===== FENOMENOLOGIA DO CONHECIMENTO ===== Toda [[lexico:t:teoria:start|teoria]] deve basear-se numa exata [[lexico:o:observacao:start|observação]] e [[lexico:d:descricao:start|descrição]] do [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] que pretende [[lexico:e:explicar:start|explicar]] e interpretar. Somente assim pode verificar realmente a [[lexico:e:essencia:start|essência]] do fenômeno. Também a [[lexico:g:gnosiologia:start|gnosiologia]] deve partir do fenômeno ‘[[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]’ e orientar-se continuamente por ele. Antes de intentar construir uma [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]] [[lexico:h:humano:start|humano]] o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] deve procurar [[lexico:t:ter:start|ter]] ante seus olhos o peculiar fenômeno da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] que chamamos ‘conhecimento’, e descrever em seus traços essenciais o que vê. Para isso deve guardar-se de introduzir por sua conta dados ou interpretações estranhos ao fenômeno. [[lexico:s:simples:start|simples]] e candidamente deve descrever o que vê. Deve [[lexico:e:estar:start|estar]] livre ou libertar-se de toda [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] preconcebida. De [[lexico:m:modo:start|modo]] algum deve misturar uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] subjetiva com sua descrição do fenômeno. Com demasiada facilidade o gnosiólogo vê [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] o fenômeno de conhecimento com os óculos de uma teoria para ele incontestável. Isto determina e orienta então sua descrição do fenômeno. Inverte-se, assim, a [[lexico:r:relacao:start|relação]] objetiva entre descrição e interpretação: esta [[lexico:n:nao:start|não]] se baseia naquela mas aquela nesta. De [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com Johannes Hessen, se mediante a mais simples auto-reflexão sobre a [[lexico:f:funcao:start|função]] cognoscitiva de nosso [[lexico:e:espirito:start|espírito]] procuramos esclarecer-nos acerca do que é o conhecimento, poderemos mostrar,— mesmo procedendo com a maior cautela — os seguintes traços essenciais deste fenômeno espiritual: 1. Em [[lexico:t:todo:start|todo]] conhecer existem dois fatores: um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e um [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. A consciência cognoscente se defronta com o objeto a conhecer. Nesta [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]] e [[lexico:p:polaridade:start|polaridade]] de [[lexico:s:sujeito-e-objeto:start|sujeito e objeto]] reside o traço [[lexico:e:essencial:start|essencial]] mais [[lexico:g:geral:start|geral]] e evidente do fenômeno de conhecimento; em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]]: a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] fundamental do fenômeno de conhecimento é polar. 2. Se em todo conhecer a consciência defronta um objeto a conhecer (nem sempre se trata de uma confrontação externa, senão com bastante frequência da [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] puramente interna entre o [[lexico:a:ato:start|ato]] de conhecer e o objeto de conhecimento) se apresenta então a [[lexico:q:questao:start|questão]] de qual é aqui a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] que assume a consciência cognoscente. Se refletimos sobre este [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] do fenômeno de conhecimento, devemos dizer que não é uma atitude ativa mas contemplativa. A consciência cognoscente não procura atuar, modificar ou transformar os objetos mas antes os deixa totalmente quietos. Percebe-se aqui claramente a peculiaridade da atitude cognoscitiva, sua [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] essencial com relação à atitude ativa. [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] [[lexico:t:teorico:start|teórico]] e comportamento [[lexico:p:pratico:start|prático]], conhecimento e [[lexico:a:acao:start|ação]], são sempre opostos. 3. O sujeito de conhecimento se dirige contemplativamente ao objeto. Como surge desta atitude cognoscitiva o ato de conhecer? Com isto tocamos o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] [[lexico:m:misterio:start|mistério]] — quase diríamos o [[lexico:m:milagre:start|milagre]], consoante Hessen —, do conhecimento. Somente é [[lexico:p:possivel:start|possível]] caracterizá-lo por [[lexico:m:meio:start|meio]] de imagens. Se refletimos sobre o que ocorre em nós quando conhecemos um objeto, devemos dizer que é peculiar entrar em contato do sujeito e o objeto. A consciência se põe em relação com o objeto; toca-o intimamente. Evidentemente não se trata de um [[lexico:e:evento:start|evento]] [[lexico:e:externo:start|externo]] e corpóreo, mas íntimo e espiritual. Aqui está o mistério deste [[lexico:f:fato:start|fato]]. Metaforicamente se poderia dizer que são as núpcias do [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e do [[lexico:s:ser:start|ser]], do espírito e o objeto. 