [[lexico:r:real|real]], a consciência vive o sexual sem situá-lo, sem poder colocá-lo à distância nem identificá-lo — assim como "para o [[lexico:a:apaixonado|apaixonado]], o [[lexico:a:amor|amor]] não tem [[lexico:n:nome|nome]], não é algo que se possa designar, não é o mesmo amor de que falam os livros e os jornais, é uma significação existencial" (437). Aquilo que Freud chamava inconsciente é enfim uma consciência que não consegue apreender-se a si mesma como especificada, eu estou "enredado" numa situação e só me compreendo como tal quando já’ saí dela, quando estou numa outra situação. Essa transplantação da consciência é a única coisa que permite [[lexico:c:compreender|compreender]] particularmente a [[lexico:c:cura|cura]] psicanalítica, pois é apoiando-se na situação presente e sobretudo na minha [[lexico:r:relacao|relação]] vivencial com o analista ([[lexico:t:transferencia|transferência]]) que posso identificar a situação traumática passada, dar-lhe um nome e finalmente livrar-me dela. Essa revisão da noção de inconsciente supõe evidentemente que se abandone uma concepção determinista do [[lexico:c:comportamento|comportamento]] e em especial do comportamento sexual. É [[lexico:i:impossivel|impossível]] [[lexico:i:isolar|isolar]] no âmago do sujeito impulsos sexuais que habitariam e impeliriam sua [[lexico:c:conduta|conduta]] como [[lexico:c:causas|causas]]. E o próprio Freud, generalizando o sexual muito [[lexico:a:alem|além]] do genital, sabia que não é [[lexico:p:possivel|possível]] separar num comportamento determinado as motivações "sexuais" e as "não sexuais". O sexual não existe em si, ele é um sentido que eu dou à minha [[lexico:v:vida|vida]] e "se a história sexual de um homem dá a chave de sua vida é porque na sexualidade do homem se projeta sua maneira de ser em relação ao [[lexico:m:mundo|mundo]], isto é, em relação aos outros homens" (185). Não há, portanto, causação do comportamento pelo sexual, mas "osmose" entre a sexualidade e a existência porque a sexualidade está constantemente presente na vida humana como uma "atmosfera ambígua" (197). No Prefácio que Merleau-Ponty escreveu para a [[lexico:o:obra|obra]] do Dr. [[lexico:h:hesnard|Hesnard]], L’oeuvre de Freud, Payot, 1960, encontrar-se-á uma nova tematização da "consciência" entre psicanálise e fenomenologia: sua ideia diretriz é de que a fenomenologia "não é uma "[[lexico:f:filosofia|Filosofia]] da consciência" clara, mas uma [[lexico:r:revelacao|revelação]] contínua e impossível de um "Ser [[lexico:o:onirico|onírico]], por [[lexico:d:definicao|definição]] [[lexico:o:oculto|oculto]]"; enquanto que a psicanálise, graças especialmente aos trabalhos do Dr. Lacan, deixa de ser incompreendida na [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de [[lexico:p:psicologia|psicologia]] do inconsciente: ela tenta articular: [[lexico:e:esse|esse]] intemporal, esse indestrutível em nós que é, diz Freud, o próprio inconsciente".