===== FENOMENOLOGIA E MARXISMO ===== Convém primeiramente sublinhar as oposições insuperáveis que separam [[lexico:f:fenomenologia-e-marxismo:start|fenomenologia e marxismo]]. O [[lexico:m:marxismo:start|marxismo]] é um [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]]. Ele admite que a [[lexico:m:materia:start|matéria]] constitui a única [[lexico:r:realidade:start|realidade]] e que a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] é um [[lexico:m:modo:start|modo]] material [[lexico:p:particular:start|particular]]. [[lexico:e:esse:start|esse]] materialismo é dialético : a matéria se desenvolve segundo um [[lexico:m:movimento:start|movimento]] cujo motor constitui a supressão, a conservação e o ultrapassamento da etapa anterior pela etapa seguinte: a consciência é uma dessas etapas. Na [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] que é aqui a nossa, isso significa especialmente que toda [[lexico:f:forma:start|forma]] material contém em si mesma um [[lexico:s:sentido:start|sentido]]; esse sentido existe independentemente de toda consciência "[[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]". [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] havia captado a [[lexico:p:presenca:start|presença]] desse sentido, afirmando que [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:r:real:start|real]] é [[lexico:r:racional:start|racional]], mas a imputava a um pretenso [[lexico:e:espirito:start|Espírito]] cuja [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e [[lexico:h:historia:start|história]] seriam apenas a realização. O marxismo, ao contrário, [[lexico:r:recusa:start|recusa]] separar, como o fazem os idealistas de um modo [[lexico:g:geral:start|geral]], o [[lexico:s:ser:start|ser]] e o sentido. Certamente a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] do [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] período husserliano parece por sua vez recusar essa [[lexico:s:separacao:start|separação]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] quando [[lexico:m:merleau-ponty:start|Merleau-Ponty]], o mais destacado representante dessa [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], [[lexico:f:fala:start|fala]] "dessa pregnância da [[lexico:s:significacao:start|significação]] nos signos que poderia definir o [[lexico:m:mundo:start|mundo]]". Mas o [[lexico:p:problema:start|problema]] reside em [[lexico:s:saber:start|saber]] de que "mundo" se trata. Tivemos a [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] de observar que o mundo, ao qual a [[lexico:m:meditacao:start|meditação]] husserliana sobre a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] conduz por [[lexico:f:fim:start|fim]], [[lexico:n:nao:start|não]] deve ser confundido com o mundo "material", definindo-se antes, como o fizemos, a partir da consciência, ou pelo menos do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] constituinte. [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] dizia que a [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] do mundo, tal [[lexico:c:como-se:start|como se]] opera no [[lexico:d:devir:start|devir]] da [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]], se apoia na [[lexico:l:lebenswelt:start|Lebenswelt]], num mundo originário com o qual essa subjetividade se acha "em [[lexico:r:relacao:start|relação]]" por [[lexico:m:meio:start|meio]] de sínteses passivas. Esboço de [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]], conclui [[lexico:w:wahl:start|Wahl]] a esse [[lexico:r:respeito:start|respeito]] (R.M.M., 1952). Não concordamos, pois tratava-se sempre de uma subjetividade reduzida e de um mundo que não era o da realidade [[lexico:n:natural:start|natural]]; Husserl igualmente não queria cair por sua vez nos erros mil vezes denunciados do empirismo. Como diz com muita [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] Thao, "a realidade natural que se descobre nas profundezas do [[lexico:v:vivido:start|vivido]] não é mais aquela que se apresentava à consciência espontânea antes da [[lexico:r:reducao:start|redução]]" (op. cit., 225). A realidade em [[lexico:q:questao:start|questão]] é aquela que após Merleau-Ponty passamos a chamar [[lexico:e:existencia:start|existência]], mundo originário etc.; e, com a fenomenologia, sempre tivemos o cuidado de separá-la de toda [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] objetivista [[lexico:p:possivel:start|possível]]. Essa realidade não é portanto objetiva e tampouco subjetiva; ela é neutra ou ainda ambígua. A realidade do mundo natural anterior à redução, isto é, em [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:i:instancia:start|instância]], a