===== FENOMENOLOGIA E FISIOLOGIA ===== Em compensação, a [[lexico:p:psicologia|psicologia]] fenomenológica de [[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]] aceita o debate no nível da própria [[lexico:f:fisiologia|fisiologia]], [[lexico:c:como-se|como se]] pode [[lexico:v:ver|ver]] a partir da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do [[lexico:c:comportamento|comportamento]]. A própria [[lexico:n:nocao|noção]] de [[lexico:s:significacao|significação]] é secundária e requer um [[lexico:f:fundamento|fundamento]] sobre um contato mais originário com o [[lexico:m:mundo|mundo]]: "o que constitui a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre a Gestalt do [[lexico:c:circulo|círculo]] e a significação círculo é que a segunda é reconhecida por um [[lexico:e:entendimento|entendimento]] que o engendra como [[lexico:l:lugar|lugar]] dos pontos equidistantes de um centro, a primeira por um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] familiar com seu mundo e capaz de apreendê-la como uma modulação desse mundo, como uma [[lexico:f:fisionomia|fisionomia]] circular" ([[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] da [[lexico:p:percepcao|Percepção]], 491). Assim, a significação [[lexico:n:nao|não]] constitui a última [[lexico:r:referencia|referência]] psicológica sendo ela própria constituída e o papel da psicologia da percepção é [[lexico:s:saber|saber]] por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] como a [[lexico:c:coisa|coisa]] enquanto significação é constituída. É claro que a coisa é o fluxo de Abschattungen, como dizia [[lexico:h:husserl|Husserl]], mas [[lexico:e:esse|esse]] fluxo é unificado na [[lexico:u:unidade|unidade]] de uma percepção, acrescentava. Ora, de onde vem essa unidade, isto é, o [[lexico:s:sentido|sentido]] que é essa coisa para mim? De uma [[lexico:c:consciencia|consciência]] constituinte? "Mas quando compreendo algo, por exemplo um quadro, [[lexico:e:eu|eu]] não opero a [[lexico:s:sintese|síntese]] atualmente, eu a preparo com meus campos sensoriais, meu [[lexico:c:campo|campo]] perceptivo, e finalmente com uma tipificação de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:p:possivel|possível]], uma montagem [[lexico:u:universal|universal]] em [[lexico:r:relacao|relação]] ao mundo... O sujeito não (deve) mais ser compreendido como [[lexico:a:atividade|atividade]] sintética mas como [[lexico:e:ek-stase|ek-stase]], e toda [[lexico:o:operacao|operação]] ativa de significação ou de Sinngebung parece como derivada e secundária relativamente a essa pregnância da significação nos signos que poderia definir o mundo" (Fenomenologia da Percepção, 490). A Fenomenologia da Percepção é uma sutil e profunda [[lexico:d:descricao|descrição]] dessa "montagem universal relativamente ao mundo." O [[lexico:m:metodo|método]] utilizado é muito diferente do de [[lexico:s:sartre|Sartre]]: é uma retomada [[lexico:p:ponto|ponto]] por ponto dos dados experimentais e principalmente dos dados clínicos da patologia nervosa e mental. Esse método apenas prolonga, como o confessa o [[lexico:p:proprio|próprio]] autor, o método de Goldstein utilizado em Structure de l’organisme. Tomemos o caso da [[lexico:a:afasia|afasia]], definida classicamente como [[lexico:c:carencia|carência]] total ou parcial de tal [[lexico:f:funcao|função]] da [[lexico:l:linguagem|linguagem]]: carência da recepção da linguagem falada ou [[lexico:e:escrita|escrita]] (surdez ou cegueira verbais), carência da [[lexico:a:acao|ação]] de [[lexico:f:falar|falar]] ou de escrever, não sendo tal carência resultado de nenhuma perturbação receptora ou motora periférica. Tentou-se ligar essas [[lexico:q:quatro|Quatro]] funções respectivamente a centros corticais, e [[lexico:e:explicar|explicar]] esse comportamento psicopatológico baseado na fisiologia nervosa central. Goldstein mostra que essas tentativas são necessariamente inúteis pois admitem sem [[lexico:c:critica|crítica]] a repartição quádrupla da linguagem a título de [[lexico:h:hipotese|hipótese]] de [[lexico:t:trabalho|trabalho]]: ora, essas [[lexico:c:categorias|categorias]] (falar, escrever etc.) são as do [[lexico:u:uso|uso]] corrente e não têm nenhum [[lexico:v:valor|valor]] [[lexico:i:intrinseco|intrínseco]]. O médico quando estuda a síndrome na [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] dessas categorias não se deixa guiar pelos próprios fenômenos mas adapta aos sin4omas uma anatomia prestabelecida e calcada na anatomia psicológica, em que se funda, segundo o [[lexico:s:senso-comum|senso comum]], o comportamento. Ele faz fisiologia em função de uma concepção psicológica e que não é tampouco elaborada seriamente. Na [[lexico:r:realidade|realidade]], se prosseguimos no exame dos sintomas da afasia, constatamos que o afásico não é um afásico pura e [[lexico:s:simples|simples]]. Ele sabe por exemplo indicar a cor vermelha por [[lexico:m:meio|meio]] de um morango, ainda que não saiba [[lexico:n:nomear|nomear]] as cores em [[lexico:g:geral|geral]]. Em [[lexico:s:suma|suma]], sabe utilizar uma linguagem pronta, que nos faz passar sem [[lexico:m:mediacao|mediação]] de uma "[[lexico:i:ideia|ideia]]" a outra; mas, quando para falar é [[lexico:n:necessario|necessário]] utilizar as categorias mediadoras, o afásico revela-se verdadeiramente afásico. Não é portanto o [[lexico:c:complexo|complexo]] sonoro que constitui a [[lexico:p:palavra|palavra]] que [[lexico:f:falta|falta]] na afasia; é o uso do nível [[lexico:c:categorial|categorial]]; pode-se então defini-la como degradação da linguagem e [[lexico:q:queda|Queda]] ao nível automático. Da mesma [[lexico:f:forma|forma]], o doente não compreende nem retém uma [[lexico:h:historia|história]] mesmo que seja curia; ele apreende apenas sua [[lexico:s:situacao|situação]] [[lexico:a:atual|atual]], e toda situação imaginária lhe é dada sem significação. Assim, Merleau-Ponty, retomando as [[lexico:a:analise|análise]] de Gelb e Goldstein, distingue para concluir uma palavra talante e uma palavra falada: ao afásico falta a [[lexico:p:produtividade|produtividade]] da linguagem. Não buscamos aqui uma [[lexico:d:definicao|definição]] da linguagem, mas a [[lexico:e:expressao|expressão]] de um novo método: à declaração de [[lexico:s:stein|Stein]] de que uma fisiologia séria deve se fazer em termos objetivos, por medidas de cronaxia etc. Goldstein respondia que tal [[lexico:i:investigacao|investigação]] físico-química não é menos teórica do que a abordagem psicológica que ele emprega; seja como for, trata-se de reconstituir a "[[lexico:d:dinamica|dinâmica]] no comportamento" e como de qualquer [[lexico:m:modo|modo]] existe reconstituição e não coincidência pura e simples com o comportamento estudado, todas as abordagens convergentes devem ser utilizadas. Não se acha pois aqui uma condenação dos métodos causais, é necessário "seguir no seu [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] científico a [[lexico:e:explicacao|explicação]] causal pára precisar seu sentido e colocá-la no conjunto da [[lexico:v:verdade|verdade]]. É por isso que não se encontrará aqui nenhuma refu facão, mas um [[lexico:e:esforco|esforço]] para [[lexico:c:compreender|compreender]] as dificuldades próprias do próprio causal" (Fenomenologia da Percepção, 13, [[lexico:n:nota|nota]]). Os ataques ao [[lexico:o:objetivismo|objetivismo]] que se encontram por exemplo no livro de Jeanson (La Phénoménologie, Téqui, 1951) e a [[lexico:r:reducao|redução]] da fenomenologia a um "método de subjetivação" (ibid., pag. 113) parecem-nos desmentidos pela inspiração de todo o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] fenomenológico, a começar pelo de Husserl, que visa à [[lexico:s:superacao|superação]] da [[lexico:a:alternativa|alternativa]] objetivo-subjetivo: em psicologia essa superação é obtida como método pela retomada descritiva e compreensiva dos dados causais e como "doutrina" pelo [[lexico:c:conceito|conceito]] de pré-objetivo ([[lexico:l:lebenswelt|Lebenswelt]]). Observar-se-á igualmente o [[lexico:a:abandono|abandono]] dos processos indutivos tais como são estabelecidos tradicionalmente pela [[lexico:l:logica|lógica]] empirista: retomaremos esse ponto [[lexico:e:essencial|essencial]] a propósito da [[lexico:s:sociologia|sociologia]]; mas também nesse ponto o método preconizado e utilizado por Goldstein satisfaz totalmente aos requisitos da fenomenologia.