===== FENOMENOLOGIA E ETNOLOGIA ===== As observações anteriores a [[lexico:r:respeito|respeito]] do [[lexico:s:social-originario|social originário]], tomado como [[lexico:d:dimensao|dimensão]] de [[lexico:e:existencia|existência]], e que nos levaram à [[lexico:p:psicologia|psicologia]] infantil, talvez tenham [[lexico:d:dado|dado]] a [[lexico:i:impressao|impressão]] de militar a favor de uma degradação do [[lexico:s:social|social]] no individual. Certas passagens de [[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]] na [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] da [[lexico:p:percepcao|Percepção]] podem igualmente sugeri-lo. Na [[lexico:r:realidade|realidade]] a fenomenologia, aliada às investigações sociológicas e etnológicas concretas visa, a partir delas, a ultrapassar a [[lexico:a:antinomia|antinomia]] tradicional entre o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] e a [[lexico:s:sociedade|sociedade]]. [[lexico:n:nao|Não]] se trata é evidente de suprimir a especificidade das ciências sociológicas e psicológicas: a fenomenologia se alinha, no que concerne a tal [[lexico:p:problema|problema]], na [[lexico:p:posicao|posição]] definida por Maus em seu artigo Rapport de la psychologie et de la sociologie e que preconiza uma [[lexico:c:compreensao|compreensão]] das duas disciplinas sem fixação de fronteira rígida. Ora, aqui como na psicologia, os resultados da elaboração teórica convergem com as investigações independentes: assim a [[lexico:e:escola|escola]] culturalista americana chega de faio a abandonar as [[lexico:c:categorias|categorias]] solidificadas e contrárias de indivíduo e sociedade. Quando Kardiner retoma e continua as investigações de Cora du Bois sobre a [[lexico:c:cultura|cultura]] das ilhas Alor à [[lexico:l:luz|luz]] da [[lexico:c:categoria|categoria]] de "basic personality", ele esboça ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] um [[lexico:m:metodo|método]] de aproximação que evita as inconsequências do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] causal e redutor e uma [[lexico:t:teoria|teoria]] da infra-estrutura neutra sobre a qual se edificam tanto o [[lexico:p:psiquico|psíquico]] como o social. Essa base neutra responde bastante [[lexico:b:bem|Bem]] às exigências de uma "existência anônima" que seria uma [[lexico:c:coexistencia|coexistência]] anônima, impostas pela [[lexico:r:reflexao-fenomenologica|reflexão fenomenológica]] sobre o Mitsein e a [[lexico:r:relacao|relação]] do [[lexico:p:por-si|por si]] e do para outrem. Kardiner se aplica (em [[lexico:v:virtude|virtude]] de um [[lexico:p:postulado|postulado]] psicanalítico e até psicologista sobre que voltaremos a [[lexico:f:falar|falar]]) a descrever a [[lexico:e:experiencia|experiência]] total da criança no seu [[lexico:m:meio|meio]] cultural e depois a estabelecer correlações entre essa experiência e as instituições desse meio, enfim a concluir que essas funcionam como projeções daquela. As [[lexico:m:mulheres|mulheres]] de Alor efetuam o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] de produção (agrária); quatorze dias após o nascimento, a criança é geralmente abandonada nas [[lexico:m:maos|mãos]] de pessoas eventualmente presentes (irmãos maiores, parentes afastados, vizinhos); nutrida de maneira muito irregular, ela passa fome e não pode ligar a supressão eventual dessa com a [[lexico:i:imagem|imagem]] da mãe; seus primeiros aprendizados não são dirigidos, nem mesmo encorajados; ao contrário, aqueles que a rodeiam a ridicularizam, provocam-lhe os fracassos, desencorajam-na; o [[lexico:s:sistema|sistema]] das punições e das recompensas é flutuante, imprevisível e proíbe qualquer estabilização das condutas; o controle da sexualidade é inexistente. Pode-se esboçar os [[lexico:c:caracteres|caracteres]] da [[lexico:p:personalidade-de-base|personalidade de base]]: "[[lexico:s:sentimento|sentimento]] de insegurança, [[lexico:f:falta|falta]] de confiança em si, desconfiança em relação ao [[lexico:o:outro|outro]] e incapacidade de uma ligação afetiva só’ida, inibição do [[lexico:h:homem|homem]] diante da mulher, falta de [[lexico:i:ideal|ideal]], incapacidade de levar um empreendimento a seu [[lexico:t:termo|termo]]". Correlativamente a essa [[lexico:p:personalidade|personalidade]], certas instituições são aparentemente derivadas dessas frustrações familiares: o [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:v:vago|vago]] e a fraca [[lexico:i:intensidade|intensidade]] da [[lexico:r:religiao|religião]] como [[lexico:d:dogma|dogma]] e como prática se explicam por uma fraqueza do [[lexico:s:superego|superego]]; a [[lexico:c:crenca|crença]] em personagens, [[lexico:e:espiritos|espíritos]] benéficos fundamenta-se na experiência infantil de [[lexico:a:abandono|abandono]]; a negligência e a falta de iniciativa nas técnicas artísticas ou mesmo de construção exprime a fraqueza da personalidade; a [[lexico:i:instabilidade|instabilidade]] do [[lexico:c:casamento|casamento]] e a frequência dos divórcios, a [[lexico:a:ansiedade|ansiedade]] masculina diante da mulher, a iniciativa exclusivamente feminina nas [[lexico:r:relacoes|relações]] sexuais, a importância das transações financeiras monopolizadas pelos homens e que provocam frequentemente nestes inibições sexuais — traduzem a hostilidade dos homens para com as mulheres, arraigada na [[lexico:h:historia|história]] infantil como a [[lexico:a:agressividade|agressividade]], a ansiedade e a desconfiança de que o crescimento da criança é cercado e penetrado. Kardiner submeteu os habitantes de Alor aos testes de Roschach, feitos por psicólogos que desconheciam suas próprias conclusões sobre o assunto; Os resultados confirmam sua [[lexico:i:interpretacao|interpretação]]; por outro lado, o exame das histórias de [[lexico:v:vida|vida]] confirma com mais ênfase, [[lexico:c:como-se|como se]] isso fosse [[lexico:n:necessario|necessário]], a [[lexico:c:correlacao|correlação]] estabelecida entre a experiência infantil e a [[lexico:i:integracao|integração]] na cultura. Utilizamos repetidas vezes o termo correlação para ligar os dados de história individual e os da cultura coletiva. É preciso precisar [[lexico:e:esse|esse]] termo que continua ambíguo. Kardiner se empenha nisto quando distingue instituições primárias e instituições secundárias; as primeiras "são as que propõem os problemas de [[lexico:a:adaptacao|adaptação]] fundamentais e inevitáveis. As instituições secundárias resultam do [[lexico:e:efeito|efeito]] das instituições primárias sobre a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] da personalidade de base". Assim, para nos atermos à [[lexico:i:instituicao|instituição]] "religião", em Alor, onde reina o "abandonismo" da criança, o [[lexico:e:ego|ego]] permanece [[lexico:a:amorfo|amorfo]] e se mostra inapto a formar a imagem dos [[lexico:d:deuses|deuses]]; enquanto que nas Marquesas onde a [[lexico:e:educacao|educação]] é flexível e negligente, a elaboração e a prática religiosas são secundárias ainda que o ciúme motivado pela indiferença materna se projete nos contos em que o bicho-papão desempenha papel muito importante; em Tanala, ao contrário, a educação patriarcal rigorosa e o controle severo da sexualidade se traduzem por uma religião em que a [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:d:destino|destino]] é poderosamente constrangida. Vê-se que Kardiner liga as instituições secundárias, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] a religião, à personalidade de base, não de maneira puramente mecanista mas como psicanalista, utilizando os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] de [[lexico:p:projecao|projeção]] e de [[lexico:m:motivacao|motivação]]. Quanto à