matéria, é em si desprovida de sentido para a fenomenologia (cf. [[lexico:s:sartre:start|Sartre]]); as diferentes regiões do ser acham-se dissociadas, como observa ainda Thao, e por exemplo "a matéria trabalhada pelo [[lexico:h:homem:start|homem]] não é mais matéria, mas "[[lexico:o:objeto:start|objeto]] cultural" (ibid., 225-6). Essa matéria só tomará seu sentido das [[lexico:c:categorias:start|categorias]] que a colocam como realidade [[lexico:f:fisica:start|física]], de tal modo que, finalmente, o ser o sentido se encontram separados em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da separação dos diferentes reinos do ser. O sentido remete exclusivamente a uma subjetividade constituinte; mas, essa subjetividade por sua vez remete a um mundo neutro que está, ele [[lexico:p:proprio:start|próprio]], em devir e no qual todos os sentidos da realidade se constituem segundo sua [[lexico:g:genese:start|gênese]] (Sinngenesis). Daí, conclui Thao, a [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] da fenomenologia parecer intolerável. Pois é claro que esse mundo neutro, que retém o sentido sedimentado de toda realidade, só pode ser a própria natureza, ou antes, a matéria no seu movimento dialético. É verdade, num certo sentido, que o mundo antes da redução não é aquele que se encontra após a [[lexico:a:analise:start|análise]] da subjetividade constituinte: o primeiro é realmente, na verdade, um [[lexico:u:universo:start|universo]] mistificado em que o homem se aliena, mas não é justamente a realidade; a realidade é esse universo reencontrado ao fim da [[lexico:d:descricao-fenomenologica:start|descrição fenomenológica]] e no qual o vivido é apenas um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] da [[lexico:v:vida:start|vida]] efetivamente real", a fenomenologia não podia conseguir captar em si o "conteúdo material dessa vida [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]". Para conservar e [[lexico:s:superar:start|superar]] os resultados do [[lexico:i:idealismo-transcendental:start|idealismo transcendental]], é preciso prolongá-lo pelo [[lexico:m:materialismo-dialetico:start|materialismo dialético]], que o salva de sua última tentação: a recaída no "[[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]] total", que Thao vê transparecer nos últimos esccritos de Husserl e que lhe parece inevitável se não se devolve à subjetividade "seus [[lexico:p:predicados:start|predicados]] de realidade." Não cabe discutir aqui o notável [[lexico:t:texto:start|texto]] de Thao. Ele coloca claramente em todo caso a irredutibilidade das duas teses, pois só à custa de uma identificação da subjetividade originária como matéria é que o marxismo se pode propor conservar a fenomenologia e ultrapassá-la. Encontra-se em [[lexico:l:lukacs:start|Lukács]] (Existentialisme et marxisme, Nagel, 1948) uma [[lexico:c:critica:start|crítica]] marxista bastante diferente na [[lexico:m:medida:start|medida]] em: que ataca a fenomenologia, não retomando seu [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] do interior, mas estudando-o explicitamente como "[[lexico:c:comportamento:start|comportamento]]". De certa forma ela completa a crítica precedente, pois procura demonstrar que a fenomenologia, longe de [[lexico:e:estar:start|estar]] degradada por sua significação histórica, nela encontra, ao contrário, sua verdade. Notar-se-á ademais que Lukács se refere sobretudo ao Husserl do segundo período. Husserl lutou, paralelamente a Lênin, contra o [[lexico:p:psicologismo:start|psicologismo]] de [[lexico:m:mach:start|Mach]] e todas as formas de [[lexico:r:relativismo:start|relativismo]] cético que foram expressas no pensamento ocidental a partir do fim do século XIX; essa [[lexico:p:posicao:start|posição]] fenomenológica se explica, segundo Lukács, pela [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de liquidar o [[lexico:i:idealismo-objetivo:start|idealismo objetivo]], cuja resistência ao [[lexico:p:progresso:start|progresso]] científico fora finalmente vencida, especialmente no que concerne a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:e:evolucao:start|evolução]]; o [[lexico:i:idealismo-subjetivo:start|idealismo subjetivo]] por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado levava, para um pensador honesto como Husserl, a conclusões perigosamente obscurantistas, mas por outro lado o materialismo continua inaceitável a seu [[lexico:v:ver:start|ver]], subjetivamente porque se situa na linha cartesiana e, objetivamente, em [[lexico:r:razao:start|razão]] da [[lexico:i:ideologia:start|ideologia]] de sua [[lexico:c:classe:start|classe]]; daí