4. O peculiar do encontro e contato de sujeito e objeto é que nenhum deles pode renunciar a sua independência. O objeto continua sempre [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]] com relação ao ato de conhecer. Quando se trata de objetos reais, isto é claro, mas também vale para os objetos ideais. E até se aplica ao [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:e:eu:start|eu]] quando este constitui o objeto do conhecimento: também no [[lexico:c:conhecimento-de-si-mesmo:start|conhecimento de si mesmo]] fica de pé a [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] de ato e objeto. 5. Se procuramos penetrar mais fundamente no mistério do ato de conhecer, dirigindo a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] tanto ao sujeito como ao objeto, a auto-reflexão nos mostra o seguinte: no ato de conhecimento o sujeito se estende, por assim dizer, até ao objeto; de certo modo sai de sua própria [[lexico:e:esfera:start|esfera]] e entra na esfera do objeto. Por sua vez o objeto se oferece ao sujeito. Também ele, em certo [[lexico:s:sentido:start|sentido]], abandona sua própria esfera e entra na outra. Assim, o sujeito chega a participar espiritualmente do conteúdo [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]] do objeto. Neste o sujeito se comporta de um modo essencialmente receptivo diante de seu objeto, o que quer dizer que o sujeito é determinado pelo objeto. Ora, vê-se com clareza o perigo de passar afoitamente do fenômeno à teoria. Isto ocorre quando ao fato de que o sujeito seja determinado pelo objeto se o interpreta simplesmente no sentido do [[lexico:o:objetivismo:start|objetivismo]] gnosiológico, como o fazem muitos fenomenólogos: veem no fenômeno mais do que este objetivamente contém. Em [[lexico:v:verdade:start|verdade]], a [[lexico:s:situacao:start|situação]] é esta: enquanto na ação o sujeito determina o objeto, o contrário ocorre no conhecimento: o sujeito é determinado pelo objeto. Mas com isto não se decide [[lexico:n:nada:start|nada]] acerca da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e resultado desta [[lexico:d:determinacao:start|determinação]]. É [[lexico:b:bem:start|Bem]] possível que nesta determinação também o sujeito faça valer sua peculiaridade concorrendo para determinar o conteúdo do resultado, de maneira que este deve imputar-se tanto ao sujeito como ao objeto. Em outras palavras: o [[lexico:e:efeito:start|efeito]] da determinação do sujeito por [[lexico:o:obra:start|obra]] do objeto não constitui necessariamente uma [[lexico:r:representacao:start|representação]] adequada do objeto no sujeito. De maneira idêntica, a determinação dos órgãos dos sentidos por obra das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] e suas modalidades não significa de modo algum a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de uma adequada [[lexico:r:reproducao:start|reprodução]] destas modalidades no [[lexico:c:conhecimento-sensivel:start|conhecimento sensível]]. Mais ainda: tudo indica que aqui ocorre uma [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] cujo resultado representa uma completa novidade com relação aos fatores determinantes. Esta [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] existe também no conhecimento espiritual. Seja como fôr, a mera descrição do fenômeno de conhecimento não pode excluí-la, pois se trata, neste caso, de uma interpretação filosófica do fenômeno de conhecimento, não de sua [[lexico:d:descricao-fenomenologica:start|descrição fenomenológica]], já que o objetivismo pertence à gnosiologia e não à [[lexico:f:fenomenologia-do-conhecimento:start|fenomenologia do conhecimento]]. 6. Assim chegamos ao [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de consideração fenomenológica proposta por Hessen. De acordo com Nicolai [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]], [[lexico:a:alem:start|além]] do sujeito e o objeto pertence à essência do fenômeno de conhecimento um [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] fator: a [[lexico:i:imagem:start|imagem]]. No [[lexico:p:processo:start|processo]] do conhecer, diz Hartmann, o objeto não se torna [[lexico:i:imanente:start|imanente]]. Não se pode [[lexico:f:falar:start|falar]] de uma recepção do objeto por [[lexico:p:parte:start|parte]] do sujeito. O que ocorre é antes "a [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] das determinações do objeto numa configuração do conteúdo do sujeito, a configuração cognoscitiva ou ‘imagem’ do objeto. A função cognoscitiva somente modifica um pouco no sujeito. No objeto não surge nada de novo; mas na consciência surge a consciência do objeto com seu conteúdo, a ‘imagem’ do objeto". {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}