personalidade de base, sua estrutura é comum a todos os membros de uma cultura dada; ela é finalmente o melhor meio de [[lexico:c:compreender|compreender]] essa cultura. Continuam a [[lexico:e:existir|existir]] evidentemente ambiguidades nas formulações de Kardiner: é especialmente claro, e essa [[lexico:c:critica|crítica]] já clássica é [[lexico:e:essencial|essencial]], que a educação só é uma instituição primária para a criança e não para a personalidade de base em [[lexico:g:geral|geral]]. Primária e secundária parecem designar uma [[lexico:o:ordem|ordem]] de [[lexico:s:sucessao|sucessão]] [[lexico:t:temporal|temporal]], mas esse tempo não pode [[lexico:s:ser|ser]] o da própria cultura, estruturas institucionais se pretende [[lexico:i:isolar|isolar]], ele é o do indivíduo [[lexico:p:psicologico|psicológico]]. Na realidade a educação em Alor depende estreitamente do padrão de vida das mulheres, este por sua vez remete, se queremos compreendê-lo, à sociedade global, inclusive suas instituições "secundárias". A personalidade de base não pode, portanto, ser compreendida como infermediária, entre primária e secundária, ainda que se trate de uma inter-relação de motivações e não de uma [[lexico:c:causalidade|causalidade]] linear: pois é inútil prosseguir, por mais longe que se queira, na captação da complexa rede das motivações que compõe uma cultura; não se alcança jamais os dados primeiros que constituem uma infra-estrutura responsável pelo [[lexico:e:estilo|estilo]] da cultura considerada. Pode-se apenas dizer com Lefort que é no seio da personalidade de base que as próprias instituições tomam um [[lexico:s:sentido|sentido]] e que a [[lexico:a:apreensao|apreensão]] adequada desta pelo etnólogo é a única [[lexico:c:coisa|coisa]] que permite compreender a cultura que ela caracteriza. Essa personalidade é uma [[lexico:t:totalidade|totalidade]] integrada, e se tal instituição se modifica é a estrutura completa da personalidade que entra em [[lexico:m:movimento|movimento]]: por exemplo, entre os Tanalas, a passagem da cultura seca à cultura úmida do arroz modifica não só o [[lexico:r:regime|regime]] de [[lexico:p:propriedade|propriedade]] mas a estrutura familiar, a prática sexual etc. Tais modificações são compreendidas apenas a partir do sentido que os Tanalas emprestam à cultura do arroz, e esse sentido enfim só toma [[lexico:f:forma|forma]] a partir da [[lexico:f:fonte|fonte]] de [[lexico:t:todo|todo]] o sentido que é a personalidade de base. Esta constitui, portanto, realmente a "[[lexico:s:socialidade|socialidade]] viva", que [[lexico:h:husserl|Husserl]] considerava o [[lexico:o:objetivo|objetivo]] do sociólogo; ela é aquilo por que homens coexistem efetivamente "em" uma sociedade; ela é, aquém das instituições, a "cultura culturante" (Lefort). Assim, o indivíduo não existe como [[lexico:e:entidade|entidade]] específica, pois ele significa o social, como o demonstram as histórias de vida, e basta a sociedade na [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de em si coercitivo, pois ela simboliza com a história individual. As pesquisas objetivas podem portanto, se "retomadas", restituir-nos a [[lexico:v:verdade|verdade]] do psíquico. Essa verdade, essas verdades são inesgotáveis uma vez que são as dos homens concretos: [[lexico:m:mauss|Mauss]] o sabia; mas, também sabia que elas são penetráveis pelas categorias de [[lexico:s:significacao|significação]]. O culturalismo continua por sua vez demasiado submisso às categorias causais da [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]], já corrigidas por Merleau-Ponty a respeito da sexualidade. A verdade do homem não é decomponível, mesmo em sexualidade e sociedade, e eis porque toda aproximação objetiva deve ser não rejeitada, mas reerguida. Mais que qualquer outra, a história, [[lexico:c:ciencia|ciência]] total, confirmará tais resultados.