a tentativa que caracteriza o comportamento fenomenológico de "revestir as categorias do [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] de uma pseudo-objetividade. A [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] (de Husserl) consiste precisamente em crer que basta dar as costas aos métodos puramente psicológicos para sair do domínio da consciência (op. cit., 260-262). Paralelamente, se Husserl [[lexico:l:luta:start|luta]] contra Mach e os formalistas, é para introduzir o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de "[[lexico:i:intuicao:start|intuição]]" do qual se espera que resista ao relativismo e para reafirmar a [[lexico:v:validade:start|validade]] da filosofia contra a inevitável derrota para a qual o [[lexico:p:pragmatismo:start|pragmatismo]] a tinha arrastado. Ora, esses temas são "outros tantos sintomas da crise da filosofia". Que crise é esta? Ela está estreitamente ligada à primeira grande crise do imperialismo capitalista, que eclodiu em 1914, Precedentemente, a filosofia tinha sido posta de lado e substituída pelas ciências especializadas no exame dos problemas do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]: é precisamente o estágio do [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]], do pragmatismo, do [[lexico:f:formalismo:start|formalismo]], caracterizado pela confiança dos intelectuais num [[lexico:s:sistema:start|sistema]] [[lexico:s:social:start|social]] aparentemente [[lexico:e:eterno:start|eterno]]. Mas quando as garantias conferidas pelo sistema, por [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] de seu nascimento [[lexico:p:politico:start|político]] (liberdades do cidadão, respeito à [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] humana), começam a ser ameaçadas pelas consequências do próprio sistema, veem-se [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] os sintomas da crise do [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]]: tal é o contexto [[lexico:h:historico:start|histórico]] da fenomenologia tomada como comportamento. Seu a-historismo, seu in-tuicionismo, sua [[lexico:i:intencao:start|intenção]] de radicalidade, seu [[lexico:f:fenomenismo:start|fenomenismo]], outros tontos fatores ideológicos destinados a ocultar o sentido [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] da crise, a evitar as inevitáveis conclusões. A "terceira via", nem idealista, nem materialista nem ("objetivista", nem "pisicologista," dizia Husserl) reflete essa [[lexico:s:situacao:start|situação]] equívoca. A "filosofia da [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]]" traduz a seu modo uma ambiguidade da filosofia nessa etapa da história burguesa, [[lexico:m:motivo:start|motivo]] pelo qual os intelectuais lhe conferem um sentido de verdade, na medida em que vivem essa ambiguidade e na medida em que essa filosofia, ocultando sua verdadeira significação, preenche a contento sua [[lexico:f:funcao:start|função]] ideológica. **O sentido da história.** — É portanto claro que nenhuma conciliação pode ser tentada com [[lexico:s:seriedade:start|seriedade]] entre essas duas filosofias e é preciso frisar que, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], os marxistas jamais o pretenderam. Mas se tiveram de refutá-la foi precisamente porque lhe a ofertaram. Não é de nossa alçada fazer o histórico dessa [[lexico:d:discussao:start|discussão]]; incontestavelmente, a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] [[lexico:p:politica:start|política]] e social da Resistência e da [[lexico:l:libertacao:start|Libertação]] constituem seus [[lexico:m:motivos:start|motivos]] essenciais; seria preciso fazer a análise da situação da intelligentsia durante esse período. Seja como for, a fenomenologia foi levada a confrontar suas teses com as do marxismo; fê-lo de resto espontaneamente após o descentramento de sua [[lexico:p:problematica:start|problemática]], a partir do [[lexico:e:eu-transcendental:start|eu transcendental]] na direção do Lebenswelt. A fenomenologia abordou o marxismo essencialmente por duas teses: o sentido da história e a [[lexico:c:consciencia-de-classe:start|consciência de classe]] — e que na verdade são apenas uma, pois para o marxismo o sentido da história só pode ser lido através das etapas da luta de classes; essas etapas são dialeticamente ligadas à consciência que as classes tomam de si mesmas no [[lexico:p:processo:start|processo]] histórico total. A classe é definida em última análise pela situação nas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] objetivas de produção (infra-estrutura), mas as flutuações de seu volume e de sua combatividade, que refletem as modificações incessantes dessa infra-estrutura, estão ainda ligadas dialeticamente a fatores superestruturais (políticos, religiosos, jurídicos, ideológicos propriamente ditos). Para que a [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] da luta de classes, motor da história, seja possível, é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] que as superestruturas entrem em contradição com a infra-estrutura ou produção da vida material e, por conseguinte, que essas superestruturas gozem, como diz Thao de uma "[[lexico:a:autonomia:start|autonomia]]" relativamente a essa produção e não evoluam automaticamente na trilha de sua evolução. "A autonomia das superestruturas é tão [[lexico:e:essencial:start|essencial]] à [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] da história quanto o movimento das forças produtoras" (arf. cit., 169). Chega-se pois a essa [[lexico:t:tese:start|tese]], retomada por Merleau-Ponty (2), segundo a qual a ideologia (no sentido geral do [[lexico:t:termo:start|termo]]) não é ilusão, [[lexico:a:aparencia:start|aparência]], [[lexico:e:erro:start|erro]], mas realidade de [[lexico:f:fato:start|fato]], como também a própria infra-estrutura. "A primazia do econômico, escreve Thao, não suprime a verdade das superestruturas, mas remete-a à sua [[lexico:o:origem:start|origem]] autêntica, na existência vivida. As construções ideológicas são relativas ao [[lexico:m:modo-de-producao:start|modo de produção]], não porque o refletem — [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] um [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]] — mas simplesmente porque extraem todo o seu sentido de uma experiência correspondente em que os valores "espirituais" não são representados, mas vividos e sentidos" (art. cit.). Thao atribui à fenomenologia o [[lexico:m:merito:start|mérito]] de [[lexico:t:ter:start|ter]] "legitimado o [[lexico:v:valor:start|valor]] de todas as [[lexico:s:significacoes:start|significações]] da existência humana", isto é, em resumo, de ter ajudado a filosofia a [[lexico:i:isolar:start|isolar]] a autonomia das superestruturas. "Aplicando-se em [[lexico:c:compreender:start|compreender]], num espírito de submissão absoluta ao [[lexico:d:dado:start|dado]], o valor dos objetos "ideais", a fenomenologia soube relacioná-los com sua [[lexico:r:raiz:start|raiz]] [[lexico:t:temporal:start|temporal]] sem por isso depreciá-los" (ibid., 173); e Thao mostra que a relação com o econômico permite justamente fundamentar [[lexico:b:bem:start|Bem]] o sentido e a verdade das "[[lexico:i:ideologias:start|ideologias]]" — por exemplo da fenomenologia — isto é, em [[lexico:s:suma:start|suma]], compreender como e especialmente por que o [[lexico:e:esforco:start|esforço]] da burguesia do século XVI, por exemplo, para se libertar do poder papal tomou a forma ideológica da [[lexico:r:reforma:start|Reforma]]: afirmar que essa forma é apenas um [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] ilusorio (ideológico) de interesses materiais é recusar -se a compreender a historia. Thao propõe [[lexico:e:explicar:start|explicar]] o movimento da Reforma como a [[lexico:t:traducao:start|tradução]] "racionalizada" da experiência realmente vivida das novas condições de vida trazidas pelo próprio [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da burguesia, condições caracterizadas sobretudo pela segurança que não mais obrigava, como o fazia a insegurança dos séculos precedentes, a encerrar a espiritualidade nos claustros, e permitia em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] adorar [[lexico:d:deus:start|Deus]] no mundo. Cabe portanto introduzir no seio das análises marxistas análises feno-menológicas referentes à consciência considerada como [[lexico:f:fonte:start|fonte]] das superestruturas com a infra-estrutura [[lexico:e:economica:start|econômica]] onde se acha comprometida em última análise (mas em última análise apenas). Assim, encontra-se legitimada simultaneamente a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de um desenvolvimento dialético da historia cujo sentido é ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] e subjetivo, isto é, necessário e [[lexico:c:contingente:start|contingente]]: os homens não se prendem diretamente ao econômico; prendem-se ao [[lexico:e:existencial:start|existencial]] ou antes o econômico é já existencial e sua [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] de defesa, é por eles experimentada como real. O problema revolucionário, segundo Thao, não é pois apenas de organizar e estabelecer uma [[lexico:e:economia:start|economia]] nova; está na realização pelo homem do próprio sentido de seu devir. É nesse sentido, segundo ele, que a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] de [[lexico:m:marx:start|Marx]] não é um [[lexico:d:dogma:start|dogma]], mas um guia para a [[lexico:a:acao:start|ação]]. Merleau-Ponty aborda o mesmo problema mas pelo seu lado concretamente político. Negar à história um sentido é negar-lhe sua verdade e sua [[lexico:r:responsabilidade:start|responsabilidade]] na política, é dar a entender que o Resistente não tem maiores motivos que o Colaborador para matar, é sustentar que o "fim justifica os meios", segundo uma [[lexico:f:formula:start|fórmula]] que teve seu êxito porque o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] em direção ao fim, colocado arbitrariamente por um [[lexico:p:projeto:start|projeto]] subjetivo e incontrolável, pode passar por qualquer caminho, não importa qual, e a [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] e a liberdade dos homens pelo nazismo e Auschwitz. A história mostra que isto não se dá. Não é preciso dizer que a [[lexico:v:violencia:start|violência]] é inelutável porque o [[lexico:f:futuro:start|futuro]] está [[lexico:a:aberto:start|aberto]] e "[[lexico:a:a-se:start|a se]] realizar", é preciso ainda dizer que certa violência é mais justificada que outra; não se deve apenas consentir em que a política não pode deixar de ser um [[lexico:m:maquiavel:start|Maquiavel]], mas mostrar igualmente que a história tem suas manhas e maquiaveliza eventualmente os Maquiavel. Se a história mostra, se a história tem manhas é porque ela visa algum objetivo e significa. Não a própria história, que não passa de uma [[lexico:a:abstracao:start|abstração]]; mas existe "uma significação média e [[lexico:e:estatistica:start|estatística]]" dos projetos dos homens comprometidos numa situação, que finalmente só se define por tais projetos e sua resultante. Esse sentido de uma situação é o sentido que os homens conferem a si mesmos e aos outros, num trecho de [[lexico:d:duracao:start|duração]] que se chama presente; o sentido de uma situação histórica é um problema de [[lexico:c:coexistencia:start|coexistência]] ou Mitsein; há uma história porque os homens são conjunto, não como subjetividades moleculares e fechadas que se adicionariam, mas ao contrário como seres projetados na direção de outrem como para o [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de sua própria verdade. Há portanto um sentido da história que é o sentido que os homens vivendo dão à sua história. Assim se explica que possam infiltrar-se, numa base objetiva idêntica, tomadas de consciência variáveis, aquilo que Sartre denominava a possibilidade de um deslocamento:, "jamais uma posição objetiva no circuito da produção basta para [[lexico:p:provocar:start|provocar]] a [[lexico:t:tomada-de-consciencia:start|tomada de consciência]] de classe" (Fenomenologia da [[lexico:p:percepcao:start|Percepção]], 505). Não se passa automaticamente da infra-estrutura à [[lexico:s:superestrutura:start|superestrutura]] sempre existe um [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]] entre ambas. Mas, então, se é verdade que os homens dão à sua história seu sentido, de onde o retiram? Por uma [[lexico:e:escolha:start|escolha]] [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]? E quando nós imputamos a Sinngebung aos próprios homens, a suas liberdades, não fazemos uma vez mais "a história caminhar de cabeça para baixo", não estamos voltando ao idealismo? Existe uma possibilidade ideológica de sair do [[lexico:d:dilema:start|dilema]] do "pensamento objetivo" e do idealismo? O economista não pode explicar a história, não pode explicar como uma situação econômica se "traduz" em [[lexico:r:racismo:start|racismo]] ou em ceticismo, ou em social-democracia, não pode tampouco explicar que numa mesma posição no [[lexico:c:circulo:start|círculo]] que ele descreve, possam ser correlativas posições políticas diferentes, nem que ali haja "traidores", nem até mesmo que uma agitação política seja necessária; e nesse sentido a história é de fato contingente; mas o idealismo, que o afirma não pode igualmente explicar a história, não pode explicar que o "século das luzes" é o século XVIII, nem que os gregos não criaram a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] [[lexico:e:experimental:start|experimental]], nem que o fascismo é uma ameaça de nosso tempo. É portanto necessário, se se deseja compreender a história (e não existe [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] verdadeira para o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]]), sair desse duplo impasse de uma liberdade e de uma necessidade igualmente totais. "A [[lexico:g:gloria:start|glória]] dos resistentes como a indignidade dos colaboradores supõe ao mesmo tempo a [[lexico:c:contingencia:start|contingência]] da história, sem a qual não existem culpados em política, e a [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]] da história sem a qual só existem loucos" (Humanisme et terreur, pág. 44). "Damos seu sentido à história, mas não sem. que ela no-lo proponha" (Fenomenologia da Percepção, 513). Isto significa não que a história tenha um sentido, [[lexico:u:unico:start|único]], necessário e por conseguinte fatal, de que os homens seriam joguetes e vítimas também, como o são afinal na filosofia hgeliana da história, mas sim que ela tem um sentido; essa significação coletiva é a resutlante das significações projetadas por subjetividades históricas no seio de sua coexistência, e que compete a essas subjetividades retomar, num [[lexico:a:ato:start|ato]] de apropriação, que põe fim à [[lexico:a:alienacao:start|alienação]] desse sentido e da história, constitui por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] uma significação desse sentido e anuncia uma [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] da história. Não há de um lado um objetivo e de outro um subjetivo que lhe seria heterogêneo e procuraria nos melhores casos ajustar-se a ela: assim não há nunca uma compreensão total da história, pois, mesmo quando a compreensão é a mais adequada possível, ela compromete já a história numa nova via e lhe abre um futuro. Não se pode retomar a história nem pelo [[lexico:o:objetivismo:start|objetivismo]], nem pelo idealismo, nem muito menos por uma [[lexico:u:uniao:start|união]] problemática dos dois, mas por um aprofundamento de ambos que nos leva à própria existência dos sujeitos históricos no seu "mundo", a partir do qual o objetivismo e o idealismo aparecem como duas possibilidades, respectivamente inadequadas, para os sujeitos de se compreenderem na história. Essa compreensão existencial não é por sua vez adequada, porque há sempre um futuro para os homens, e os homens produzem seu futuro produzindo-se a si mesmos. A história por ser inacabada, isto é, humana, não é um objeto indicado; mas por ser também humana, a história não é insensata, Assim se justifica de nova maneira a tese husserliana de uma filosofia que nunca pôs fim ac problema de um "[[lexico:c:comeco:start|começo]] radical". *Podemos observá-lo também em Les Aventures de la dialectique (Gallimard, 1955): ‘Hoje em dia, como há cem anos e como há trinta e oito anos, continua a ser verdade que ninguém é sujeito nem é livre sozinho, que as liberdades se contrariam e se exigem mutuamente, que a história é a história de seu debate, que se inscreve e está visível nas instituições, nas civilizações, na esteira das grandes [[lexico:a:acoes:start|ações]] históricas; que há meio de compreendê-las, de situá-las, se não dentro de um sistema segundo uma [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] exata e definitiva e na perspectiva de uma [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] Derdadeira, homogênea, última, pelo menos como diferentes episódios de uma só vida de que cada qual é uma experiência e pode passar aos que vêm depois... "(276). Mas desta vez o marxismo é atacado em sua tese fundamental, que é a própria possibilidade do [[lexico:s:socialismo:start|socialismo]], da sociedade em classe, da supressão do proletariado como classe pelo proletariado no poder, e do fim do [[lexico:e:estado:start|Estado]]: "Eis o problema: a [[lexico:r:revolucao:start|revolução]] é um caso [[lexico:l:limite:start|limite]] do [[lexico:g:governo:start|governo]] ou o fim do governo?" Ao que Merleau-Ponty responde. "A revolução se concebe no segundo sentido e se pratica de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com o primeiro... As revoluções são verdadeiras como movimentos e falsas como regimes" (290 e 279). Não nos cabe fazer aqui a [[lexico:d:descricao:start|descrição]] crítica do livro: notemos apenas que ele expressa [[lexico:i:incompatibilidade:start|incompatibilidade]] absoluta das teses fenomenológicas com a concepção marxista da história. Em particular, a rejeição de Merleau-Ponty da possibilidade efetiva de uma realização do socialismo não pode surpreender-nos se considerarmos que, recusando qualquer [[lexico:r:referencia:start|referência]] à objetiuidade das relações de produção e de suas modificações, os fenomenólogos deviam insensivelmente tratar a história e a luta de classes como devir e contradição das consciências isoladas.* {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}